Verstappen - já com o título campeão no bolso, assegurado no Catar há duas semanas, a cinco corridas do final - ganhou o Grande Prémio das Américas, em Austin, no Texas. Como já ontem ganhara a corrida sprint.
A novidade não é, pois, a vitória de Versttapen - a 15ª da temporada, igualando desde já esse recorde estabelecido na época passada, dez delas consecutivas. A novidade - e grande! - é que não foi o holandês que ganhou esta corrida, mas a Mercedes que a perdeu.
Foi um grande espectáculo de Fórmula 1, e uma das mais disputadas corridas da época. Quatro carros diferentes (um Red Bull, um Mercedes, um Mclaren e um Ferrari) nos quatro primeiros lugares. E já havia sido assim na corrida sprint, a confirmar que as principais equipas se estão finalmente a aproximar da Red Bull. E a confirmar o regresso da Mclaren ao pelotão da frente, passando de surpresa a certeza nesta segunda metade do campeonato, mesmo que ainda não tenha superado (nem na classificação de pilotos, nem na de construtores) a surpresa Aston Martin na primeira.
A Mercedes demonstrou ao longo do fim-de-semana capacidade para discutir a corrida com a Red Bull (e com a Mclaren e a Ferrari, na primeira linha da grelha de partida, com Leclerc na pole, e Norris ao lado, mas logo na frente na partida). Hamilton, que já fora segundo na corrida sprint, saiu no terceiro lugar. Partiu mal, ficou logo atrás do Mclaren de Norris e dos dois Ferraris, e até poderia ter corrido mesmo muito mal se este Verstappen (levantou o pé) fosse o de há três ou quatro anos. Mas, a partir daí fez sempre uma corrida a grande ritmo, limpa e equilibrada.
Fez o suficiente para ganhar, ele que já vai para dois anos sem ganhar uma corrida. Faltou à equipa corresponder ao desempenho do carro e de Hamilton. Pareceu que tinha partido com uma estratégica de uma única paragem para mudança de pneus, que a corrida mostrou ser de todo inviável, e adiou a primeira paragem.
Com isso, com o erro de timing para a paragem, e com a própria operação - que tão bem correu com Russel, e que foi quase desastrada com Hamilton (3,3 segundos a mudar pneus quando todos os adversários, e o próprio colega de equipa, o faziam na casa dos 2 segundos, bem próximo dos fantásticos 1,8 segundos da Mclaren no Catar) - o hepta-campeão perdeu 13 a 14 segundos para Verstappen. E deixou de o ter atrás, para passar a tê-lo à sua frente.
Em corrida, o Mercedes e Hamilton, estiveram sempre melhor que o campeão holandês. Acabou a pressionar Verstappen, e terminou a 2 segundos - chegando até a aproximar-se da diferença do segundo, que lhe daria a possibilidade de utilizar o DRS.
Claro que ninguém poderá garantir que, sem os erros da primeira troca de pneus, Hamilton ganharia. Mas quando se acaba a 2 segundos, e se desperdiçaram 14, é difícil deixar de concluir que foi a equipa da Mercedes que perdeu esta corrida. Muito antes de Verstappen a ganhar!
PS: Soube-se, já no dia seguinte ao da corrida, que Leclerc e Hamilton foram desqualificados porque os blocos de derrapagem, que se situam por debaixo dos carros dos dois pilotos, não estavam de acordo com os requerimentos. Não altera nada do que foi a corrida. Altera, e muito, as classificações. E deixa mais difícil o "assalto" de Hamilton ao segundo lugar da classificação do mundial de pilotos, que parecia ter tudo para ser bem sucedido.
A qualificação para este GP de Singapura não correu bem à Red Bull, com Verstappen e Perez na 11ª e 13ª posição da grelha de partida. A corrida até nem lhe correu tão mal, e ainda deu para o holandês chegar à quinta posição no fim, e o mexicano à sétima.
Pela primeira vez neste campeonato a equipa que domina a fórmula 1 há tempo de mais, não ganhou. E Verstappen interrompeu a mais longa série de vitórias consecutivas.
Com o "eclipse" da Red Bull ganhou a corrida. E este GP de Singapura foi a mais espectacular corrida de fórmula 1 dos últimos anos. Na última volta tínhamos quatro carros colados, a discutir a vitória. Coisa nunca vista!
A Ferrari dominou o fim de semana, e saiu com o primeiro (Carlos Sainz) e o terceiro (Charles Leclerc) para a corrida. Pelo meio, o Mercedes de Russel, na primeira linha, atrás de Sainz. Que arrancou mal. Depois, o Mclaren de Norris e o Mercedes de Hamilton. Que partiu fortíssimo, passou de imediato Norris e, quando ia a passar também pelo seu colega de equipa, não conseguiu concluir a curva e saiu pela escapatória, já à frente de Russel.
E assim seguiu ainda algumas voltas, dando a direcção da corrida até a indicação que o incidente estaria sanado. Russel reclamou á equipa que Hamilton lhe devolvesse a posição, e a resposta - estranha, estranhíssima - foi a de Hamilton devolver não só a posição a Russel, mas também a Norris. Que, claramente, tinha sido ultrapassado dentro dos limites da pista, ainda antes da saída de Hamilton pela escapatória.
O final da corrida mostraria como esta decisão foi decisiva para o seu desfecho. Nunca é possível demonstrar o que não aconteceu, mas é indiscutível que, se tudo tivesse decorrido como a corrida acabou por acontecer, teria sido Hamilton a ganhar em Singapura.
Mas voltemos àquela incrível última volta, com os carros de Sainz, Norris, Russel e Hamilton colados. O espanhol ia gerindo a sua liderança como podia. Com os pneus em pior estado que os adversários, foi gerindo a aproximação de Norris, para lhe dar o DRS que lhe permitisse manter Russel e Hamilton atrás de si. Enquanto os Mercedes, na altura claramente os melhores em pista - com um ritmo que lhes tinha garantido ganhar a enormidade de 3 segundos por volta, em média -, estivessem trás de Norris não estariam atrás de si próprio. E resultou.
Russel vinha há duas voltas a tentar passar Norris, com Hamilton colado à sua traseira, à espreita. Qualquer movimento de ultrapassagem poderia resultar em tudo. Tudo mesmo. Passando Norris, tanto Hamilton como Russel poderiam praticamente de seguida passar também Sainz. Mas também poderia correr tudo mal. E correu, com Russel a espetar-se, a destruir o Mercedes contra o muro, e a acabar ali com a corrida. Com a dele, e com o pouco, que poderia ter sido muito, que dela restava. A inevitável bandeira amarela acabaria por funcionar como a axadrezada da meta. Já nada mais podia acontecer!
Sainz acabou por ganhar bem. Fez uma grande corrida, plena de inteligência. Norris, o segundo, teve igualmente uma grande prestação, a confirmar que a Mclaren está mesmo de volta. Mas foi a Mercedes que a perdeu. Perdeu-a naquela decisão inicial imposta a Hamilton. Mas também na mudança de pneus, onde contava com o grande - e único - trunfo de ter dois jogos de pneus novos ainda para utilizar, com aquela bizarra decisão de mandar parar os dois carros em simultâneo.
Mas que foi uma grande corrida, foi. Por mim, já tinha saudades. Mas não tenho ilusões: vem aí o GP do Japão, e tudo voltará a ser como dantes. Não deve ser por acaso que a Red Bull nunca ganhou em Singapura.
A questão, na fórmula 1 actual, não é quem é primeiro. Verstappen e a Red Bull, não permitem discussão - faz a "pole", ganha, lidera as corridas da primeira à última volta, e faz o melhor tempo de volta. No fim, também não será quem é o segundo. Perez, mesmo alternando boas classificações com últimos lugares na classificação, contará sempre com a supremacia do carro da Red Bull para as mais surpreendentes recuperações em corrida.
A questão é, pois, quem se consegue entre-por na esmagadora superioridade da Red Bull. Com o melhor carro, a melhor estratégia de corrida, e a maior competência nas boxes.
Hoje, em Barcelona, no Grande Prémio de Espanha, não foi diferente. Aconteceu tudo isso, com Verstappen a apenas mudar de pneus quando tem garantida a saída, na mesma, na frente. A fazer a pole, a volta mais rápida, a seguir na frente do arranque até à bandeira de xadrez, a conquistar a 40ª vitória da carreira, a consolidar a liderança no campeonato, e a consolidar, a meio da temporada, o mais que anunciado terceiro título mundial consecutivo . E com Perez a sair dos últimos lugares da grelha para acabar em quarto.
A novidade foi a Mercedes, com Hamilton, a sair da quarta posição na grelha, a terminar em segundo, e Russel em terceiro, saído da 12ª posição, à partida. Na primeira vez em que outra equipa, que não a Red Bull, conseguiu dois lugares no pódio. Mercedes já é segunda no mundial de construtores, quando parecia já ter sido ultrapassada até por construtores há pouco tempo de segunda linha.
É verdade que a Ferrari continua a desiludir, como voltou hoje a fazer. Sainz tinha obtido o segundo melhor tempo na qualificação, e saiu na primeira linha da grelha. Mas nem isso lhe valeu mais que o quinto lugar no fim. E Leclerc que, penalizado, tal como Pierre Gasly, começou por partir das boxes, nem nos pontos acabou (11ª lugar).
Quando até a Maclaren (com Norris na terceira posição na grelha, mas a afundar-se na corrida) a ameaçava empurrar ainda mais para baixo, já depois de claramente ultrapassada pela Aston Martin, a Mercedes ressuscitou em Barcelona. A dúvida, agora, é se esta é a evolução normal do seu W14, ou se apenas um caso de especial apetência pela pista catalã. Seja o que for, a aproximação à Red Bull continua difícil!
Aos espanhóis, naturalmente figuras do cartaz, é que a sua corrida não correu nada bem. Sainz ainda fez figura na qualificação, com o segundo tempo, mas acabou em quinto. E Alonso ficou sempre atrás do seu colega Stroll. Na qualificação, onde não conseguiu melhor que o oitavo tempo, com Stroll em quinta. E na corrida, em sexto, mas ainda atrás do seu colega de equipa.
A terceira corrida foi a mais atribulada da nova época da Fórmula 1. O Grande Prémio da Austrália, corrido esta manhã, em Melbourne, teve "safety car" logo na primeira volta, e depois mais três vezes, e três bandeiras vermelhas, correspondentes a outras tantas interrupções. Ao todo forma quatro largadas, duas nas últimas três voltas, e terminou com o "safety car", na frente da corrida.
Mais atribulado que isto, sem acidentes de risco, é difícil.
No fim, e apesar de tudo isso, nada de muito diferente do que Lineker dizia do futebol. Na circunstância," mutatis mutantis", são vinte carros e, no fim, ganha Verstappen.
A corrida do circuito de Albert Park até chegou a prometer ser diferente, mas não foi. Verstappen arrancou da "pole", com o Mercedes de George Russel ao lado. Na segunda fila, Hamilton e Alonso. O Red Bull de Perez partia do vigésimo, e último lugar da grelha de partida.
Os Mercedes pareciam estar de volta, com o segundo e o quarto lugar na grelha. E, mais ainda, quando saltaram para os dois primeiros da corrida logo no arranque. Começava Russel a ganhar vantagem quando entrou logo, e pela primeira vez, o "safety car", depois de, na terceira curva, o Ferrari de Charles Leclerc ter ficado fora da corrida, e a pista cheia da gravilha que soltou. À saída do "safety car" os dois Mercedes discutiam a liderança, sendo até estranho o incómodo que isso provocava na equipa. E nos pilotos.
Depois, tudo começou a correr-lhes mal. À sétima volta voltou o "safety car" à pista, depois do acidente de Alexander Albon (Williams). Russel aproveitou para ir às boxes, mudar de pneus mas, de imediato, a direcção da corrida decidiu-se pela bandeira vermelha. E a estratégia saiu furada ao mais novo dos ingleses passou de primeiro na corrida, para sétimo na segunda largada. Ainda recuperou até à quarta posição mas, à 18ª volta, o motor do Mercedes estourou, e deixou-o apeado.
Com a ida às boxes do colega, Hamilton herdara o lugar da frente, e foi daí que partiu para essa segunda largada. Mas por pouco tempo, o "DRS" da Red Bull resolveu depressa a questão. Uma coisa era quando Hamilton tinha o "DRS" que lhe era dado por Russel. Outra foi quando ficou sozinho, e sem a possibilidade desse dispositivo. E Verstappen chegou com toda a facilidade à frente da corrida. Para não mais a largar, mesmo com tudo o que ainda estava para acontecer.
E para acontecer estavam o despiste de Kevin Magnussen (Haas) na 53ª volta e o acidente entre Gasly e Ocon na 57ª. E mais duas bandeiras vermelhas, com mais duas novas partidas. Na primeira delas só Verstappen, que segurou a posição, e Hamilton, escaparam à confusão. Carlos Sainz tocou em Alonso, e isso valeu-lhe uma penalização de 5 segundos, que o tirou dos lugares pontuáveis. Os dois Alpine bateram entre si, Perez foi parar à brita, e Sargent bateu em cheio na traseira de De Vries. Tudo isso, claro, gerou nova bandeira vermelha e a decisão de fazer a última largada, apenas para os carros cruzarem a linha de chegada atrás do "safety car".
Apesar de todos os incidentes, ou talvez por eles, Verstappen não demonstrou a superioridade habitual. Mas ela esteve lá, e acabou por se perceber indiscutível. Nas suas palavras quando, no final, referiu ter optado pela cautela porque "ninguém sabia se os pneus iriam durar até o final". E nas de Hamilton, empolgado por voltar a disputar na frente do pelotão "depois de tantas corridas lutando por quintos lugares".
Alonso ficou o último lugar do pódio, o 101º da sua carreira, e voltou a confirmar a forma da Aston Martin, que segue em segundo lugar na classificação dos construtores. A Ferrari voltou a desiludir, com a desistência de Leclerc, e o 12º lugar (pela penalização) de Sainz. Da Mercedes, com o estoiro do motor do carro de Russel, e apesar do regresso á frente das corridas por algumas voltas, não dá ainda para se falar de recuperação. Ficou a sensação clara que o segundo lugar de Hamilton só foi possível pela sua motivação extra de estar na disputa dos lugares da frente. E que, mesmo assim, não teria resistido ao Aston Martin de Alonso sem as duas últimas bandeiras vermelhas.
Aí está, de volta, a Fórmula 1 para o arranque de mais uma época, a 74ª da História da modalidade rainha do desporto automóvel. Vão ser 23 GP, com 23 corridas e mais 6 corridas sprint. E tudo começou no Bahrein, naquela região do Golfo Pérsico, cada vez mais presente no calendário do campeonato do mundo.
Os carros estão bonitos, quase todos mais bonitos. Nesse pormenor saliento a Alfa Romeo. E a Ferrari, onde o vermelho é, de novo, mais "Ferrari". Há pilotos novos - o australiano Oscar Piastri, na Mclaren; o holandês Nyck de Vries, na Alphatauri; e o americano Logan Sargean, na Williams - a substituir outros três. Um de má memória, Nicholas Latifi. Os outros dois - Daniel Ricciardo, mas especialmente Vettel - grandes nomes da Fórmula 1.
Os treinos mostraram que o pelotão está mais compacto. Desde a implantação deste modelo de qualificação, há 17 anos, este foi o Q1 mais apertado - todos os 20 carros couberam num intervalo de 1,1 segundos. Mas nem assim a romper com 2022. Com a "pole" de Verstappen, e a superioridade da Red Bull, a preencher a primeira linha da grelha. A segunda linha da Ferrari, com Leclerc à frente de Sainz. E, para que não fosse tudo igual, com Alonso, agora na Aston Martin, que promete alargar a frente da corrida para 4 equipas, a impedir a terceira fila à Mercedes. Alonso, o mais velho a prometer mais rejuvenescimento, foi quinto. Russel, sexto e, Hamilton, sétimo.
A corrida confirmou tudo isso, com a vitória tranquila de Verstappen, na dobradinha da Red Bull, e com a confirmação da Aston Martin. E de Alonso, a estrela do espectáculo!
A Aston Martin revelou-se sempre melhor que a Mercedes, e a Ferrari, que a dez voltas do fim parecia ter garantido Leclerc no pódio, voltou a confirmar a falta de fiabilidade da última época. Foi obrigado a parar e, depois, foi Sainz a ficar à mercê do espectacular Alonso, a garantir o último lugar no pódio, ao bater o seu compatriota, depois do espectáculo na luta com Hamilton. Que, com tudo para ainda passar Sainz, acabou em quinto, resignado à continuada desilusão dos Mercedes.
Por agora, o que este GP do Bahrein "disse" é que Verstappen, e a Red Bull, continuam inatingíveis para a concorrência. E que a Aston Martin acertou no "velho" Alonso (42 anos de idade, e 22 na Fórmula 1) para desenvolver o seu carro. E que o espanhol acertou finalmente na escolha de uma equipa capaz de desenvolver um carro à medida da sua enorme competência. De todo o deu conhecimento e de toda a sua experiência.
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