Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

CAMBALHOTAS

 Por Eduardo Louro

 

Sócrates tem uma capacidade extraordinária para a cambalhota. Um verdadeiro especialista em cambalhotas: muitas delas verdadeir(os)amente mortais!

A última, o pedido de ajuda ou de resgate - eufemismos universais – de ontem, não é só o último exemplo dessas cambalhotas. É bem mais que isso, é um exemplo de como um líder especialista em cambalhotas consegue pôr todo um país … às cambalhotas.

Repare-se nisto: Sócrates consegue entregar o país nas mãos do FMI – o mais terrível dos papões para qualquer povo – e deixar toda a gente contente. À excepção das pessoas e dos partidos que o sistema já expulsou – Partido Comunista e Bloco de Esquerda são invariavelmente apresentados como externalidades, os partidos que não fazem parte do sistema (percebe-se por que não são ilegalizados: porque ficaria mal à democracia mas também porque fazem falta ao ecossistema) – toda a gente foi unânime a aplaudir a boa nova de ontem. Nas televisões e nos jornais não se consegue perceber uma única voz contra: aí estava Sócrates a fazer o pleno! Aí está um país inteiro (em Portugal o que não passa na televisão não existe) a dar uma cambalhota nunca antes vista: toda a gente a apoiar uma decisão de Sócrates, que outra não era que entregar o país ao resgate!

Isto é absolutamente extraordinário e não deixará de vir a ser capitalizado pelo timoneiro da nossa desgraça. Como, não sei, mas ele há-de arranjar maneira. Não fosse ele um especialista!

Há coisas assim: como o homem andou meses a dizer que só por cima do seu cadáver, os portugueses assumiram que só poderia ser bom. Depois, mesmo que sem cadáver, a ideia já estava assimilada como boa. A cambalhota estava dada. Irreversível como todas as cambalhotas!

Evidentemente – e agora a sério – que as coisas chegaram ao ponto em que (no contexto específico e institucional do país) já não havia alternativa. A resistência de Sócrates já não era resistência, já não passava de intolerável e irresponsável teimosia. Daí que o pleno, nestas circunstâncias, não seja assim tão extraordinário. É apenas irónico!

Tão irónico como os nomes com que a operação nos é apresentada: ajuda externa! Ou resgate!

O que aí vem não vai bater leve … levemente! E ajuda não é certamente … Perguntem aos irlandeses!

Também não é resgate, que pressupõe libertação. Não iremos ser libertados de coisa nenhuma (talvez de Sócrates, com um pouco de sorte!). Iremos ser capturados! Perguntem aos gregos…

Aos mais novos iria sugerir que perguntassem ainda aos mais velhos. Aos que, como eu, se lembram de 1977 e de 1983. Perguntem: ouvirão falar de fome – sim houve fome, quem se não lembra de Setúbal? – de miséria e de destruição. De muitas estruturas e até de vidas!

Mas não se esqueçam que em 1977 estávamos a sair da revolução, a ensinar democracia bebé a dar os primeiros passos e a apresentar o nosso pedido de adesão à CEE, com todo o mundo ocidental, e em especial os Estados Unidos e a Alemanha (outra Alemanha, a RFA de Willy Brandt, que nada tem a ver com esta de Merkel) - então sim – verdadeiramente empenhados num resgate. E que em 1983 tínhamos o escudo para utilizar como válvula de escape – muitos dos ajustamentos passaram por aí – e tínhamos uma luz bem forte lá no fundo: a adesão à CEE, a dois anos de distância, com os milhões todos que lá viriam!

Desta vez não teremos nada disso: os tempos são outros, já não há mais Willy Brandt. Há Merkel! Já não há mais milhões a chegar da Europa. Já vieram e desapareceram todos. Já não há escudo para nos amparar. Há um euro forte, em que não podemos mexer, que obriga a concentrar todos os esforços de ajustamento nas mesmas medidas. Que tocam sempre aos mesmos! E que vão doer a sério…

ORA AÍ ESTÁ!

 Por Eduardo Louro

 

Jorge Lacão entreabria a porta ao fim da manhã. À tarde seria Teixeira dos Santos a escancarar a porta que Sócrates tem teimado em manter fechada, como ainda há dois dias atrás deixava claro na entrevista à RTP. Pouco depois o primeiro-ministro anunciava uma comunicação ao país para as oito da noite: viria comunicar a demissão do ministro das finanças? Não! Vinha confirmar que havia finalmente abandonado aquela trincheira. Apenas tinha usado dois dos seus fiéis escudeiros!

Evidentemente que a situação era absolutamente insustentável. Sócrates não podia mais prolongá-la por mero capricho pessoal. A decisão de recorrer a ajuda externa – eu não gosto desta terminologia (porque não é de ajuda que se trata, ajuda andamos nós a receber há muito tempo), mas como é a que vem sendo utilizada … - não podia continuar adiada, ao sabor da teimosia irresponsável do primeiro-ministro.

Quererá isto dizer que Sócrates foi finalmente convencido pela realidade? Que abandonou as suas fantasias? Que cedeu na sua teimosia?

Vamos a ver. Depois da entrevista de segunda-feira encontramos três ocorrências eventualmente relacionáveis com a decisão de recurso à dita ajuda externa: a polémica do Conselho de Estado, que ele próprio despoletou na entrevista, as declarações (apelo desesperado ou ordem?) do presidente do BES, Ricardo Salgado, e a nova operação de colocação de dívida de hoje. O downgrading das notações de rating dos bancos de primeira linha já vem da semana passada, ontem apenas foram atirados para lixo bancos de segunda linha. Por isso não entra para estas contas!

Não estou a ver que a lamentável novela em torno do Conselho de Estado possa ter sensibilizado o primeiro-ministro. Essa apenas é mais uma machadada na credibilidade das instituições e na da actual geração de políticos.

Nem o Conselho de Estado – órgão consultivo do presidente - teria que se pronunciar sobre a matéria (a não ser que - e perdoem-me a brincadeira - andando o governo a dizer que cabia ao presidente pedir ajuda externa, toda a gente tenha levado isso a sério) nem os conselheiros poderiam vir pronunciar-se sobre o que lá se passara. Não o podia ter feito o conselheiro primeiro-ministro, que lançou a trapalhada, não o deveria ter feito, por muito que lhe custasse engolir em seco as palavras de Sócrates, Bagão Félix. E não podiam ter feito o que fizeram os restantes conselheiros ligados ao PS, em especial Carlos César e Almeida Santos.

A verdade é que a dignidade deste órgão, que se deveria situar no topo da respeitabilidade institucional, já estava em causa desde Dias Loureiro!.

Não seria portanto por aqui que Sócrates mudava de agulha!

A colocação dos pouco mais de mil milhões de dívida de hoje – duas operações de curto prazo – correu como as restantes: encontrou procura (embora tudo indique que foi envolvido o fundo da segurança social) mas a taxas de juro cada vez mais insustentáveis – a taxa de juro dos bilhetes do tesouro a 6 meses chegou perto dos 6%, o dobro da última, há um mês atrás. Razão suficiente para fazer José Sócrates mudar de ideias? Talvez, mas dados os antecedentes, tenho dúvidas.

Sobram as declarações de ontem de Ricardo Salgado, também com uma porta entreaberta de véspera por Carlos Santos Ferreira: apoio externo já e em força!

Bingo! Era a ordem que faltava… Esperemos agora que ele dê também a outra: TGV fora dessa cabeça, já!

 

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts recentes

Arquivo

  1. 2023
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2022
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2021
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2020
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2019
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2018
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2017
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2016
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2015
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2014
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2013
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2012
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2011
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2010
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics