GENTE EXTRAORDINÁRIA VII
Por Eduardo Louro
Os serviços da Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) inscreveram, por erro, a atleta Sara Moreira na prova dos 1500 metros do campeonato europeu em pista coberta, em vez de a inscreverem na dos 3 mil metros: a sua especialidade, onde é vice-campeã europeia e actual detentora de uma das melhores marcas mundiais, e a prova que preparou durante meses e meses de trabalho e sacrifício.
A atleta, diz-se, encontra-se em grande forma e alimentava legítimas expectativas de uma medalha.
O presidente da FPA, Fernando Mota, apresentou de imediato a demissão. Quando tudo falha resta a nobreza de carácter. Não resolveu nada – dirão alguns! Só fez o que tinha a fazer, nada de mais – dirão outros!
Sim, mas não estamos habituados a isso. Em Portugal a culpa é solteirona, a água é sempre sacudida do capote… As responsabilidades são sempre dos outros!
Vemos isso no governo, todos os dias. Mas vemos isso também todos os dias no nosso dia a dia.
Por esta cultura, teria sido muito fácil a Fernando Mota culpar o funcionário ou a funcionária que errou. Mas não, teve a nobreza suficiente para reconhecer o sofrimento causado ao outro: uma atleta, a quem a incúria deitava borda fora meses de sacrifícios e destruía objectivos de uma vida. E perceber que, nada podendo reparar, tinha de tomar a única atitude digna que lhe restava.
Seria bom que a gente extraordinária que manda neste país olhasse bem para este exemplo!