Também a Fitch, mesmo no finalzinho da semana, retirou Portugal do lixo, saltando directamente dois degraus na escada da classificação de rating. Foi provavelmente a última grande notícia do ano, o tal que Costa designou de "saboroso", gerando mais uma onda de indignação e obrigando-o a voltar a falar de contexto. Ou de fora dele...
Não deixa de ser extraordinário que um governo tido por politicamente forte - é essa a marca de António Costa - e economicamente vulnerável, sobreviva hoje politicamente à custa do seu desempenho económico. Não deixa de ser extraordinário que, contra todas as expectativas, o governo tenha ganho na economia o que lhe permite cobrir tudo o que perde na política, onde não param de se suceder situações embaraçosas. Como a que hoje leva o peso-pesado Vieira da Silva ao Parlamento!
Nem deixa de ser extraordinário que seja Máro Centeno, que ninguém quis levar a sério e que toda a gente escolheu para bombo da festa, o abono de família do governo do súper António Costa!
A Fitch mantém o rating da República em BB+. Na gíria, lixo. E explica: pela trajectória da dívida e porque a economia portuguesa não cresce; porque não é competitiva e as empresas estão sobreendividadas!
Certa ou errada, é esta a explicação que dão para não rever a classificação de risco que teimosamente persegue a economia portuguesa. Bem ou mal, é desta forma que as agências de rating ratificam o milagroso desempenho que tantos elogiam.
Com o modo "que se lixem as eleições" há muito desligado, e com o botão do turbo eleitoral no máximo, Pedro Passos Coelho, lá longe, do Japão, dá-nos outra interpretação. Não é expectável - garante - que as agências de rating revejam as suas classificações de rating antes das eleições, pela simples razão que, primeiro, querem saber quem as ganha. Querem saber se tudo o que de bom tem sido feito - mas que não foi suficiente para as fazer alterar uma única posição, digo eu - vai ter continuidade. Diz o primeiro-ministro, com o maior descaramento deste mundo, que não se passa nada. Ganhe ele as eleições, e volte ele a formar governo, e as agências de rating virão imediatamente a correr atribuir o AAA+ a Portugal!
E diz isto apesar de a própria a Fitch ter na circunstância referido não esperar que as próximas eleições legislativas tragam "um desvio relevante de política", uma vez que "os dois principais partidos (PSD e PS) são pró-europeus", e que "não há partido populista ou antieuropeu que tenha atraído apoio significativo nas sondagens de opinião".
É isto que nos espera, todos os dias, ao longo dos próximos seis meses. É com estas agressões à nossa sanidade mental que teremos diariamente de conviver. Se até aqui valeu tudo, daqui para a frente não há limites para o populismo, para a demogagia, para o descaramento, para a falta de vergonha... Para o lixo que se vai amontoando!
A União Europeia (EU) reagiu à notação da Moody`s à dívida portuguesa de forma concertada - ao que pareceu – com as instituições nacionais. A reacção vale o que vale – que não é muito – e em particular a de Durão Barroso valeu pouco. Valeram bem mais as alemãs e valeu, essa sim porque foi bem para além da simples declaração formal, a do BCE ao declarar que deixará de condicionar a sua actividade pelas notações de rating.
Esta é uma decisão relevante e que há muito se impunha. O BCE, bem como os restantes organismos europeus, conhecem – têm toda a obrigação disso – as economias europeias e as condições financeiras dos estados membros. Nem o famoso caso grego serve para o pôr em causa. Os gregos não enganaram a União Europeia, esta é que quis deixar-se enganar! Já vinha dos tempos da integração no euro: a UE sabia perfeitamente que a Grécia não cumpria os critérios de adesão!
Não precisa, por isso, dos serviços das agências de rating e faz muito bem em dispensá-los. Percebe-se mal, de resto, a intervenção das agências de rating nas dívidas públicas, mas isso é outra história.
Esta é uma decisão eficaz e com todo o sentido: de oportunidade e de princípio. Já a anunciada criação de uma agência de rating europeia – prevista lá para o Outono mas que António José Seguro pateticamente reclama para já – não faz qualquer sentido. Se as agências americanas não estão acima de suspeição, a resposta tem que ser dada através dos dispensa dos seus serviços, nunca substituí-las por outras criadas com todo o ar de quem procura favorecimento (a agência chinesa foi criada num cenário que nada tem a ver com o que actualmente vive a Europa).
Outra coisa seria o lançamento não de uma, mas duas ou mesmo três novas agências que alarguem a oferta e confrontem o oligopólio americano com uma concorrência séria. Porque, para além de todas as suspeitas, há os factos: estas empresas, ligadas aos interesses financeiros americanos, tiveram uma participação escandalosa na crise financeira mundial de 2008 que ainda hoje asfixia milhões de pessoas por esse mundo fora. E isto não pode continuar como se não tivesse acontecido!
Foram as mais diversas, dos mais variados sentidos e orientações e até, muitas das vezes, dos mais variados disparates, as reacções que atravessaram o país na sequência do downgrading da notação da Moody`s à dívida portuguesa.
Há pouco mais de um ano pouca gente em Portugal sabia o que era o rating. Poucos tinham ouvido falar em agências de rating e começavam então a aprender a soletrar nomes: Fitch, Standard & Poor´s e Moody`s!
Das mais diversas e desencontradas reacções há uma que me impressionou particularmente e que apontava para a desresponsabilização do governo anterior. De apagador na mão, logo houve quem corresse a gritar: “Vêm como isto nada tinha a ver com Sócrates?”
Impressionou-me a rapidez com que as forças arregimentadas à volta de Sócrates correram a agarrar esta oportunidade. E não posso deixar de repetir que a governação de Sócrates tem tudo a ver com isto, que foi ela – a pior do regime democrático - que, não sendo a única responsável pelo estado a que chegamos, trouxe o país para a banca rota. Como não posso deixar de entender a expressão de Pedro Passos Coelho quando diz que recebeu a notícia com um murro no estômago! Todos a percebemos!
Mas confesso que não me impressionou menos a forma como, agora na esfera do apoio ao governo, saltaram vozes a acusar de dedo em riste as agências de rating, em colisão frontal com o que, em idênticas circunstâncias, diziam poucos meses antes. Se isto não credível nem sério, e legitima as atitudes que pretendem apagar as responsabilidades de José Sócrates, passa a intolerável quando entre essas vozes se identifica a de Manuela Ferreira Leite e, muito especialmente, a do Presidente da República. Deplorável: isto também é lixo!
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