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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

MAIS FLASHES

Por Eduardo Louro

 

Voltei a uma consulta ao hospital – não, descansem que nem estou a ficar doente nem as salas de espera dos hospitais passaram a fazer parte dos meus fetiches – e, dada a minha experiência anterior, voltei a não levar nada para ler.

A verdade é que nem sempre tudo corre bem. Às vezes há imponderáveis que são capazes de fazer correr mal - ou mesmo muito mal – aquilo que tinha tudo para correr bem. Foi o caso: mais de três horas de espera!

A sala desta vez era outra. Maior e com uma configuração em L, estranha e, pareceu-me, pouco dada ao exercício preferido dos portugueses nestas circunstâncias: a conversa, em especial a conversa sobre doenças. As que têm e as que imaginam ter. Fui passando os olhos por toda aquela fauna bem própria deste habitat. Algumas personagens destoam: mulheres altas e louras, bem encorpadas e de olhos claros. Invariavelmente com crianças! Mulheres e crianças, a deixar a ideia que naqueles imigrantes do leste europeu os homens não têm tempo para adoecer. Apenas para trabalhar e garantir o sustento da família!

O ritmo de chamadas é grande: “serviço M - senha 123 – gabinete 214”! A voz é agradável e repete a chamada enquanto um monitor se esforça por captar a atenção da sala com o piscar sucessivo e rápido da mesma informação. Sem qualquer ordem! A sequência, conforme também explica o mesmo monitor, é por ordem de marcação da consulta, e não de chegada, ou qualquer outra! À senha 123 não se seguirá a 124!

É como se toda aquela gente estivesse de olhos vendados, a jogar à cabra-cega o que, começo então a perceber, explica - mais que a configuração da sala – a desmobilização geral. É isso, as pessoas estão tão suspensas da cadência daquela voz e da do piscar daquele ecrã que nem lhes dá para conversar.

Mesmo assim sinto o assédio: um olhar, um desabafo ou uma tirada mais ou menos provocatória. Porque não é só para dançar o tango que, como descobriu alguém que bem conhecemos (e aqui cumpro uma pausa de silêncio em respeito pela dor de alguém que, em pouco mais de duas semanas, perdeu o pai e um irmão), são precisos dois. Para a conversa também!

Resisti – confesso que entre desconhecidos não é nada fácil arrancarem-me uma palavra – mas, como sempre acontece, o que uns rejeitam outros desejam. “Venho para a consulta de diabetes; o que me vale é que é só de 6 em 6 meses” – lançou a rapariga de 34 anos, como ela própria se intitularia pouco depois:”sou uma rapariga nova – sim, só tenho 34 anos – e já tenho tantas doenças”, sem contudo adiantar mais nenhuma.

“Eu tenho açúcar a menos, vim com o meu pai, que tem açúcar a mais, porque eu, ao médico, só vou ao do seguro”, reponde, formando-se finalmente o par, um homem de 39 anos, confirmados da mesma forma:”eu tenho 39 anos e no fim do ano vou para a reforma; até aos 65 estou safo”! Trabalha numa serração de madeiras onde, pelo que foi dado perceber, teve a sorte de sofrer um acidente de trabalho de que, à vista, não sobram sequelas: “se não tivessem desligado a máquina todo eu tinha sido feito em salsichas”!

Ela está desempregada há mais de dois anos. E sem qualquer subsídio. “Não fosse o marido…” Tem portanto marido. E duas filhas pequenas que não lhe permitem regressar à sua antiga actividade: motorista de camion, nos transportes internacionais. “Se lá fosse pedir emprego voltavam a aceitar-me. É disso que eu gosto. Saía-me do corpo mas ganhava muito bem. Depois casei…”

“Pois, agora há muitas mulheres nessa vida. Não a queria para mim! Mas olhe que isso agora não está bom, eu conheço uns imigrantes do leste que andam nisso e dizem que está mau”- respondeu-lhe ele!

A conversa passara já pelo custo de vida, pelos combustíveis e, daí, por carros. Ele tinha um carro de alta cilindrada: um Xantia, 1600, que apenas conseguia manter porque não precisava de o usar. “Trabalho portão com portão e, ao fim-de-semana, só saio no Verão. No inverno não saio de casa”. O Xantia - para quem ligue pouco a automóveis – é o modelo topo de gama (a indústria automóvel alemã provocou nos últimos 20 anos um downgradind generalizado dos modelos de topo dos restantes construtores) da Citroen dos anos 90, o antecessor do actual C5. Ela tinha um pequeno velho utilitário, a gás: “como anda pouco não lhe compensa meter a gás, mas a mim compensa, que ando muito”!

“Serviço A - senha 105 – gabinete 202” – ouviu-se. Ela levantou-se e dirigiu-se apressadamente para a porta em frente. A conversa acabou ali mesmo, sincopada, sem uma despedida. Nem um último olhar!

A conversa é descartável. Como as pessoas!

Acho que é por isso que ninguém me consegue arrancar uma palavra, por maior que seja o assédio!

 

FLASHES NUMA SALA DE ESPERA

Por Eduardo Louro

 

Hoje fui a uma consulta médica no hospital. Estava marcada há dois meses (nada mau!), tinha sido confirmada por carta pouco depois da marcação e, no fim-de-semana, tinha recebido por sms um último aviso. Planeei bem a deslocação e, tendo em consideração os imponderáveis do trânsito e do estacionamento, preparei uma almofada de tempo que a prudência aconselha. Resultado: 40 minutos antes da hora estava a entrar no serviço e proceder à confirmação e ao pagamento da consulta!

Tinha um longo período de espera pela frente. Fiz contas: 40 minutos mais, na melhor das hipóteses, meia hora de inevitável atraso dá uma hora e dez minutos! Que fazer com todo esse tempo?

A falta de rotina nestas andanças não ajudava nada. Não tinha comigo um livro, uma revista. Nem sequer o jornal. A loja dos jornais do hospital fica do outro lado – teria de sair e dar uma volta inteira, pelo exterior, ao hospital. Não era opção! Olhei à volta e lá estava, ao canto, a inevitável mesinha coberta de jornais e revistas já amarelecidos, como se tivessem estado ao sol. Não era bom augúrio. Confirmei: aqueles títulos - que não me interessavam minimamente – tinham já alguns dias. Semanas mesmo!

Regressei ao meu ponto de partida, à entrada da sala, donde poderia ouvir o meu nome a sair de uma das portas daqueles gabinetes.

Sentei-me. À minha frente, do outro lado, estava uma senhora com ar rural e aspecto que lhe dava à volta dos 70 anos. Chamou-me a atenção por ter a perna esquerda alongada pela cadeira ao lado, ocupando duas das três cadeiras daquele lugar estratégico da sala. Uma outra mulher de semelhante condição, talvez com menos uns (poucos) anos, acaba de entrar acompanhada pelo marido. Lança um olhar recriminatório sobre aquela perna ali estendida a roubar-lhe um daqueles lugares privilegiados, feitos à sua medida e à do seu marido. A outra finge que não percebe e é o marido que toma a iniciativa de ocupar a única cadeira realmente vaga, obrigando-a a entender. Retira a perna e o oferece o lugar enquanto vai explicando que precisa daquela posição para a perna não inchar, o que leva a nova conviva, enquanto avançava decididamente com o bem preenchido traseiro para a cadeira agora vazia, a fazer aquelas figuras de não … ó …mas deixe-se ficar … E, sem mais intervalos, lançaram-se para uma conversa que não mais despegou. De doenças, claro: uma sempre mais doente que a outra. O marido, visivelmente encantado com a conquista da mulher ali mesmo ao lado, fixava os olhos na televisão e puxava-lhe o braço uma, duas, três vezes: “olha ali aquela cobra na televisão”. Não valia de nada, a mulher não queria saber nem do marido nem da cobra. Aquela conversa é que não largava por nada…

Olho para lado, ali junto ao guichet e vejo duas mulheres a chegar. Bem diferentes das que deixara de observar: ar urbano e relativamente bem-postas. A da frente parece quarentona e seca de carnes: nem bonita nem expressiva – magra, que nem sempre é elegante. A que vem atrás parece-me pouco mais velha e tem um ar balzaquiano: bem cheinha, sem deixar perceber que tinha sido uma moça bonita.

Reparo que se conhecem. E que já não se vêm há muito! Percebo que a conversa chega aos filhos e que sacam dos respectivos telemóveis para se presentearem com as fotografias dos que foram os seus rebentos. De repente aquela voz e aquele sorriso começam a parecer-me familiares: aquele tom de voz e aquelas gargalhadas resgatam uma cara bonita e um sorriso ainda mais bonito daquela figura balzaquiana. Ah! Já sei quem é!

Tinha sido recepcionista numa empresa onde eu trabalhei muitos anos e donde saí há quase vinte. Lembro-me que terá saído um ou dois anos antes. Em resultado, se não estou em erro, de um daqueles romances de trabalho que normalmente dão mau resultado. As duas iam matando saudades e pondo as novidades em dia enquanto eu ia procurando o nome daquele sorriso: Idalina? Não, não me parece… Vieram-me mais três ou quatro nome à cabeça até que, quando ouvia chamar pelo meu – no único sítio onde o poderia ouvir, havia escolhido bem a minha cadeira – se fez luz: Margarida!

Olhei para o relógio e só tinham passado dez minutos da hora marcada. Enquanto me levantava olhei em redor e vi que nem a perna da senhora da frente tinha inchado nem a conversa entre ambas tinha acabado.

Quando saí do gabinete médico a Margarida já lá não estava… Mesmo assim nem sempre é mau não ter um livro à mão!

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