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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O futebol (do Benfica) é isto mesmo!

 

 

"O futebol é isto mesmo". É um jargão do futebolês, mas se dissermos que "o futebol do Benfica é isto mesmo" estaremos a descrever o que se passou hoje na Luz - praticamente cheia - numa noite diluviana para receber, desta vez, o Marítimo. 

O jogo até nem começou lá muito bem. Pertenceram ao Marítimo o primeiro remate e o primeiro canto - a até o segundo - do jogo. Com uma pressão muito alta, os jogadores da equipa insular não condicionavam apenas a saída de jogo do Benfica. Ganhavam permanentemente a bola, e logo com a baliza do Varela ali à mão.

Foi assim no primeira dúzia de minutos. Mas... aí está - o "futebol do Benfica é isto mesmo", e percebia-se que os jogadores do Marítimo eram apenas os pardais a tentar aproveitar o primeiro milho. Quando o primeiro quarto de hora se despedia do jogo já o Benfica rompia a teia, construia a primeira jogada do seu "futebol que é isto mesmo" e fazia o primeiro golo: Jonas, claro. Com a classe que só Jonas dá aos golos...

A tendência direitista vinda da semana passada mantinha-se. Era da ala direita que o Benfica desferia os golpes, uns logo a seguir aos outros. À famosa ala esquerda de Grimaldo e Cervi, assessorada por Zivkovic, respondia, à procura da mesma fama, a ala direita de André Almeida e Rafa, assessorada por Pizzi. Tudo,  da direita ou da esquerda, a desaguar na classe dos golos de Jonas. Se o primeiro tinha sido muito bom, o segundo - terceiro do jogo, porque o segundo, com certificado de denominação de origem na esquerda, fora obra de Grimaldo, seis minutos depois do primeiro - foi uma obra de arte, em mais uma assistência de André Almeida. 

Faltavam 10 minutos para o intervalo quando Jonas assinou essa obra prima. Até o terceiro, quarto do Benfica, sete minutos volvidos, na cobrança de um penalti cometido sobre Rafa em mais uma jogada do "futebol do Benfica  que é isto mesmo", foi notável. Depois de ter falhado dois penaltis (Belenenses, que custou dois pontos, e Boavista) Jonas quis mostrar como se marcam penaltis indefensáveis. E com categoria.

Com quatro a a zero ao intervalo perspectiva-se um recorde de golos. Sete, oito, sabia-se lá...

O início da segunda parte apontava para aí. Tivessem sido mantidos os índices de eficácia e assim teria sido. Mas não foram, e o Marítimo defendeu-se muito mais. Especialmente depois de, já perto da hora de jogo, ter ficado reduzido a dez jogadores, pela inevitável expulsão de Gamboa, por sugestão do VAR confirmada pelo árbitro, depois de consultar as imagens. A partir daí o Marítimo só defendeu.

Defendeu com dez, e o Benfica só marcou por mais uma vez - aos 81 minutos, num golaço de Zivkovic. Até deveria ter valido por dois!

Nem a chuva pára este "futebol do Benfica  que é isto mesmo". Com o que se tem visto, até pode nem dar para o penta, mas que é - de longe, a enormíssima distância - o melhor futebol que por cá se vê, lá isso é!

 

 

"O FUTEBOL É ISTO MESMO"

Por Eduardo Louro

 Sporting "anónimo" afasta estrelas do City (SAPO)

Parabéns ao Sporting! Um apuramento muito sofrido, garantido por Rui Patrício no último segundo dos largos minutos do infindável período de compensação. Mas justíssimo!

Esta vitória do Sporting explica o sucesso do beautiful game. Explica por que o futebol é um desporto que apaixona milhões de pessoas, de todas as condições sociais em todos os cantos do mundo. Quando uma equipa que ainda há pouco mais de uma semana teve o desempenho que teve em Setúbal, sem fio de jogo, sem motivação e sem categoria nem por onde ela passasse, elimina um adversário que tem dominado a mais forte e disputada competição do mundo, com goleadas umas atrás das outras, que acaba de despachar o Porto com um agregado de 6 a 1, com uma equipa onde figuram alguns dos melhores jogadores do mundo, reunidos à volta dos milhões de um príncipe árabe, isso é futebol. Só num jogo como o futebol é possível acontecer uma coisa destas!

Se olharmos para o próprio jogo, que há pouco terminou, lá encontramos mais motivos que explicam o fascínio deste jogo. Durante uma hora, dois terços do tempo total de jogo, o Sporting espantou o mundo da bola, com o absolutamente improvável domínio do jogo e do adversário, marcando dois golos sem sofrer nenhum. Ao fim de uma hora, e a meia hora do fim, com o Sporting a ganhar por dois a zero, o Manchester City estava à insuperável distância de quatro golos do apuramento para os quartos de final da Liga Europa.

Em meia hora, e depois de marcar o primeiro golo, obra de duas das suas maiores estrelas, o City partiu para um domínio asfixiante do jogo, impedindo a equipa do Sporting sequer de respirar. Fez três golos e só não fez os quatro que lhe garantiam o apuramento porque não calhou. E porque, no último segundo, o Rui Patrício desviou com as pontas dos dedos um remate do seu colega guarda-redes do outro lado…

Quando, em Dezembro, os dois colossos de Manchester se viram afastados da Champions e relegados para a Liga Europa, toda a gente viu ali não apenas um inesperado reforço competitivo desta segunda prova da UEFA, mas os dois maiores favoritos da competição. O destino daquele caneco era inevitavelmente Manchester! Caíram ambos nestes oitavos de final, com o United a ser completamente subjugado pelo fantástico Atlético Bilbau…

É por isto, por tudo isto, que, por mais maldades que lhe façam todos os dias, o futebol resiste como o mais apaixonante dos jogos!

 

FUTEBOLÊS#111 LEVANTAR O PÉ

Por Eduardo Louro

 

Sendo o futebol jogado com os pés é natural que esta parte dos membros inferiores seja frequentemente chamada à conversa. À conversa em linguagem própria, em futebolês evidentemente!

Fiquemos hoje pelo levantar o pé. Levantar o pé na disputa da bola pode não querer dizer que se levante o pé. Pelo contrário, é normalmente sinal de que se não levanta o pé!

Confuso? Sim, mas exactamente como o futebol, o futebolês é isso mesmo!

Levantar o pé - quando acima de determinada altura, o chamado pé alto, que é punido pelas leis do jogo - é um gesto normalmente tido como sinal de entrega ao jogo e de empenhamento máximo na disputa de cada bola. Significa disputar cada bola como se fosse a última!

Ora isto é precisamente o inverso de levantar o pé. De tirar o pé do acelerador, a imagem automobilística de que o futebolês se apropriou!

Levantar o pé é, neste sentido, sinal de baixar a guarda. De descompressão competitiva! Ora, quem levanta o pé sem receio e apenas porque é lá que está a bola e é lá que tem de ser disputada, não está a negligenciar nem a regatear esforços. Isto é, não levanta o pé!

A tendência para a descompressão é uma inevitabilidade da própria condição humana. Em competição, seja num jogo de futebol ou noutro confronto qualquer, exigem-se níveis de concentração competitiva capazes de superar aquela tendência natural e é a gestão dessa concentração competitiva que faz a diferença. É decisiva!

É por isso que há jogos que mudam por completo quando o resultado começa a atingir determinado desnivelamento. O avolumar do resultado permite tirar o pé do acelerador – levantar o pé - e, daí até à perda completa da concentração competitiva, é um passo muito curto. Daí que, levantar o pé, só mesmo quando o adversário está sob controlo absoluto.

O Benfica, por exemplo, não está a dar hipóteses. Não levanta o pé!

Joga mais e melhor que todos os adversários e por isso já leva um avanço que começa a ser apreciável. Tanto que começa a perturbar os rivais, em especial o principal rival dos últimos anos, levando o seu treinador - exorbitando mais as suas capacidades que propriamente as suas funções, para as quais, de resto, também não revela especiais aptidões – a confundir o conforto da competência com o do colo. São coisas diferentes, Sr Vítor Pereira!

As coisas complicaram-se um bocado no último fim-de-semana. Tudo fora feito, como aqui se deu conta na última semana, para que o Benfica fosse jogar naquela caixa de fósforos que é o campo do Feirense: sem espaço (menos 4 metros de comprimento e menos 3 de largura, o que levou um comentador da RTP a dizer, sem se rir nem corar de vergonha, que não podia haver razão de queixa das dimensões do campo que teria apenas menos 12 metros quadrados) e sem adeptos benfiquistas. Não resultou: o Benfica ganhou enquanto o Porto perdia, sem apelo nem agravo, com o Gil Vicente. Como não resultou, o Benfica ganhou porque o árbitro ajudou, anulando uma jogada por fora de jogo inexistente que, já depois de interrompida pelo árbitro, daria em golo. Não contava que o árbitro assistente não tivesse assinalado um fora de jogo mas sim um pé alto do jogador do Feirense. Ou que o mesmo árbitro tivesse deixado por assinalar dois penaltis as favor do Benfica. Ou que o Benfica tivesse jogado muito mais, e criado inúmeras ocasiões de golo sucessivamente anuladas pela fantástica exibição do guarda-redes adversário!

Consta por aí que, com o vencimento do regressado Lucho (a custo zero? Seria interessante saber quantas prestações o Marselha ainda teria por pagar...), o João Moutinho e mais uns quantos irão passar a levantar o pé um pouco mais. Acredito que sejam as habituais más línguas...

Quem agora não quer levantar o pé é o Sporting. Não tanto os jogadores dentro do campo, que esses ainda andam à procura do pedal do acelerador, mas o seu presidente. À procura de investidores internacionais! De alguém que pague as contas…

Olharam para Inglaterra e miraram-se em Londres - lá para os lados de Stamford Bridge – e em Manchester, no City of Manchester. Aqui mais perto, para os lados da Costa del Sol, a imagem também já não era má: também se via por ali um árabe cheio de massa que ficara com o Málaga. E acham que o futebol em Portugal é tão atractivo para gente dessa como em Inglaterra ou em Espanha. Por acaso as duas principais ligas do mundo!

Mas, se calhar, também já ouviram falar em lavagem de dinheiro! Não havia, nas últimas eleições, um candidato que tinha uns russos em carteira? Vá lá: pé no fundo, rapazes!

Futebolês #106 INFERIORIDADE NUMÉRICA

Por Eduardo Louro

 

Inferioridade numérica é uma das expressões mais interessantes e cuja origem não consigo encontrar noutro sítio que não seja a linguagem bélica que, como já aqui vimos em muitas outras oportunidades, é uma das principais fontes de inspiração do futebolês. Ou não seja grande a frequência com que se faz do futebol uma guerra!

Foi sempre em inferioridade numérica que conseguimos as mais épicas vitórias militares da nossa História. Foi assim em Aljubarrota, foi assim nas Linhas de Torres, e foi assim em tantas outras. E mesmo quando não foi assim, contaram-nos assim!

O futebolês tem no entanto uma particularidade: é que não há uma, há duas inferioridades numéricas. É verdade!

inferioridade numérica normal, aquela por que passam todos os adversários do Sporting – todinhos, ninguém escapa; desconfio que a coisa possa acabar lá para início do ano e fim da primeira volta, quando o Porto se deslocar a Alvalade – e há a inferioridade numérica nas diferentes zonas do campo.

Por exemplo, os avançados estão sempre em inferioridade numérica em relação aos defesas, o que é dado como uma situação normal de jogo. Por isso é que invariavelmente as defesas se superiorizam aos atacantes, que é a moral que mais vezes os narradores dos jogos tiram da história do jogo. Foi para contrariar este determinismo que se inventaram as transições rápidas e os contra-ataques!

São aspectos da dimensão táctica do jogo. Claro que ninguém gosta da inferioridade, é da vida. É por isso que os treinadores passam noites sem dormir à procura de soluções tácticas que invertam essa nevrálgica condição. Nem todos, bem entendido, o Domingos Paciência dorme descansado… Nota-se até no ar fresco com que aparece nas conferências de imprensa!

É dos livros da táctica que os jogos se decidem no meio campo, essa zona central do terreno onde, dizem, se começam a ganhar os jogos. Daí que se esteja já a ver qual é a chave táctica do jogo: isso mesmo, garantir a superioridade numérica no meio campo, que é a mesma coisa que empurrar o adversário para a inferioridade numérica nessa zona crucial do campo e dimensão vital do jogo.

A outra inferioridade numérica, a tal que não apoquenta o treinador do Sporting, é que já não tem nada a ver com táctica. Embora obrigue a revê-la, mesmo que não requeira grande imaginação: é só baixar o bloco, como agora se diz! Quer dizer, que se lixe o meio campo e o ataque, as coisas decidem-se é na defesa. Toca a defender, todos lá atrás! De tal forma que são muitos os treinadores que dizem ser mais difícil jogar contra dez do que contra onze. Dizem mas não praticam, porque muitas vezes preocupam-se mais em criar condições que levem à expulsão de um adversário do que em ganhar superioridade em certas zonas do campo. Vá lá a gente entendê-los…  

Por aqui se vê que a expulsão de um jogador, empurrando irreversivelmente uma equipa para a inferioridade numérica, não é a melhor das soluções.

Claro que há comportamentos de tal forma graves, ou de tão repetidos, que não podem permitir que o seu autor continue em campo. As circunstâncias que ditam a expulsão não são questionáveis, mas deveria ser permitida a substituição do jogador expulso, devendo a punição cingir-se à suspensão nos jogos seguintes. Uma suspensão agravada de acordo com a gravidade mas também em conformidade com a forma da expulsão: por vermelho directo ou por duplo amarelo.

Creio que esta alteração na dimensão disciplinar do jogo defendia o espectáculo – na vertente estética do jogo e na da ética e do fair play – mas também a chamada verdade desportiva. E, claro, contribuiria para a valorização profissional do Domingos. É que arrisca-se a que digam que só ganha porque joga sempre em superioridade numérica (e às vezes nem assim ganha) e isso penaliza-o, sem dúvida. E ele não merece! Parece-me que até sabe da poda e acho mesmo que, desde que corrija alguns vícios – como, por exemplo, o de olhar para o chão durante os jogos -, poderá - quem sabe, um dia ... - ser campeão nacional!

Futebolês #95 CHICOTADA PSICOLÓGICA

Por Eduardo Louro

 

É uma das expressões do futebolês mais vulgarizadas. A chicotada psicológica é uma chicotada aplicada ao treinador na expectativa que produza efeitos psicológicos nos jogadores, que lhes dê a volta ao estado anímico.

Tem, como não podia deixar de ser – o futebol(ês) é isto mesmo – o seu lado anacrónico: o acto não produz os seus efeitos sobre o sujeito mas sim em terceiros. O treinador é que é chicoteado para que os jogadores emendem caminho. Ou os jogadores é que andam por maus caminhos mas o treinador é que leva o castigo.

Tem uma explicação simples: o treinador é só um; os jogadores são às dezenas. E outra, também pouco complicada: por cada treinador empregado há no mínimo dez à espreita, à espera e a fazer figas para que as coisas lhe corram mal. Mal surge a oportunidade e lá está um disposto as dar o seu cunho pessoal, a fazer crer que a equipa vai passar a ganhar os jogos todos e a injectar moral naqueles jogadores como se de penicilina se tratasse.

Uma vez por outra a coisa até resulta, e é isso que dá força à chicotada psicológica. Ninguém se lembra das vezes em que tudo fica na mesma, essas não contam para nada. Em memória ficam as que resultam!

Em menos de dois meses de competição muitas foram já as chicotadas. A primeira deu-se em Guimarães, logo na segunda das seis jornadas já cumpridas, quando o mestre do verbo – com uma linguagem própria, o já famoso machadês, que ameaça a hegemonia do futebolês – foi trocado pelo que estava em Paços de Ferreira donde, por causa de um boné ridículo que são obrigados a usar, estão todos doidinhos para fugir.

Esta mudança de Paços de Ferreira para Guimarães começa já a tornar-se um clássico. Não fosse o Sporting, entretanto e sem saber muito bem como, ter desatado a marcar golos no primeiro minuto e a conseguir aguentar-se nos restantes oitenta e muitos, e já começávamos a ver o tipo que veio da capital do móvel, sem aquecer o lugar na capital da cutelaria (será que ainda é ou já só sobra o mito?), a caminho de Alvalade…

Em Leiria mora – mas não joga – o campeão das chicotadas. Já vai no terceiro treinador, agora o velho Manuel Cajuda – dois regressos, o seu próprio regresso a Leiria e o regresso de Bartolomeu a treinadores feitos -, depois da chamada ao castigo (vingança antiga?) de um homem da casa - o pobre do Vítor Pontes - que viu o sonho de voltar ao trabalho depois de tantos anos de desemprego esfumar-se em apenas 17 dias.

Mas o chicote não pára, continua no ar, ameaçador. Agora que o Domingos Paciência parece tê-lo afastado para o lado, lá está ele bem à vista em Vila do Conde – o chicote não sabe o que é gratidão, não é Carlos Brito? – e, de novo, em Paços de Ferreira, onde o novo portador do boné (o boné – outro boné - era a imagem de marca do Pedroto, o Zé do Boné como, entre outras coisas, lhe chamavam) ainda não conseguiu um pontinho sequer. Mais escondido, mas nem por isso menos à mão de semear, está ele no Dragão.

Sim, sim! O Vítor Pereira já tem as costas a jeito, não vá a solidariedade portista de Coimbra falhar desta vez. E pode muito bem falhar, porque já se diz que na calha estará mesmo o rapaz de Coimbra. É que o Porto já lhe tomou o gosto, foi de lá que veio o último, o da cadeira de sonho… Que tão rapidamente deixaria vazia, e com tanto vazio à volta!

Creio que Vítor Pereira já pouco poderá fazer para fugir do chicote. Está perdido e sem Norte; o que o Norte não perdoa!

Não basta querer parecer. Se fosse assim - como ele afinal pensava que era - haveria mais Mourinhos e mesmo Vilas Boas. Há realmente muita coisa que o ainda treinador do Porto não sabe. A começar pelo princípio de Peter, tão simples e tão velho…

 

 

 

 

Futebolês #74 CRENÇA

Eduardo Louro

     

O futebol tem, como se sabe, muito de religião. São muitos os pontos de contacto entre a religião e o futebol, muito para além do factor alienante que é frequentemente invocado! Estranhamente o futebolês não recorre muito a esses pontos de contacto: ao contrário do que poderia parecer esta crença não tem nada a ver com a fé religiosa ou com a crendice básica que tantas e tantas vezes sustenta as religiões. E a ignorância!

A crença, em futebolês, corresponde a um estado de espírito colectivo que se traduz num forte acreditar. Em acreditar em si, nos seus pares e nos seus líderes! Nada que seja exclusivo do futebol: é antes um dos alicerces de qualquer teoria de motivação. É qualquer coisa de fundamental sempre que se trate de gerir recursos humanos. E, como sabemos, tudo o que seja desporto colectivo de alto rendimento transformou-se no mais exigente laboratório de manipulação de variáveis de comportamentos físico e emocional de pessoas com vista à optimização de desempenhos.

Manuel Sérgio, o professor que tenho por grande filósofo do futebol, e que frequentemente aqui cito, usa esta expressão emblemática: “uma grande equipa vive de uma grande crença”!

É de facto assim: uma grande equipa de futebol é constituída, indubitavelmente, por grandes jogadores, por jogadores de grande capacidade técnica em boa condição física. Mas se lhes faltar a crença – uma grande capacidade psicológica capaz de os fazer ultrapassar os obstáculos, as dificuldades e as contrariedades – falta-lhe aquele plus, aquela mola que é capaz de transformar o azar em sorte, a tristeza em alegria e, no que finalmente mais importa, de virar a derrota para a vitória.

Incutir essa crença na equipa é seguramente a mais exigente das tarefas do líder, do treinador. Não havendo quem a não saiba cumprir de todo, raros, raríssimos, são os que permanentemente a conseguem desempenhar. Qualquer treinador consegue num determinado período, nem que seja num único jogo, transportar para a equipa toda a carga motivacional que a faça transcender-se. De forma idêntica qualquer jogador consegue reagir positivamente a esses estímulos. Já é bem mais difícil encontrar um treinador que consiga manter os índices psicológicos da equipa no topo, se não na totalidade, na maior parte e nos mais decisivos momentos da época. Precisamente porque essa é a sua mais exigente competência, porque é a cereja no topo do bolo, porque só resulta depois de exercidas todas as restantes competências: táctica, técnica, planeamento, comportamento e comunicação.

Exigem-se hoje muito mais qualificações aos treinadores. Percebe-se que hoje, como também diz o Prof. Manuel Sérgio,” um treinador que saiba muito de futebol, se só sabe de futebol, nem de futebol sabe”!

Esta equipa do Porto está realmente uma grande equipa porque vive de uma grande crença. De uma grande crença incutida por um treinador que, mesmo muito novo, sabe muito de futebol. Mas que não sabe só de futebol!

Por isso vai igualar o recorde do Benfica e ganhar o campeonato sem derrotas – arrisco mesmo que com apenas dois empates. Por isso chegou à Luz com dois golos de desvantagem e, acreditando, em 12 minutos em que tudo saiu bem, eliminou o Benfica. Por isso ainda agora frente aos espanhóis do Villareal – uma equipa de topo do futebol espanhol – depois de uma primeira parte (recorde-se igualmente a primeira parte do jogo da Luz) em que o adversário lhe foi claramente superior (com muitas ocasiões e com o único golo), acabou por marcar 5 golos, arrumar a questão do apuramento para a final, e atingir o terceiro jogo consecutivo na Europa com chapa 5. E por isso ninguém se lembra nem discute que, por exemplo, o decisivo segundo golo na Luz foi irregular (fora de jogo) e que o terceiro resultou da sorte de um desvio da bola num adversário. Ou que o decisivo primeiro dos 5 golos aos espanhóis surgiu logo no início da segunda parte, mas, mesmo assim, já depois de o adversário ter falhado a oportunidade de fazer o dois a zero, e através de um penalti inexistente! E que logo a seguir veio o 2-1, que levou os espanhóis a partir para a frente com pouca cabeça…

Mas a crença é como o futebol: é isto mesmo!

 

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