Donald Trump amanheceu ontem em Israel para, no Knesset (Parlamento), anunciar uma nova alvorada para o Médio Oriente - ”o sol nasce numa terra sagrada que está finalmente em paz” -, e declarar o fim da guerra - "o fim de uma guerra, o fim de uma era de terror e morte, o início de uma era de fé, esperança e Deus".
Daí seguiu para o Egipto para reunir em Sharm el-Sheikh, numa cimeira organizada à pressa com o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi para - sem governantes israelitas (claro que Trump convidou Netanyahu, foi Erdogan, e não o feriado do último dia da Festa dos Tabernáculos, que impediu a sua presença), nem dirigentes do Hamas, as partes actualmente em conflito - juntar mais de 20 líderes mundiais (entre os quais Guterres e António Costa) para ratificarem o "seu" plano de paz.
Que tem o mérito - que não é pouco, nesta altura - do cessar fogo, de interromper a chacina, da libertação dos reféns israelitas, e dos prisioneiros palestinianos, e de abrir as portas de Gaza à ajuda humanitária internacional. Mas que está muito longe de ser "o fim de uma era de terror e morte". Mesmo de uma nova alvorada para o Médio Oriente. E, apostaria até, de valer de alguma coisa daqui por um ano, quando for anunciado o novo Nobel da Paz.
Se tivesse sido o José Rodrigues dos Santos a apresentar ontem o tele-jornal tê-lo-ia certamente aberto com ... "foram todos presos". Não podendo repetir o célebre "morreram todos", a que provavelmente acharia muito mais piada, não evitaria certamente o impactante "todos presos" para abrir a notícia da noite: a intercepção pela marinha israelita das embarcações da Flotilha, a 120 quilómetros de Gaza, e a detenção dos activistas envolvidos nesta missão de romper com o bloqueio israelita a Gaza; ou, noutra forma de dar a notícia, o ataque israelita à Global Sumud Flotilla, com sequestro dos tripulantes; ou, ainda, o ponto final que os militares israelitas colocaram na brincadeira, depois de esperarem, com a maior das paciências, que aqueles meninos mimados e provocadores tivessem o bom senso de virar para trás antes de entrarem nas suas águas territoriais.
Sim, porque é assim que as coisas hoje se passam. Nada é o que é, e tudo só é o que cada um faz do que é.
Nada é decisivo e absoluto. Nada é preto. Nem nada é branco. Tudo é costumizado, à medida. E às medidas de cada ponto de vista, atrás dos quais se cavam trincheiras onde vale tudo!
Há sempre duas partes em qualquer conflito ... de ideias. No outros há muitas vezes mais.
Há um lado, e o outro. Há sempre a contra-parte. Isso já é assim em tudo.
O debate sério não é parcial. Mas também não é sério o debate que relativa o bem ou do mal pela evocação da outra parte. Há bem e mal absoluto. E pode havê-lo num ou noutro lado. O mals nunca é relativizável, é sempre absoluto. O mal de um lado, não deixa de ser mal por haver outro mal no outro.
Vem isto a propósito do drama humanitário que continua a acontecer em Gaza, aos olhos de toda a Humanidade, mas sempre com gente disponível para o ... "mas olha que" ...
Lêmo-los e ouvimo-los todos os dias. Neste fim-de-semana, num longo desfile do "mas olha que", no Expresso, o Henrique Raposo escreve que "Quando ouvimos as declarações da Ucrânia e de Zelensky, há uma parte que é sempre cortada: os elogios a Israel, porque Telavive ajuda Kiev quando ataca a capacidade militar do Irão".
Não esperava que o "mas olha que" pudesse chegar a tanta hipocrisia. Menos ainda de gente tida por inteligente, democrata e moderada. Mas é a velha história do escorpião - está-lhe na massa do sangue!
O genocídio que Nethanyahu está a levar a cabo em Gaza está a assumir proporções inimagináveis. Nunca a perversidade criminosa chegara tão longe.
Nethanyahu é um assassino facínora, que age agora contra seres humanos como um caçador predador, à margem de todas as regras da caça. Primeiro impediu durante meses a ajuda internacional. Depois criou - com Trump - a "Fundação Humanitária de Gaza", e passou a controlar ele próprio todo o processo de ajuda humanitária para, finalmente, utilizar a ajuda alimentar como armadilha mortal.
Com os olhos do mundo fechados, a não quererem ver. Com a Europa a fingir que não ouve, nem vê. E com Portugal servilmente a continuar a ignorar ...
Foi hoje criada uma petição para o governo português reconhecer o Estado Palestiniano. Subscrevê-la é uma pequena contribuição para que Portugal deixe de ignorar. Vamos a isso!
Israel é um país do médio oriente, no continente asiático, que se localiza ao longo da costa oriental do Mediterrâneo, e faz fronteira com o Líbano (a Norte), a Síria (a Nordeste), a Jordânia e a Cisjordânia (a leste), o Egipto e a Faixa de Gaza (a Sudoeste). A Sul tem também uma fronteira marítima, com o Mar Vermelho.
Não importa agora por que razões, nem a velha relação promiscua entre a política e as instituições do futebol, FIFA e a UEFA decidiram que Israel era um país europeu. Os seus clubes de futebol disputam as competições da UEFA, e a sua selecção nacional compete no quadro das competições da FIFA e da UEFA na Europa.
Ontem disputou-se em Amesterdão um jogo de futebol entre o Ajax e o Maccabi - Telaviv, a contar para a quarta jornada da Liga Europa. Os adeptos israelitas foram vistos a retirar bandeiras palestinianas de janelas de casas particulares, e vistos e ouvidos, no estádio e pelas ruas, em cânticos inaceitáveis contra os palestinianos, e os árabes em geral. Entre eles cantavam que "não há escolas em Gaza, porque não há crianças em Gaza".
Há muita gente na Europa - por mim espero que seja uma grande maioria, mas só isso - que acha que a matança de Nethanyahu em Gaza não é tolerável. E que por isso aproveitará a presença de equipas israelitas para manifestar que a opinião pública europeia, ao contrário dos seus representantes políticos, não se limita a assobiar para o lado enquanto Nethanyahu mata e destrói tudo à volta. Protesta e revolta-se contra isso!
O confronto entre uns e outros era inevitável, e houve pancadaria. Da grossa. Mas que os palestinianos de Gaza mediriam certamente por uma brincadeira.
A Presidente da Câmara de Amesterdão, lamentando os confrontos, referiu essa inevitabilidade a partir das provocações dos adeptos israelitas. O primeiro-ministro Dick Schoof, declarou-se "horrorizado pelos ataques anti-semitas contra cidadãos israelitas". E apressou-se a ligar a Netanyahu, garantindo-lhe que "os responsáveis vão ser identificados e julgados". O Rei, Guilherme Alexandre, também lhe ligou, a expressar-lhe “horror profundo". Disse até que "falhámos para com a comunidade judaica neerlandesa na Segunda Guerra Mundial, e na noite passada voltamos a falhar”!
O chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, também só viu violência em Amesterdão contra os adeptos israelitas, e uma "inaceitável manifestação de anti-semitismo ou racismo”. Tal e qual o governo português, com Paulo Rangel a condenar "veementemente os actos de violência contra cidadãos israelitas" em Amesterdão. E, claro, também o anti-semitismo.
Era isto só que queria dizer .... É isto a hipocrisia, não é preciso dizer muito mais!
O ataque de ontem ao Hospital Batista Al-Ahli, em Gaza, roubando de imediato a vida a cerca de quinhentas pessoas, é a perversão da guerra. É ultrapassar os limites da estupidez, da brutalidade e a hipocrisia na guerra.
Não é novidade que nas maiores monstruosidades da(s) guerra(s) as partes se acusem reciprocamente, como o fazem o governo de Netanyahu e os terroristas do Hamas. É assim há muito tempo, e é assim em todas as guerras. Vem nos manuais.
O que talvez seja novidade é a forma como a água e o azeite se misturam desta vez. Sabe-se que a verdade se comportará sempre como o azeite. Por mais que agitem a mistura, como parece que Biden ajudou hoje de fazer na sua visita a Israel.
Ésquilo, há milhares de anos, na antiga Grécia, também deu uma ajuda ao declarar a verdade como a primeira vítima da guerra.
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