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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Gil Vicente 1 - Benfica 2

O Benfica vai chegar ao clássico a sete pontos do FC Porto e a três do Sporting

À 24º jornada do campeonato, antes da recepção ao Porto, no próximo domingo, o Benfica deslocou-se a Barcelos para disputar, num campo esgotado (mais de 11 mil nas bancadas) e cheio de adeptos benfiquistas, com o excelente Gil Vicente, de César Peixoto, uma partida de elevado grau de dificuldade. Pelo que tem sido o desempenho do Gil na competição, mas também o do Benfica. Que, em vésperas do penúltimo clássico, e a sete pontos de distância do primeiro lugar, está proibido de perder mais pontos.

O jogo confirmou as dificuldades esperadas, com o Gil a a tomar a iniciativa do jogo e a superiorizar-se no primeiro quarto de hora de cada parte do jogo. No resto defendeu, como pôde.

Curiosamente o jogo acaba por se poder dividir em quartos de hora. E tem seis!

O primeiro quarto de hora foi de domínio da equipa de César Peixoto, a partir de uma forte pressão alta que entupiu o futebol de um Benfica lento, indefinido e obrigado ao lançamento longo. O Benfica até tinha mais bola, mas em posições muito recuadas do campo. Sempre que o Gil recuperava a bola saía rapidamente para o contra-ataque ... e rematava. Os quatro remates que figuravam nas estatísticas da primeira parte vêm desse primeiro quarto de hora.

À entrada do segundo quarto de hora já o Benfica se começara a libertar da teia gilista e, mais ainda que a equilibrar o jogo, a controlá-lo. E logrou, logo ao primeiro remate, já aos 18 minutos, a primeira grande oportunidade de golo do jogo, num remate de Rafa (a comemorar os 300 jogos no campeonato nacional) defendido por instinto por Lucão, o guarda-redes, com os pés.

É certo que o Gil Vicente continuava a condicionar o jogo do Benfica, que não conseguia fazer a bola chegar em condições a Rafa e Pavlidis. Mas o controlo do jogo era já claramente da equipa que hoje vestia de branco.

Quando a primeira parte entrou no último quarto de hora já o Benfica tinha passado do controlo ao domínio completo do jogo. Foi como se tivesse aberto o frasco ketchup dos remates, e das ocasiões de golo. Quando António Silva marcou - mas que também poderia ter sido Pavlidis -, aos 35 minutos, já Dahl rematara e poderia ter marcado. Já o conhecido (dois pontos em Braga, com o golo anulado) João Gonçalves (via verde para os jogadores do Gil, e sinal amarelo para os do Benfica, durante todo o jogo), o árbitro, e o conhecidíssimo Tiago Martins, o VAR, tinham deixado passar um penálti por marcar. E já um defesa do Gil tinha desviado da baliza o remate, de cabeça, de Schjelderup, provocando o canto que acabaria no golo.

O golo não interrompeu o melhor período do Benfica no jogo, que se prolongou até ao intervalo. E que só não deu outra expressão ao resultado porque Pavlidis está divorciado dos golos. Logo a seguir atirou à barra da baliza do Lucão.

Ao intervalo, o Benfica - que tinha mais bola, o dobro dos remates, e com quatro claras oportunidades de golo - justificava resultado mais amplo. E tranquilo.

O Gil Vicente - que ao intervalo também perdia com o Sporting e com o Braga - tentou recuperar  a entrada inicial para a segunda parte. Não se sabe se o conseguiria porque o Benfica, desconcentrado, ofereceu-lhe o empate praticamente de imediato.

Creio que o problema foi Mourinho não ter substituído Aursnes, preso por arames, como se percebia, ao intervalo. Logo no arranque da segunda parte, quando o adversário reagia claramente à desvantagem, o médio norueguês sentou-se no relvado. Estava a ser substituído pelo Enzo Barrenechea quando os jogadores do Gil Vicente, no lançamento lateral, repuseram rapidamente a bola em jogo, com os do Benfica a dormir. Todos, desde que a bola foi lançada até entrar devagarinho na baliza de Trubin, em posição caricata.

Inaceitável em contexto profissional. Seria lance para os apanhados, se não fosse demasiado sério e grave!

O Gil Vicente vinha programado para aquela reacção. O golo tinha sido um bónus, não havia por que não continuar. E repetiu-se o primeiro quarto de hora do jogo, só que, desta vez, com uma ou duas oportunidades que poderiam ter acabado em golo. 

Já o Benfica, mesmo voltando a pegar no jogo a partir do fim do primeiro quarto de hora, não conseguiu exactamente repetir a primeira parte. Assumiu o comando do jogo ainda antes das substituições (Barreiro, pouco influente, por Rios, e o regressado, e inconsequente Prestianni, por Lukebakio), a meio da segunda parte, e sem grande resultado. E marcou à segunda oportunidade, depois de mais um falhanço clamoroso de Pavlidis em cima da linha de golo, num golaço de Schjelderup (o melhor em campo, ele que até começou o jogo bastante mal), pouco antes de se fechar o segundo quarto de hora, e quinto do jogo.

O último quarto de hora, com mais os 4 minutos de tempo extra, foi passado com o Gil tentou a tentar voltar a chegar ao empate - tentativa esgotada no remate de ressaca, bem de fora da área, do central Konan, para uma boa defesa de Trubin -, e o Benfica a tentar segurar o resultado.

No fim, a inédita quarta vitória consecutiva no campeonato real, num triunfo complicado e sem grande brilho. Mas merecido e justo, sem penáltis fantasmas, como o que o tal Iancu Vasilica, na sexta-feira, no Dragão, deu a vitória, e mais dois "virtuais" pontos ao Porto, para o campeonato real.

 

Benfica 2 - Gil Vicente 1

Durante um mês e meio o Benfica teve sempre um jogo a menos que os adversários do campeonato. Hoje, chega ao final do dia com mais um. Como também tem bastantes mais - mais cinco - nas outras competições, os jogadores estão com uma sobrecarga bem maior que a dos adversários. Como não tiveram férias, nem pré-época, a desvantagem competitiva aumenta. Como as coisas correram mal, e tiveram de mudar de treinador, as dificuldades aumentam ainda mais um bocado. Como a carga competitiva não deixa tempo para treinar, a ponte de um treinador para o outro fica mais difícil de fazer, a cabeça fica mais pesada e, com pernas e cabeça pesadas, os jogadores não conseguem jogar.

Parece-me que é mais ou menos isto que marca o momento do Benfica. E é à luz deste momento que tem de se analisar a prestação da equipa, esta noite, na Luz, perante o Gil Vicente. Que não é uma equipa qualquer, é uma das que, até agora, melhor futebol pratica em Portugal. Como mostrou em todos os jogos que já disputou, incluindo no único que havia perdido, com o Porto, logo nas primeiras jornadas.

Foi preciso este jogo com o Gil Vicente para que todos percebêssemos a realidade actual do Benfica.  Até aqui havia a ideia que a equipa tinha dificuldades contra equipas que estacionavam o autocarro à frente da baliza. Que o problema era não ter soluções para enfrentar essas equipas que defendem em bloco baixo, que fazem anti-jogo durante todo o tempo. Os jogos com o Santa Clara e, mais ainda, o último, com o Rio Ave, alimentavam essa ideia. 

Hoje, o Gil Vicente mostrou que, jogando abertamente à bola, olhos nos olhos, colocou ao Benfica muito mais problemas que os outros adversários, que só defenderam. E deixou a nu que, também para esses, o Benfica não tem solução. Não porque não tenha, mas porque não consegue ter.

O Gil Vicente, de César Peixoto, foi melhor durante os mais de 100 minutos que a partida durou. Jogou muito melhor futebol, criou muitas mais oportunidades de golo - mais do dobro das do Benfica -, teve mais posse de bola (51%), mais cantos (7-0), mais remates (17-10), e mais do dobro dos remates enquadrados (9-4), para o que não contam os três que bateram nos ferros da baliza de Trubin. Nem o do golo anulado, no início da segunda parte, por 6 centímetros de fora de jogo!

Com Enzo afastado, o primeiro a atingir o quinto amarelo no campeonato (e Otamendi já vai no quarto, o que também revela muito do que por aí vai),  Mourinho puxou Aursenes para a posição de médio defensivo. Deu a primeira titularidade a Lukebakio, na direita, antes do norueguês e, com  Schjelderup na esquerda, deixava a equipa com asas para voar. Só que foi a equipa de César Peixoto a começar a voar, logo no pontapé de saída, com Trubin a impedir o golo por duas vezes no mesmo lance.

Não marcou aí, marcou logo a seguir, aos 10 minutos, num livre directo bem cobrado pelo maestro da equipa, Luís Esteves, mas ferido de ilegalidade. É que o lance nasce de uma falta, grosseira até, sobre o António Silva que João Gonçalves, mais um habilidoso árbitro do Porto, não assinalou. 

O Benfica reagiu, especialmente por Lukebakio. Mesmo sem ser melhor, a equipa reagiu e, em quinze minutos, fechou o resultado, com dois golos de Pavlidis. O primeiro numa jogada de insistência, ao segundo remate. O terceiro na conversão de um penálti, depois de uma recepção de enorme classe de Lukebakio, após um grande passe de Otamendi, pouco passava de meio da primeira parte.

Na segunda parte o domínio dos gilistas acentuou-se ainda mais. A equipa grande foi sempre a de César Peixoto. A de Mourinho defendia. E passava a queimar tempo, logo a partir dos 80 minutos, o que serviu de pretexto a João Gonçalves para mais um amarelo a Richard Rios.

Podendo continuar a queixar-se da arbitragem, desta vez o Benfica não se pode queixar da sorte!

Onda vermelha

O Benfica deslocou-se esta noite a Barcelos para disputar o jogo da 24ª jornada e, às portas da 27ª, em que jogará na Luz com o Farense, pôr o calendário em dia. 

Depois da interrupção para as selecções, as chamadas datas FIFA, o Benfica regressou ao mesmo alto nível, como se nada tivesse sido interrompido. A onda vermelha lá esteve, imparável, a garantir que, por ela, o 39 não irá fugir.

Em relação ao último jogo, no onze inicial, apenas Belotti era novidade. Justificava-se: tinha sido dos poucos a permanecer no Seixal, a trabalhar com a equipa; Pavlidis tinha feito dois jogos pela selecção grega, e tinha acabado de regressar. Nos restantes 10, tudo igual. Incluindo Otamendi, que ainda há dois dias estava na Argentina a jogar contra a selecção do Brasil. A jogar e a cilindrar.

Jogou como se tivesse 20 anos, e viesse de duas semanas de descanso. Um monstro competitivo!

O Benfica entrou a mandar no jogo, sem permitir nada ao Gil Vicente, e poderia ter marcado logo aos dois minutos, numa excelente jogada concluída por Aursenes. Também ele desde cedo a querer vincar a sua exibição. A equipa entrou determinada e confiante, dominando a posse de bola, explanando um futebol intenso e variado, a um a dois toques, que levantava grandes dificuldades aos gilistas, claramente incapazes de acompanhar o ritmo que o Benfica impunha ao jogo.

Foi assim toda a primeira parte. Como habitualmente este futebol bonito, variado e intenso não teve correspondência em golos. Rendeu apenas um, de Aursenes, a concluir mais uma excelente jogada de futebol, e uma grande assistência de Bruma, ia a primeira parte a meio.

Desta vez, ao contrário do que tem sido comum, nem sequer se tratou de um extraordinário nível de desaproveitamento. Nem se pode dizer que o grande volume de futebol ofensivo do Benfica tenha produzido uma grande quantidade de oportunidades de golo. Nos últimos jogos em todas as primeiras partes, com um mínimo coeficiente de aproveitamento, o Benfica poderia ter deixado os jogos resolvidos. Neste jogo, na verdade, toda aquela avalanche de futebol desembocou em apenas três oportunidades claras de golo.

Se é indiscutível que o Benfica jogou bem, mesmo muito bem, as apenas três oportunidades de golo revelam que o Gil Vicente, pelo menos a defender, não esteve assim tão mal ... como o Sérgio Peixoto quis fazer crer. Também não colhe a falta de agressividade de que acusou os seus jogadores, referindo que a sua equipa cometeu metade das faltas do Benfica. 

É que, enquanto o árbitro Miguel Nogueira apitava a tudo contra o Benfica - de faltas inventadas até  faltas ao contrário - para apitar uma falta aos gilistas era o cabo dos trabalhos. Era preciso quase ser crime. Daí que tivessem praticamente o mesmo número de faltas e cartões amarelos.

Na segunda parte o ritmo do jogo caiu. Com o segundo golo logo aos cinco minutos - livre bem cobrado por Kokçu, com António Silva (exibição tranquila e personalizada) a desviar ao segundo poste para a entrada fulgurante de Belotti, tudo de cabeça - e com o início das substituições a quebrarem o ritmo, o jogo passou por um período de menor fulgor. Retomado no último quarto de hora, já depois das substituições, e já com Di Maria e Pavlidis em campo (antes, logo a seguir ao golo, tinham entrado Akturkoglu e Dahl, este para o lugar de Tomás Araújo, que continua com dificuldades físicas).

O resultado acabaria ganhar expressão condizente com a exibição com o terceiro golo, do regressado Di Maria, já mesmo no fim do período de compensação. De penálti, magistralmente convertido, e cometido sobre ele próprio.

Agora, que tudo está igual, é seguir assim. Sem margem de erro, e sem margem para dúvidas, à boleia da onda vermelha.

Festa do jogo

De novo na Luz, de novo cheia que nem um ovo, de novo o "novo" Benfica de Bruno Lage entrou a perder. Ainda se não tinha percebido - nem nada perto disso - o que o jogo tinha para dar  e já Gil Vicente marcava, logo na primeira vez que chegava à baliza de Trubin. Ia o jogo com 8 minutos!

Nada de novo. Já assim tinha acontecido no último jogo na Catedral, o primeiro de Lage. Como já tanta vez tem acontecido. O Benfica - a equipa e os quase 60 mil nas bancadas - não se deixou abater, e partiu à procura da reviravolta. O que foi novidade foi, à medida que o jogo ia prosseguindo, perceber que nada disso - o golo prematuro do Gil e a reacção pronta do Benfica - dava ao jogo um sentido único.

Surpreendentemente a equipa de Barcelos dividia o jogo com o Benfica. Que, surpresa ou não, pagou com a mesma moeda: não foi à primeira vez que chegou à baliza adversária - pelo contrário, foi até no quarto canto conquistado - mas marcou na primeira oportunidade, menos de 10 minutos depois. Foi de novo um golo de canto, a novidade da era Lage. E foi o primeiro de Otamendi nesta época. Mais importante foi ter sido a resposta do capitão à sua própria responsabilidade no golo sofrido, nove minutos antes. 

Com o Gil a continuar a dividir o jogo e a praticar futebol de qualidade, melhor mesmo só consumar a reviravolta à segunda oportunidade. Foi o que aconteceu apenas oito minutos depois e a meio da primeira parte, quando Kerem Aktürkoglu respondeu de cabeça a um grande cruzamento de Aursenes. A meio da primeira parte três golos, em três oportunidades. Só depois houve tempo para desperdícios, ainda assim poucos: dois para o Benfica; um para o Gil. 

O Benfica veio para a segunda parte decidido a acabar com o atrevimento do adversário. No primeira metade demonstrou-o claramente, assumindo o domínio do jogo, sufocando mesmo, e criando sucessivas oportunidades de golo. Pouco antes do meio da segunda parte Andrew, o guarda-redes do Gil, provocou uma paragem no jogo para ganhar ar e quebrar o sufoco. E resultou!

O Gil voltou a ter bola, e a jogá-la bem. À entrada do último quarto de hora sentia-se que as bancadas tinham sido invadidas pelo receio. O Benfica não aproveitara aqueles 20 minutos de absoluta superioridade, o resultado estava em aberto, e o Gil já voltara ao registo da primeira parte. Bruno Lage já tinha mexido na equipa - fora mesmo o primeiro a fazê-lo - com a entrada de uma assentada de Cabral, Rollheiser e Amdouni (saídas de Pavlidis, Koçu e Aktürkoglu), mas nem isso tranquilizava as bancadas da Luz.

A equipa consegue dominar os jogos. Mas quando não tira proveito disso, e o resultado continua em aberto, tem evidentes dificuldades na altura de o controlar. Já se tinha percebido, e aqueles minutos confirmavam que esse é, para já, um problema que Bruno Lage tem para resolver.

Desta vez tudo acabou em bem - e até na maior goleada da época - porque Amdouni acabou com "o galo" dos ferros, e arrancou um grande golo, no momento certo. Foi como o ketchup, e os golos soltaram-se a partir daí. Florentino marcou o quarto, decalcado do que fizera da última vez na Luz - canto ao primeiro poste, desvio de Otamendi e finalização do médio, quase a meias com Cabral.

Antes, naquela dúzia de minutos que mediou entre o terceiro e o quarto golo, já mais umas tantas oportunidades de voltar a marcar tinham ficado para trás. Ao todo foram onze!

Depois, já na compensação, acabado de entrar, Prestiani (parece a perder espaço nesta configuração de Bruno Lage) assistiu o compatriota Rollheiser para o quinto da noite. Acabando em festa um jogo que foi isso mesmo - uma festa.

De que o Gil fez parte. E não foi por ser o bombo! 

 

Na frente, sem dogmas!

Assistimos hoje, na Luz, a um belíssimo espectáculo de futebol. Começo exactamente por aí, pelo lado do espectáculo, a que nem sempre se dá o devido destaque. 

Foi um jogo aberto, em que quer o Benfica, quer o Gil Vicente, se preocuparam unicamente em jogar à bola. Deveria ser sempre assim, mas bem sabemos que não é. As equipas preocupam-se sempre mais com o resultado do que com a exibição. Mais em destruir, que em construir. Em simular faltas, e queimar tempo, que em disputar o jogo.

Bem sei que há nisto muito de romantismo, e que, hoje, o futebol não é nada disso. Mas continua a ser bonito ver um jogo de futebol em que as equipas em confronto são leais, jogam o jogo, e deixam de lado as manhas que matam o espectáculo.

Foi neste "cenário macro" que aconteceu este Benfica-Gil Vicente da vigésima jornada do campeonato. O Benfica não precisou de fazer uma exibição deslumbrante para ser parte activa, e protagonista principal, deste belo espectáculo de futebol. Entrou em campo com duas caras novas no onze titular mas, na realidade, com três alterações na equipa: Florentino e Bah, foram as caras novas; Aursenes, libertado do lado direito da defesa pela inclusão, mais de três meses depois, do regressado Bah, foi a terceira, com o regresso à ala esquerda, há muito ocupada por João Mário.

Quer dizer que, de fora, ficaram (precisamente) João Mário e Kokçu. Dois jogadores discutidos: o primeiro, pelas razões de sempre; o segundo por razões de posicionamento no campo. Dois jogadores tidos por "pendurados" nos  "dogmas" de Schmidt.  

Não sei - ninguém saberá - se os dogmas deixaram de o ser. Sabe-se - vê-se claramente - que Florentino faz melhor o que Schmidt pretende que Kokçu faça na "posição 6". Sabe-se que "o 10" é "um 10", e não "um 6". E sabe-se - melhor, imagina-se - que, para Kokçu jogar lá na frente, só o poderá fazer na vez de Rafa. Que não é um "dogma", é a realidade do melhor que a equipa tem.

Na verdade os "dogmas" dos treinadores são o que são. E, por muito bom que Kokçu seja "a 10", não há forma de prescindir de Rafa ... enquanto ele por cá estiver. Tal como, por muito que Schmidt aprecie o futebol de João Mário, preferirá sempre Aursenes para aquela função na esquerda.

A insistência em Morato no lado esquerdo da defesa é outro dos "dogmas" que este jogo de hoje desfez. É sempre mais fácil enfrentar os dogmas quando as coisas correm bem. Bastaram os pouco mais de vinte minutos em campo para Álvaro Fernandez confirmar que, finalmente, o Benfica tem um lateral esquerdo. Não é (ainda?) Grimaldo, mas deixou claro que Morato (não deve ser alvo de ingratidão) terá de ter as suas oportunidades mas no seu lugar de central.

A quebra destes "dogmas",  evidentemente que pelas opções agora disponíveis, junto com o fim das indefinições na posição 9, com a estabilização da aposta em Cabral, dão uma nova estabilidade à equipa. Tudo isto somado com a liderança, mesmo que à custa do adiamento do jogo do Sporting em Famalicão por falta (protestos) de polícia, dão um novo alento ao Benfica para atacar esta fase decisiva do campeonato.

O resto foi o jogo. Bom, como já foi referido. E que o Benfica dominou por completo, garantindo que nas bancadas da Luz se vivessem 90 minutos de festa, sem qualquer espécie de sobressaltos. Não precisou de rematar muito - foi o jogo com menos remates na Luz, apenas dez - nem de uma rara e extraordinária eficácia para construir o 3-0 final. Precisou apenas de jogar bem, e de marcar nos momentos certos: aos 15 minutos, num cabeceamento de Cabral, no canto cobrado por Di Maria; aos 35, igualmente na sequência de um canto, mas com notável trabalho do inesgotável João Neves, ao segundo poste; e de Rafa, logo no arranque da segunda parte, em mais um grande remate, a concluir uma das melhores jogadas do desafio.

E foi o minuto 29, de comovente homenagem a Feher, por acaso numa altura do jogo em que o Gil Vicente, que nunca abdicou de jogar à bola, mais procurava ameaçar a superioridade benfiquista. Mesmo que apenas a cinco minutos do fim tenha obrigado Trubin à sua única defesa. De grande qualidade, a garantir a folha limpa. 

A normalização da bipolaridade

É sempre tida por difícil, esta deslocação a Barcelos. É assim, ano após ano, em todas as épocas. Mas, de forma também mais ou menos invariável, chega quase sempre a tornar-se fácil. Mais ou menos fácil.

Ontem não foi diferente. Mas também não foi diferente a forma como o Benfica tornou difícil o que era fácil. Com um onze que não se pode classificar de surpreendente - Roger Schemidt está mesmo muito previsível -, com Aursenes a manter-se lateral esquerdo, atrás de João Mário, com Neres no banco, e Florentino atrás de Kokçu no meio campo, e Cabral lá mais na frente, o jogo arrancou nos moldes que já se podem dizer habituais neste arranque de campeonato, com o Gil a pressionar alto, a discutir todas as bolas e até a manifestar algum ascendente com bola. São os já habituais 10 minutos iniciais. Tem sido sempre assim.

A partir daí, igualmente "comme d´habitude", o Benfica começa a acertar marcações e posicionamentos e o seu futebol começa a brotar e vai enchendo o relvado. E o golo aparece, com naturalidade. Ontem aconteceu ainda antes de esgotada a metade inicial da primeira parte, num penálti cometido sobre João Mário, e convertido com aquele toque de classe extra de Di Maria, já a equipa dominava amplamente o jogo.

Chegado ao golo o Benfica não abrandou, e submeteu a equipa gilista a autêntica asfixia. Pôde então assistir-se a algo nunca visto num jogo de futebol, a anunciar o que aí vinha ... e o que aí virá. João Pinheiro, o árbitro, que na altura já havia ignorado duas entradas sobre Rafa que ditariam a segundo amarelo a dois jogadores gilistas -Dominguez e Marlon (que cometera a falta do penálti), no mais prolongado período de sufoco benfiquista, decide parar o jogo à espera de uma suposta intervenção do VAR. A jogada tinha terminado com um remate de Cabral ao lado, sem que se vislumbrasse qualquer tipo de anormalidade em todo o lance. As repetições da Sport TV, esta época ainda mais adversário, quando lhe compete apenas transmitir os jogos, sucediam-se, e confirmavam isso mesmo. Nada, como toda a gente tinha visto, e apenas um "time-out" de bónus que João Pinheiro queria oferecer ao Gil Vicente naquele período difícil por que passava.

E foi com o Benfica a criar e a desperdiçar oportunidades de golo, e João Pinheiro a poupar amarelos aos de Barcelos, que o jogo seguiu até ao intervalo. No último lance da primeira parte o Gil fez então o seu único remate à baliza do Samuel Soares, que se mantém na baliza, como Vlachodimos se mantém de fora.

Ao intervalo, a equipa de Barcelos tinha de agradecer dois milagres: aos deuses do futebol, o do escasso 0-1 que lhes mantinha o resultado do jogo em aberto e, a João Pinheiro, o de poderem disputar a segunda parte com 11 jogadores.

Mercê destes dois autênticos milagres o Gil mantinha-se vivo para a segunda parte. E entrou mais afoito, mais adiantado no terreno, mas rapidamente o Benfica voltou a pegar no jogo, e a dominá-lo. Mas apenas à terceira oportunidade voltou a marcar, ainda dentro dos primeiros 10 minutos, quando Rafa concluiu em golo mais uma bela jogada de futebol, provavelmente a mais bonita do jogo. Claramente por cima do jogo, com 2-0, tudo indicava que o Benfica iria ter um resto de jogo tranquilo. Esperava-se o terceiro golo a todo o momento. Que chegou pouco mais de 5 minutos depois, mas anulado por fora de jogo, bem assinalado a Rafa.

E vieram as substituições. Roger Schemidt fez entrar Neres, aclamado pela multidão benfiquista que enchia o Estádio, e Tengsted. As substituições que tinham resolvido o jogo com Estrela, desta vez, em circunstâncias diferentes, não tiveram o mesmo resultado. E Vítor Campelo fez três substituições de uma assentada, que mexeram claramente com a equipa. O Benfica começou a perder o controlo do jogo, e a mostrar a falta de consistência que vem sendo habitual, que faz com que seja capaz do melhor e do pior durante o mesmo jogo. À entrada para o último quarto de hora, no meio de três jogadores do Benfica, na meia lua, Touré, acabado de entrar, marcou. E em vez de uma tranquila goleada o resultado ficava no intraquilo 2-1, e o jogo num sobressalto. Schemidt tirou Florentino e Kokçu, amarelados, substituindo-os por João Neves e Chiquinho.

A ausência do "polvo" e a intranquilidade de Chiquinho afundavam o meio campo benfiquista. Mais uma vez as substituições não funcionavam. Valeu a última, com Musa a entrar para substituir Rafa, e a marcar na primeira vez que tocou na bola, já no período de compensação. O 3-1 arrumava definitivamente com o jogo. Com poucos minutos para jogar, e dois golos de vantagem, a vitória já não fugiria. 

Não fugiu, é certo. Mas o Benfica ainda viria a consentir mais um golo de forma absolutamente intolerável. E a acabar com o "coração nas mãos" um jogo que fora fácil, que poderia ter acabado em goleada, e que voltou a mostrar a montanha que o Benfica tem peloa frente para conquistar este campeonato. É certo que a equipa continua a mostrar-se capaz do melhor e do pior no jogo, mas não é menos certo que tudo o que rodeia o jogo está armadilhado.

E não são apenas as arbitragens. É tudo. Por exemplo, ao intervalo, a Sport TV não teve vergonha de, nas estatísticas da primeira parte, apresentar uma oportunidade de golo para cada lado. Do que se passa todos os dias nas televisões nem vale a pena falar. Tudo é "caso" no Benfica. Tudo é épico no Sporting. E tudo é normal no Porto.

É tudo normal na transferência do Octávio, com o comprador a desembolsar 60 milhões, quando duas semanas antes o poderia ter feito por 40; com um banco de Minas Gerais a abdicar da sua parte no passe; e com o empresário a abdicar da comissão da transferência. E é normal e comum que um jogador como João Moutinho tenha sido contratado, anunciado e apresentado para, depois, acabar no Braga. Como normal é, ainda e também, que, depois de ter roído a corda do acordo inicial com o Braga jogar jogar no Porto, João Moutinho acabe recebido de braços abertos por António Salvador.

 

Prometedor

Benfica vence em Barcelos com dois golos na reta final

Sabe-se que, chegados aqui, nesta ponta final do campeonato todos os jogos são difíceis. O desta noite, em Barcelos, era, já por isso, difícil. Acrescia que o Minho, esta época, se tinha transformado em maldição. A qualidade do Gil Vicente e, hoje mais ainda, a motivação dos seus jogadores para este jogo.

Aqui chegados, sem margem de erro, o Benfica tem de entrar nestes jogos para os resolver o mais cedo possível, de forma a evitar que a ansiedade tome conta dos jogadores (e dos adeptos), e alimente ainda mais a motivação dos adversários. E começou logo por dar sinais dessa vontade, impondo o seu habitual plano de futebol. O tal para que Roger Schemidt não tem alternativa. O tal plano B que não tem.

As coisas saíam bem, a bola circulava certinha, e ia ficando a ideia que tendo, a bola, e tratando-a tão bem, tudo se encaminhava para que o jogo se começasse a resolver cedo, como era imperativo. Percebeu-se que não era bem isso que estava a acontecer quando, aos 10 minutos, o Gil Vicente fez o primeiro remate do jogo. E depois fez o segundo, e o terceiro...

Chegou a primeira parte a meio, e o Benfica sem conseguir rematar à baliza. Havia sempre mais uma perna à frente da bola, sempre mais um corte no limite, na hora de rematar. E assim não se resolvem jogos. 

A partir daí, do meio da primeira parte, começou então a surgir um ou outro remate. E a bola até começou a entrar na baliza do Andrew, o tal guarda-redes que o Porto pretende a todo custo contratar. Ou pretendia, até hoje...

Só que sem contar, em ambas as vezes por fora de jogo, bem assinalados. De resto essa foi uma das habilidades de Fábio Veríssimo, e da sua equipa. Se o fora de jogo não lhes deixava dúvidas, deixavam concluir a jogada, e assinalavam-no depois, cumprindo a lei. Se lhes deixava dúvidas - já para não dizer que tinham a certeza que não existia - assinalavam de imediato. Incumprindo a lei, e matando a jogada à nascença, não fosse ela acabar em golo, que o VAR teria de validar.

E começaram finalmente a surgir oportunidades de golo. Umas falhadas - Neres, João Mário e Grimaldo, finalmente alguém a perceber que também se pode rematar fora da área  -, outras anuladas por defesas do guarda-redes gilista, capazes de deixar o Diogo Costa com insónias. Só no mesmo minuto (44) tirou o golo a Florentino e a Neres, com duas grandes defesas.

A velocidade do jogo do Benfica não era a maior, nem a última decisão a melhor, mas o Benfica dominava claramente o jogo. Mas não tinha o adversário dominado, que alternava a defesa porfiada com toda a gente lá atrás, com uma pressão alta eficaz e perturbadora, cada vez mais confiante, e capaz de espalhar o sofrimento pelos adeptos do Benfica, que voltaram a dizer presente, esgotando o Cidade de Barcelos.

Esperavam-se alterações para a segunda parte, mas Roger Schemidt voltou a não ter pressa, e deixou a equipa na mesma. O primeiro quarto de hora foi uma cópia da primeira parte, com as mesmas virtudes e defeitos. E terminou com mais um remate de meia distância de Tiba, para uma boa defesa de Odysseas e, finalmente, o cartão amarelo para Carraça que, invariavelmente - até porque não tinha grande apoio na sua faixa -, recorria à falta para travar Grimaldo e quem mais lhe aparecesse pela frente.

À entrada para a última meia hora do jogo Schemidt mexeu finalmente na equipa, com a entrada de Gilberto e Gonçalo Guedes, para as saídas de Neres e João Mário. Neres tinha perdido algum fulgor, e  João Mário, decididamente longe da forma com que nos surpreendeu na maior parte da época, nunca o tinha chegado a ter. Gonçalo Guedes tinha de entrar, e substituía bem qualquer dos dois. Gilberto ... é que não lembrava ao diabo. 

Dá o que pode. Mas pode pouco. A verdade é que Aursenes, mesmo sendo pau para toda a obra, não é grande coisa como lateral direito. E não o estava a ser. Passou para o lugar de Neres, na direita, e nem foi preciso exigir mais a Gilberto do que o que ele pode, para resultar. 

Dez minutos depois, nova dupla mexida: saíram Gonçalo Ramos (o mais penalizado pela quebra da pressão alta que a equipa antes fazia, e já não faz) e Florentino. Entraram o inevitável Musa e ... Chiquinho. Voltava a não lembrar ao diabo... Só que resultou, e de imediato!

A primeira vez que tocou na bola foi para responder, com um grande remate de cabeça, na zona da marca de penálti, ao cruzamento de Aursenes, da direita. E assim marcar o golo que fez explodir de alegria o Cidade de Barcelos, repleto de benfiquistas. Outros, mais energúmenos que benfiquistas, fizeram explodir outras coisas, que certamente vão custar caro.

A 20 minutos do fim a bola entrara, finalmente. O mais difícil estava feito. O Benfica acentuou ainda mais o seu domínio, e aproximou-se do nível exibicional capaz de devolver aos jogadores a confiança de que precisam para as últimas batalhas. 

Nunca faltou tranquilidade à equipa, e o segundo golo, a cinco minutos dos 90, acabou com as dúvidas. E voltou a obrigar-nos a olhar para Fábio Veríssimo, que assinalou o penálti que Grimaldo converteu no 2-0 final. Há dois penáltis consecutivos, mas o árbitro não viu nenhum. Foi chamado pelo VAR, e acabou por marcar o segundo, por mão de um defesa do Gil, na disputa da bola com Musa. Quando, antes, o Carraça puxara o braço a Otamendi, impedindo-o de rematar para golo. E teria de ter sido esse a ser assinalado, com a consequente expulsão do jogador do Porto emprestado ao Gil Vicente.

Poderia e deveria ter sido outro o resultado, tantas as oportunidades de golo criadas e desperdiçadas. Na última, tudo foi feito como devia ter sido, mas o toque de classe de Musa acabou com a bola na barra. E na recarga Rafa - está a regressar, lenta mas seguramente - voltou a falhar. Da exibição, mais do que aquilo que na realidade foi, fica o que de prometedora teve.

A exigência dos bons hábitos

Não dá para cantar loas a esta exibição com que o Benfica cumpriu o último compromisso para o campeonato antes desta paragem para o Mundial ... do Catar. À parte aquela de Guimarães, no único jogo que até agora não saiu com a vitória, esta foi a exibição menos entusiasmante do Benfica neste campeonato. 

Não gostei. E, pelo que se viu na sua expressão ao longo do jogo, Roger Schemidt também não.

A Luz estava praticamente cheia - mais de 57 mil -  apesar da chuva. Entre eles estava o Sr Jaime Silva, que fez ontem 99 anos, e veio hoje à Luz ver o jogo, e receber o seu cartão de sócio número 1, herdado do Ti Emílio, que há pouco nos deixou. Mereciam mais, mereciam uma exibição na linha das últimas e, na mesma linha, uma vitória bem mais robusta.

O Gil Vicente chegava à Luz na condição de equipa intranquila e debilitada, mas também na da mais recente besta negra do Benfica. Aqui ganhara nos últimos dois anos. 

Os primeiros cinco minutos serviram para ver o Gil não trazia a primeira cara. A equipa surgiu tranquila e sem sinais de debilidade, bem espalhada pelo campo todo, a pressionar alto. Como este tem sido um comportamento habitual nos adversários do Benfica, não dava para perceber se aquilo era a besta negra a mostrar a cara.

Passados esses primeiros cinco minutos passou a parecer que o Gil não estava fraco e débil, mas que também não tinha cara para besta negra. O Benfica chegou ao golo, num penálti cometido sobre Rafa, assinalado pelo árbitro Manuel Oliveira - que substituíra o Paulo Costa á última da hora - e convertido por João Mário.

À segunda entrada na área, na segunda jogada bem construída, e no primeiro remate, o Benfica marcava. Os árbitros já marcam penáltis a favor do Benfica. Os quatro neste campeonato já são mais que todos os assinalados nos últimos três. Mas têm preço, os penáltis a favor do Benfica.

O deste foi pago logo oito minutos depois. A bola roçou a mão imóvel de Otamendi, vinda da cabeça de Fran Navarro, ali à queima, Manuel Oliveira assinalou penálti - o VAR permaneceu mudo e quedo - e o ponta de lança espanhol restabeleceu o empate.

Aqueles oito minutos, entre os dois penáltis, foi o único período do jogo em que o Benfica foi igual ao que tem sido, com aquele futebol de encantar, rápido,  pressionante e asfixiante. A partir daí, depois de pago o preço do penálti que parecia encaminhar as coisas para o seu rumo habitual, nunca mais o Benfica conseguiu dar continuidade ao seu habitual futebol.

Durante a primeira parte ainda conseguiu momentos desse futebol empolgante que é a sua imagem de marca. Mas nunca tiveram continuidade, eram como que solavancos aqui e ali. Um desses momentos rendeu o segundo golo, aos 36 minutos, com Gonçalo Ramos a empurrar a bola para a baliza depois do cruzamento de Neres ter ressaltado no guarda-redes do Gil.

Na segunda parte nem isso. Nem por momentos esse futebol assentou arraiais no encharcado relvado, mas sempre em bom estado, da Luz. De resto, a única semelhança entre a primeira e a segunda parte foram os piores períodos do Benfica, a entrada do Gil - mais ousado nos mesmos primeiros cinco minutos - e o oportunidade do terceiro golo. Precisamente aos mesmos oito minutos. De novo de Gonçalo Ramos, a isolar-se na lista dos marcadores.

É verdade que o Benfica criou oito oportunidades de golo, e que o Gil nem uma. Só fez até um remate na segunda parte, já nos descontos, e ao lado da baliza de Odysseas. Mas faltou-lhe quase tudo. Acerto nos passes, velocidade, intensidade. E até estratégia.

Na forma como decorreu, teria bastado ao Benfica ter-se aproximado do seu rendimento médio para tirar do jogo mais uma exibição empolgante, e um dos mais expressivos resultados do campeonato.

Com a equipa do Gil - que só naquele período entre os penáltis teve mesmo de se fechar lá atrás, a defender com todos - espraiada pelo campo, a deixar metros atrás da sua defesa, e a equilibrar a posse de bola, teria bastado ao Benfica tirar partido desse adiantamento para construir uma goleada das antigas. 

Para isso teria ligar o chip da velocidade, que parecia estar avariado. Ter maior acerto nos passes. E maior concentração para evitar as inúmeras vezes em que os jogadores se puseram em posições de fora de jogo, anulando jogadas com a intervenção da arbitragem, ou obrigando o portador da bola a jogar para trás, inviabilizando transições rápidas.

Faltou tudo isso. E por isso a exibição não agradou. Nem o resultado, um simples 3-1. Poderemos estar mal habituados, mas esses são os hábitos que não queremos perder. Estamos exigentes, e é asim que tem que ser. E acho que o Roger Schemidt também o acha!

Cavar mais fundo

Quando parece que não há mais fundo, que o Benfica já lá tinha batido, há sempre quem se apresse a cavar mais fundo, para que haja mais para onde cair. O Benfica chegava ao jogo desta noite, com o Gil, na Luz, nas profundezas de um buraco de onde se não via saída. Artur Soares Dias, a primeira coisa que fez foi começara a cavar mais fundo e a empurrar para lá das profundezas.

É também disto, como está mais que dito e redito, que se faz a realidade do Benfica. Dessa falta de respeito. O respeito que não foi perdido, foi roubado. Quem trouxe o Benfica até aqui não roubou apenas tudo o que havia para roubar. Roubou-lhe a dignidade, e com ela a respeitabilidade.

Hoje ninguém respeita o Benfica. Nem adversários, nem árbitros!

Soares Dias não teve o mínimo problema em assinalar uma falta que ninguém viu, quando a bola ia a entrar na baliza. Sabia que, fazendo-o, o lance não iria ao VAR. Fê-lo sabendo que estava a violar as regras do protocolo estabelecido, que recomenda que o árbitro aguarde pela conclusão do lance. Fê-lo sabendo que, impedindo o golo inaugural ao Benfica, e daquela forma, cavava mais fundo o buraco onde a equipa está enfiada e perdida. E fê-lo com o habitual cinismo que coloca sempre que arbitra os jogos do Benfica, confirmado quando, depois, assinalou um penalti do guarda-redes gilista sobre Gonçalo Ramos (que daria ainda expulsão) por ter deixado seguir um fora de jogo evidente. Aí, num fora de jogo evidente em cima da linha de meio campo, deixou a jogada prosseguir até ao fim, sabendo que o que contaria era o fora de jogo, e nunca o penalti que assinalara. É a provocação e a falta de respeito em todo o seu esplendor!

Não se sabe se com esse golo logo aos 5 ou 6 minutos o Benfica ganharia o jogo. Sabe-se apenas que o resultado seria diferente. Até porque o Gil Vicente também não teve respeito pelo Benfica. Só que, aqui, respeito é sinónimo de medo. Essa falta de respeito é outra coisa. Não ter medo, do adversário é uma atitude positiva, mau é que este Benfica não meta medo a ninguém. Só mete medo quem é forte, dos fracos não reza o medo, como a História.

A equipa do Gil Vicente não faltou ao  respeito ao Benfica, como fez Artur Soares Dias. Simplesmente não teve medo. Teve futebol, e em tudo o que foi futebol foi muito melhor que a do Benfica. O que fica por saber é o que a falta de respeito de Soares Dias teve a ver com a falta de respeito da bem trabalhada equipa de Ricardo Soares. Que deixou na Luz um compêndio de futebol, com lições de como se joga futebol, e de como se escolhem, e trabalham, jogadores. Um a um, foram todos muito melhores que os do Benfica. E muito provavelmente todos juntos custam menos que apenas um dos jogadores do Benfica, qualquer que seja. À natural excepção do Henrique Araújo, que hoje se estreou na equipa principal.

E quando assim é, quando olhamos para todos aqueles jogadores e ficamos com a ideia que são melhores que os do Benfica, e olhamos para o Ricardo Soares e percebemos que é melhor treinador que o do Benfica, só nos fica a saudades do Benfica que há muito perdemos. A esperança de o ter de volta vai ter que esperar, sabe-se lá até quando.

As únicas certezas são a quarta derrota no campeonato, a terceira de Nelson Veríssimo, em apenas um mês, os 12 pontos de distância para o Porto, os 6 para o Sporting e o calvário que temos pela frente. E não é só até ao fim da época. Está tudo montado para ser mais longo.

 

No desperdício os dois da praxe

A deslocação a Barcelos para defrontar o Gil Vicente, também ainda com o pleno de vitórias no campeonato e orientado por um treinador habitualmente complicado para o Benfica, cujo treinador aponta como seu discípulo, comportava alguns riscos e apontava para algumas dificuldades, mais a mais caindo no meio da decisiva eliminatória com o PSV.

O Benfica apresentou-se com seis alterações relativamente ao jogo da primeira mão com os holandeses, com a entrada de Gilberto, Taarabt, Meité, Gil Dias, Everton e Gonçalo Ramos para os lugares de Diogo Gonçalves, João Mário, Weigl, Grimaldo, Pizzi e Rafa, e os primeiros minutos, com os jogadores do Gil Vicente subidos e muito pressionantes, pareciam confirmar as esperadas dificuldades. Cedo, logo a partir dos primeiros sete ou oito minutos, se percebeu que, no entanto, as dificuldades do jogo não viriam tanto nem da estratégia e da argúcia do treinador gilista, nem da qualidade dos seus jogadores. Vinham da falta de velocidade no jogo benfiquista, de algumas deficiências no passe e na recepção de alguns dos seus jogadores - particularmente Taarabt, Gil Dias (como é que o Benfica foi buscar este jogador para lateral esquerdo ao Famalicão quando lá estava Rúben Vinagre, e até escolheu primeiro?) e Gilberto - e da falta de eficácia no aproveitamento das ocasiões de golo que iam surgindo.

Mesmo sem jogar bem, na primeira parte o Benfica dispôs de quatro oportunidades claras para marcar, uma série que se iniciou logo aos 8 minutos com o remate de Taarabt ao poste, e acabou no desperdício Yaremchuk, isolado por um grande passe de calcanhar de Everton, o melhor da primeira parte. E teve ainda um golo anulado por fora de jogo de Gilberto. Teria outro, aos 10 minutos da segunda parte, desta vez a Yaremchuk, tornando-se já no líder dos golos anulados. E das bolas nos ferros!

A segunda parte arrancou com mais uma oportunidade de golo, numa grande jogada individual do Gonçalo Ramos, a que se seguiu a única dificuldade que o Gil Vicente colocou a Vlachodimos em todo o jogo, ao travar com os pés um remate de um adversário isolado. E foi toda ela de sentido único, o da baliza de Kritciuk, que ia defendendo tudo o que havia para defender.

Atravessava o Benfica a sua fase de domínio mais intenso, com o adversário encostado à sua baliza, sem de lá conseguir sair, quando Jorge Jesus, ainda antes de esgotado o primeiro quarto de hora,  fez as primeiras substituições - três, João Mário, Pizzi e André Almeida entraram para os lugares de Taarabt, Yaremchuk e Gilberto. Fizeram sentido, só não faziam sentido nenhum porque iam interromper o melhor período do Benfica, o sufoco do adversário que ainda não tinha conseguido. 

Mas a verdade é que João Mário e Pizzi melhoraram a dinâmica de jogo da equipa, e as oportunidades de golo continuaram a surgir, e a ser desperdiçadas. A pouco mais de um quarto de hora do fim o treinador do Benfica esgotou as substituições, trocando o equívoco Gil Dias por Grimaldo, e o entretanto desaparecido Everton pelo regressado Darwin, três meses depois. O golo tardava, ao contrário dos minutos finais, que pareciam cheios de pressa, ao contrário dos jogadores da equipa de Barcelos.

Acabaram por chegar os dois da praxe (sempre dois golos em todos os seis jogos da época), separados por quatro minutos. E que golos. O primeiro, aos 84 minutos, em que Lucas Veríssimo intercepta (sim, isso mesmo!) um remate de Pizzi deixando desde logo Kritciuk, que defendia tudo, irremediavelmente batido. Para, depois, lhe colocar a bola no lado contrário. Inteligência notável, do único jogador das últimas contratações que se tem valorizado (veja-se o que se anuncia de Valdchmidt e Carlos Vinícius, a saírem por valores bem abaixo do seu custo). E o segundo, o do alívio final, em mais uma obra prima de Grimaldo. Que grande golo!

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