Ginásios do pensamento
Convidado: Luís Fialho de Almeida
A “educação”, como um dos pilares fundamentais do funcionamento de uma sociedade, interessa a todo o cidadão, mas sofre de enorme turbulência, a ver: pela sempre tardia e errática colocação de professores; pelo encerramento de escolas; pelos métodos de ensino sempre em mutação; pelas incapacidades e desculpas do ministro. Nas minhas deambulações por estas matérias encontrei algo de original no nome: “ginásios do pensamento”, estes considerados como oficinas de pensamento crítico e criativo junto de crianças e jovens.
Joana Rita de Sousa, responsável do projecto “Filosofia e Criatividade”, utiliza a expressão em título para designar o trabalho de filosofia para crianças, orientado sobretudo para o questionamento, perpetuando a “idade dos porquês”, num processo de treinamento envolvendo também os pais e educadores. Esclarece que a filosofia para crianças “promove a existência de cidadãos incómodos, capazes de questionar o que se passa à sua volta, de criticar e sugerir alternativas. Este treino torna o pensamento mais forte, flexível e resistente, tal como pretendemos um corpo forte, flexível e resistente quando vamos ou inscrevemos as nossas crianças num ginásio”.
A importância que relevo desta matéria e as extrapolações que dela faço por minha conta e risco, advém da discussão ocorrida, há já algum tempo, em torno da eventual retirada da filosofia dos programas do ensino obrigatório. As ditaduras e as democracias decadentes favorecem todos os mecanismos de formação e informação que inibam os cidadãos de pensar, porque pensar é perigoso. Para Kant “uma filosofia é um por à prova, uma crítica, pensar é criticar, sempre…”
Para Bertrand Russel, a característica essencial da filosofia, que a torna um estudo diferente da ciência, é a crítica. “A filosofia examina criticamente os princípios usados na ciência e na vida quotidiana; procura inconsistências que possam existir nestes princípios, e só os aceita quando, em resultado de um inquérito crítico, não surgiu qualquer razão para os rejeitar…”
Com a deriva da democracia portuguesa, os políticos da nova geração procuram um certo regresso ao “passado” que não viveram, mas estão certos que lhes assegura melhor futuro. “Passado”, que dispensava a grande maioria das pessoas de se interrogarem sobre o que era realmente bem e o que era mal. Em regimes de natureza autocrática, nada melhor do que governar para uma massa popular ignara, que não questiona e se contenta com a massificação de entretenimentos televisivos e outros, que lhe estimulam apenas as emoções mais primárias.
Aldous Huxley, na sua interpretação da história, constata que grandes figuras na liderança dos povos não apelaram à razão: mas aos instintos, às paixões, exemplificando com Lutero - apaixonado, impetuoso, violento - em contraponto a Erasmo, homem sensato e de razão, mas sem a capacidade de manipular e conduzir as massas.
A nossa comunicação social, por orientação política naturalmente discreta ou por objectivos comerciais, tudo faz para - sem esforço e explorando as emoções - mobilizar a atenção das audiências, evitando que se despertem pensamentos, questionamentos, exigências e perturbações na estabilidade social.
Ao longo da nossa democracia assistimos a uma degradação na tolerância à livre opinião nos grandes meios da comunicação social, controlados pelo poder político, por grupos económicos, ou por ambos, procurando manipular a informação em função dos seus interesses. Jornalistas, analistas e comentadores mais ligados às áreas políticas e sociais, fora do jugo partidário ou de qualquer grande grupo de interesses, têm sido afastados dos meios de comunicação de maior audiência (televisão e rádio), remetendo-os para meios de menor visibilidade. O exercício da cidadania da razão que se recuse ao servilismo é sempre incómodo em qualquer organização pública ou privada.
O pensamento virado para as ideologias também já pouco interessa. Nada de fascismo, comunismo, socialismo ou social-democracia, porque hoje a ideologia é a dos mercados, é o dinheiro, e o pensamento único emana das orientações político-económicas da Alemanha, Banco Mundial, FMI, BCE, OMC e OCDE.
O livre pensamento é, talvez, o melhor exercício de liberdade, mas a sua expressão exterior colide com os exercícios e interesses de outros e daí os inevitáveis conflitos. Hoje, face aos tempos e ideologias correntes, é de enorme utilidade exercitar as técnicas do pensamento para a sobrevivência em meios dominados pelos espertalhaços que reduzem a ética e a moral à “lei” que se fabrica, que se manipula e contorna.
“Ginásios do pensamento” ou quaisquer metodologias orientadas para a expressão livre do pensamento esclarecido, serão sempre projectos educacionais condicionados, na sua amplitude, aos ditames da tutela da educação que estará vigilante para punir todo o processo que promova a instabilidade do Sistema, ou seja: cidadãos criativos para a produtividade, sim! Incómodos, não!