Falava-se de um dia histórico, e de um acontecimento capaz de passar a figurar ao lado dos que marcam a História da Humanidade. Não foi nada disso. Na realidade, nada aconteceu no Alasca!
Os grandes acontecimentos têm sempre que ter por trás grandes homens, grandes figuras da História. Putin e Trump não o são, nem nunca o serão. Putin não passa de um reles ditador, e Trump de um megalómano lunático. E estúpido. Imbecil!
As grandes cimeiras são preparadas. Com técnicos, diplomatas e políticos. Os líderes, os grandes líderes, chegam às cimeiras com tudo preparado, só para a fotografia, o aperto de mão e a assinatura. Não são entregues aos amigos. Impreparados e apenas interessados em massajar o ego do chefe.
A cimeira de Anchorage não passou de uma operação de marketing pessoal rasca. Se alguém ganhou alguma coisa com ela foi Putin, dominante no discurso de nada dizer, e especialista em deixar tudo na mesma. Para Trump nada mais conta que o seu umbigo e, na avaliação que faz de si próprio, ganha sempre. Mesmo que faça as mais ridículas figuras de parvo. Como voltou a ser o caso.
O mundo perdeu. Perdeu uma oportunidade para acabar com uma guerra injusta. Perdeu uma oportunidade de manifestar decência. E perdeu mais uma oportunidade garantir que a Ucrânia conta!
Não foi o Alasca que pariu o rato. Ele já anda aí há muito...
O presidente ucraniano viajou para os EUA. Para - pensaria ele - estabelecer as garantias de segurança para o seu país nos acordos de paz que Trump garante prosseguir. Mas na verdade para - único pensamento de Trump - assinar um acordo sobre a exploração dos recursos minerais do seu país.
A conversa até parecia começar bem, mas rapidamente derivou para um cerco a Zelensky. De repente o presidente ucraniano viu-se cercado pelo presidente, pelo vice-presidente, pelo secretário de Estado, pelo secretário da Defesa, entre outros elementos da administração norte-americana, e pela plêiade de jornalistas e repórteres que Trump passou a escolher para o acompanhar.
Logo que realizaram que presidente ucraniano não estava ali simplesmente para assinar de cruz a entrega dos recursos naturais do seu país, Trump e Vance passaram ao achincalhamento e ao bullying. Como Zelensky não se conformou passou a ser considerado desrespeitoso, e acabou acusado de responsável pela terceira guerra mundial.
Quando já nada havia para salvar, um imbecil feito repórter na sala Oval, em tom jocoso, perguntou-lhe por que não usava fato. Ou se tinha sequer um fato.
No fim, não sobra qualquer surpresa. Trump e o seu gang já não surpreendem ninguém. Só quem andava mesmo muito distraído é que não percebeu que mundo mudou, e não é mais o mesmo. Tanto que é muito provável que Zelennsky tenha agora a cabeça a prémio...
"A guerra não começou esta madrugada, com a invasão generalizada da Ucrânia pelas tropas de Putin.Tinha sido formalmente declarada há três dias, estava há muito programada e tinha recebido luz verde no Verão passado, com o sinal dado pelos Estados Unidos na debandada do Afeganistão - o sinal da fraqueza em que Putin apostou, e que aguardava para garantir que o seu projecto totalitário se transformaria num passeio. Para já pela Ucrânia dentro...
Resta-nos a esperança que se repita a história de passeios que, por mais bem encaminhados que pareçam, acabam mal. Não nos restam muitas outras!
Aos ucranianos resta-lhes sofrer e resistir. E ensinar essa lição aos restantes europeus!"
Trump acha que se pode entender com Putin para desenharem a duas mãos o futuro mapa da Europa, numa espécie de Conferência de Berlim, onde a África é Europa, e a Europa um complexo esquizofrénico do novo eixo Washington-Moscovo.
Sabe-se que Zelensky pouco voto tem na matéria. Mas isso é uma coisa. Outra é o seu alinhamento com a esquizofrenia. Outra ainda é a sua rápida resposta à gula de Trump.
Bastou-lhe - a ele, Trump - dizer disse que a Ucrânia tem "terrenos valiosos em termos de terras-raras, petróleo e gás, outras coisas" para Zelensky vir a correr, de língua de fora e rabinho a dar a dar, oferecer o dote.
- "Temos um grande potencial no território que controlamos", e "estamos interessados em trabalhar, desenvolver, com os nossos parceiros, em primeiro lugar, com os Estados Unidos", apressou-se Andriy Yermak, chefe de gabinete do presidente da Ucrânia, em declarações à The Associated Press, logo após as declarações de Trump.
"Pode ser lítio. Pode ser titânio, urânio, muitos outros", disse Yermak. "É um grande negócio"!
E rapidamente - em dois dias - Trump anunciou um acordo de princípio para 500 mil milhões de dólares de chamadas terras raras, um grupo específico de 17 elementos químicos essenciais a produção de dispositivos electrónicos, como discos rígidos ou ecrãs de telemóveis.
Do que Trump já anunciou para acabar com a guerra ficou a saber-se que a adesão da Ucrânia à NATO é "irrealista", que a cedência de territórios é uma inevitabilidade, que a União Europeia não vai ser tida nem achada, que é ele e Putin quem põe e dispõe. E que, no fim, então sim, a Europa será chamada a tratar da segurança e da reconstrução da Ucrânia.
É a isto que Trump está a reduzir a Europa. Medvedev, a voz desbragada de Putin, chama-lhe "solteirona fria, louca de ciúmes e raiva". "Feia, fraca e inútil".
É esta a tragédia da Europa. Que não chegou aqui por ser "fria" ou "feia" mas - sim - por se ter deixado "fraca".
Não terá sido - imagino eu - para assinalar esta contagem redonda que Joe Biden deu luz verde à Ucrânia para utilizar armas americanas de longo alcance, capazes de atingir território russo. Se os mil dias não eram a oportunidade, tudo indica que os 60 que lhe restam de presidência menos a seriam.
Putin respondeu com um documento que, alterando a doutrina do uso de armas nucleares, define que (i) um ataque com armamento convencional, se apoiado por potência nuclear, pode justificar o uso de armas nucleares pela Rússia; e (ii) que qualquer agressão contra a Rússia por um país membro de uma coligação será considerada agressão de toda a coligação. Isto é, Putin voltou a ameaçar com o uso do nuclear, e começa a parecer Pedro na sua história do lobo.
Não se faz ideia se Biden acertou alguma coisa com Trump. Não parece, mas nunca se sabe... Sabe-se que com a União Europeia, não. Porque aí ninguém se entende. Só a França admite poder vir a seguir essa ideia. Alemanha e Itália recusam-na liminarmente, e aos outros nem a questão se põe: simplesmente não possuem armas dessas. Que a UE - Josep Borrell - diga que concorda com a utilização de mísseis de longo alcance por parte de Kiev é apenas uma opinião. Que não vale nada!
Mil dias é muito tempo. Em guerra, é ainda mais. E no entanto ainda ninguém fala de paz. O problema é mesmo a história do Pedro e do lobo. Se continuarem a deixar passar muitos mais dias, haverá um em que o lobo vem mesmo!
Entretanto, aproveitando a bagunça geral, a China aproveita para dizer que não custa nada resolver "o problema" de Taiwan... Se Netanyahu já passou de ignorar a atacar a ONU, por que é que Xi Jinping precisa de ser cerimonioso?
Enquanto destrói Gaza, de que já pouco resta, condenando os palestinianos que escapam à condição de cadáver ao regresso à idade da pedra, Israel vai abatendo em territórios estrangeiros tudo o que é líder dos movimentos terroristas, que criou e alimentou para acabar com todas as lideranças palestinianas moderadas, que em tempos lutaram pela criação do Estado Palestiniano, prometido e desenhado paralelamente com o de Israel.
O resultado só pode ser mais uma escalada na guerra, com grande probabilidade de se transformar na sempre anunciada III, de proporções inimagináveis. A espectacularidade que Israel sempre consegue através dos seus serviços secretos e das suas forças armadas - e como são exaltados os seus feitos pelos fazedores da opinião ocidental! - secundarizou a guerra na Ucrânia, com Putin a aproveitar para, longe da atenção mediática mundial, ir avançando na ocupação e destruição da pátria ucraniana.
Na Venezuela, Maduro reprime, mata e prende todos os que reclamam pela verdade dos resultados eleitorais, por pão, e por liberdade.
É este o estado do mundo à entrada de Agosto. Como poderá ser querido?
Ontem foi dia de Zelensky, duas semanas depois da programada visita à península Ibérica. Depois de, no dia anterior, ter estado em Madrid, e de, pela manhã, ter dado um salto a Bruxelas, o líder - e ícone - ucraniano passou a tarde em Lisboa.
Poucos minutos depois de ter partido de Figo Maduro iniciou-se o último debate televisivo entre os principais cabeças de lista às Europeia do final da próxima semana. O único com todos - os oito - contra todos, em que Sebastião Bugalho aproveitou para declarar "dia de festa": "Parece-me que hoje é um dia feliz, a democracia portuguesa no seu 50º receber um Presidente de um país pelo PM e PR. Hoje é um dia de festa"!
Estranha noção de festa, de imediato atacada pelos oponentes à esquerda. O "puto" fez beicinho e partiu para a emenda, pior que o soneto: festa, mesmo, "é quando a Ucrânia derrotar a Rússia". À inocente noção de festa, o Sebastião acrescentava infantilidade.
O que diria o Sebastião, prodígio dos comentadores, do Sebastião político?
Se calhar diria que toda a gente sabe que o apoio à Ucrânia, o que Zelensky cá veio pedir, e o que pede, e é parcimoniosamente dado pelo Ocidente, apenas pode ter, como melhor dos objectivos, encaminhar a guerra para o impasse que permita abrir caminho para negociar os termos do seu fim.
Mas Sebastião já não é comentador. É político. E, para já, pára-raios de Montenegro.
Ou para que data marcará a festa da vitória da Ucrânia face à parcimónia belga que, mesmo restringindo - evidentemente - a utilização dos F16 ao território ucraniano, apenas entregará um este ano, deixando os restantes 29 para entregar faseadamente até ao final de 2028?
Era coisa para se resolver num fim de semana. Era coisa simples. Nada mais que pôr os pontos nos is que Putin vinha desenhando desde que sentara no trono do Kremlin.
Não foi bem assim, e já lá vão dois anos. Cumprem-se hoje. Foi a 24 de Fevereiro de 2022 que a Rússia invadiu a Ucrânia, e o que Putin tinha por mera formalidade tornou-se numa guerra sem fim à vista.
Que não falte apoio aos ucranianos para continuarem a resistir. A nossa liberdade depende da sua resistência!
A União Europeia, o antigo "gigante económico e anão político", vem encolhendo a passos largos na última década. De "gigante económico", passou a um ser da estatura média. E, de anão político, passou a microscópico. E a velha, poderosa e grande Europa passou a irrelevante no actual xadrez mundial, como se viu na Ucrânia, e se vê no Médio Oriente.
Tão irrelevante que não dá sequer para se lhe ver o ridículo do paradoxo que são as posições políticas das suas duas mais importantes lideranças - a Presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, e o Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, a que antes se chamava Sr PESC, Josep Borrel - relativamente ao que está a acontecer em Israel e na Palestina.
A Srª Van der Leyen apressou-se a correr para Israel, sem nada que se visse que não a subserviência em forma de espiral irrelevância. O Sr Josep Borrel lembra que a Europa defende há 30 anos a solução de dois Estados, e que o“conflito obriga-nos a comprometermo-nos politicamente com a solução, para a tornar real”. Que a UE passou 30 anos “a dizer que esta é a solução, mas a fazer muito pouco ou nada” para a alcançar. E que os territórios ocupados por Israel “estão, de acordo com o direito internacional, tão ocupados como os territórios ucranianos invadidos pela Rússia”. Que o território ocupado por Israel “se multiplicou por quatro” enquanto o palestiniano “tem vindo a encolher e a dividir-se em áreas desconexas”.
A irrelevância é tanta que ainda ninguém se irritou com o irrelevante responsável pela política externa europeia. Depois de, por muito menos, Cosgrave ter sido atirado pela janela e afundado a Web Summit. E de Guterres ter sido enterrado vivo nos destroços da ONU.
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