Donald Trump amanheceu ontem em Israel para, no Knesset (Parlamento), anunciar uma nova alvorada para o Médio Oriente - ”o sol nasce numa terra sagrada que está finalmente em paz” -, e declarar o fim da guerra - "o fim de uma guerra, o fim de uma era de terror e morte, o início de uma era de fé, esperança e Deus".
Daí seguiu para o Egipto para reunir em Sharm el-Sheikh, numa cimeira organizada à pressa com o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi para - sem governantes israelitas (claro que Trump convidou Netanyahu, foi Erdogan, e não o feriado do último dia da Festa dos Tabernáculos, que impediu a sua presença), nem dirigentes do Hamas, as partes actualmente em conflito - juntar mais de 20 líderes mundiais (entre os quais Guterres e António Costa) para ratificarem o "seu" plano de paz.
Que tem o mérito - que não é pouco, nesta altura - do cessar fogo, de interromper a chacina, da libertação dos reféns israelitas, e dos prisioneiros palestinianos, e de abrir as portas de Gaza à ajuda humanitária internacional. Mas que está muito longe de ser "o fim de uma era de terror e morte". Mesmo de uma nova alvorada para o Médio Oriente. E, apostaria até, de valer de alguma coisa daqui por um ano, quando for anunciado o novo Nobel da Paz.
Passam hoje dois anos sobre o massacre de 7 de Outubro, em Israel, levado a cabo pelos terroristas do Hamas. Terrorismo puro, absolutamente inaceitável e, indiscutivelmente, mais uma pedra no processo de paz que há muito, muitos procuram.
A “legítima defesa" de Israel, na resposta de Netanyahu, ultrapassou todos os limites da defesa, e cedo perdeu toda a legitimidade. A carnificina que há dois anos acontece em Gaza, e o genocídio palestiniano são crimes inqualificáveis.
Mais parecendo, hoje, que o massacre de 7 de Outubro foi apenas o pretexto para o genocídio com que Netanyahu pretende resolver um conflito histórico de quatro mil anos.
O ataque de ontem ao Hospital Batista Al-Ahli, em Gaza, roubando de imediato a vida a cerca de quinhentas pessoas, é a perversão da guerra. É ultrapassar os limites da estupidez, da brutalidade e a hipocrisia na guerra.
Não é novidade que nas maiores monstruosidades da(s) guerra(s) as partes se acusem reciprocamente, como o fazem o governo de Netanyahu e os terroristas do Hamas. É assim há muito tempo, e é assim em todas as guerras. Vem nos manuais.
O que talvez seja novidade é a forma como a água e o azeite se misturam desta vez. Sabe-se que a verdade se comportará sempre como o azeite. Por mais que agitem a mistura, como parece que Biden ajudou hoje de fazer na sua visita a Israel.
Ésquilo, há milhares de anos, na antiga Grécia, também deu uma ajuda ao declarar a verdade como a primeira vítima da guerra.
O conflito Israel-Palestina entrou decisivamente na sua fase mais brutal e constitui, hoje, apesar da guerra na Ucrânia - entretanto já em segundo plano -, a maior ameaça para o Mundo.
Sobre o ataque terrorista do Hamas desencadeado há uma semana - completa-se precisamente amanhã - já aqui escrevi, condenando-o sem reservas. Mas relevando também a responsabilidade israelita, e particularmente a do tenebroso Netanyahu na formação do Hamas e do Hezbollah, com o objectivo central de aniquilar toda e qualquer contra-parte de diálogo (acabando com a laica e moderada OLP) e para um conflito que é um somatório de 78 anos de guerras, massacres e atentados ao Direito Internacional.
Todas as guerras tem as suas narrativas, e a sua História é sempre escrita pelos vencedores. Integra a narrativa actual que Israel é a única democracia daquela região, e o único regime em que é possível viver à luz dos valores civilizacionais de um mundo decente, como se isso bastasse para legitimar uma História de 78 anos de atropelos a grande parte desses valores.
Foi por deliberação da ONU que, em 1948, foi criado o Estado de Israel, ocupando praticamente 80% do território da Palestina, até aí ocupado praticamente apenas por palestinianos. 78 anos depois, contrariando todas as deliberações da Organização que o criou, todas as resoluções do Conselho de Segurança, o Estado de Israel ocupa 90% desse mesmo território, depois de ocupar com colonos ilegais a Cisjordânia, e reduzir a população palestiniana a 21%, fechada e cercada por um muro na faixa de Gaza, a que agora acaba de de cortar a água, a alimentação, a electricidade e a energia a mais de 2 milhões de civis. E ocupou totalmente Jerusalém, de que fez capital.
Onde está a legitimidade?
E a democracia?
É certo que que há eleições, tantas vezes quantas as necessárias para manter Netanyahu no poder, apesar de tão cercado de crimes e corrupção, como cercados estão os palestinianos na prisão de Gaza. É certo que é permitida (até quando?) voz aos poucos israelitas que se opõem aos crimes do Estado. É certo que Michael Sfard ainda não está preso. Mas não é menos certo que o aumento sucessivo da influência dos ortodoxos, e a liderança política de Netanyahu, hoje pouco distingue o fanatismo religioso do poder israelita do dos radicais islâmicos.
Como pouco distingue a "democracia" de Netanyahu e a do seu aliado Putin!
O dia 7 de Outubro de 2023 constituir-se-á certamente como uma data Histórica. Na História "já escrita" do século XXI só terá paralelo no 11 de Setembro, de 2001.
O ataque do Hamas a Israel, numa das datas mais importantes para Israel - dia do 50º aniversário da guerra do Yom Kippur, dia do Shabbat e do feriado religioso mais importante do país - o maior, e mais mortal, de sempre por parte dos palestinianos, surpreendeu o mundo. Mas na realidade não tem muito de surpreendente.
Bem mais surpreendente que o ataque - "um ataque terrorista comandado e planeado como uma operação militar", como bem o descreve a Clara Ferreira Alves, no Expresso - é que os hiper-qualificados e insuperáveis serviços secretos israelitas tenham sido apanhados de surpresa. Isso, sim, é verdadeiramente surpreendente. E, já agora, isso sim, é que pode verdadeiramente correr mal a Netanyahu.
Tudo o resto, incluindo a dimensão da brutalidade terrorista que vimos nas imagens que correm mundo - e, também já agora, que não devem ser muito diferentes das que não vimos no passado, nem veremos, da parte de Israel - era, não só previsível, como o desfecho lógico do que Netanyahu vem fazendo há muitos anos.
O Hamas é uma criação de Netanyahu. É o "monstro" - como diz o Daniel Oliveira - que criou para acabar com as forças palestinianas moderadas e empenhadas durante décadas na negociação da paz e da convivência entre israelitas e palestinianos. Para minar por dentro a nação palestina, e acabar de vez com a sua aspiração ao legítimo direito a ter um Estado.
Primeiro, Netanyahu criou o Hamas. Depois avançou pelo território palestino dentro, até confinar mais de dois milhões de pessoas numa pequena e isolada faixa de com pouco mais de 300 quilómetros quadrados, fechada a arame farpado e electrificado, entregue aos terroristas do Hamas e do Hezbollah que formou e financiou a partir do Líbano.
Não é a primeira vez que acontece na História. Nem será a última. O "monstro" talibã instalado no Afeganistão é apenas um dos últimos exemplos...
Mas o mundo está entregue a quem não quer saber nada de História!
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