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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Brasil 2014 XVIII - Balanço à participação portuguesa

Por Eduardo Louro

 

 

Quando o apuramento para o Brasil estava em dúvida – e isso aconteceu durante muito tempo, porque cedo a selecção começou a desperdiçar pontos e só tarde, no segundo jogo do paly-off na Suécia, o assegurou – toda a gente dizia que seria impensável um campeonato do mundo, no Brasil, sem a selecção portuguesa. Pelo peso que o futebol português (já ou ainda?) tem, por ser no Brasil, o romântico país irmão mas, acima de tudo, por Cristiano Ronaldo…

Hoje, com a selecção portuguesa já afastada, com um desempenho pior que medíocre, pode concluir-se que não faz lá falta nenhuma. Não faz, como não fez… Não acrescentou nada ao campeonato do mundo e retirou muito a si própria. E não só...

Diz-se hoje que a selecção veio de menos para mais, que fez o pior no primeiro jogo, na goleada da Alemanha. Que melhorou no segundo, no empate com os Estados Unidos, e que esteve finalmente bem no terceiro, da vitória magra e amarga contra o Gana. Não me parece, nunca me pareceu que tivesse sido isso o que se passou. Isso aconteceu apenas nos resultados, que são soberanos mas não são tudo. O pior dos três jogos foi o segundo, contra a selecção de um país que despreza tanto o futebol - e tantas outras coisas - que nem o trata pelo nome. Porque o primeiro tem um sem número de atenuantes: má preparação do jogo, adversário do melhor que há, influência decisiva da arbitragem, expulsão, com inferioridade numérica durante mais de dois terços do jogo, lesões... O segundo, não. Não tem nada disso, antes pelo contrário. Contra um adversário fraco - agora a cumprir um alto serviço ao país, dando-lhe a saber que existe algures, não sabem bem onde, um país chamado Bélgica -, e com vantagem no marcador logo aos cinco minutos, sem surpresas quanto ao estado físico, e de forma, pelo menos dos jogadores que já tinham sido utilizados e sem qualquer razão para facilitar na preparação do jogo, que depois do empate entre a Alemanha e o Gana era decisivo, a selecção portuguesa foi simplesmente cilindrada. Os americanos, que haviam ganho ao Gana simplesmente porque às vezes há milagres no futebol, que simplesmente tinham mostrado saber defender - coisa que hoje em dia qualquer equipa que não seja africana sabe fazer - logo que se viram a perder mandaram-se para cima dos portugueses. E foi um não mais parar de oportunidades, uma autêntica humilhação que só parou quando viraram o resultado. Um golo no quinto e último minuto de compensação, com que ninguém contava, salvou o resultado. Apenas isso!

No terceiro, com o Gana, Paulo Bento recorreu finalmente a outros jogadores. Também isso contribuiu para que fosse o mais bem conseguido, ou, talvez melhor, o menos mau. Mas, francamente, decisivos mesmo foram os problemas internos na selecção africana. Tivessem repetido as exibições dos dois jogos anteriores e teria sido mais um suplício. Como de resto se percebeu na breve e intermitente, mas também imediata reacção que tiveram ao golo alemão, no outro jogo.

Há muito que se percebia que era grande a probabilidade de ser assim. Porque já não temos grandes jogadores, porque se deixou de lado a formação, porque a base de recrutamento é pequena. Porque, tantas coisas que tanta gente diz...

E que são verdade, mas não são a verdade toda. Nem talvez a verdade que, agora, no imediato, mais interessa. 

Como já se percebeu, o jogo que, na minha opinião, mais marcou a eliminação foi o tal com os Estados Unidos. No texto que então aqui publiquei não me pareceu oportuno escrever tudo o que me ia na alma, e por isso ilustrei-o com um fotografia que hoje aqui repito. Ali estão Fernando Gomes, o líder da Federação, o seleccionador Paulo Bento e Cristiano Ronaldo, todos reunidos à volta do ícon. Parece-me simbólico. E sugestivo!

Porque a idolatria iconográfica à volta de Cristiano Ronaldo foi prejudicial. É estrategicamente inaceitável que domine, como dominou, a selecção nacional. E revela as fragilidades de liderança na Federação e na selecção. O mediatismo do craque português, a sua dimensão universal, e a sua condição de figura incontornável do showbiz internacional, não podem ser transferidos para o seio de uma equipa. Têm o seu espaço, mas é outro!

Mas o descalabro da selecção tem também a ver com o jogador fantástico que é Cristiano Ronaldo. E tudo começa por não perceber o papel da selecção nacional no seu sucesso desportivo. Talvez ainda seja um súper atleta, mas não é, nem nunca foi, um súper homem. E por isso não pode passar um ano de campeonato do mundo obcecado por recordes individuais. Tem que optar: ou abdica de um ou outro, ou abdica de aparecer em grande forma no maior palco do futebol mundial. Sabe-se qual é a escolha dos seus principais concorrentes!

Mas não se fica apenas por aí. Cristiano não foi apenas um jogador que chegou a este mundial em condições inaceitáveis para o seu estatuto. Falhou ainda, porque é o capitão de equipa, na liderança da equipa. Mostrou não ser o líder dentro do campo, não saber agarrar a equipa e impedi-la de se afundar. Mas também mostrou não o saber ser fora de campo, sendo o primeiro a atirar a toalha, a desvalorizar a equipa e os colegas. Mostrou-se acima de tudo e de todos, como nunca se lhe tinha visto. Falou quando não devia e calou-se deselegantemente quando devia falar. A cereja no topo deste bolo intragável surgiu quando, na qualidade de homem do jogo da despedida, apareceu na sala de imprensa para uma simples declaração, sem direito a perguntas mas, coisa estranha, com direito a exibir um boné de publicidade à sua própria marca.

Paulo Bento não fica mal na fotografia apenas pelas convocações, por contar sempre com os mesmos, independentemente do estado de forma e, até, dessa coisa nova que aprendemos nesta semana chamada índices de suspeição lesional. Não se percebe que, não havendo pontas de lança ou avançados-centro de qualidade minimamente aceitável, ele queime três lugares da convocatória com três specimens como os que levou. Nem se percebe a insistência até à exaustão em Veloso e Meireles. Mas, pior que tudo isso, foi deixar cair aquela imagem de impoluto. Deixa agora perceber que cede a interesses, sejam eles de jogadores, de directores ou de outros agentes que se movimentam no futebol profissional. Declarou-se responsável por tudo o que envolveu a preparação da selecção, mas não se vê como a estadia prolongada nos Estados Unidos não corresponda a cedência a interesses. Ou os treinos abertos no Brasil. Ou a súbita titularidade do Eduardo, retirada logo que arranjou novo contrato. Ou até a lesão de Rui Patrício, que mais não pareceu que uma encomenda de Alvalade, um pouco na linha das convocações, dos portistas Licá e Josué, no início da época, em contra-mão com o seu conservadorismo convocatório

Por último a estrutura federativa, personalizada no presidente Fernando Gomes. Em vez de uma estrutura profissioanlizada, com competências específicas para as diferentes valências do negócio, a Federação dedicou-se ao compadrio. A distribuir lugares como se de tachos de trate, seja para pagar favores seja para obedecer a lobbies

As caras da estrutura federativa são, para além do presidente, o vice Humberto Coelho e o director João Pinto. Sabe-se que o lobby dos jogadores de futebol reclama sempre protagonismo na organização do futebol português, mas a verdade é que raramente se lhe reconhecem atributos que lhes garantam especiais competências para o efeito. Lá está o João Pinto, sem que sequer se saiba o que lá anda a fazer. De quando em vez ouve-se, mas é para debitar lugares comuns que dizem nada, levando toda a gente a pensar que está lá porque tem uns problemas pessoais para resolver. Qualquer dia - se não chegou já - chega a vez do Vítor Baía...

Humberto Coelho foi um extraordinário jogador de futebol. Depois foi durante pouco tempo treinador de segunda linha e, de repente, chegou a seleccionador nacional. Teve a seu cargo o melhor conjunto de jogadores que Portugal já conheceu, e com eles, com pouco ou muito mérito, fez a melhor selecção nacional de sempre, que brilhou no euro-2000, na Holanda e na Bélgica. Depois, mais nada... E pelo discurso percebe-se mesmo que mais nada. Lugares comuns, nada mais... E quando sai daí é disparate, do grosso. Como se viu na conferência de imprensa desta semana, onde se percebeu que naquela estrutura não há liderança, nem estratégia, nem nada por onde alguma coisa dessas pudesse passar. Viu-se, sim, fazer o discurso da derrota, lavar os cestos - e alguma roupa suja - quando a vindima ainda prometia. 

A FPF está (mal) habituada às receitas da presença consecutiva nas fases finais das grandes competições permitida pela aposta na formação dos primeiros vinte dos últimos trinta anos. A actual direcção - e também a anterior - está sentada em cima de um saco de dinheiro, e acha que isso basta. Por isso não precisa de quem pense no futebol, até porque se alguém começar a fazê-lo vai dar-lhe cabo da tranquilidade. E isso é muito desconfortável!

 

 

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