De gravata preta, depois da festa do Pontal e das férias, Luís Montenegro apareceu nas televisões a pedir desculpa por alguma coisa que pudesse ter corrido mal. Não é que tivesse essa percepção, mas admitia que algumas pessoas a tivessem. Pelo caminho, e para trocar as voltas às percepções, propagandeou uma quantidade de medidas de apoio às populações assoladas pelos incêndios, com destaque para aisenção de taxas moderadoras no SNS, que já não existem desde maio de 2022.
De mal, a pior!
Para as televisões tudo se resume a um problema de comunicação do governo. Afinal, Montenegro queria referir-se às taxas moderadoras sem referenciação prévia.
Mas não. Se calhar o único problema que o governo não tem é o da comunicação. Está entregue ao António Cunha Vaz e, ao contrário da grande maioria do governo, esse é um profissional competente. Claro que também tem férias, e certamente também em Agosto...
O problema do governo é a competência. O problema do governo são as baratas tontas que por lá andam. Já o problema de nos tomar por parvos é nosso. Não é do governo!
Bem sei que estamos em plena silly season, aquele período do ano em que, mesmo que tudo aconteça, não acontece nada.
Acontecem incêndios por todo o interior do norte e centro do país. Acontece que o país arde como sempre, mas mais que quase sempre. Mais de 6 mil incêndios já destruíram mais de 63 mil hectares de floresta. Acontecem situações dramáticas, casas a arder, aldeias isoladas pelas chamas, pessoas evacuadas e pessoas fechadas em igrejas, à espera que o fogo passe. Acontece porque nas televisões não acontece mais nada; se não, não acontecia.
Como não acontece, para o governo. Nem uma palavra. Nem do secretário de Estado, nem da ministra, nem do primeiro-ministro. No final da semana passada ouviu-se a ministra, para declarar o estado de alerta. Ontem, quando o silêncio era ensurdecedor, de repente, o primeiro-ministro surge nos ecrãs das televisões.
- Finalmente o chefe do governo vai falar ao país - pensou-se.
Não, o descaramento não está apenas em não haver secretário de Estado, nem ministra, nem primeiro-ministro para falar dos incêndios que assolam o país; mas haver dois ministros e o primeiro-ministro para entregar 26 casas. Nem na "ajuda às famílias para desenvolverem sonhos". Está, com as autárquicas à porta, em apresentá-las como exemplo de que o Município de Faro, em vez de "virar as costas aos problemas, procura implementar soluções".
Na verdade as 26 casas fazem parte de um programa de 49, lançado há mais de dois anos pelo anterior governo, e financiado pelo PRR, para realojar famílias de pescadores que aceitem a demolição das suas habitações na Praia de Faro. Que, na verdade, até agora, apenas 26 dessas famílias aceitaram.
Mas governar por percepções também é isto. Não é apenas procurar soluções manhosas para problemas que não existem. E, pelo que se vai percebendo, resulta!
O país arde, como sempre, mais ou menos por esta altura.
O/a ministro/a da tutela, da Administração Interna, como sempre que o país arde, estatela-se ao comprido na comunicação.
É sempre assim, governo após governo. Governo do PSD após governo do PS.
Ao contrário do apregoado, nada nunca está melhor. Está sempre tudo na mesma. Tão na mesma que quando a ministra Maria Lúcia Amaral se estatela não tem diferença nenhuma de quando se estatelavam Constança Urbano de Sousa, Eduardo Cabrita ou Margarida Blasco. A única diferença está na comiseração que cada um nos poderia suscitar...
De 0 a 10, do zero de Cabrita ao 10 de Constança. Com Maria Lúcia Amaral a resvalar para bem mais perto do primeiro que da segunda.
Estava fora nesta semana em que o país ardeu. Em que, em apenas quatro dias deste final de Setembro, e de Verão, ardeu seis vezes mais território do que tinha ardido até aqui. Não acompanhei por isso tão de perto a catástrofe e não tive acesso ao que - imagino - tenham sido os desfiles de infindáveis especialistas da matéria pelas televisões.
Escapou-me certamente muita coisa. Mas vi que arderam casas, fábricas, oficinas, explorações agrícolas, animais, equipamentos... Para além das mortes de pessoas, ardeu vida. Vida económica. Ardeu investimento, ardeu emprego. Ardeu actividade económica criada para fixar pessoas naquelas zonas, justamente para evitar que, abandonados, aqueles territórios ficassem despovoados, a servir de pasto a chamas a caminho do descontrolo.
Vi gente que perdeu a vida que trouxe para aqueles territórios dizer que tinham os seus bens e os seus investimentos protegidos com áreas limpas à sua volta. E fiquei a pensar que, contrariamente ao que presumivelmente muitos especialistas terão deixado dito pelas televisões, as cargas térmicas que empoderam as chamas não resultarão tanto de abandonos, mas bastante mais de invasões. De eucaliptos, por muito que não queiram que seja dito!
Hoje, numa reportagem que ouvi na Antena 1, numa aldeia do concelho de Pombal:
- " O António Costa diz que 99% dos incêndios têm mão humana. Mentira, nem 0,1% tem mão humana. É tudo mão de criminosos"!
Depois do choque do primeiro impacto fiquei a pensar no que o senhor dizia para o microfone estendido que eu não via. Se calhar só queria dizer que criminoso é gente, mas não é humano.
Os incêndios voltaram em força, e de novo com mortes. É o nosso fado. Incontornável: no Verão há incêndios e neles morre gente.
Há fogos pelas razões de sempre. Os anos passam e elas ficam. Permanecem como uma fatalidade. A floresta, o eucalipto, a desertificação... E a incúria, e o crime... Mas sempre com uma desculpa.
Morrem bombeiros. Se são dos mais velhos é porque já não estavam em idade de por lá andar. Quando são os mais jovens, é porque não têm experiência...
Este ano é a pandemia. Quando, na transição da Primavera para o Verão, se devia estar a trabalhar na prevenção dos fogos dos dias quentes que aí viriam, andávamos todos às voltas com a pandemia. Sem mãos a medir a fazer não se sabe bem o quê.
Mas deve ter sido isso. Pelo menos é isso que nos diz o Presidente Marcelo...
Pedrógão foi há três anos. De repente, o país eufórico, aos pulos e meio embriagado de tanto sucesso, foi surpreendido por uma das maiores tragédias de sempre.
Foi o regresso à realidade de um país que andava nas nuvens. Que já achava que era sempre a ganhar... No futebol, nas cantigas, no défice, nas agências de rating, nos mercados, em Bruxelas...
Mas o país do sucesso, na moda e a abarrotar de turistas, era afinal o país que desertificou o seu interior. Que virou costas ao campo e fugiu para as cidades, e para o mar. Que se urbanizou e esqueceu as origens. Que se deixou seduzir pelo eucalipto. Que vê passar anos e governos que deixam tudo na mesma, quando tudo na mesma é cada vez pior. Um país que não cumpre as leis que cria. Um país que deixa morrer pessoas que não tinham que morrer. Um país sempre de dedo espetado, mas nunca apontado para o futuro…
Não vai muito diferente hoje, três anos depois. Soma pouco mais que mais promessas por cumprir e responsabilidades por apurar.
Não é por Marques Mendes, na sua homilia dominical da SIC, ter declarado desastrosa a sua actuação que a semana do ministro da Administração Interna foi um desastre. Para ele, para o primeiro-ministro António Costa e, pior que isso, para o país.
O desastre é que na política portuguesa, em vez de se escolherem para ministros pessoas profissionalmente competentes, eticamente inatacáveis, e capazes de assumir as suas responsabilidades, se escolham pessoas pelo dito peso político. Mais a mais quando esse é um peso avaliado numa balança que, em vez de pesar, mede fidelidades.
Em vez de peso pesado da política, Eduardo Cabrita revelou-se apenas um rapazinho de 10 quilos a "brincar com o fogo". Que sempre se disse aos miúdos que dava mau resultado!
Quando o inferno dos incêndios voltou a instalar-se entre nós, trazendo consigo tudo o que já sabemos que sempre traz – intermináveis debates nas televisões, sempre com gente muito conhecedora do fenómeno em todos os seus ângulos, entrecortados por intermináveis directos de fazer arrepiar – tivemos a notícia da greve dos motoristas, que se iniciará dentro de pouco mais de duas semanas.
O ministro já nos aconselhou a encher os depósitos dos automóveis, coisa que certamente a maioria de nós fará e que bem poderá fazer com que as bombas de gasolina fiquem esgotadas logo no início da greve, em vez de nos habituais dois ou três dias seguintes. Mas enfim…
Para além de combustíveis nos depósitos podem faltar também alimentos nos supermercados e medicamentos nas farmácias, mas aí já não chegaram os conselhos do ministro…
É, em pleno pique das férias, o inferno a estender-se para o litoral, lançando o caos nos hotéis, nas praias, nos restaurantes, nas cidades. É definitivamente tornar a vida dos portugueses num inferno: à maioria estragando-lhes as férias, aos outros, o trabalho. A todos, um país já tão estragado.
Parece que a ideia desta greve é também tornar as eleições num inferno para o governo, ao que consta de uns relatos que por aí andaram. Mas começa também a ficar a ideia que o governo está a levar isso muito a sério.
Para inferno, já lhe chega o que está a arder. E bem pode encontrar um coelho qualquer para, à boca do inferno, tirar de uma qualquer cartola...
Os incêndios regressaram, e com eles se encheram as primeiras páginas de todos os jornais de hoje, como se abriram os noticiários da rádio e da televisão de um fim-de-semana de aflição.
Incêndios, outra vez! E outra vez nos mesmos sítios, nos mesmos lugares, com as mesmas pessoas de há dois anos. E de sempre: Vila de Rei, Mação, Sertã... Falta Oleiros. Que se passará com Oleiros?
Outra vez falta de meios. Outra vez descoordenação. Outra vez as mesmas palavras de sempre. Outra vez criminosos à solta. Porventura os mesmos, outra vez.
Sem políticos no terreno, a atrapalhar e a meterem os pés pelas mãos. Desta vez.
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