Prometeu paz, e reclamou o Nobel da especialidade. Há dois dias, num fidelcastroniano discurso do Estado da Nação, ao chorrilho de mentiras acrescentou a de ter acabado com oito guerras. Na realidade, atacou seis países em pouco mais de um ano de mandato. Hoje voltou ao Irão, em grande escala, num ataque a meias com Netanyahu - farinha do mesmo saco -, com consequências previsíveis, mas também muitas imprevisíveis.
Trump prometeu aos americanos que os Estados Unidos não seriam mais o polícia do mundo e que não envolveria mais o país em acções militares externas. Ensinou-nos António Aleixo que "para a mentira ser segura, e atingir profundidade, tem que trazer à mistura, qualquer coisa de verdade". Na "verdade" Trump não fez do país o polícia, mas o ladrão do mundo.
Mais uma vez Portugal faz de cúmplice. Se calhar pior, de cobardolas. Quando o governo português, pela boca de Paulo Rangel, afirma que os norte-americanos “podem, para qualquer operação, usar as Lages sem Portugal ter de ter conhecimento" está só a ser cobardolas. Quando diz que "é assim que está nos tratados e é assim que está a acontecer com todas as bases europeias, dos mais variados países”, está a mentir, tal e qual como Trump.
Não só não é assim que está no Tratado - não sendo uma operação da NATO os EUA têm que pedir autorização prévia para a utilização da base, que é território nacional - como não é o que está a acontecer em todas bases europeias. Os ingleses e os espanhóis não se prestaram à vassalagem!
Donald Trump amanheceu ontem em Israel para, no Knesset (Parlamento), anunciar uma nova alvorada para o Médio Oriente - ”o sol nasce numa terra sagrada que está finalmente em paz” -, e declarar o fim da guerra - "o fim de uma guerra, o fim de uma era de terror e morte, o início de uma era de fé, esperança e Deus".
Daí seguiu para o Egipto para reunir em Sharm el-Sheikh, numa cimeira organizada à pressa com o presidente egípcio, Abdel Fatah al-Sisi para - sem governantes israelitas (claro que Trump convidou Netanyahu, foi Erdogan, e não o feriado do último dia da Festa dos Tabernáculos, que impediu a sua presença), nem dirigentes do Hamas, as partes actualmente em conflito - juntar mais de 20 líderes mundiais (entre os quais Guterres e António Costa) para ratificarem o "seu" plano de paz.
Que tem o mérito - que não é pouco, nesta altura - do cessar fogo, de interromper a chacina, da libertação dos reféns israelitas, e dos prisioneiros palestinianos, e de abrir as portas de Gaza à ajuda humanitária internacional. Mas que está muito longe de ser "o fim de uma era de terror e morte". Mesmo de uma nova alvorada para o Médio Oriente. E, apostaria até, de valer de alguma coisa daqui por um ano, quando for anunciado o novo Nobel da Paz.
Passam hoje dois anos sobre o massacre de 7 de Outubro, em Israel, levado a cabo pelos terroristas do Hamas. Terrorismo puro, absolutamente inaceitável e, indiscutivelmente, mais uma pedra no processo de paz que há muito, muitos procuram.
A “legítima defesa" de Israel, na resposta de Netanyahu, ultrapassou todos os limites da defesa, e cedo perdeu toda a legitimidade. A carnificina que há dois anos acontece em Gaza, e o genocídio palestiniano são crimes inqualificáveis.
Mais parecendo, hoje, que o massacre de 7 de Outubro foi apenas o pretexto para o genocídio com que Netanyahu pretende resolver um conflito histórico de quatro mil anos.
O ministro dos Negócios Estrangeiros considerou que as detenções (dos activistas da flotilha) feitas por Israel foram “ilegais”. “Israel não o poderia fazer”.
O primeiro-ministro não condenou a acção das autoridades israelitas, criticou o activismo, e apenas quis garantir que estavam a ser feitos todos os esforços para trazer os portugueses em segurança. Que, em vez de detidos numa prisão de alta segurança, nas palavras de Montenegro estão apenas sob a responsabilidade das autoridades israelitas.
Nuno Melo, o ministro da Defesa, preferiu criticar abertamente os activistas, dizendo mesmo que Mariana Mortágua colaborava com “terroristas”.
A utilização das Lages pelos seis F-35 americanos com destino a Israel, e os respectivos reabastecedores KC-135, em Março e Abril, quando o governo tinha anunciado a decisão de não permitir a utilização da base aérea para o abastecimentor militar a Israel, esteve escondida até ontem, quando o El País o denunciou, levando o Expresso a questionar o governo.
Para o primeiro-ministro, não há qualquer problema. No lugar de uma questão de Estado vê um mero “erro processual”. O ministro dos negócios estrangeiros, Paulo Rangel, depois de ter negado a ocorrência, acabou por dizer que não foi informado do movimento das armas para Israel e que, por causa disso, vai abrir um processo para “apurar responsabilidades”. A que terá de imediato colocado ponto final, ao perceber que elas iam direitinhas ao ministro da defesa, concluindo prontamente por “falha de procedimentos”. Nuno Melo, esse, limitou-se "a mandar apontar a mira" para outro lado.
Estas duas estórias, ambas fresquinhas, têm demasiados pontos em comum. Um deles é que ninguém se entende. Sem que ninguém se incomode com isso!
Se tivesse sido o José Rodrigues dos Santos a apresentar ontem o tele-jornal tê-lo-ia certamente aberto com ... "foram todos presos". Não podendo repetir o célebre "morreram todos", a que provavelmente acharia muito mais piada, não evitaria certamente o impactante "todos presos" para abrir a notícia da noite: a intercepção pela marinha israelita das embarcações da Flotilha, a 120 quilómetros de Gaza, e a detenção dos activistas envolvidos nesta missão de romper com o bloqueio israelita a Gaza; ou, noutra forma de dar a notícia, o ataque israelita à Global Sumud Flotilla, com sequestro dos tripulantes; ou, ainda, o ponto final que os militares israelitas colocaram na brincadeira, depois de esperarem, com a maior das paciências, que aqueles meninos mimados e provocadores tivessem o bom senso de virar para trás antes de entrarem nas suas águas territoriais.
Sim, porque é assim que as coisas hoje se passam. Nada é o que é, e tudo só é o que cada um faz do que é.
Nada é decisivo e absoluto. Nada é preto. Nem nada é branco. Tudo é costumizado, à medida. E às medidas de cada ponto de vista, atrás dos quais se cavam trincheiras onde vale tudo!
Há sempre duas partes em qualquer conflito ... de ideias. No outros há muitas vezes mais.
Há um lado, e o outro. Há sempre a contra-parte. Isso já é assim em tudo.
O debate sério não é parcial. Mas também não é sério o debate que relativa o bem ou do mal pela evocação da outra parte. Há bem e mal absoluto. E pode havê-lo num ou noutro lado. O mals nunca é relativizável, é sempre absoluto. O mal de um lado, não deixa de ser mal por haver outro mal no outro.
Vem isto a propósito do drama humanitário que continua a acontecer em Gaza, aos olhos de toda a Humanidade, mas sempre com gente disponível para o ... "mas olha que" ...
Lêmo-los e ouvimo-los todos os dias. Neste fim-de-semana, num longo desfile do "mas olha que", no Expresso, o Henrique Raposo escreve que "Quando ouvimos as declarações da Ucrânia e de Zelensky, há uma parte que é sempre cortada: os elogios a Israel, porque Telavive ajuda Kiev quando ataca a capacidade militar do Irão".
Não esperava que o "mas olha que" pudesse chegar a tanta hipocrisia. Menos ainda de gente tida por inteligente, democrata e moderada. Mas é a velha história do escorpião - está-lhe na massa do sangue!
O genocídio que Nethanyahu está a levar a cabo em Gaza está a assumir proporções inimagináveis. Nunca a perversidade criminosa chegara tão longe.
Nethanyahu é um assassino facínora, que age agora contra seres humanos como um caçador predador, à margem de todas as regras da caça. Primeiro impediu durante meses a ajuda internacional. Depois criou - com Trump - a "Fundação Humanitária de Gaza", e passou a controlar ele próprio todo o processo de ajuda humanitária para, finalmente, utilizar a ajuda alimentar como armadilha mortal.
Com os olhos do mundo fechados, a não quererem ver. Com a Europa a fingir que não ouve, nem vê. E com Portugal servilmente a continuar a ignorar ...
Foi hoje criada uma petição para o governo português reconhecer o Estado Palestiniano. Subscrevê-la é uma pequena contribuição para que Portugal deixe de ignorar. Vamos a isso!
Que um miúdo israelita, um estudante de 17 anos, em visita de estudo a Auschwitz, tenha efectuado a saudação nazi em frente ao portão principal do campo de extermínio nazi, mostra bem o estado a que este mundo chegou, com o processo de destruição da civilização em curso em primeiro plano.
Enquanto destrói Gaza, de que já pouco resta, condenando os palestinianos que escapam à condição de cadáver ao regresso à idade da pedra, Israel vai abatendo em territórios estrangeiros tudo o que é líder dos movimentos terroristas, que criou e alimentou para acabar com todas as lideranças palestinianas moderadas, que em tempos lutaram pela criação do Estado Palestiniano, prometido e desenhado paralelamente com o de Israel.
O resultado só pode ser mais uma escalada na guerra, com grande probabilidade de se transformar na sempre anunciada III, de proporções inimagináveis. A espectacularidade que Israel sempre consegue através dos seus serviços secretos e das suas forças armadas - e como são exaltados os seus feitos pelos fazedores da opinião ocidental! - secundarizou a guerra na Ucrânia, com Putin a aproveitar para, longe da atenção mediática mundial, ir avançando na ocupação e destruição da pátria ucraniana.
Na Venezuela, Maduro reprime, mata e prende todos os que reclamam pela verdade dos resultados eleitorais, por pão, e por liberdade.
É este o estado do mundo à entrada de Agosto. Como poderá ser querido?
A União Europeia, o antigo "gigante económico e anão político", vem encolhendo a passos largos na última década. De "gigante económico", passou a um ser da estatura média. E, de anão político, passou a microscópico. E a velha, poderosa e grande Europa passou a irrelevante no actual xadrez mundial, como se viu na Ucrânia, e se vê no Médio Oriente.
Tão irrelevante que não dá sequer para se lhe ver o ridículo do paradoxo que são as posições políticas das suas duas mais importantes lideranças - a Presidente da Comissão Europeia, Von der Leyen, e o Alto Representante para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, a que antes se chamava Sr PESC, Josep Borrel - relativamente ao que está a acontecer em Israel e na Palestina.
A Srª Van der Leyen apressou-se a correr para Israel, sem nada que se visse que não a subserviência em forma de espiral irrelevância. O Sr Josep Borrel lembra que a Europa defende há 30 anos a solução de dois Estados, e que o“conflito obriga-nos a comprometermo-nos politicamente com a solução, para a tornar real”. Que a UE passou 30 anos “a dizer que esta é a solução, mas a fazer muito pouco ou nada” para a alcançar. E que os territórios ocupados por Israel “estão, de acordo com o direito internacional, tão ocupados como os territórios ucranianos invadidos pela Rússia”. Que o território ocupado por Israel “se multiplicou por quatro” enquanto o palestiniano “tem vindo a encolher e a dividir-se em áreas desconexas”.
A irrelevância é tanta que ainda ninguém se irritou com o irrelevante responsável pela política externa europeia. Depois de, por muito menos, Cosgrave ter sido atirado pela janela e afundado a Web Summit. E de Guterres ter sido enterrado vivo nos destroços da ONU.
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