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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

EURO 2012 (XIX) - SOMOS OS PRIMEIROS

Por Eduardo Louro

                                                                     Portugal com garra de campeão está nas meias-finais 

Somos os primeiros. Os primeiros a entrar às portas das meias-finais!

A selecção nacional até voltou a entrar mal. Entrar mal é um eufemismo, porque esteve mal durante toda a primeira parte, apenas disfarçando nos últimos minutos da primeira parte, quando podia até ter marcado naquele remate ao poste de Cristiano Ronaldo. Que, com mais um na segunda parte, à sua conta, já leva quatro. Esse título já ninguém certamente lhe tira!

A equipa não esteve bem, nem perto disso. Quer colectiva quer individualmente, onde apenas Coentrão e Pepe – sempre ele – estiveram em bom nível, apesar de os minutos finais terem dito que Cristiano Ronaldo não estava ali para passar ao lado do jogo. Mal Raul Meireles e, muito mal, João Pereira. E não foi apenas durante os primeiros vinte minutos, como diria Paulo Bento. É certo que é aos 25 minutos que a equipa nacional constrói a sua primeira jogada de ataque, mas logo a seguir surgem os amarelos a Nani e a Veloso. E a única jogada de perigo da equipa checa, através da também única corrida dos 100 metros de Selassie, o tal lateral direito de que aqui falara.

A equipa não conseguia ter bola – apesar de, mesmo assim a equipa ter, pela primeira vez, mais posse de bola (53%) que o adversário – nem criar espaços. A selecção checa tapava todos os caminhos, fechava o jogo e, em pressão alta, tornava o campo bem mais curto. Sem espaço, e falhando mesmo os passes curtos, a equipa portuguesa optava pelo passe longo, mais difícil e invariavelmente condenado ao insucesso.

Na segunda parte tudo foi diferente: como da noite para o dia!

A selecção nacional produziu uma das melhores – se não a melhor – das exibições que alguma equipa realizou neste europeu. Logo no primeiro minuto, Hugo Almeida – que entrara aos 39 minutos da primeira parte para o lugar do lesionado Postiga (talvez a lesão mais oportuna, para não dizer mais desejada – porque isso não faria sentido – pelos adeptos) – teve tudo para fazer golo. E pouco depois era Cristiano Ronaldo a acertar - pela segunda vez no jogo e pela quarta em dois jogos – no poste.

As ocasiões de golo sucediam-se a um ritmo inusitado. Anotei-as, mas seria fastidioso enumerá-las, tantas foram! O golo, esse e como sempre, é que tardava. Aos 58 minutos Hugo Almeida introduziu a bola na baliza de Petr Cech – que, não tendo feito uma exibição do outro mundo, à sua conta negou dois ou três golos – mas em fora de jogo. Ficou a ideia que poderia ter tido essa noção e ter deixado a bola para Ronaldo, em boa posição – e legal – para fazer golo. Surgiria finalmente aos 79 minutos, numa cabeça espectacular do melhor do mundo, antecipando-se ao etíope - que de corredor de fundo passou a polícia – para dar a melhor sequência à excelente jogada de João Moutinho.

A selecção checa, completamente dominada nesta segunda parte – apenas fez uma jogada de contra ataque (59 minutos), por Pilar, em bom estilo, batendo João Pereira e Pepe, que morreria nos pés de Veloso, e fez apenas dois remates em todo o jogo, nenhum deles à baliza – não tinha qualquer capacidade de reacção, e foi Portugal que teve ainda mais três oportunidades para colocar o marcador em números mais próximos daquilo que a exibição justificava, para além de um penalti que, aos 87 minutos, o senhor Webb deveria ter assinalado quando o pobre polícia Selassie, depois de mais um nó do seu fugitivo, o empurrou pelas costas dentro da área.

A qualidade da exibição de Portugal mudou, como disse, do dia para a noite. Como mudaram as de todos os jogadores, mas, especialmente, as de Raul Meireles e João Pereira que, mesmo no fim, não se lembrou que Cech estava na área portuguesa, e não foi expedito a colocar a bola á frente de Ronaldo, na linha de meio campo. Mas também a de João Moutinho, que fez uma segunda parte memorável, ao nível do que de melhor se pode ver. Para a UEFA o homem do jogo voltou a ser Cristiano Ronaldo mas, para mim, foi João Moutinho!

Claro que, quando a equipa joga como o fez na segunda metade deste jogo, Ronaldo brilha ainda mais. E, com a equipa a jogar assim e o melhor do mundo a brilhar desta maneira, não sei se, agora, será mais difícil vencer os espanhóis – se lá chegarem – se os desejos do Sr Platini!

Futebolês #43 Cultura de jogo

Por Eduardo Louro

  

O futebolês é muito virado para as coisas da cultura. Tem a leitura, como já vimos , mas tem também um conceito mais vasto: a cultura de jogo!

Como qualquer cultura, ou se tem ou não se tem. Aqui a diferença está na adjectivação: no futebolês, ao contrário da linguagem comum, quem tem cultura de jogo não é necessariamente culto!

Um jogador – e esta é outra particularidade, apenas ao jogador é atribuída essa cultura, ninguém mais no mundo da bola é digno dessa bênção – com cultura de jogo é aquele que dispõe de um conjunto de condições que lhe permitem interpretar o jogo e tomar as melhores decisões em função da leitura que fez. O que equivale a dizer que o futebolês coloca as coisas nos seus devidos lugares: a cultura vem da leitura!

Sem saber ler o jogo não há cultura de jogo. Sem ler o jogo nada feito: não há interpretação que valha nem decisões que resultem.

Um jogador com cultura de jogo é naturalmente um jogador completo – ele junta às suas funções de jogador ainda as de treinador dentro do campo, a de um treinador ali à mão dos colegas. É a extensão da liderança do treinador. Ele percebe quando o jogo deve ser acelerado ou quando se impõe baixar-lhe o ritmo.

É deste tipo de jogadores que sai o patrão da equipa e, muitas vezes, futuros bons treinadores.

Outra coisa bem diferente de cultura de jogo é a cultura desportiva. E essa não abunda por aí!

Enquanto que a cultura de jogo se manifesta exclusivamente no rectângulo de jogo a cultura desportiva vive fora do terreno de jogo. Embora acabe sempre por ter repercussões lá dentro!

A cultura desportiva não obriga a ter grandes conhecimentos sobre desporto. Ter cultura desportiva não significa ser nenhuma enciclopédia desportiva, nem sequer ter os conhecimentos do Luís de Freitas Lobo.

A cultura desportiva traduz-se exuberantemente na expressão inglesa que toda a gente usa e a que alguns chamam treta: fair play!

O fair play não se esgota na sua utilização em campo, no tal sítio onde ás vezes é mesmo uma treta. Não se limita ao cavalheirismo exigido aos jogadores em campo. Extravasa o campo de jogo e é mesmo tão mais importante quanto mais afastado desse recinto.

Não será falta de cultura desportiva vir criticar o presidente da comissão de arbitragem por se ter prestado a esclarecer os lances da arbitragem do Guimarães-Benfica?

Creio que sim. Quando o dirigente máximo da arbitragem, onde sempre vimos imperar um corporativismo especializado em atirar areia para os olhos, vem explicar esses lances de forma clara, como, afinal, toda gente tivera oportunidade de ver, está a contribuir para o fair play. Está não só a contribuir para um aumento da cultura desportiva mas, e muito mais importante, está a dizer aos senhores árbitros que têm de ter atenção, porque toda a gente está a ver. Daí que os mínimos aceitáveis em cultura desportiva, mesmo um dez nas novas oportunidades, obrigue a aplaudir a iniciativa de Vítor Pereira.

Mas não foi o que fizeram o presidente do Guimarães e o treinador do Porto. No primeiro não se pode falar de falta de cultura desportiva porque, pelo que se viu e ouviu, é falta de cultura. Ponto!

Já no treinador do Porto é clara falta de cultura desportiva, de fair play e até de elegância! Deve ser daqueles ares. Quando até podia ser magnânimo e, do alto da sua cadeira, a de sonho, e dos seus nove pontos de avanço (!), aplaudir a atitude do sr Vítor Pereira. Mesmo que não fosse por nobre cultura desportiva, bastaria que fosse por mero reconhecimento. Por ele não ter esmiuçado nenhum dos muitos erros que têm favorecido o Porto ao longo destas primeiras cinco jornadas que, somados com os outros, dão nos tais inacreditáveis nove pontos.

É mesmo daqueles ares! Também o recém-chegado João Moutinho, interrogado pelas facilidades no jogo da Madeira, com o Nacional, respondeu que eram eles que tornavam os jogos fáceis. Fantástico! Quando acabávamos de assistir a um jogo que julgávamos facilitado logo aos 20 minutos com um auto-golo e, logo no minuto seguinte, voltamos a julgar facilitado pelo árbitro quando não assinalou a mão de Rolando e o respectivo penalti que poderia voltar a deixar o jogo empatado! Claro que nos lembramos logo da maneira como tinham sido tornados fáceis três dos restantes quatro jogos. Porque o do Dragão com o Braga foi bem difícil. Mas também, apesar de o não ter visto, mas pelo que li e ouvi e pela minha cultura desportiva, bem jogado e bem ganho!

Futebolês #33 ATITUDE

 

Por Eduardo Louro

 

 

 

Confesso que a atitude é, entre todas as expressões do futebolês já aqui trazidas, a que mais me impressiona. Serve para tudo, tudo resolve. Anda na boca de toda a gente!

A equipa perdeu? Faltou-lhe atitude! Ganhou? Que grande atitude!

Tudo se perdoa menos a falta de atitude. Tudo se exalta, mas nada o é mais que a atitude.

Então mas o que é realmente essa coisa tão virtuosa? O que é afinal a atitude?

Não sei! Confesso humildemente que não sei.

Alguma vez haveria de acontecer… pois é desta! Aviso já que ainda há outra – a mística – mas essa fica para outra altura.

Admito, mas apenas isso, que a atitude se refira à entrega dos jogadores. À forma como lutam, correm… À forma como disputam cada lance. À raça, que seria, assim e em futebolês, o rigoroso sinónimo de atitude.

Àquilo que também se chama comer a relva, uma expressão do mais puro futebolês que nada tem a ver com qualquer condição herbívora dos jogadores. Apenas mais uma metáfora que pode ajudar a perceber a atitude. Ou deixar a pele em campo, outra das bem eloquentes expressões do futebolês!

Quem é capaz de deixar a pele em campo é quem come a relva. Quem dá tudo o que tem. Quem não se poupa nem se esconde! É o jogador que dá garantias. Que faz a felicidade de qualquer treinador, que deixa tudo em campo! Dos que “saltam comigo para a selva” como disse Carlos Queiroz, ainda atordoado quando acabara de levar seis do Brasil. Uma expressão que não pegou, até porque, com tanto medo como revelou, nem ele próprio nunca chagaria a saltar.

Em Portugal, nos últimos anos e, creio eu, que pela simples razão de ganhar muitas vezes, foi-se construindo a ideia de que a atitude estava toda concentrada no FCP. Era lá que estava a fonte da eterna e inesgotável atitude. Quem lá chegasse bebia daquela fonte e pronto: ficava com atitude para dar e vender.

Esta ideia fez de tal forma percurso que viria a desembocar no mito da encarnação da atitude: o jogador à Porto!

O jogador à Porto é a própria atitude em carne e osso. Há jogadores com atitude mas há mais do que isso – há o jogador à Porto!

Há dois tipos de jogador à Porto: o autóctone, que lá se fez, naquela escola de virtudes a beber daquela fonte inesgotável de atitude, e o tipo pescada – antes de ser já o era! Que já é jogador à Porto antes de chegar ao Porto.

Quando Pinto da Costa descobre um destes jogadores á Porto, do tipo pescada, já se sabe que vai dar caldinho. Caldinho à Pinto da Costa, como o Sporting bem sabe!

Conhecemos muitos destes jogadores á Porto. Assim de repente lembro-me de Cristian Rodriguez, de Ruben Micael e, claro, de João Moutinho, que a meio da época passada Pinto da Costa declarara jogador à Porto, com as consequências conhecidas.

Do primeiro lembro-me do seu enorme carácter: já tinha assinado contrato com Pinto da Costa mas em Portugal só jogaria no Benfica. E depois foi o que se viu, sempre um modelo de elevação a referir-se ao clube que o havia libertado das trevas do banco do PSG e projectado para o futebol nacional e para a selecção do Uruguai (sol de pouca dura: uma expulsão - a que no Porto não estava habituado –, correspondente castigo e … adeus África do Sul)!

Para o Ruben Micael nem há palavras. Foi a narrativa da sua própria experiência pessoal em matéria de túneis, foi a brutal agressão do Jorge Jesus e sei lá mais o quê. A sua atitude e o seu carácter apenas não se confirmaram com mais veemência porque uma lesão o afastou dos jogos … e dos microfones. Mas já regressou, e em grande forma. Agora a manifestar os seus encantos com o novo treinador (ou treinador novo, muito novo?), coisa que não sabe fazer sem ser desagradável com o anterior, o velho, muito velho. “Fazemos exercícios que nunca fizemos” ou “treinamos com uma grande intensidade, que é uma coisa a que não estávamos habituados”, são expressões de grande atitude. De grande elevação e de grande respeito por Jesualdo Ferreira. De grande carácter mesmo!

Já o João Moutinho é um caso flagrantemente diferente. Inverso mesmo. Se no Sporting havia alguém que pudesse simbolizar a atitude era mesmo ele. Deixava a pele em campo, comia a relva, era o capitão e o símbolo. Mas assim que Pinto da Costa o leva (e, ao contrário dos outros dois, com uma espécie de aviso prévio) transformou-se por completo. E não se transformou apenas num crápula empedernido, transformou-se numa maçã podre!

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