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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #101 JOGO RASGADO

Por Eduardo Louro

Um jogo não é rasgado - ou rasgadinho como também se diz em futebolês – quando se rasga o que quer que seja: camisolas, calções ou qualquer outra parte do equipamento.

O que não quer dizer que não se rasguem camisolas na sequência de jogos rasgadinhos. Ainda nos lembramos de um célebre jogo em Alvalade em que a camisola do Rui Jorge – hoje seleccionador nacional da equipa de sub 21 (acredito que se tenha deixado de lhe chamar esperanças por disso haver cada vez menos) – foi rasgada precisamente depois de um jogo rasgadinho entre o Sporting e o Porto. Coisas de outros tempos, que não exactamente de outro Mourinho, e muito menos de um outro Porto…

Começa-se a perceber que um jogo é rasgadinho quando é muito disputado, quando se luta palmo a palmo pela posse da bola, quando o empenhamento dos jogadores é máximo, sem regatear esforço nem suor. Quando comem a relva, que é mais uma expressão de futebolês. Pois, mas não chega. Para jogo rasgadinho falta ainda qualquer coisa. Falta entrar com tudo – outra – que quer dizer entrar à bola e/ou ao adversário – e mais outra – naquela zona de red line que fica entre o excesso de dureza (também chamada virilidade, que é coisa que não se percebe bem, até porque, ao contrário do que se diz, o futebol já não é só um jogo de homens) e a violência. Faltam picardias e jogo maldoso, ainda e mais uma expressão de futebolês.

Um jogo rasgadinho é pois muito mais que um jogo de futebol. É um jogo de futebol mas com ingredientes complementares: pancadaria, grosseria, ausência completa de respeito pelo que seja e por quem quer que seja. É o jogo rasteiro e cheio de truques baixos onde o fair play nem sequer é uma treta

Quer dizer, é o pior do que de pior o futebol tem. E, no entanto, em vez de se chamar isso mesmo – o pior do que de pior o futebol tem – chama-se-lhe rasgadinho. Assim mesmo, com diminutivo carinhoso e tudo!

Já há muito que estamos habituados aos famosos jogos rasgadinhos entre Porto e Benfica. Aqui ou ali também alguma coisa rasgadinha nos jogos entre o Benfica e o Sporting ou entre o Porto e o Sporting. Rasgadinhos pela certa eram os Porto-Benfica, assim mesmo, os jogos nas Antas ou no Dragão, que se não ficavam, nem se continuam a ficar, pelo espaço limitado pelas quatro linhas. Lembramos do Paulinho Santos (o que sofreu o coitado do João Pinto), do Jorge Costa (parece que não conseguiu perder esses hábitos e agora, lá pela Roménia, quem paga é a mulher) ou, mais recentemente, do Bruno Alves, do Fucile, e sei lá mais quem…

De repente, de há três ou quatro anos para cá, surgiu o mais rasgadinho dos rasgadinhos. É já um clássico! É o Braga-Benfica, como já perceberam. Braga era, e não vejo por que tenha deixado de ser, uma região de forte implantação benfiquista. O Sporting de Braga era um clube que, como a generalidade dos restantes, mantinha boas relações com o Benfica: recebia bem – lembro-me da festa do título de 1994, no antigo Estádio 1º de Maio , que quase parecia a Luz – e era tradicionalmente um dos seus principais clubes fornecedores. E o Benfica foi sempre o seu principal cliente.

Era uma situação que não interessava às ambições hegemónicas de Pinto da Costa, que não descansou enquanto não tratou de inverter, exportando para Braga toda a tecnologia e o  know how dos jogos rasgadinhos, para transformar a Pedreira num inferno alimentado pelo fogo do Dragão. Em poucos anos o recinto dos bracarenses transformou-se no mais hostil – e aqui a hostilidade é mero eufemismo de terror - dos ambientes que o Benfica visita, e os jogos passaram a ser os mais condicionados de todos os que o Benfica tem de disputar.

Este último, do passado domingo, foi apenas mais um. Onde se viu o que nunca tinha sido visto: três cortes de energia - que levaram uma primeira parte digna de Guiness, de quase noventa minutos jogados em suaves prestações - mais uma arbitragem deplorável, corte de água quente nos balneários… a culminar numa absurda, extemporânea e inacreditável tentativa de acusação de Alan – um especialista, com tirocínio tirado no Dragão - de racismo a Javi Garcia. Tudo sem o mínimo sinal de interesse da Liga!

Sei que alguns poderão argumentar foi a partir desta metamorfose que o Braga se guindou a um novo patamar competitivo. Como, se assim fosse, os fins justificassem os meios!

Mas nem sequer é bem assim. Apenas nas duas últimas épocas o Braga teve desempenhos acima do que serão as suas prestações normais em função das condições de que dispõe: na última por força da verdadeiramente excepcional presença na final da Liga Europa e, na anterior, por força de um também excepcional segundo lugar na liga. Ambos circunstancias e dificilmente repetíveis!

O que é claro e visível é a satelização face ao Porto. Sem qualquer dimensão comercial – o Braga entretanto deixou cair a formação e, sem jogadores para vender, tornou-se não num entreposto mas num laboratório de ensaios de treinadores e de dirigentes para o Porto - e com óbvia submissão competitiva nos jogos entre si.

 

PS: Escrevo antes do jogo da selecção nacional na Bósnia. Pelo que se tem visto – desde a imposição de um campo inacreditável para este nível de competição, à perseguição aos jogadores portugueses, em particular Cristiano Ronaldo - espera-se também um jogo rasgadinho.

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