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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Falsa revolução

Hoje a Luz encheu-se para assistir a dois jogos. Fala-se, em futebolês, de um jogo com duas partes distintas, mas o que se viu foi dois jogos. No primeiro, numa grande exibição do Benfica, que teve tudo o que lhe vem há muito faltando, os perto de 60 mil nas bancadas vibraram com o espectáculo a que assistiam, e com os 5-0 no resultado. No segundo, grande parte deles regressou aos assobios. Pela exibição, e pelo 1-1 no resultado.

Quem, sentado na seu lugar, e sem saber de mais nada do que rodeia o jogo - como tantas vezes me acontece - ao ouvir anunciar a constituição da equipa julgaria estar perante uma revolução. Admitiria que Shmidt revolucionara a equipa. Relativamente ao último jogo, na quinta-feira passada, mudou tudo. No quarteto defensivo apenas manteve Otamendi. No meio campo, apenas João Neves. E, no ataque, apenas Rafa.  

E na verdade, mesmo que pouco inspirado, e inspirador, no primeiro quarto de hora, o jogo confirmaria que se estava perante uma revolução do futebol do Benfica. João Mário assumiu o papel que o futebol lhe destinou, no meio, ao lado de João Neves, entregando a Tiago Gouveia o papel que, equivocadamente, Schmidt lhe tem atribuído. Neres ficou com o de Di Maria, e Tengstedt com o de ... sabe-se lá quem, tantas têm sido as alterações nessa posição 9. 

O Benfica pressionava alto, asfixiava o adversário, jogava com velocidade, chegava à linha de fundo  ... Jogava e marcava, com alto índice de concretização. Cinco golos - dois de Neres, um de Otamendi, Tiago Gouveia e Rafa. Ainda não se tinha visto nada disto nesta época, e já só se pensava que, a continuar assim, o resultado acabaria em qualquer coisa muito parecida com aquele 10-0 ao Nacional, de há cinco anos, acabados de fazer.

Conhecendo as circunstâncias, com Kokçu e Florentino impedidos de jogar por suspensão disciplinar, António Silva de luto por morte de um familiar, Alvaro Carreras, substituído pelo Morato no último jogo, com o Toulouse, ainda incapaz de convencer, e Di Maria e Aursnes sobrecarregados de jogos, começava a duvidar-se dos ideais revolucionários de Schmidt. Afinal o acto revolucionário do treinador não passaria de simples gestão das circunstâncias, e a revolução do futebol do Benfica não passava de uma "revolta" dos jogadores menos utilizados, conscientes que estavam obrigados a "mostrar serviço".

A segunda parte - o segundo jogo -  confirmou isso mesmo, que afinal não havia revolução nenhuma. Começou com o golo do Vizela, numa distracção de Trubin que, chutando a bola contra as costas de um adversário, a fez ressaltar para o goleador da equipa - Essende - a rematar (primeiro remate da equipa) para uma primeira defesa e marcar na recarga. Foi o primeiro sinal de que a desconcentração se voltava a instalar na equipa. 

Trubin ainda se redimiu, ao defender, a meio da segunda parte, um penálti cometido pela desconcentração - e aselhice - de Morato. Mas a equipa foi regressando ao passado. Os menos utilizados foram quebrando fisicamente; os mais utilizados foram regressando à equipa. Di Maria entrou logo ao intervalo, ficando Rafa nos balneários. Aursnes vinte minutos depois, para sair João Neves. E Marcos Leonardo dez minutos mais tarde, para jogar o último quarto de hora e ... marcar. O sexto, obra de Neres - o melhor em campo -, já perto do fim, mas ainda com pernas para correr o campo todo com a bola, passar por todos os adversários e oferecer, com alguma sorte no último ressalto, o golo ao compatriota. Os restantes, Alvaro Carreras e Rollheiser, como habitual, já só depois disto tudo. 

No fim, o 6-1 que fica como o melhor resultado da época, acaba aquém do prometido naquela grande primeira parte. Da revolução, sobra apenas "a revolta" de Neres, a deixar dito que conta. E que não faz de conta. Como Rafa conta: percebe-se que, com 5-.0, tenha sido poupado. Como se percebe a falta que faz!

Utopia no charco

Pelo segundo ano consecutivo o Benfica deixou dois pontos em Guimarães. Na época passada, os primeiros. E, lembramo-nos bem, na primeira exibição falhada. Ontem, em dia de recordar Feher, vinte anos depois daquele seu último sorriso,  à 21ª jornada, o 11º, na enésima exibição falhada.

A exibição falhada de ontem não tem, no entanto, nada a ver com a do ano passado. Como a equipa vitoriana deste ano não tem nada a ver com a de então, quer no que joga, quer na classificação que ocupa. Esta equipa de Guimarães ganhou ao Sporting - igualando o que só o Benfica tinha conseguido - e deu um "banho de bola" ao Porto, que só ganhou esse jogo por milagres do Diogo Costa.

Da exibição falhada de ontem pode falar-se do estado do relvado que, transformado num autêntico pantanal - provavelmente com outro adversário o jogo não se teria realizado ou, pelo menos teria sido interrompido na primeira parte - tornou difícil jogar futebol. É certo que o estado do relvado era igual para ambas as equipas, mas mais igual para uma que para outra.

Do que não pode deixar de se falar é da opção de Roger Schmidt deixar três pontas de lança no banco, e de escolher jogar sem nenhum. Seria sempre estranho, mas ainda se poderia fazer um esforço de interpretação da ideia do treinador se o campo estivesse em bom estado, e permitisse sustentar uma estratégia de ataque móvel para um jogo de transições rápidas, como se sabe a ideia de jogo mais atractiva que Schmidt tem para apresentar. Naquelas condições do relvado isso era mais que utopia. Era cegueira!

O jogo rapidamente mostrou essa cegueira, com a ala esquerda (Morato, já nem sabe defender e João Mário já não dá para entender, e pior ainda naquelas condições do terreno) desastrada, e os jogadores a jogar como se pisassem o esplendor da relva. Como jogam sempre, os mesmos de sempre, da única forma que conhecem, mesmo se em vez de relva tivessem de jogar num charco. Já se tinha dado conta que nunca há plano B perante contrariedades próprias do jogo. Ontem ficamos a saber que nem perante a impraticabilidade do relvado.

E isso é ainda mais preocupante que os dois pontos ontem deixados em Guimarães.

Porque, nesta altura, ninguém saberá se foram dois pontos perdidos ou um ganho. Ganho pelo Trubin, e pelas substituições que aligeiraram os equívocos iniciais. Poderá sempre dizer-se que afinal o resultado foi o mesmo: que o Benfica empatou (1-1) a primeira parte, sem ponta de lança; exactamente como na segunda, já com dois. Mas, para ser verdadeiro, o golo de Rafa, para empatar a primeira parte, cinco minutos depois do penálti sofrido, aconteceu na única oportunidade de golo então construída. Já o de Cabral, que estabeleceu o empate final, foi consequência de qualquer coisa mais continuada. E, mesmo sem, à excepção da posse de bola, nunca se superiorizar claramente ao adversário - rematando bem menos e não tendo construído mais oportunidades de golo - ainda assim, foi pelo que fez na segunda parte, que o Benfica justificou o empate.

Na frente, sem dogmas!

Assistimos hoje, na Luz, a um belíssimo espectáculo de futebol. Começo exactamente por aí, pelo lado do espectáculo, a que nem sempre se dá o devido destaque. 

Foi um jogo aberto, em que quer o Benfica, quer o Gil Vicente, se preocuparam unicamente em jogar à bola. Deveria ser sempre assim, mas bem sabemos que não é. As equipas preocupam-se sempre mais com o resultado do que com a exibição. Mais em destruir, que em construir. Em simular faltas, e queimar tempo, que em disputar o jogo.

Bem sei que há nisto muito de romantismo, e que, hoje, o futebol não é nada disso. Mas continua a ser bonito ver um jogo de futebol em que as equipas em confronto são leais, jogam o jogo, e deixam de lado as manhas que matam o espectáculo.

Foi neste "cenário macro" que aconteceu este Benfica-Gil Vicente da vigésima jornada do campeonato. O Benfica não precisou de fazer uma exibição deslumbrante para ser parte activa, e protagonista principal, deste belo espectáculo de futebol. Entrou em campo com duas caras novas no onze titular mas, na realidade, com três alterações na equipa: Florentino e Bah, foram as caras novas; Aursenes, libertado do lado direito da defesa pela inclusão, mais de três meses depois, do regressado Bah, foi a terceira, com o regresso à ala esquerda, há muito ocupada por João Mário.

Quer dizer que, de fora, ficaram (precisamente) João Mário e Kokçu. Dois jogadores discutidos: o primeiro, pelas razões de sempre; o segundo por razões de posicionamento no campo. Dois jogadores tidos por "pendurados" nos  "dogmas" de Schmidt.  

Não sei - ninguém saberá - se os dogmas deixaram de o ser. Sabe-se - vê-se claramente - que Florentino faz melhor o que Schmidt pretende que Kokçu faça na "posição 6". Sabe-se que "o 10" é "um 10", e não "um 6". E sabe-se - melhor, imagina-se - que, para Kokçu jogar lá na frente, só o poderá fazer na vez de Rafa. Que não é um "dogma", é a realidade do melhor que a equipa tem.

Na verdade os "dogmas" dos treinadores são o que são. E, por muito bom que Kokçu seja "a 10", não há forma de prescindir de Rafa ... enquanto ele por cá estiver. Tal como, por muito que Schmidt aprecie o futebol de João Mário, preferirá sempre Aursenes para aquela função na esquerda.

A insistência em Morato no lado esquerdo da defesa é outro dos "dogmas" que este jogo de hoje desfez. É sempre mais fácil enfrentar os dogmas quando as coisas correm bem. Bastaram os pouco mais de vinte minutos em campo para Álvaro Fernandez confirmar que, finalmente, o Benfica tem um lateral esquerdo. Não é (ainda?) Grimaldo, mas deixou claro que Morato (não deve ser alvo de ingratidão) terá de ter as suas oportunidades mas no seu lugar de central.

A quebra destes "dogmas",  evidentemente que pelas opções agora disponíveis, junto com o fim das indefinições na posição 9, com a estabilização da aposta em Cabral, dão uma nova estabilidade à equipa. Tudo isto somado com a liderança, mesmo que à custa do adiamento do jogo do Sporting em Famalicão por falta (protestos) de polícia, dão um novo alento ao Benfica para atacar esta fase decisiva do campeonato.

O resto foi o jogo. Bom, como já foi referido. E que o Benfica dominou por completo, garantindo que nas bancadas da Luz se vivessem 90 minutos de festa, sem qualquer espécie de sobressaltos. Não precisou de rematar muito - foi o jogo com menos remates na Luz, apenas dez - nem de uma rara e extraordinária eficácia para construir o 3-0 final. Precisou apenas de jogar bem, e de marcar nos momentos certos: aos 15 minutos, num cabeceamento de Cabral, no canto cobrado por Di Maria; aos 35, igualmente na sequência de um canto, mas com notável trabalho do inesgotável João Neves, ao segundo poste; e de Rafa, logo no arranque da segunda parte, em mais um grande remate, a concluir uma das melhores jogadas do desafio.

E foi o minuto 29, de comovente homenagem a Feher, por acaso numa altura do jogo em que o Gil Vicente, que nunca abdicou de jogar à bola, mais procurava ameaçar a superioridade benfiquista. Mesmo que apenas a cinco minutos do fim tenha obrigado Trubin à sua única defesa. De grande qualidade, a garantir a folha limpa. 

Duas caras com as mesmas caras

Arthur Cabral deixa Reboleira 'a ver Estrelas' e Benfica recupera sorriso

Para a curta deslocação à Amadora Roger Schmidt repetiu as suas habituais opções na equipa. Repetiu de tal forma que até voltou a mudar na posição 9 entregando, desta vez, a titularidade a Arthur Cabral. E, com a mesma cara, o Benfica voltou a ser igual ao dos últimos jogos, alternando entre momentos depressivos e outros próximos da perfeição.

Na primeira meia hora andou sempre mais perto do seu registo exibicional mais negativo que doutra coisa. Baixa agressividade, baixa velocidade, e baixo ritmo. E, com tanta coisa em baixo, era difícil que o Estrela não fosse bem sucedido na sua estratégia, muito semelhante à da maioria das equipas que defrontam o Benfica, bem conhecedoras daquele modelo de jogo. A equipa da Amadora mostrou que estava preparada para explorar as dificuldades do Benfica em ataque continuado, mas também para contrariar o seu lado mais forte - as transições ofensivas. Defendeu em "bloco baixo", e quando subiu conseguiu fazê-lo sem deixar muito espaço nas costas mas, especialmente, a pressionar com grande agressividade quer o portador da bola quer os espaços.

Sem velocidade, e sem grande inspiração, os jogadores do Benfica não conseguiam romper a "teia" que os da Amadora iam, cada vez mais confortavelmente, tecendo. Não se pode dizer que o golo do Estrela fosse, naquela altura, à beira da meia hora de jogo, a coisa mais esperada deste mundo. Mas pode dizer-se que se adivinhava com alguma facilidade.

Nem isso despertou o Benfica, que continuou refém das opções mais discutíveis (e discutidas) de Schmidt, seja na ala esquerda, seja no meio campo. E o jogo encaminhava-se para o intervalo, a prometer mais uma noite de sofrimento. Valeu a qualidade dos jogadores, e uns momentos de inspiração para dar a volta ao resultado é à história que o jogo estava a escrever. 

Em dois minutos - o último antes dos 45, e o primeiro dos da compensação - Di Maria, Cabral e Rafa soltaram o génio e resolveram. Primeiro com uma espectacular "bicicleta" de Cabral a concluir um passe de génio de Di Maria. Depois, com Rafa, num remate de grande execução, a responder ao passe do brasileiro, novamente descoberto pelo rasgo do argentino.

O resultado ao intervalo, ainda assim justificado pelas oportunidades de cada equipa - o Estrela dispusera de duas e o Benfica de, pelo menos, quatro - não ajudou apenas a serenar o Benfica. Ajudou a galvanizar a equipa.

Ao intervalo Schmidt fez apenas uma substituição. E porque a ela foi obrigado pela lesão de Kokçu - a agressividade do Estrela foi muitas vezes muito mais do que isso, foi mesmo, e continuou a ser, dar no osso sem dó nem piedade - com a entrada de Florentino. Fez-se sentir: Kokçu não faz o mesmo, nem nada que se pareça. É um desperdício naquela zona do terreno, mas o treinador é que sabe.

Por força dessa alteração, ou não (custa a crer!), o Benfica passou para a segunda parte como da noite se passa para o dia. E, então sim, passou para uma exibição que passou por momentos de grande brilhantismo, ficando a dever ao marcador uma boa mão cheia de golos. 

Otamendi, em recarga a um remate ao poste de Cabral, fez o terceiro ainda dentro dos primeiros dez minutos, e o Benfica dominou por completo o jogo. Antes, mas também depois, de mais umas quantas oportunidades de golo. E o quarto, novamente de Marcos Leonardo, um quarto de hora depois de ter entrado, acabaria apenas por aparecer já no período de compensação. 

Não acabam aqui - na exibição da segunda parte e no golo que deu a mínima expressão ao reultado - as boas notícias desta noite. Houve mais: o regresso de Bah, a juntar ao de Neres (entraram ambos com Marcos Leonardo), e a estreia de Rollheiser, mesmo que apenas por cinco minutos. Má notícia é que Álvaro Fernández nem sequer tenha saído do banco.

O Estrela jogou os últimos vinte minutos com menos um jogador, o que terá sido o seu maior sucesso. Com tanto "pau que deu", chegar ao fim com apenas um jogador expulso bem podia ser uma das principais notícias do jogo.

 

 

Inquietação

Arranque da segunda volta do campeonato, e segundo jogo consecutivo na Luz, novamente perto de cheio (55 mil), mas ainda baixo da média da temporada. Com o Benfica a ter contas para ajustar com o Boavista, a única equipa com que perdeu nesta competição, logo na primeira jornada, e nas condições em que todos recordamos.

Já sem Petit - gratidão é coisa que não assiste no futebol, menos ainda em Portugal e, menos ainda no Boavista - a equipa axadrezada não foi muito diferente da de então. Muita força, muita entrega, marcação cerrada e, a espaços, alguns momentos de futebol. É uma daquelas equipas que obrigam o adversário a correr, e a lutar, tanto como eles. E o Benfica, já se sabe, não se sente muito confortável com essa obrigação. Acresce que o adversário moralizado pelos últimos dois jogos, com o empate com o Porto e a goleada em Vizela.

Tudo se conjugava para mais um jogo de elevado grau de dificuldade para o Benfica, o que se confirmou.

Na primeira parte o Boavista apenas defendeu. O que não quer dizer que o Benfica apenas tenha atacado, e menos ainda que tenha massacrado a defesa boavisteira. Isso não aconteceu porque ao Benfica faltou intensidade, faltou pressão alta consistente, e faltou ... João Neves. Mas também porque tem dificuldades no ataque continuado, e porque o árbitro Gustavo Correia é, com conhecida folha de serviço, mais do mesmo. Ignorou faltas sucessivas, muitas delas merecedoras de sanção disciplinar, e algumas dessas praticadas pelo mesmo jogador. O que quer dizer alguns deles, e descaradamente Salvador Agra e Luís Santos, poderiam e deveriam ter sido expulsos bem cedo no jogo.

A arbitragem deste senhor, que tem brilhado nos jogos do Porto,  saiu melhor que a encomenda, teve clara influência no desenrolar do jogo, e criou um ambiente de instabilidade nos jogadores e nervosismo nas bancadas. Basta dizer que o Boavista chegou ao intervalo com três faltas assinaladas. E o Benfica com 8. 

Com o Boavista só a defender (o seu melhor marcador, o internacional eslovaco Bozeník, foi mais um central), o Benfica chegou ao intervalo com muitos cantos, doze remates, e quatro oportunidades de golo, mas sem marcar... Podia - e deveria - ter feito mais e melhor. Mas tem de se reconhecer que, naquelas condições, isso também não era fácil.

A segunda parte começou com o golo de Di Maria. Finalmente. Que mudaria o jogo. Mas não. O VAR foi descobrir que no início da jogada a bola batera na mão de João Mário. Gustavo Correia foi ver as imagens e regressou todo satisfeito, para anular o golo.

Mas o jogo mudou, na mesma. O Boavista percebeu que nada de mal lhe poderia acontecer, passou a afoitar-se mais, e o jogo chegou mesmo "a partir". Bozeník já não era central e, num contra-ataque, surgiu na cara de Trubin. Que evitou o golo com uma grande defesa, complementada com o apoio de Morato, a impedir que a bola defendida chegasse, ainda assim, a entrar.

Foi a única oportunidade conseguida pelos boavisteiros em todo o jogo mas, naquela altura, por volta dos dez minutos da segunda parte, não se sabia. E a inquietação subia, logo a seguir quando, prosseguindo a sua escalada, o árbitro assinalou uma falta que Florentino não cometeu, e lhe mostrou o cartão amarelo. E a Rafa, por protestar a absurda decisão. Otamendi também já o tinha visto, minutos antes.

Vivia-se esta inquietação quando, à saída do primeiro quarto de hora, Di Maria marcou. Num centro-remate, depois de desmarcado pela diagonal de Kokçu, a bola acabou por entrar sem que nem, primeiro Cabral e depois João Mário, lhe tenham conseguido tocar. A demora a confirmar o golo indica que o VAR ainda vasculhou tudo à procura de qualquer coisa que aliviasse a dor do tal Gustavo.

Logo a seguir Rafa poderia ter marcado, e resolvido a inquietação. Mas o remate saiu rente ao poste, e o Boavista cresceu. O cartão amarelo "liquidara" Florentino. Deixou de existir, e a sua substituição era obrigatória. Mas tardou. E, quando foi feita, a 20 minutos dos 90, não correu muito bem: entrou Tomás Araújo para a direita (o Benfica ficava só com centrais no quarteto defensivo) e Aursenes derivou para o meio campo, donde pareceu já desabituado. Em simultâneo entrou - e essa correu bem - Marcos Leonardo para o lugar de Cabral.

Schemidt teve um quarto de hora para perceber que não correra bem, e emendou a mão com a entrada de João Neves (a carga de porrada que levou no jogo com o Rio Ave deixara-o sem poder treinar e, por isso, sem condições físicas para jogar), para o lugar de Kokçu, que acabara de, no seu primeiro remate à baliza, estar muito perto do golo. Faltavam mais de 10 minutos (com os descontos) para o fim, e o miúdo funcionou como um forte ansiolítico para a inquietação que reinava nas bancadas. E no relvado.

João Neves, recebido logo à porrada pelos adversários, pegou no jogo e não o largou mais. Mas o sofrimento apenas acabou mesmo já no período (seis minutos) de compensação, finalmente com o segundo golo. Mais uma vez numa jogada de ataque rápido, com um passe longo e preciso de Otamendi para Di Maria, que recebeu como só ele sabe e serviu de bandeja Marcos Leonardo. Que não falhou, e marcou também o seu segundo golo. No seu segundo jogo. Depois de vinte minutos em campo, que somam aos dezassete do primeiro.

O Benfica construiu dez oportunidades de golo. Criou 50 acções na área adversária mas, mais uma vez, só conseguiu marcar nas duas que resultaram de lances de ataque rápido. E esta não é uma boa notícia. Nem novidade!

Boas notícias são os sinais que Marcos Leonardo está a dar, e o regresso de Neres. Jogou só um minuto, mas é finalmente o regresso. Tão ansiado como o segundo golo, esta noite! 

 

 

Experiência nada recomendável

Não houve diabo, esta noite na Luz. Que não encheu, mas que estava bem composta, com perto de 55 mil adeptos nas bancadas. Mesmo que o primeiro remate, e a primeira oportunidade, tenha pertencido ao Benfica, logo no arranque do jogo  para, logo a seguir, no seu primeiro remate, o Rio Ave tenha marcado.

Ainda não tinha dado para perceber o que o jogo teria para dar e, aos nove minutos, o Rio Ave já ganhava. Percebeu-se logo a seguir, quando se começou a ver que que o Benfica não conseguia reagir ao golo sofrido, e que o Rio Ave punha e dispunha do jogo praticamente a seu belo prazer. Dominava o meio campo, onde os seus jogadores chegavam sempre primeiro à bola, e ganhavam todos os ressaltos, e impunha o ritmo do jogo.

Foi assim durante praticamente toda a primeira parte, com o Benfica apenas com um ou outro "salpico". Num deles, às portas da meia hora, numa transição de Rafa (tinha que ser!), ao segundo remate - foram vinte e três minutos sem rematar - e à segunda oportunidade, marcou. A assistência de Rafa foi primorosa para um grande golo de Di Maria, daqueles que só ele mesmo consegue marcar.  

Esperava-se que finalmente, e com o golo do empate, se invertesse definitivamente o rumo do jogo. Mas não. O Rio Ave continuou a ser melhor equipa, e o Benfica não conseguiu muito mais que mais dois ou três "salpicos" já com o intervalo à vista, com o guarda-redes vilacondense a evitar o golo com duas grandes defesas. Primeiro a João Mário, com um vistoso chapéu e, logo a seguir a Rafa. 

Esses cinco a dez minutos finais fizeram com que, ao intervalo, as estatísticas revelassem um equilíbrio, que na realidade era ilusório. Na posse de bola (52-48%), nos remates (4-5), com todos os do Benfica enquadrados, e apenas um do Rio Ave fora do alvo, e com dois cantos e três oportunidades de golo para cada lado. E fizeram, até porque as últimas imagens são sempre as que mais ficam, as bancadas - de onde tinham começado a sair os primeiros assobios - acreditar que o pior tinha passado, e que a segunda parte colocaria as coisas no devido sítio.

Foi no entanto mais uma ilusão. O recomeço da partida voltou a trazer um Rio Ave melhor, e dominador. Não havia diabo, mas ele estava lá, bem dentro da exibição do Benfica. Nos primeiros três minutos a bola foi parar duas vezes ao poste da baliza ... de Trubin. E o pesadelo (a lembrar aqueles 20 minutos com o Famalicão, no último jogo do ano) prolongou-se até ao fim do primeiro quarto de hora.

Nunca ninguém poderá garantir que, não tivesse sido a expulsão (dois amarelos em menos de dez minutos) do defesa do Rio Ave, dois minutos antes, o pesadelo tivesse acabado tão cedo. Mas que o jogo mudou aí, não há dúvida. E o Benfica tomou então, finalmente, o comando claro do jogo.

O livre resultante da falta (corte com a mão de uma jogada prometedora) que ditou o segundo amarelo ao defesa do Rio Ave, cobrado por Di Maria, acabou numa grande defesa do guarda-redes, para canto. Que repetiu para evitar o golo no canto directo do mágico argentino. Novo canto que acabou no golo da reviravolta, de António Silva.

Logo a seguir, na tripla substituição de Schmidt - que já estava programada - assistiu-se à estreia de Marcus Leonardo (entrou a substituir Arthur Cabral, como Florentino e Tiago Gouveia substituíram Kokçu e Di Maria), a primeira contratação de inverno. Que marcou aos 80 minutos, dezassete depois de ter entrado. Na estreia, a fazer lembrar Jonas. Que foi o que sabemos.

A partir do golo da reviravolta, então sim, foi um festival de oportunidades. E foram apenas mais dois golos (o último, de João Mário, em mais uma assistência espectacular, de trivela, de Rafa, no primeiro dos três minutos de compensação) porque quer Tiago Gouveia, que mexeu completamente com o jogo, quer o estreante Leonardo queriam muito marcar. E, de tanto quererem, e tanto tentarem, acabaram por eliminar as muitas ocasiões de que desfrutaram.

Com aquela meia hora final, o Benfica passou das 3 oportunidades de golo, ao intervalo, para 14; e o Rio Ave das mesmas três para cinco, com as tais duas bolas nos postes, nos primeiros três minutos da segunda parte. E, no fim, as estatísticas não foram mentirosas. O Benfica acabou por ganhar bem, mas lá que podia ter sido o diabo, podia.

Não se recomenda que se repita a experiência. É mesmo perigoso!

 

À memória de Eusébio

Onze "Eusébios", como há dez anos. Então, em cima da  sua morte, como hoje, dez anos passados, a homenagem ao "king", o rei eterno da República Benfiquista. Há dez anos o jogo foi na Luz, o adversário foi o Porto, e a vitória abriu o caminho para a conquista do campeonato, o primeiro do tetra. Hoje foi em Arouca que, com o novo treinador, vinha de quatro vitórias consecutivas, e expressivas. De Estádio cheio, como sempre sucede nas visitas do Benfica.

Simbolismos à parte - que nunca a memória do Rei -, o jogo correu na linha do que têm vindo a ser os últimos jogos do Benfica. Em relação ao último, na Luz, com o Famalicão, a diferença é que não houve qualquer momento de assombração. O Benfica foi sempre superior, e nunca perdeu o controlo e o domínio do jogo.

Mas voltou a permitir oportunidades de golo a mais ao adversário. Desta vez mais permitidas ainda, dado que as duas maiores oportunidades de que o Arouca dispôs resultaram directamente de "ofertas" benfiquistas na saída de bola, uma de Otamendi, e outra de Kokçu. Valeu novamente que o diabo nem sempre está atrás da porta. Não é habitual, mas aconteceu nestes dois últimos jogos.

Moralizado pelos resultados, sempre que pôde, o Arouca disputou o jogo no campo todo, e pressionou bem na frente. Mais pressão sobre os espaços que propriamente sobre o portador da bola, o que é sempre menos desgastante. Uma pressão inteligente, sem dúvida.

O Benfica ia alternando o ataque continuado, quando o Arouca recuava e criava dificuldades de penetração na sua defesa, com a exploração da profundidade, sempre que o adversário se aventurava na tal pressão mais alta. Jogava com qualidade em ambas as circunstâncias, mas foi sempre nas transições rápidas a explorar as costas da defesa do Arouca que criou mais perigo, sempre com João Neves, Kokçu, Rafa e Di Maria em destaque. Os dois primeiros no lançamento, os outros dois na criação e finalização.

Ao quarto de hora marcou, numa das muitas belas jogadas de transição. O passe de João Neves para Arthur Cabral foi de génio. O golo de Rafa seria no entanto anulado pelo VAR, por fora de jogo milimétrico do avançado brasileiro. À meia hora voltou a marcar, e o golo voltou a ser anulado, desta vez por fora de jogo - novamente milimétrico - do próprio Rafa. E às três foi de vez: Rafa marcou e contou mesmo. A assistência é de Di Maria, "o Eusébio" com a camisola 11, a levantar com classe a bola sobre a defesa do Arouca, por onde entrou Rafa para o golo. Numa primeira instância guarda-redes do Arouca - o excelente Arruabarrena - ainda defendeu o primeiro remate, mas Rafa nunca perdeu o sentido da bola e acabou por marcar já de ângulo apertado, com frieza e categoria.

Para trás ficara já o erro de Otamendi na saída de bola, que permitira a primeira oportunidade do Arouca. Praticamente a seguir ao golo foi Kokçu a imitar o capitão. Em ambas as situações foi Sylla, na tal pressão no espaço, a interceptar a bola, e Rafa Mújica a desperdiçar.

A segunda parte inicia-se praticamente com o segundo golo do Benfica, numa excelente abertura de Di Maria para Rafa, que ofereceu o golo a Kokçu, depois de enganar Arruabarrena. Não foi só o golo da tranquilidade, foi imprescindível golo do número 10, com o nome de Eusébio. O árbitro assistente ainda quis estragar a festa, voltando a assinalar fora de jogo a Rafa, mas o VAR escreveu direito pelas linhas tortas.

O jogo não ficou resolvido, mas encaminhado. O Arouca continuou com o seu futebol desinibido, virado para a frente, mas era o Benfica a criar e a desperdiçar sucessivas ocasiões de golo. Foi Rafa - mais um grande jogo - isolado a falhar o golo cantado quando, na altura do remate, a bola ressaltou num tufo de relva levantada. Foi João Mário, a passe de Cabral, a falhar o golo por um desvio milagroso do defesa Milovanov. Foi Di Maria a quase voltar a marcar de canto directo. Foi, de novo, João Mário a rematar para a baliza deserta, com a bola a sair ligeiramente ao lado.

Estávamos nisto quando Arthur Cabral foi alvo de uma falta dura, mas foi para ele o amarelo. E foi substituído por Musa. Como a seguir foi João Mário substituído por Florentino, imediatamente amarelado, também. Deu a impressão que o Benfica teve mais amarelos do que faltas cometidas - uma apenas, em toda a primeira parte. 

As última três substituições, com as entradas dos "Eusébios" Guedes (Di Maria), Tiago Gouveia (Rafa) e Tomás Araújo (Aursenes) ficaram para os últimos minutos, já depois do "Eusébio" Musa ter marcado o terceiro. Não foi à Eusébio, mas foi o melhor dos três golos. Para quem se lembra, à Artur Jorge. Que também jogou com o King!

 

  

 

Bom jogo e 70 minutos de bom Benfica

Começou bem o jogo, o Benfica. E acabou bem. O ano e o jogo. Pelo meio, de um e de outro, nem tudo correu bem. Mas tudo está bem quando acaba bem.

Neste último jogo do ano acorreram à Catedral quase 59 mil pessoas. Casa perto de cheia mas, ainda assim - registe-se - abaixo da média de assistências da Luz nesta época. Só para se tenha noção ...

O Benfica, com a dupla de centrais campeões da Europa (UEFA Youth League) - António Silva e Tomás Araújo -, e com Morato a manter-se na esquerda. Com João Neves e Tiago Gouveia (em estreia no onze inicial), iniciou o jogo com cinco (quase 50%) de jogadores da formação. Depois, entraram mais três (Gonçalo Guedes, Florentino e o central Gustavo Marques, em estreia). Soma oito. No banco ficaram o guarda-redes Samuel Soares e Hugo Félix, o mano mais novo. E soma dez. Nada mau!

O Benfica entrou bem, dominando e controlando um jogo que se percebeu logo ser difícil. O Famalicão é uma boa equipa, bem trabalhada pelo competente João Pedro Sousa, que joga bem. E disputou e discutiu bem o jogo no campo todo. Não defendeu só, nem nada que se pareça. Passado o primeiro quarto de hora, de clara superioridade do Benfica, com duas ocasiões claras de golo, o Famalicão passou a estar confortável no jogo e, à meia hora de jogo, até já tinha equilibrado a posse de bola. Não chegava à baliza de Trubin, é certo. Mas ia jogando à bola e mostrando-se difícil de bater. O Benfica jogava bem, e o jogo era vistoso e interessante.

À passagem dessa meia hora o Benfica marcou, à terceira oportunidade. O lance - um dos melhores do jogo -começou no génio de João Neves, passou pelo do Rafa e acabou no primeiro golo de Arthur Cabral na Luz. E o jogo foi para intervalo com um escasso, mas face aos habituais índices de ineficácia, aceitável 1-0.

A segunda parte foi outro jogo. Iniciou-se praticamente com o Famalicão a mostrar ao que vinha, com um bom remate de longe. Durante os primeiros dez minutos o Benfica ainda se manteve por cima do jogo, mas a errar sucessivamente na definição final dos lances, o que ia dando mais alma aos famalicenses. Depois ainda foram do Benfica as melhores oportunidades, em três boas jogadas: na primeira, o central Otávio tirou o golo cantado a João Neves; seguiu-se o livre de Kokçu, com grande defesa do guarda-redes; e por último, aos 63 minutos, Cabral, isolado, acertou no ombro do Luiz Júnior. 

A partir daí o Famalicão partiu para o domínio do jogo, com a equipa do Benfica incapaz de o contrariar. Foram vinte minutos inexplicáveis, que só acabaram com o segundo golo. Mas que bem poderiam ter acabado com o golo do empate. Que só não aconteceu porque Trubin fez um punhado de grandes defesas - é certo que duas delas em jogadas de fora de jogo, que não contam para as estatísticas - e porque, desta feita, o ferro que funcionou foi o do seu poste direito.

Durante aqueles 20 minutos em que o Famalicão se lançou para a frente, na procura desenfreada do golo, o que se estranhava era que o Benfica não conseguisse aproveitar em transições rápidas o espaço deixado nas costas da defesa adversária, já muito despovoada. Poderia tardar - como tardou - mas era virtualmente impossível que não surgisse uma transição que resultasse. 

Aconteceu aos 85 minutos: transição perfeita, lance bonito de futebol e golo de Rafa, assistido por Musa, que já tinha entrado para substituir Cabral. E ponto final nas aspirações do Famalicão. Quatro minutos depois inverteram-se os papéis, e foi Musa a marcar, com assistência de Rafa. E houve ainda tempo e oportunidade para o bis de Musa, desperdiçado de forma inacreditável.

Afinal o Benfica acabou para marcar três golos, em oito oportunidades. O que não é nada mau, comparado com os últimos jogos. Mau é que tenha permitido quatro ao Famalicão - em 20 minutos. 

Mas é assim. Há jogos em que o Benfica cria dezenas de situações de golo e não marca. E acaba até por sofrer numa carambola qualquer. Ainda há poucas semanas aconteceu, com Farense. O que não pode ser assim é aqueles 20 minutos. Que ficam a marcar este jogo, também marcado pelas lesões de Aursenes (este é que não pode cair no estaleiro) e de Tomás Araújo.

E venha daí 2024!

  

Classe e sofrimento em vitória importante

Benfica passa (com sofrimento) na Pedreira e sobe à liderança antes do clássico

Foi um grande jogo de futebol, o desta noite, em Braga, com tudo o que o jogo precisa para ser um grande espectáculo. 

É grande a responsabilidade do Benfica na qualidade do espectáculo, mas há que dizer que também o Braga foi um parceiro que não regateou a parte que lhe cabia, dando também a sua forte contribuição. 

O jogo começou com um cartão amarelo para Morato, que continua a jogar a defesa esquerdo. No primeiro minuto. Na primeira das três faltas cometidas pelo Benfica - tantas quantas as do Braga -  de toda a primeira parte. Do livre a favor do Braga, numa transição rápida, e perfeita, Tengestedt marcou o golo do Benfica. Na primeira saída para o ataque e, naturalmente, no primeiro remate do jogo.

Não costuma ser assim. O golo tem estado muito caro, e a exigir vultuosos investimentos. Depois tudo passou a ser o que é costume. O Benfica partiu para uma grande exibição, não naquele registo mais habitual, de muita posse, muita circulação, pressão e asfixia do adversário. Mas nem sempre é preciso isso para jogar bem.

E o Benfica jogou mesmo muito bem. Controlando o jogo lá atrás e saindo em sucessivas transições rápidas, sempre com os jogadores a tomarem as melhores decisões em todas as zonas do campo, e sempre praticamente sem falharem um passe, numa primeira parte de antologia. 

Poderia ter aí resolvido o jogo e o resultado, não tivesse o lance do golo sido a excepção à regra que é o desperdício na hora de meter a bola na baliza. E a mala-pata das bolas nos ferros da baliza. Desta foi por duas vezes - primeiro foi Di María, na barra, na fase mais frenética do jogo, a concluir com um remate perfeito, em arco, uma das muitas jogadas espectaculares de todo o jogo; depois foi Otamendi, num cabeceamento na sequência de um canto de Di Maria, a acertar no poste.

Para além destas duas bolas nos ferros, e de um golo anulado a Rafa por fora de jogo (milimétrico, com muitas dúvidas, mas que as linhas marotas indicaram ser 60 centímetros quando, no golo anulado ao Ricardo Horta, em que o fora de jogo era evidente na jogada corrida, passaram a indicar 11), o Benfica dispôs de mais três bolas para golo cantado, através de António Silva, Di María e Tengstedt.

À meia hora o treinador do Braga alterou a estrutura da equipa (retirou Zalazar e fez entrar Andrè Horta) para tentar abrigar-se daquele vendaval de transições. Nem assim as feições do jogo se alteraram, e o Benfica poderia ter chegado ao intervalo a ganhar por quatro ou cinco golos. Mas o resultado manteve-se no magro 1-0, com tudo o que isso representa nesta fase que a equipa tem atravessado.

Na entrada para a segunda parte percebeu-se que, então sim, o jogo poderia ter outra cara. Ainda assim foi de João Mário a primeira grande oportunidade da segunda parte para marcar o segundo golo. Mas as coisas já não saíam da mesma forma. A precisão do passe já não era a mesma, e as transições começaram a falhar, o que pesou decididamente no rumo que o jogo tomou. O Braga cresceu e tornou-se mais agressivo e pressionante; e o Benfica viu-se obrigado a optar por um futebol mais directo. E a saber sofrer. E como souberam, todos eles...

O treinador do Braga não quis correr riscos e, ao contrário de Roger Schmidt, que manteve Morato em campo durante todo o jogo, substituiu os centrais à medida que iam sendo amarelados. As duas substituições que lhe restavam foram usadas para reforçar o ataque, com mais um ponta de lança (Abel Ruiz) e um ala (Rony Lopes), precisamente para cima de Morato. Que se aguentou, muito pelo esforço de João Mário, na ajuda por aquele lado esquerdo.

Schmidt começou por trocar (bem cedo, no fim do primeiro quarto de hora) Tengestedt por Musa. E bem, era o ponta de lança quem mais se aproximava da ideia que tinha trazido para o jogo, e mais ainda das novas necessidades que o jogo impunha. E, depois, quando a pressão do Braga era já intensa na procura do empate, trocou os esgotados Di Maria e Rafa por Guedes e Florentino. Bem, novamente!

O resto foi aguentar. Sofrer e ... Trubin. Que acabou por ser o "homem do jogo" com três defesas de grande valia, a última já no terceiro dos longos sete minutos de compensação, a segurar a vitória. Importante, com o Benfica a voltar a dizer "presente" nas grandes decisões. E sofrida - o Braga tinha marcado em todos os jogos, e virado muitas vezes resultados nos descontos -, é certo. Mas esse foi o preço a pagar por tanto desperdício!  

 

 

Surpreendente sem surpresa

Benfica-Farense, 1-1 (destaques) | MAISFUTEBOL

Ao contrário do que se poderia pensar, o empate desta noite, na Luz, com o Farense, não é surpreendente. Os astros estavam todos alinhados para este revés caseiro. Surpresa foi a forma como o Benfica empatou este jogo, não foi tê-lo empatado. 

Surpreendente foi a exibição da equipa, foram os 36 remates, e a dezena e meia de oportunidades de golo criadas. Era mais ou menos dado por certo que a equipa entrara decididamente num ciclo negativo de que demoraria a sair, provavelmente já com um novo treinador. Isso bate certo com o resultado, mas já não bate com a exibição, nem com o comportamento dos jogadores. 

Surpresa foi que a equipa entrou para ganhar desde o primeiro minuto. Podia ter marcado logo nos segundos iniciais, mas não marcou. E essa foi apenas a primeira de uma série de oportunidades de golo que dava para ganhar seis ou sete jogos, mas que não deu para ganhar este.

Claro que há jogos assim. Em que parece que está a ser feito tudo o que há a fazer, mas a bola não quer entrar. E é claro que, quando há jogos assim, ao treinador exige-se que faça também tudo. E ainda mais alguma coisa. 

É daqui que, sem surpresa, Roger Schmidt tem dificuldade de sair. E o balão rebentou.

A atitude daqueles adeptos que ali estavam junto ao banco é inaceitável. A dos outros, dos que "apenas" assobiam, era expectável perante mais um mau resultado. Entre o inaceitável e o expectável Schmidt decidiu partir a loiça, partir para o conflito aberto com os adeptos, e colocar uma bomba a rebentar nas mãos de Rui Costa.

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