Bom... se as televisões portuguesas vão em duas semanas sem falar de outra coisa, se calhar ainda é pouco. Mesmo assim gostaria de saber que outros países, à excepção daqueles que obedeciam à soberania da rainha, decretaram idêntico luto.
Isabel II reinou muitos anos. Ainda assim não tantos que tenha sido ela a assinar aquele telegrama de 11 de Janeiro de 1890. Que, curiosamente, é sempre esquecido, ao contrário da mais antiga aliança do mundo. Há muito mais tempo - mais de 500 anos antes - mas sempre lembrada.
Hoje é dia de luto nacional contra a violência doméstica, que não pára assustadoramente de crescer em Portugal. Nos primeiros dois meses deste ano, os números aterrorizam: 30 denúncias por dia, só na GNR, que deteve 137 pessoas suspeitas deste crime. Treze mulheres foram assassinadas em contexto de violência doméstica desde o início do ano: a décima terceira ontem à noite, em Vieira do Minho!
E hoje ficou a saber-se que o juiz Neto de Moura já não julgará mais qualquer destes crimes. O presidente da Relação do Porto transferiu-o para as secções cíveis argumentando "conveniência de serviço". Fica bem, esta notícia, no dia de luto nacional contra a violência doméstica!
Esta semana, rica em acontecimentos, nacionais e internacionais, fica inevitavelmente marcada pela tragédia da passada terça-feira, na Colômbia: um avião despenhou-se, ao que se sabe por falta de combustível, a poucos minutos de aterrar no aeroporto de Medellin, com 81 pessoas a bordo, entre tripulantes e passageiros, estes jogadores, técnicos e dirigentes de uma equipa brasileira de futebol, e jornalistas que iam fazer a cobertura do jogo – uma final de uma competição sul americana. Sobreviveram cinco pessoas: duas da tripulação, dois jogadores e um jornalista.
A causa próxima, falta de combustível, ficou de imediato evidente pela circunstância de o avião se não ter incendiado. As causas dessa causa são agora conhecidas, e voltam a ter outra causa próxima: violação das regras básicas de segurança. Com causa na inaceitável quebra do que deveria ser a obrigatória segregação de funções de pilotagem e de propriedade da aeronave. As dificuldades financeiras da empresa fizeram o resto, em dois tempos. Primeiro, em prováveis dificuldades no abastecimento de combustível e, depois, na ocultação da falta de combustível á torre de controlo do aeroporto, pela penalização financeira que tal circunstância comporta.
Não era nenhuma das mais sonantes equipas de futebol do Brasil. A Chapecoense é o clube da pequena cidade de Chapecó, no município de Santa Catarina, a sul de S. Paulo, com uma história curta mas de grande sucesso, um verdadeiro case study do futebol brasileiro. Em menos de dez anos passou da quarta divisão à primeira, e a final que ia disputar com o histórico Atlético Nacional era o conto de fadas que aqueles jogadores, técnicos e dirigentes estavam a viver. Que acabou ali, de forma dramática e brutal, no meio de chapas e ferros retorcidos.
A tragédia abriu a porta a uma onda de solidariedade a todos os títulos notável. Do futebol, tantas vezes mal tratado, especialmente pelos seus próprios agentes, não pararam de chegar demonstrações de que ainda tem espaço para a virtude. Que tem muito mais para dar do que aquilo que nos querem mostrar todos os dias.
Começou logo com o adversário nesta final a declarar que o troféu já só poderia ter como destino o clube de Chapecó. E com a homenagem dos adeptos no estádio, à hora em que o jogo se deveria realizar. Seguiram-se dezenas de clubes a oferecer jogadores para o clube reconstruir o plantel. Donativos de receitas inteiras, como a do próximo Barcelona – Real Madrid. Fala-se ainda de uma generosíssima contribuição de Cristiano Ronaldo.
Interesses mesquinhos de gente sem escrúpulos deixaram o futebol de luto. A dimensão desta resposta solidária deixa-o de parabéns!
* Da minha crónica de hoje na Cister FM
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