Hoje, no Maracanã (Espanha 10 - Tahiti 0!!!) ouviu-se: "o povo unido jamais será vencido". Pela primeira vez desde o início da competição o sentimento das manifestações populares passou as portas dos estádios. Para Blatter ouvir, certamente!
Mas ele já lá não está. Viajou para a Turquia - para a abertura do campeonato do mundo de sub 20 - onde, como saberá, o futebol não é a coisa mais importante que por lá acontece.
A torneira que abre a comunicação entre a rua e os estádios está decididamente aberta!
Os protestos começaram há uma semana, em S. Paulo, contra o aumento dos preços dos transportes. Rapidamente alastraram a várias outras cidades do Brasil e, rapidamente também, ganharam novas motivações. Um país há mais de uma década governado à esquerda, aproveitou invejáveis taxas de crescimento económico para traçar um novo mapa da sociedade brasileira, a partir de uma nova e florescente classe média. Mas acaba por não resistir ao fechar do portão do crescimento: quando tem que se limitar às taxas de crescimento anémico que hoje caracterizam a economia mundial, quando em vez dos sete e oito por cento passa a crescer apenas 1%, a economia deixa de manter os portões abertos que escoam toda aquela torrente social.
A contestação social não precisa de mais do que um simples argumento para quebrar a inércia. Uma vez em marcha vêm ao de cima todos os problemas que uma década de crescimento exponencial não resolveu, nem poderia resolver. E ficam à vista muito das fragilidades da grande potência que há-de ser!
E muitas contradições, algumas bem curiosas. O país do futebol, que supostamente suspiraria por um mundial em casa, revolta-se, não contra o futebol, mas por causa do futebol. Contra a organização da Copa do Mundo, contra os gastos exorbitantes em estádios e mais estádios - nada menos que dez - à vontade dessa organização pouco recomendável chamada FIFA. E contra a corrupção que alimenta, com derrapagens nos custos dos estádios - nada que não tenhamos conhecido bem por cá, há dez anos atrás - que chegam a multiplicar por seis o valor do orçamento inicial. E no entanto surgem nas manifestações, como ainda hoje se pôde ver em Lisboa, numa acção de apoio ao que lá se passa, vestindo as camisolas amarelas da selecção brasileira, com o número e o nome de Neymar nas costas.
E no entanto, quando a repressão policial ultrapassou todos os limites, quando a polícia não poupa ninguém à sua violência, a presidenta – como gosta que lhe chamem – Dilma surge do outro lado. Do contra poder, como Lula. Como se nada tivesse a ver com isso de gastar dinheiro em estádios de futebol em vez de em saúde ou educação. Como um casal que gasta o dinheiro em roupas de luxo em vez de comprar comida para os filhos, como passa num vídeo populista que por aí circula...