De repente a compra da nova sede do Banco de Portugal passou para a ribalta mediática. Não domino a matéria, não possuo quaisquer dados, não investiguei coisa nenhuma. Não faço a mínima ideia se alguma coisa ali cheira mal. Se alguma coisa ali não bate certo.
Pode ser que venha a interessar-me pelo assunto, e tente perceber alguma coisa daquilo. Para já, para as primeiras impressões, apenas me ocorre que, depois de terem sido alvitrados tantos nomes de pessoas próximas do governo de Montenegro para governador o Banco de Portugal que, pelos vistos, foram ficando pelo caminho, nos últimos dias os jornais têm vindo a revelar que, afinal, Centeno poderá ser o seu próprio sucessor. Montenegro até já veio dizer que Centeno reúne todos os requisitos para continuar no cargo.
Ao ocorrer-me isto, ocorre-me que alguma coisa bate certo. Diria mais - bate tudo certo!
Está em letras pequenas, mas está lá, na primeira página do "Negócios" de hoje: "a maior ameaça à democracia é a concentração de riqueza, não são as redes sociais". Quem o afirma é James Alen Robinson, o economista e cientista político britânico, e actual Nobel da Economia.
É bem capaz de ter razão. Mas são muitos os que entendem que não convém nada dar-lha... Por isso é que a "União Europeia precisa de um "reboot" profundo". E os jornais também!
Depois de declarar guerra comercial, com o anúncio da imposição de pesadas taxas aduaneiras, ao Canadá, México e China, e de ameaças disso à União Europeia, Trump recuou.
As taxas sobre as importações do México e do Canadá, anunciadas no fim-de-semana para hoje entrarem em vigor, foram suspensas por 30 dias. As notícias dizem que a decisão de Trump resulta de ambos os países terem concordado em tomar medidas para reforçar a segurança das suas fronteiras e combater o tráfico de droga.
Sabemos que Trump funciona assim. Disruptivo. Que toma decisões impensadas. E insensatas. Que negoceia na base da ameaça. Que avança e recua, sem nunca poder deixar a ideia que recuou. Ou que perdeu. Ele nunca perde!
Por isso as notícias têm que ser assim: uma suspensão por 30 dias, contra o compromisso dos seus vizinhos em reforçar as fronteiras. Assim, Trump não perde. Assim, a decisão não foi impensada e absurda: foi apenas um passo para obter um ganho. Não lançou o caos económico, reforçou a segurança, o bem maior.
O trumpismo, como todos os populismos, de que é expoente máximo, engorda assim. Com um mundo de gente à volta a mascarar a realidade, deixando passar o que é preciso que passe. Sem que ninguém diga que a guerra comercial que Trump quis lançar é irresponsável, mas também contraproducente. E que um exército de gente com mais poder que ele o obrigou a recuar!
Os tablóides têm andado empolgadíssimos a especular sobre a ausência de Kate Middleton do espaço público desde o final do ano passado. A especulação foi crescendo até chegar a uma grave crise conjugal: o Príncipe William tinha uma amante. Uma semana bastou para lhe darem cara e nome - Rose Hanbury, e era até amiga de kate - e passarem a dar o divórcio real como inevitável.
Hoje, há pouco, Kate revelou publicamente que tem cancro, e que está a fazer quimioterapia. Os tablóides, os mesmos, começarão certamente por lamentar, lamentar muito. A seguir, mandam-se ao cancro, que se multiplicará em formas e variantes.
Porque é de Kate, e da família real britânica, que se trata? Não. Porque os tablóides são assim mesmo. E são assim mesmo porque é assim que vendem...
"Primeiro levaram os negros Mas não me importei com isso Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários Mas não me importei com isso Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis Mas não me importei com isso Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados Mas como tenho meu emprego Também não me importei
Agora estão me levando Mas já é tarde. Como eu não me importei com ninguém Ninguém se importa comigo."
Bertolt Brecht (1898-1956)
Tudo o que está a acontecer na Global Notícias - ou lá como lhe chamam agora -, nos centenários Diário de Notícias e Jornal de Notícias, no mais novo e "arregimentado" O Jogo, e na TSF, que há perto de 40 anos revolucionou a rádio para dela se tornar referência, cabe, inteirinho, neste poema de Brecht.
Há 40 anos Paulo de Carvalho cantava que "10 anos é muito tempo". Eu, que também já achei que era muito, já acho que é pouco. Coisas da idade.
Na política, e em especial no espaço mediático da especialidade, é como cantava o Paulo de Carvalho. É muito tempo. Tanto que permite que uma "indecente e má figura" faça a "indecente e má figura" de querer fazer de um soundbite uma substancial declaração política.
É por essas e por outras que por aqui se vai lembrando o que há 10 anos ia acontecendo...
Antes de embarcar para o espaço para se tornar no primeiro português turista do espaço, o que estará para acontecer nas próximas horas, Mário Ferreira, o dono dos barcos do Douro e da TVI, anunciou que prescindiu dos 40 milhões de euros de financiamento do Banco Português de Fomento, ao abrigo do programa de recapitalização do PRR, garantindo que, afinal, vai recapitalizar as suas empresas aumentando-lhes o capital com fundos próprios.
Faz bem. Se tem dinheiro para viajar pelo espaço, que não deve ser barato, mesmo que para ele possam ser trocos, não lhe ficaria bem que não o tivesse para as suas empresas. O que não se percebe é que, se tinha o dinheiro e não precisa de qualquer cêntimo do PRR, como agora diz, por que é que o pediu?
Também não se percebe por que é que o famigerado e público Banco de Fomento lho concedeu, aplicando num único empresário - que, por acaso, é o 4º maior beneficiário em Portugal, e o 16º maior em toda a União Europeia, de fundos europeus e que, também certamente por acaso, está sob investigação das autoridades nacionais, por branqueamento de capitais e, das europeias, pela utilização dos fundos - 10% da dotação total do programa, e 52% da primeira leva de aprovações.
Em contrapartida há outras coisas que se percebem sem qualquer dificuldade como, por exemplo, que a TVI/CNN P nunca tenha dado notícia das investigações em curso. Que nunca tenha achado que fosse notícia o "pormenor" de bastarem 30 "Mários Ferreira" para esgotar a totalidade dos fundos para a recapitalização das empresas nacionais. Mas que achasse que deveria pôr todos os seus comentadores económicos a defender o seu patrão e a atacar as "Anas Gomes" e as "Catarinas Martins" deste mundo. Ou cobrir com directos, do outro lado do Atlântico, os preparativos do embarque para esta aventura espacial.
Há poucos dias, antes da entrada no ano novo e quando toda a gente era auscultada sobre a adivinhação do que aí viria, dizia-se que 2020 seria o ano da Justiça. Não que se quisesse dizer que este fosse o ano em que, por obra e graça do que quer que fosse, tudo passaria a funcionar bem. Apenas porque este tem de ser o ano do "sim ou sopas" para processos judiciais de grande exposição mediática, dos que se arrastam há demasiados anos, como o Monte Branco, a Operação Marquês ou BES, aos mais recentes, como Tancos, Alcochete ou Rui Pinto.
Ao 14º dia do ano, à entrada para a sua segunda semana, os jornais de hoje parecem querer confirmar essa ideia, que este ano é que é. Com mais ou menos parangonas todos aparecem hoje nos jornais. Todos hoje são notícia. Até a Operação Marquês, há muito com paradeiro desconhecido, mesmo que a notícia seja apenas que Joaquim Barroca, o ex-presidente do ex-Grupo Lena, vai ser ouvido daqui a um mês e tal... Pode estar em profunda agonia, mas ainda está vivo... Refiro-me ao processo, naturalmente.
Foi notícia na passada semana o caso do recém-nascido deitado ao caixote do lixo. Não podia deixar de o ser, porque é objectivamente notícia.
O mesmo se não pode dizer da histeria mediática que se seguiu. Dias e dias a fio sem se falar de outra coisa nas televisões e nas redes sociais, os tribunais plenários dos nossos dias, com inqualificáveis abusos de toda a ordem, numa espécie de peditório para que o nosso Presidente da República também deu alguma coisa. Como frequentemente lhe acontece, porque não é fácil aparecer nos peditórios todos sem deixar contribuição.
Ninguém parou para pensar num parto, na rua, em Novembro, em 2019, de uma jovem com pouco mais de 20 anos, sozinha. Ninguém parou para pensar que tipo de responsabilidades poderão ser atribuídas a uma pessoa nestas circunstâncias.
Talvez o juiz que lhe decretou a prisão tenha pensado nisso. E talvez tenha pensado que, à falta de Estado (social) para responder a estes dramas, o melhor seria convocar o Estado (repressivo) para lhe dar resposta imediata. Melhor a prisão que mantê-la na rua.
Pode ser que sim. Não há pior prisão que a da rua, de lá nunca ninguém sai. Mas é um inqualificável atropelo ao Direito. Como bem claro deixou o grupo de advogados que requereu a sua libertação junto do Supremo Tribunal de Justiça. Que foi rápido a negá-la.
E que, talvez para ser tão rápido, nem perdeu tempo a enunciar um - um, só um que seja – dos requisitos da prisão preventiva nesta triste ocorrência que nos enche de vergonha.
Bem sei que a questão mais importante da semana é a de um segundo mandato da Procuradora Geral da República, que nunca houve e que poucos sabiam que pudesse haver, lá mais para o fim do ano. É realmente espantosa a capacidade que esta gente tem para reduzir a agenda mediática à simples espuma dos dias!
Por isso ninguém ligou muito às notícias que foram chegando sobre o emprego, com a divulgação dos dados do INE relativos a Novembro. Notícias que dão conta da mais baixa taxa de desemprego desde Novembro 2004, em 14 anos, portanto. No último ano a população empregada aumentou em perto de 160 mil pessoas!
São boas notícias?
Sim e não!
Sim, porque a diminuição do desemprego nunca pode deixar de ser uma boa notícia. Sim, porque resulta do crescimento económico, e a economia a crescer tem que ser sempre uma boa notícia.
E não. Porque o desemprego jovem continua a crescer, e em Portugal foi mesmo onde, na União Europeia, mais cresceu. Em Setembro era de 24,6 %, e em Outubro já ia em 25,6%: num mês, mais um em cada 100 jovens era desempregado.
E isto quer dizer muitas coisas. Quer dizer que continuamos a desperdiçar recursos, a deitar dinheiro fora, na educação por evidente desadequação entre a formação dada aos jovens e as necessidades das empresas. O drama é que isto não quer obrigatoriamente dizer que essa formação seja desadequada, quer dizer é que a retoma do emprego acontece em sectores que não valorizam as qualificações dos jovens mais preparados.
Por isso o desemprego jovem tem um comportamento simétrico ao do desemprego geral. Por isso há cada vez mais jovens sem trabalho ao mesmo tempo que, ao que dizem, faltam 70 mil trabalhadores na construção, 40 mil na restauração e outros tantos no calçado, no têxtil e na metalurgia.
Quer isto dizer – e pior notícia não pode haver - que na nossa economia nada mudou, que tudo continua na mesma. E toda a gente sabe que as mesmas coisas, nas mesmas circunstâncias, produzem sempre os mesmos resultados.
Mas parece que isto não tem importância nenhuma…
* A minha crónica de hoje na Cister FM
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