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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

O mestre do ilusionismo

Por Eduardo Louro

 

Passos Coelho está a transformar-se num especialista no uso da língua portuguesa. Diz-se que a necessidade aguça o engenho, e a necessidade do primeiro-ministro esconder verdades e contornar as suas infindáveis mentiras, e de as articular com o eleitoralismo em curso aguça-lhe a capacidade de jogar com as palavras, de redescobrir novos termos ou de inventar sinónimos.

Hoje, em mais uma dessas insuportáveis sessões parlamentares a que se dá o nome de debate quinzenal, ao corrigir definitivas por duradouras, deu mais um exemplo dessa sua especialidade. Dera já uma contribuição inigualável para deixar claro o significado de mentir. Também deixara já bem claros os termos provisório e definitivo, mesmo que todos há muito os conhecêssemos; desde aqueles tempos em que, a propósito das famosas marcas de tabaco dos pobres, se dizia que mais valia fumar Definitivos provisoriamente que Provisórios definitivamente.   

Depois do Secretário de Estado José Leite Martins ter convidado os jornalistas para estes lhe fazerem o favor de espalhar que os cortes de salários e pensões eram definitivos, da triste figura do ministro Marques Guedes, de Portas querer aprressadamente dar o assunto por encerrado, de mais um Conselho de Ministros a tratar do assunto em segredo. Depois de se saber que essa é uma exigência do FMI, sem a qual não dá por fechada esta última avaliação, que terá naturalmente que estar concluída antes da data de saída do programa, o que, por muito que lhe custe, quer também dizer antes das próximas eleições europeias, Passos Coelho, pressionado por Seguro, quis hoje fingir que nada disso existia e que, simplesmente porque é corajoso e nada tem a esconder, até ao final deste mês irá fazer revelações. Voltou, para dizer isso, a mostrar-se exímio no domínio da língua dizendo que "algumas medidas que são definitivas, isto é duradouras, que substituem as medidas de emergência, serão anunciadas até ao fim do mês".

Vejam bem como domina o uso da língua: não se trata de transformar em definitivas as medidas - precisamente cortes de salários e pensões - que foram apresentadas como provisórias, e que só por isso passaram no Tribunal Constitucional. Não, são medidas duradouras que substituem as medidas de emergência, como se uma coisa fosse substituível por si própria!

Está enganado Sr Primeiro-ministro: o senhor não se transformou num mestre no uso da língua. Apenas num mestre do ilusionismo!

ADEUS, MESTRE!

Por Eduardo Louro

 

 

O Dr Manuel de Oliveira Perpétua deixou-nos hoje! Partiu o Homem e o Mestre que marcou a minha formação!

À falta de palavras deixo aqui um excerto de um texto com que, há cerca de ano e meio, assinalava aquilo que, provavelmente, terá sido a sua última homenagem.

 

“…Estou, no entanto, mais interessado em falar do Homem e do pedagogo que Porto de Mós não poderá nunca esquecer nem cansar de homenagear. Seja em regime de pompa e circunstância, de cerimónia pública, seja num simples registo intimista, como este, que mais não pretende que transmitir aos portomosenses mais novos a admiração, e o respeito profundo, de toda uma geração que teve a rara felicidade de poder aprender, e de se poder formar, com um Homem da dimensão do Dr Manuel Perpétua.

Sou um dos muitos que tiveram esse privilégio! E, hoje, quase 40 anos depois, uns vividos com grandes mestres académicos e outros com grandes profissionais das mais diversas áreas, com grandes colegas e grandes amigos, posso garantir que foi o Homem que mais marcou a minha formação. Na construção do meu edifício de valores, no conhecimento que me abriu novos conhecimentos, na estruturação do meu pensamento, no primado do sentido cultural da vida, na clandestina construção da consciência política…

Quis o acaso que tivesse a felicidade de, no meu processo de construção, encontrar um mestre como o Dr Perpétua. De mais rara felicidade foi, contudo, a oportunidade desse encontro. Andava pelos meus 17 anos, naquele tempo a idade fértil da aprendizagem.

Acredito que o tenha encontrado no tempo certo para aprender com ele uma boa parte do que tinha para nos ensinar. A infância já tinha ficado para trás, com tudo o que de desconforto a escola representa(va) naquela fase. A exigência e a disciplina já não eram uma imposição ditatorial de um espaço assustador e de um tempo escuro. Então, aos 17 anos e nos sexto e sétimo anos do liceu da altura, eram apenas condições naturais de um espaço de conhecimento e de um tempo de aprender a ser homem.

As matérias, as disciplinas, eram interessantes: História, Psicologia e Filosofia. Que ele sabia tornar ainda mais interessantes! Mas, se não tinham interesse nenhum, como era o caso da famigerada Organização Política e Administrativa da Nação (OPAN, como lhe chamávamos como que antecipando o actual mundo das siglas) ele sabia exactamente como torná-las tão ou mais interessantes que as outras. E passávamos, então, quase todos os meses do ano lectivo aprendendo coisas novas e interessantes. Quase todos, porque, no último, ele dizia: “Bom, agora temos que nos preparar para o exame; toca a estudar o livrinho, porque o exame é feito disto e não do que temos andado a falar”. Pois, é que era proibido falar do que tínhamos andado a falar!

Para quem não viveu esses tempos, não é fácil imaginar a importância do Colégio em Porto de Mós. O Colégio, tal era a excelência, trouxe para Porto de Mós gente de todo o país, de Norte a Sul, das ilhas às então colónias. O que toda essa gente trouxe e levou permanecerá para sempre como património de Porto de Mós. Todavia, património maior ficou com os portomosenses, a quem o Colégio abriu as portas da educação, num tempo em que a educação era privilégio de alguns e não direito de todos. Em que o ensino público secundário estava disponível, para apenas alguns, nas capitais de distrito e pouco mais. E em que os acessos e a mobilidade nada tinham a ver com a actualidade.

O Dr Perpétua fez ensino público num Colégio Particular (como então se dizia, em vez do actual privado). Colégio que se tornaria efectivamente público, na primeira escola pública do ensino secundário em Porto de Mós, em 1973 quando, pela mão da reforma “Veiga Simão”, desencadeada a partir da primavera Marcelista, o Estado adquire aquela magnífica infra-estrutura, hoje um verdadeiro ex-libris da arquitectura em Porto de Mós, dando continuidade à nobre missão do Dr Manuel Perpétua.

Obrigado Dr Perpétua. E continue connosco por mais muitos anos, porque continuamos a precisar de si!”

 

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