“Portugal é uma espécie de milagre económico. […] É um pouco misterioso como é que as coisas correram tão bem” - diz hoje Paul Krugman, (antigo) prémio Nobel da Economia, em entrevista ao “Jornal de Negócios”, de que faz primeira página.
É precisamente isto que há muito venho dizendo a amigos, ou a parceiros de conversa, sempre que ela - a conversa - resvala para a situação do país, da economia e da sociedade portuguesa em geral. Eu, que não acredito em milagres, falo mais de mistério. Mas fico um pouco como os espanhóis com as bruxas: "no lo creo, pero que las hay las hay".
É certo que Portugal é um país muito desigual, e que a percepção do país varia muito conforme a bolha a partir da qual o olhamos. À nossa volta vemos com mais nitidez o que está na bolha que integramos do que nas outras, e isso precipita percepções diferentes. Uns tendem a tomar a sua bolha pelo todo. Outros tendem a ignorá-la, para ver o todo nas outras.
Mas que, num país pobre, que se afasta dada vez mais dos indicadores de desenvolvimento das sociedades mais robustas, que mantém inalteráveis a estrutura e o paradigma da sua economia, em que o salário médio cada vez se encosta mais ao mínimo, em que as bolsas de pobreza crescem aceleradamente, a exigir cada vez maior intervenção subsidiária do Estado, e que esgota espectáculos, enche restaurantes, esgota hotéis e programas de férias, e viabiliza a abertura de cada vez mais e maiores superfícies comerciais, há algo de profundamente misterioso, disso não há dúvida.
Um dos meus amigos com quem converso frequentemente sobre estas coisas chama-lhe simplesmente economia paralela. É certo que a economia paralela faz milagres - em Espanha fez até o "milagre" de funcionar, durante décadas, com taxas de desemprego superiores a de 20% - mas os mistérios são mais difíceis de explicar.
Apanhei a notícia de raspão, e fiquei por isso com a ideia de que tenha sido dada mesmo assim: de raspão, como se a notícia fugisse da notícia. Fui ver.
E vi que a notícia de um homem preso a uma cadeira de rodas há 43 anos, que de repente se levantou e começou a andar, era isso mesmo: uma notícia.
Mais: uma notícia bem dada. Rufino Borrego, um alentejano do Alandroal, de 61 anos, estivera durante a maior parte da sua vida agarrado a uma cadeira de rodas por um erro de diagnóstico médico há umas décadas atrás. Em 2010 alguém levantou dúvidas sobre o diagnóstico velho de quatro décadas. Prescreveu exames, um estudo genético e … voilá: o novo diagnóstico iria dar a uma doença com sintomas muito parecidos com os da anteriormente diagnosticada mas, ao contrário dessa, curável. Facilmente curável, com um medicamento corriqueiro para quem tem asma ou outros problemas respiratórios: o Ventilan.
Há uns anos, se calhar nem tantos quantos o Sr Rufino passou na cadeira de rodas, a notícia bem poderia ter sido diferente. Há uns anos, quiçá numa outra zona do país, em vez de ouvirmos falar em Ventilan bem poderíamos ouvir falar de uma voz, eventualmente distante, a sussurrar: “levanta-te e anda”…
Sei que o PS apresentou hoje uma espécie de pré-programa eleitoral. Sei que o PS está numa de não me comprometam. É preciso marcar terreno, mas nada de exageros. Nada é definitivo, tudo é provisório... Não vá o diabo tecê-las. Por isso tudo vale o que vale... mesmo que não valha nada!
Não deixa de me surpreender é que o ministro da economia não tenha tempo para ler os relatórios do FMI, e que o chefe do governo não tenha problemas de tempo para ler tão depressa o tal pré-programa eleitoral do PS. E de concluir imediatamente que não passam de "milagres que conduzirão o país ao desastre"!
Até pode ser que seja isso. Mas assim ninguém acredita... Ou acreditam os que querem acreditar... Os que acreditam em milagres!
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