Como era fácil de prever, perante o cenário da Comissão de Inquérito, Luís Montenegro preferiu arriscar na moção de confiança, que mais não é que o "all in" em eleições antecipadas. Porque Marcelo não tem como fugir da dissolução do Parlamento.
E assim chegou ao fim a segunda moção de censura ao governo, em duas semanas. Num debate em que toda a oposição, da direita à esquerda, foi impiedosa para Luís Montenegro. Que, não o conseguiu disfarçar, sofreu a bom sofrer!
O país não precisava nada de voltar a eleições tão depressa. Parece óbvio que não as quer, e que irá penalizar quem entenda ser os responsáveis por este extemporâneo regresso às urnas. O que está longe de ser óbvio é quem vai responsabilizar. Luís Montenegro sai como o único responsável objectivo, mas isso de forma alguma significa que venha a ser essa a percepção que vingue!
Para apurar tudo, tirar tudo a limpo - leia-se fritar o primeiro-ministro todos os dias durante mais de seis meses - e, então sim, conhecido tudo o que falta saber - leia-se, daqui a sete ou oito meses, já depois das autárquicas, e com o Presidente da República atado de pés e mãos ao final de mandato - apresentar a moção de censura.
Como em tácticas ninguém bate Montenegro - a última que consta é a de abrir tantas contas bancárias quantas as necessárias, para que os seus saldos nunca passassem dos 41 mil euros, que escapavam à declaração à Entidade da Transparência - é bem provável que, entre a frigideira da Comissão de Inquérito, e a loiça toda partida na moção de confiança, venha a preferir a segunda.
Não havia necessidade, como dizia o outro. Até porque as oposições foram todas oposição à moção de censura. E bem mais assertivas, eficazes e ... decentes.
Mesmo que ainda há poucos anos fosse de todo improvável, foi sem surpresa que este governo da Região Autónoma da Madeira, de Miguel Albuquerque, caiu. Já nem deveria ter tomado posse, se bem nos lembrarmos ... Mas Miguel Albuquerque e o PSD entenderam por bem passar por isto, e sujeitarem-se a cair por censura, sem honra nem glória. Por uma moção de censura aprovada por toda a oposição.
Nada disto foi nesta altura surpreendente. Há muito que a moção de censura tinha sido apresentada, e há muito que que toda a oposição anunciara que a aprovaria. Apenas foi empurrada por Miguel Albuquerque o mais possível para a frente.
E também não foi surpreendente que, com um microfone à mão, Alberto João Jardim tenha logo culpado a República disto tudo. Que só quer acabar com a autonomia... Vá lá que se esqueceu dos cubanos. Lembrou-se apenas que só depois de ter saído - "quando quis e não quando de Lisboa o empurraram" - é que o caldo se entornou. Que Miguel Albuquerque nunca conseguiu ter o partido na mão.
A moção de censura - na verdade eram duas, uma apresentada pela esquerda, que bastou, e outra pela extrema direita - contra o executivo liderado por Michel Barnier foi aprovada. O governo mais curto da História da França - três meses - caiu, e não poderá haver eleições antes de Junho do próximo ano.
Macron, que destruiu o sistema partidário francês, nem sequer está no país quando "Paris está a arder".
A França é hoje dívida, défice, e desgoverno. A Alemanha é pouco menos. A União Europeia vai ter que ter que competir com a China, vai ter que se haver com Trump, vai ter de se defender de Putin... E para isso vai ter que reerguer o que sobrar da Ucrânia. Ah... Pois ...
Depois de Alberto João Jardim lhe apontar o dedo da rua - "a Madeira não pode ficar refém de um homem só", declarou, alto e bom som - Miguel Albuquerque já não tinha por onde se segurar. Agora, que o JPP (Juntos pelo Povo, o terceiro partido na Madeira, com nove deputados) anunciou que também vai votar a favor da moção de censura, do Chega, depois de nove anos agarrado ao poder, está a cair desamparado.
Menos de seis meses depois das últimas eleições, oito meses depois das penúltimas.
Miguel Albuquerque quis ser Jardim. Só que não é Jardim quem quer. É quem pode, e já nem Jardim pode. Nem quer!
Hoje houve moção de censura ao governo apresentada pelo Chega, que António Costa agradeceu. Como, em Janeiro, o Chega tinha votado a do Iniciativa Liberal, igualmente bastante interessante para Costa, desta vez a IL retribuiu.
Amor, com amor se paga. Mesmo se se odeiam, como dizem.
André Ventura já gastou as cartas todas. Mas dá-as por bem empregadas. Só ajudou Costa e o seu partido, mas também é de lá que lhe tem chegado a maior ajuda.
Quando logo pela manhã, bem cedinho, dei uma vista de olhos pelos jornais fiquei com a ideia que este foi um fim-de-semana em que, sem que tivesse acontecido grande coisa, muita coisa aconteceu.
Admito que esta ideia construída assim tão à pressa tenha a ver com a forma como gastei o tempo num fim-de-semana bem generoso, que me abandonou aos pequenos prazeres da vida. E, naturalmente como condição indispensável, com os botões todos no "off". E como nem o Benfica jogava...
Às vezes estamos de tal modo formatados para esponja que, sempre que ostensivamente viramos as costas à actualidade, acabamos capturados num certo complexo de culpa. Depois de "hoje não quero saber de nada do que se está a passar" vamos querer saber tudo o que se passou e parece-nos que não perdemos grande coisa. Mas ficamos desconfiados...
É certamente por isso, por ter ficado desconfiado, que no fim desse passar dos olhos pelos jornais fiquei com essa ideia.
O fim-de-semana começara com o anúncio du uma moção de censura. A apresentação de uma moção de censura ao governo é sempre um acontecimento político relevante, como não pode deixar de ser. A não ser que seja apresentada por Assunção Cristas...
Trata-se de mais uma entrada maldosa de Cristas às penas de Rio. Que nem se queixou, entretido que estava lá com o seu CEN (Conselho Estratégico Nacional), novidade e inovação. E que, tanto quanto deu para me aperceber, correu bem. Pelo menos as hostes vinham animadas, e com o segredo bem guardado de uma certa fezada. Até já dizem que agora é que é!
A remodelação do governo também nunca pode deixar de ser um acontecimento. A não ser que que não toque em nada do que está sob os holofotes da crítica e da contestação... Um remodelação só para substituir ministros premiados nas listas das europeias, é meio pífia.
Pois é. Aconteceu muita coisa. Mas não aconteceu grande coisa... Diz-se que a popularidade de António Costa está nos mínimos da legislatura, e a maioria absoluta há muito que deixou de passar nos sonhos do primeiro-ministro. Que o PSD está a subir nas sondagens. E que, na Aliança de Santana Lopes, há um vice com uns problemas que vêm dos tempos em que foi presidente da Câmara da Covilhã. Que também nunca foi uma Câmara fácil, como nos lembramos...
Ontem disse aqui que era preciso uma lata do diabo para o CDS e Cristas apresentarem uma moção de censura tendo por objecto os incêndios deste ano. Não que a quota parte de responsabilidade do governo nesta tragédia não fosse merecedora de censura. Porque foi. Apenas porque a do CDS, como partido de governo que tem sido, e a de Cristas, responsável pela total liberalização do eucalipto no anterior governo, não é menor. Bem pelo contrário!
Bem sei que a direita tem feito tudo para branquear o eucalipto, mas não há volta a dar: o eucalipto, sendo um inimigo da floresta e da agricultura em geral, e um aliado dos incêndios é, particularmente em Portugal, o grande responsável pelas piores consequências dos incêndios.
O eucalipto é uma espécie predominantemente cultivada na Nova Zelândia sob especiais cuidados de localização, num país com área geográfica e densidade populacional muito particulares. Que Portugal, geograficamente, mas também naquelas condições de dimensão e demografia, nas antípodas da Nova Zelândia, se limitou a importar sem se importar com mais nada, tornando-se no país europeu com a mais alta taxa de eucaliptização, e no paraíso das celuloses.
Falar de eucaliptos, é falar disto. É falar de ignorância, e é falar de interesses. E não é possível falar disto sem falar de Cristas, por mais moções de censura que engendre para que se não fale justamente disto!
Hoje é dia de moção de censura. É a 29ª do regime, e a sétima apresentada pelo CDS, que iguala o PCP na liderança desta tabela. Apenas uma atingiu as últimas consequências - foiapresentada pelo PRD em Abril de 1987, contra o primeiro governo de Cavaco. Ironicamente, o governo caiu, mas Cavaco não. Ficou bem de pé, e por lá permaneceu para o resto da vida... O PRD, esse morreu, enterrado na própria sepultura que cavou!
É certo que houve uma outra - duas, melhor dizendo: uma do PS e outra do PC, em simultâneo - que provocou a queda do governo. Mas porque o governo (de Mota Pinto) se antecipou à censura, e apresentou a demissão. Estávamos em 1979, na altura dos governos de iniciativa presidencial (Ramalho Eanes), e às portas da AD de Sá Carneiro e Freitas do Amaral.
Nesta, de hoje, e como a maior parte das outras condenada ao fracasso, o que mais surpreende é a lata de Cristas e do CDS. É que se trata de matéria que envolve todo o arco da governação, onde PS, PSD e CDS repartem responsabilidades há mas de 40 anos, e onde sobressai com particular brilho Assunção Cristas, dona da pasta da floresta em mais de quatro dos últimos seis anos, e com inusitadas responsabilidades directas no aprofundamento da sua eucaliptalização.