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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Tour de France VI

Por Eduardo Louro

 

Chris Froom venceu - vai ganhar amanhã - pela segunda vez o Tour de France. Venceu, mas desta vez não convenceu...

Não convenceu porque o jovem colombiano Nairo Quintana deixou a ideia que era mais forte. Porque lhe ganhou por duas vezes, e apenas perdeu para o britânico por uma vez, logo naquela primeira abordagem aos Pirinéus, que decidiu - como então aqui se prevera - o vencedor deste ano. Porque o minuto e doze segundos que no cimo do Alpe d´Huez lhe faltou anular é bem menos que os mais de dois minutos que perdeu na primeira semana, naqueles cortes que o vento sempre provoca. E porque, no fim, ficou a ideia que Quintana atacou tarde de mais. Que, para recuperar os quase quatro minutos de atraso que resultaram dos tais cortes provocados pelo vento e da única vez que foi, de facto, derrotado por Froom, naquela décima etapa, teria de atacar mais cedo. Mais cedo, mesmo que já nos Alpes. Ou, em última análise, mais cedo mesmo na etapa de ontem.

Ontem atacou - a sério - apenas quando faltavam cinco quilómetros. Hoje corrigiu, mas já era tarde. Atacou na nova subida de hoje ao Croix de Fer, a mais de quarenta quilómetros da meta, para abdicar pouco depois. E lançou o ataque definitivo à entrada da subida final para o Alpe d´Huez, com a mesma estratégia de sempre: ataque inicial de Valverde - que grande Tour, o do campeão espanhol! -  para depois sair que nem uma flecha para se lhe juntar. Ganhou perto de minuto e meio - numa dúzia de quilómetros - em cima do meio minuto de ontem, em cinco. Seria difícil ganhar muito mais do que isso em cada etapa a um ciclista como Froome, com uma equipa como a Sky, que tem sempre três ou quatro corredores disponíveis para ajudar. Como hoje voltou a acontecer, com Porte - que, de saída da equipa e a fazer um fraquíssimo Tour, já tinha sido decisivo na tal décima etapa - a levá-lo montanha acima. 

Claro que nunca se saberá se Quintana poderia fazer mais. Sabe-se é que Froome, não!

Lá no alto foi Pinault - também ele a fazer uma parte final da prova em crescendo - que ganhou, resistindo por 18 segundos à subida demolidora do colombiano, com Valverde, em quarto, a chegar com Froome. E a confirmar, com inteiro mérito, o seu lugar no pódio. Este foi o melhor Tour de sempre de Valverde, que foi dos maiores animadores da competição.

Os quatro candidatos que aqui se perfilaram acabam por ocupar as primeiras cinco posições da classificação. Valverde, e logo no terceiro lugar, foi o intruso. Froome ganhou, como se esperava se bem que talvez como não se esperasse. E ganhou ainda o prémio da montanha. Quintana foi segundo, mas bem podia ter sido primeiro. Que seguramente será, dentro em breve... Nibali - que hoje foi francamente azarado, quando teve uma avaria no início da última subida que o afastou do centro de decisão da etapa, mas não o impediu de mais uma clara demosntração de categoria - acabou em grande, a honrar o número 1 que ostentava nas costas. Pode dizer-se que corrigiu os Pirinéus com os Alpes. Onde esteve ao nível do melhor dos melhores: basta ver que ficou a 8 minutos de Froome, quando logo na primeira etapa dos Pirinéus já estava a 7!

Contador foi o quinto, mas sem grande honra e não mais glória. Pode ter alimentado a ideia de que estaria ao seu alcance a proeza de ganhar o Giro e o Tour. Mas ficou apenas a ideia que o Giro foi a sua única hipótese de este ano ganhar alguma coisa!

Tour 2014 VIII

Por Eduardo Louro

 

Chegou ontem ao fim, em plenos Campos Elíseos, a centésima primeira edição da maior e mais extraodinária competição do ciclismo mundial. 

Os Pirinéus tinham, à décima oitava etapa, deixado quase tudo definido. Ficara para o contra-relógio do penúltimo dia a arrumação final do pódio, porque sobrava apenas a etapa de sexta-feira, tranquíla, para os sprinters voltarem a ter a sua vez...

E assim foi. Ou quase, já que o lituano Navardauskas consegui adiantar-se um bocadinho - sete segundos apenas - ao pelotão e ganhar, deixando os especialistas do sprint, onde voltava a faltar Kittel, mas também Greipel, a discutir o segundo lugar. Até se chegar ao contra-relógio onde, como se esperava, Tony Martin voltou a não ter rival. Ganhou categoricamente, com Nibali - que, sem qualquer pressão e totalmente à vontade na classificação, não terá naturalmente sentido necessidade de dar o seu melhor - a fazer o quarto tempo, com mais 1´e 58"!

Na disputa pelo segundo lugar Péraud, sétimo no contra-relógio com mais 2´e 27" que Martin, levou a melhor sobre Thibaut Pinot. Que ficou com o último lugar de um pódio com dois franceses, que há muitos, muitos anos se não via.

Quem voltou a ficar fora do pódio, naquela que terá certamente sido a sua última oportunidade, foi o espanhol Alejandro Valverde, atirado nos Pirinéus do segundo para o quarto lugar mas, ainda assim, com apenas quinze segundos para recuperar. Voltou a falhar, e os quinze segundos que tinha para o segundo lugar de Pinot, transformaram-se em 2´e 3" para o mesmo segundo lugar depois de Péraud.

Com tudo decidido correu-se ontem a etapa do champagne, com Kittel finalmente de regresso às vitórias, repetindo com o Arco do Triunfo à vista o mais apetitoso dos sprints vitoriosos. Foi por pouco, menos de meia roda sobre Kristoff, mas o suficiente para, depois daquelas três vitórias nas quatro primeiras etapas, e de mais de duas semanas como que desaparecido em combate, igualar as quatro de Nibali.

Este foi o Tour das quedas. Não sei se teve mais quedas que os anteriores, mas teve mais quedas com mais consequências. Só candidatos foram dois - e que dois: Froome e Contador. Mas também e ainda o papa-etapas Cavendish, o melhor sprinter mundial dos últimos anos!

Mas foi, acima de tudo, o Tour de Nibali. Ganhou com uma autoridade raramente vista, só ao alcance dos grandes campeões. Ganhou quatro etapas, e sempre as de maior grau de dificuldade. Nunca se deixou atacar. Para nunca ter de se defender, foi sempre ele a atacar. Impressionante!

Percebeu-se que se preparou para ganhar este Tour, e ganhou com mérito indiscutível, deixando a ideia bem clara que ganharia mesmo com Froome e Contador. Nunca ninguém o poderá provar, evidentemente. Deu para perceber, nas 10 etapas que Contador disputou, que o espanhol não estaria à sua altura. Froome ficou de fora logo na terceira etapa, mas mesmo aí já Nibali tinha ganho, na segunda. A verdade é que a superioridade que Nibali evidenciou deixa definitivamente uma pedra sobre este tipo de especulações!

Integra hoje o restrito grupo de seis corredores que ganharam as três grandes competições dociclismo mundial: Vuelta, Giro e Tour. E isso diz tudo!

A merecerem também referência neste Tour: desde logo os dois franceses do pódio, com Pinot ainda a ganhar o prémio da juventude. Também Tony Martin, um grande corredor. E mais dois jóvens de grande potencial - o francês Bardet, que o contra-relógio atirou para o sexto lugar, e o polaco Mayka, o rei dos trepadores.

Pela negativa referiria Joaquim Rodriguez, que se expôs e perdeu sempre. Mas também Peter Sagan, de quem muito se esperava em função da sua participação na edição anterior. Ganhou - e cedo, ficou bem cedo definida a camisola verde - a classificação por pontos, mas sem ganhar uma única etapa. E perdeu todos os sprints que disputou. Na mesma linha, se bem que num registo completamente diferente, Kwiatowski. O jovem polaco foi uma desilusão completa. Falhou naquela aqui tão referida etapa épica do Tony Martin, depois aproveitou uma boleia numa fuga bem sucedida na primeira etapa dos Pirinéus, e regressou ao top ten, para se afundar logo de seguida nos confins da classificação. E Richie Porte, que depois de no ano passado ter até deixado a ideia de poder contestar a liderança de Froome, este ano, com o líder a ficar logo de fora, falhou em toda a linha. E sempre!

Não há muito a dizer sobre os portugueses. Rui Costa teve de abandonar ainda antes dos Pirinéus. O Tiago Machado chegou a ser terceiro, por um único dia, o também dia único em que Nibali não teve a amarela vestida. Ironicamente teve na queda o seu dia de glória. O Sérgio Paulinho fez o seu papel, mas ficou também aquém do que parece que poderia ter feito, especialmente depois do abandono de Contador. É de resto o desempenho de muitos dos seus colegas de equipa, depois de libertos pela ausência do líder, que deixa a ideia de que também ele poderia ter tido o seu momento de glória.

Nelson Oliveira, também ele acidentado, e José Mendes reservaram para o contra-relógio as suas melhores prestações, ficando ambos nos vinte primeiros, com tempos que até tinham dado jeito, por exemplo, a Valverde.

 

Tour 2014 IV

Por Eduardo Louro

 Vincenzo Nibali - Tour de France 2014, stage 13: live

 

O Tour chegou, de fim-de-semana, aos Alpes. Chegou hoje e parte no domingo, em direcção aos Pirinéus e à última semana.

Tínhamos ficado no final da décima etapa, na véspera do primeiro dia de descanso, ma terça-feira. Daí até à entrada, hoje, na alta montanha dos Alpes – este ano subalternizados relativamente aos Pirinéus, com apenas duas etapas – foram dois dias de grandes dificuldades, e com mais quedas, de novo sem explicação aparente e, também de novo, com o azar a tocar os corredores portugueses. Desta vez foi Nelson Oliveira, o colega de equipa e principal apoio de Rui Costa.

Terminaram ambas com chegadas em grupo, já que nunca o pelotão resistiu ao fraccionamento em vários grupos. Na primeira, a décima primeira etapa, ganhou o francês Gallopin – o tal que na etapa anterior tinha transportado a amarela, no único dia em que Nibali a despiu, certamente para lavar… Isolara-se uns quilómetros antes e conseguiu resistir até ao último metro, cortando a meta à frente mas como se tivesse ganho ao sprint por meia roda. Rui Costa, a contas com uma bronquite aguda, não resistiu no primeiro grupo, perdeu algum tempo (1´:36´´) e alguns lugares na classificação, caindo para a 14ª posição.

A etapa de ontem não foi muito diferente, com a mesma fragmentação do pelotão, com muitas fugas, sempre anuladas e vitória discutida ao sprint, mas sem os grandes sprinters que, depois do sobe e desce constante deste tipo de etapas – especialmente do sobe – não conseguem chegar no grupo da frente. Kittel já há muito que nem se vê, mas Greipel ontem até resistiu e chegaria em condições de discutir a etapa – a equipa, Lotto Belisol, bem trabalhou para isso – mas um encosto no meio do pelotão desequilibrou-o, teve de levar o pé ao chão e no meio daquela aceleração final ficou irremediavelmente para trás.

Foi, por isso, a vez dos eternos segundos. Ganhou Alexander Kristoff, já farto de ser segundo, e foi segundo Peter Sagan, o camisola verde dos pontos, que provavelmente ganhará sem vencer uma única etapa.

A etapa de hoje, a 13ª, foi corrida nas altas montanhas alpinas e terminou com uma montanha de categoria especial. E com mais um recital de Nibali, que ganhou lá no alto, pela terceira vez neste Tour, fazendo até ao momento o pleno nas etapas de maior grau de dificuldade.

Na última subida, a tal de categoria especial, atacou Valverde. Atacou Pinaud… Nibaldi respondeu e foi com eles – para trás ficara já Richie Porte, o segunda da geral, que viria a perder perto de 10 minutos e a desaparecer do top ten – para pouco depois se despedir e seguir sozinho até à meta, passando pelo caminho pelos dois últimos fugitivos, Majka e Konig, segundo e terceiro na etapa.

Rui Costa, ainda afectado pela bronquite, resistiu no grupo da frente até onde pôde. Deixou de poder quando surgiram os sucessivos esticões, o último dos quais do francês Bardet, líder da juventude, e do americano Van Gaderen, que fizeram também uma excelente corrida, respectivamente sétimo e sexto na etapa, com o mesmo tempo. Perdeu mais três minutos para o líder e vencedor da etapa, mas regressou, no nono lugar, ao top ten.

O grande derrotado da etapa foi sem dúvida Richie Porte, mas também o purito Joaquim Rodriguez, depois de parecer ter ressuscitado para o Tour com espectaculares exibições de montanha à procura da camisola das bolinhas, hoje falhou. Quando se esperava que fosse o principal animador da corrida, confirmando a liderança da classificação da montanha, ficou bem cedo para trás, aindas antes da entrada na última subida e muito antes da corrida se começar a decidir. Não ficará como um dos derrotados do dia, mas é certamente uma das maiores desiluões desta etapa.

O italiano da Astana não se cansa de provar que é o melhor deste Tour, não tendo culpa nenhuma que lá não esteja quem lá não está. Não terá a vitória assegurada... Falta a etapa rainha de amanhã, última dos Alpes. E faltam os Pirinéus, este ano ainda mais decisivos... Mas se nada de anormal acontecer, pelo que se tem visto, não há quem o possa desafiar. E desconfio que rapidamente deixarão de o fazer!

Tour 2014 III

Por Eduardo Louro

 Contador foi assistido e voltou à estrada, mas abandonou pouco depois (foto AP)

Photo By Christophe Ena/AP

 

 

Tínhamos deixado o Tour na quinta etapa, a do abandono de Froome. Regressamos hoje, com a décima, a do abandono de Contador (na foto). Estão fora as duas figuras maiores do Tour, de quem tudo se esperava!

A sexta e a sétima etapas não tiveram grande história. A sexta foi ganha ao sprint por outro alemão – Greipel, com o seu compatriota Kittel a passar por problemas e a ficar sem possibilidade de discutir o sprint final. E a sétima pelo italiano Matteo Trentin, de novo com Kittel eclipsado, a ter agora de esperar pela última etapa, em Paris.

No sábado correu-se a oitava etapa, que anunciava a chegada da montanha. Contador mostrou-se, e mostrou que era aquele o seu terreno. Atacou, mas a verdade é que os principais adversários responderam. Nibali e Richie Porte, agora no papel de Froome, não se deixarm ficar. O italiano reagiu mesmo em grande estilo…

Ganhou o francês Blel Kadri – primeira vitória francesa –, isolado, único sobrevivente na meta de um grupo que esteve em fuga durante muito tempo, com Contador em segundo logo seguido de toda a concorrência – Nibali, Porte, Pinault e Valverde, separados por pouquíssimos segundos uns dos outros. Rui Costa teve algum azar, saltou-lhe a corrente na altura decisiva e, mesmo que subindo ao oitavo lugar da classificação, perdeu algum tempo, passando a ficar a quase 3 minutos de Nibali. Que, ao contrário do que aqui cheguei a admitir, despiria a amarela na nona etapa, ontem, a cobrir os 170 quilómetros entre Gérardmer e Mulhouse, pela Alsácia, com seis montanhas para subir.

Foi uma corrida extraordinária de um corredor extraordinário, o crónico campeão do mundo de contra-relógio Tony Martin. Fez mais de 140 quilómetros em fuga, os últimos 70 sozinho, num contra-relógio individual só ao alcance dos sobredotados. Ganhou o que havia para ganhar, incluindo todas as contagens da montanha, e ganhou quase três minutos a um numeroso grupo perseguidor, que integrava os portugueses Sérgio Paulinho e Tiago Machado e o francês Toni Gallopin, e mais cinco ao pelotão. Com esta vantagem de 5 minutos o francês Gallopin tirou a amarela a Nibali – em boa verdade foi o italiano que preferiu entregar-lha – e, notável, o Tiago Machado subiu ao terceiro lugar. Rui Costa caiu de oitavo para décimo-primeiro!

Hoje, à décima etapa, no dia nacional de França – comemora-se a tomada da Bastilha - foi um francês a trazer vestido o maillot jaune. No dia da França, mas também numa das mais difíceis etapas desta edição do Tour. Que voltou também a ser a das quedas, quando se pensava que isso era coisa da primeira semana!

Muitas pequenas quedas e pequenos incidentes, que subir e descer com chuva e mau tempo dá nisso. Mas também quedas graves. Primeiro foi o Tiago Machado, que nem teve tempo de desfrutar do seu extraordinário terceiro lugar. Foi ainda dada a notícia da sua desistência, depois desmentida. Depois Contador, que ainda fez por regressar à corrida, mas acabou mesmo por desistir.

Não se ficou por aqui a história desta etapa. Que, claro, é feita pela vitória – categórica e já a segunda – de Nibaldi, que regressa à amarela, na afirmação clara de que é o grande favorito. Está num grande momento de forma, e será injusto lembrarmo-nos que já lá não estão Froome nem Contador.

É também feita do festival de Joaquim Rodriguez, a sprintar pelas montanhas fora para conquistar a camisola da montanha, a das bolinhas vermelhas. Que parecia estranha no corpo de Tony Martin, que mais parecia estar com varicela. Das sete, o espanhol, discutiu seis e ganhou cinco. Foi batido por Vockler – com batota – na primeira e já não teve força para discutir a última, e a etapa, com Nibali.

Mas foi, acima de tudo, feita de novo pelo alemão Tony Martin. Que, indiferente ao esforço de ontem, pegou no seu colega Kwiatkowski e levou-o por ali acima. Chegou a um grupo de 7 corredores já em fuga e rebocou aquilo tudo durante quilómetros e quilómetros e cinco montanhas. Encostou para o lado na penúltima subida, dizendo ao seu jovem colega de equipa que fosse e aproveitasse bem o que ele tinha feito. Não aproveitou, e acabou até por cair na classificação, mas nem por isso é menos épico. Mais que nova fantástica corrida, o alemão deu um fantástico exemplo: um campeão que faz isto é mais que um campeão!

Rui Costa esteve sempre onde devia estar. Cedeu ao ataque – fulminante – de Nibali, para quem perdeu perto de 2 minutos mais. Mas subiu dois lugares, para nono: os que Tiago Machado (terceiro) e Contador (nono) deixaram vagos.

Tour 2014 II

Por Eduardo Louro

 

 

Depois de, ontem, o Tour ter chegado a França, com mais uma vitória de Kittel – a terceira em quatro etapas –, e de ter perdido, por queda, na véspera, que não lhe permitiu comparecer à partida, uma das suas grandes figuras dos últimos anos, Andy Schleck – há já algum tempo que, por estas e por outras, deixou de ser um grande favorito –, correu-se hoje a primeira das etapas de elevado grau de dificuldade, uma daquelas que pode marcar a história da corrida.

A etapa de hoje, a quinta, não era corrida em montanha. Nem era um contra-relógio. Era simplesmente o regresso ao célebre pavé, no traçado da clássica Paris-Roubaix, com uma incursão por terras belgas. É o chamado Inferno do Norte!

Eram 155,5 quilómetros, entre Ypres e Arenberg Porte du Hainaut, numa daquelas etapas onde ninguém ganha o Tour, mas onde muitos o podem perder. Previam-se muitas dificuldades, um verdadeiro suplício para os ciclistas. A chuva encarregou-se de a transformar num inferno, com quedas sucessivas, umas atrás das outras.

Uma das primeiras vítimas foi o vencedor do ano passado e principal candidato à vitória deste ano, Chris Froome. Que pouco depois voltaria a cair e a abandonar, ainda antes de chegar ao pavé. Já ontem tinha também sido vítima de queda, depois de também já ter caído no Dauphiné, há três semanas atrás. E o Tour ficava, logo ao quinto dia, sem a sua figura maior. E o maior ciclista do pós Lance Amstrong…

Logo a seguir ao abandono de Froome entrou-se no primeiro troço de pavé, e logo aí o pelotão começou a partir-se em vários grupos. Rui Costa, Valverde e Contador logo ficaram para trás, e nem sempre juntos. Como Nibali logo foi para a frente. E foi sempre assim, com uma outra recolagem, mas com muitos grupos espalhados pelo caminho. E muitas quedas, sempre e em qualquer fase da etapa…

Ler, ou ouvir falar, de pavé pode levar a pensar nos empedrados, nas calçadas. Na Calçada de Carriche de há 30 ou 40 anos por exemplo. Pois, não é disso que se trata… São troços de pequena quilometragem – normalmente à volta de dois – de caminhos rurais, no meio dos campos agrícolas, com pouco mais de 2 metros de largura. Que, com chuva, passam a poucos centímetros, ladeados de poças de água e de lama. Na margem, erva molhada que expulsa violentamente qualquer roda que se atreva a tocar-lhe… E público, muito público de um lado e doutro!

Esperava-se uma etapa importante, o primeiro ponto alto deste Tour. Pois, foi mais – muito mais – do que se esperava. Foi provavelmente a etapa que tudo deixou já decidido. Que a Astana tinha certamente bem preparada, nela apostando a vitória do italiano Nibaldi, que traz a camisola amarela, que se arrisca a não despir mais, desde a segunda etapa, que venceu.

Nibali ganhou hoje mais de dois minutos à principal concorrência. De fora da vitória não ficou apenas Froome. Ficou também Contador e, por que não, Rui Costa, nitidamente sem equipa. Viu-se que só pode contar com Nelson Oliveira – outro dos cinco portugueses em prova. Não pode contar com mais ninguém!

Admitindo que a juventude de Kwiatowsky lhe limita as hipóteses de candidatura à vitória final, Nibali tem agora no australiano Richie Porte (a 1´ e 54´´), que agora, sem Froome, passará a ser a primeira figura da Sky, o único rival a menos de dois minutos. E de eterno candidato no papel passou, de repente, não só a candidato real mas a candidato principal.

O Tour é espectáculo. É disso que se alimenta para ser cada vez mais – e apesar de tudo por que tem passado o ciclismo – uma das maiores competições desportivas do mundo. Mas uma coisa é o espectáculo do ciclismo, a preparação do sprint, o sprint, o ataque e o contra-ataque na montanha. Outra é aquilo a que se assistiu hoje. Não é que não tenha nada a ver com ciclismo. Terá. É também ciclismo. Mas é muito mais que isso… E desse mais, o Tour não precisa. Acho eu!

Mesmo que a média de 47 Km/hora do vencedor – Lars Boom, o holandês da Belkin –  deixe a ideia de uma prova normal de ciclismo…

 

Vuelta 2013

Por Eduardo Louro

 

 

Acabou a Vuelta 2013, agora é só chegar a Madrid. As três últimas etapas por terras – altos e baixos – asturianas apenas confirmaram a espectacularidade da Vuelta!

Tinha aqui dito à chegada do último dia de descanso, depois do Pirenéus, que as coisas se decidiriam entre os quatro - Nibali, Horner, Valverde e Rodriguez. Um deles seria o vencedor; um deles ficaria fora do pódio!

Fora do pódio ficou Joaquim Rodriguez - El Purito - não conseguindo no seu país repetir o que acabara de fazer em França. A confirmar a enorme dificuldade de estar no topo em duas - nas três é impossível - das grandes comeptições de três semanas. No último lugar do pódio ficou Valverde, que não lograra em França, apesar de excelente desempenho no Tour. A confirmar também o menor favoritismo que aqui lhes atribuíra, justamente pelo Tour que lhes pesava nas pernas.

A decisão da vitória ficou - e bem - entregue a Nibali e a Horner. E foi simplesmente espectacular!

Nibali foi resistindo ao longo das montanhas mas sempre em perda. O que ganhara no contra-relógio deu-lhe para gerir a liderança. Até certo ponto, até anteontem!

A primeira das três últimas e decisivas etapas, na chegada a Peña Cabarga, reduziu-lhe a vantagem para apenas 3 segundos. No dia seguinte, na chegada ao Alto Naranco, onde José Mendes chegou a dar a ideia de poder ganhar, chegando isolado ao último quilómetro, Horner atacou e ganhou 6 segundos, revertendo para si exactamente a mesma vantagem.

Ontem, na última, na mítica chegada ao Angliru, Nibali atacou, como não podia deixar de ser. Por duas vezes esteve na condição de virtual vencedor, por duas vezes o velho (42 anos e careca de sexagenário) Horner, cujo director desportivo é o nosso José Azevedo, respondeu. Foram os dois por ali acima, deixando para trás os dois espanhóis com que sempre conviveram na frente, e, quando parecia que a Nibali, com melhor ponta final, bastariam as bonificações na meta para ganhar, o americano quis deixar bem claro o que toda a gente já percebra: que era o melhor desta Vuelta!

Foi embora e ganhou. Espectacular!

Brilhantes os dois portugueses nesta terceira semana, sempre na frente naquelas subidas de arrepiar.

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