O Nice entrou a todo o gás, não tanto como se não houvesse amanhã, mas como se não houvesse mais jogo. E pareceu que não era mal visto, que tinham razão.
De facto o Benfica não estava ali para lhe dar muito mais tempo. A equipa francesa fez bem em aproveitar aqueles primeiros três a quatro minutos iniciais, porque não teve nem tempo nem oportunidade para mais.
A partir daí o Benfica passou a dominar o jogo a seu bel prazer, com um futebol variado e vistoso, com oportunidades de golo e com golos. Deu gosto ver. Ora em lançamentos à distância, ora em construção e em tabelas, o Benfica destruía por completo a organização defensiva dos rapazes que vieram da Côte d´Azur. O resto era asfixia pura, com recuperações de bola logo à saída de bola, em cima da grande área adversária. Tudo isto sem uma falta - na primeira parte, com quase 70% de posse de bola - o Benfica não fez uma única falta. Nove a zero em faltas, ganhava o Nice!
Os golos, os dois da primeira parte, limitaram-se a certificar dois momentos que ilustram a exuberância do jogo benfiquista. O primeiro, ainda na primeira metade do primeiro tempo, tem a emoldurá-lo um passe longo de Enzo, a lançar Schjelderup, no lado esquerdo, uma recepção espectacular do miúdo norueguês, no peito, assistência para a recepção orientada de Aursnes, a deixar batido o defesa adversário, para o remate com o pé contrário. O segundo culmina uma extraordinária jogada colectiva (mais de vinte toques na bola), concluída com Dedic a partir para cima de dois adversários, junto à linha final para, de calcanhar, deixar a bola para trás para, de primeira, agora ao contrário, Aursenes assistir Schjelderup que, de primeira, atirou para a baliza.
Tudo perfeito! No primeiro golo, teria de ser assim, como foi. Se Aursenes tivesse rematado de primeira, o defesa adversário teria bloqueado o remate (como fizeram tantas vezes!). No segundo, se não tivesse rematado de primeira, o guarda-redes teria tido tempo de lá chegar.
A segunda parte foi vítima da primeira. Os jogadores vieram dos balneários com alguma - diria que bastante - displicência. Não tinha de ser assim, nem é tolerável que volte a ser assim, mas sabemos que isso acontece frequentemente em circunstâncias destas.
Os primeiros 10 minutos foram francamente maus, e o Nice aproveitou para pressionar e ter bola. Mas só isso, sem qualquer perigo para a baliza de Trubin. Mas sabe-se como é frequentemente difícil reverter este estado de coisas. Bruno Lage pensou fazê-lo com as substituições, mas antes delas, aos 63 minutos, já as coisas estavam a mudar. Quando Ivanovic, Enzo e Schjelderup saíram, já o mote da viragem tinha sido dado pelo remate à barra do jovem norueguês.
O Benfica voltou ao comando do jogo, e a criar situações para marcar. Mas, em vez do futebol associativo da primeira parte, agora mais através de acções individuais, especialmente de Prestianni. Depois passou a deixar correr o jogo, que manteve sob total controlo. Já em puro modo de controlo ainda entraram Henrique Araújo e, depois, Akturkoglu, este para o aplauso a Aursenes, o melhor em campo. Mas não só, também para garantir que ficasse impedido de jogar pelo Fernerbaçe, de Mourinho, o adversário (de respeito) no play-off que se segue. Foi como matar dois coelhos de uma só cajadada: fica disponível para fechar o negócio com os turcos, evitando que se pudesse gorar, e garantido que não poderá repetir o que, há uns anos, em 2020, em tempo de Covid, Živković fez ao marcar o golo do PAOK, então de Abel Ferreira, que nos eliminou nesta terceira pré-eliminatória da Champions.
O Benfica sai de Nice com esta terceira eliminatória de acesso à Liga dos Campeões bem encaminhada. Mas não resolvida, como bem poderia ter ficado, tal foi a superioridade demonstrada ao longo de todo o jogo, e tantas foram as oportunidades de golo que criou.
O Benfica entrou em campo - com o jogo bem preparado, deve desde já dizer-se - com duas novidades na equipa, em relação ao jogo da Supertaça, com o Sporting: Akturkoglu, lesionado e, ao que se diz, já de malas feitas para Istambul, para o Fenerbaçe, de Mourinho, e Leandro Barreiro, foram substituídos por Schjelderup e Ivanovic.
A primeira sensação terá sido mesmo a estreia do avançado croata, acabado de chegar. Jogar fora, num jogo desta responsabilidade, e apresentar uma equipa com dois avançados, com um deles acabado de chegar, não é propriamente dos livros. Nos livros é mais ao contrário!
Com dois avançados da conhecida qualidade de Pavlidis, e da demonstrada qualidade, e do valor de investimento, de Ivanovic, não há volta a dar: é 4-4-2, e pronto!
E foi assim, neste sistema mandado para a frente, que o Benfica entrou, pegou de imediato no jogo, começou a dominá-lo, e criou logo duas excelentes oportunidades para marcar (Schjelderup e Otamendi, esta com Ivanovic a impedir a entrada da bola, e ainda por cima em fora-de-jogo). O domínio do Benfica nesta fase - em boa verdade durante praticamente toda a primeira parte - não era, no entanto, completamente tranquilizador. O Nice apostava tudo no contra-ataque, nas saídas rápidas, aproveitando a qualidade de passe, na maioria das vezes de primeira, dos jogadores do seu meio-campo, a velocidade dos seus avançados e o espaço que o Benfica deixava nas costas.
Conseguia-o poucas vezes. A pressão do Benfica matava à nascença essas intenções na maioria dos casos. E, nas poucas vezes em que conseguiu concretizar essas intenções, bateu no equilíbrio defensivo do Benfica, praticamente irrepreensível durante todo o jogo.
Ainda assim, quanto mais o Benfica se atrasasse no golo, mais cresceria esse risco. E a verdade é que, apesar das quatro ou cinco oportunidades para marcar, o intervalo chegou sem golos.
A entrada na segunda parte parecia alterar esse registo do jogo. O Nice surgiu mais adiantado no campo, e parecia não vir para continuar lá atrás, à espera. Jogava-se apenas há 4 minutos quando o Clauss entrou em slalom pela área dentro e rematou para defesa de Trubin.
Foi a única oportunidade de golo do Nice. Logo a seguir, menos de 3 minutos depois, o Benfica marcou. Ivanovic, assistido por Aursenes - grande jogo, e grande envolvimento na jogada - marcou, na estreia. E, como se imaginava, ideia que já vinha da primeira parte, o jogo mudou completamente de registo. O jogo no campo todo permitia ao Benfica o domínio seguro, já sem ter que correr riscos de espaço para o contra-ataque adversário.
E assim foi. O Benfica passou a dominar tranquilamente o jogo, e pôde juntar mais quatro ou cinco oportunidades de golo às outras tantas da primeira parte. Apenas concretizou uma única, no grande golo de Florentino (entrara para o último quarto de hora, com Henrique Araújo e Barreiro; 10 minutos antes entra Prestiani) já perto dos 90 minutos.
Sem ter feito um jogo do outro mundo, foi uma bela exibição colectiva do Benfica, com muitas boas exibições individuais. A abrir as portas do play-off - no Feyenoord-Fenerbaçe (2-1), donde sairá o adversário, as coisas também não estão resolvidas - mas, acima de tudo, a deixar boas indicações para o que aí vem.
A França foi de novo vítima de mais um ataque do terrorismo islâmico, agora numa nova onda de ataques solitários a alvos indiscriminados, mas simbólicos.
Este de ontem, na Basílica de Notre-Dame, em Nice - e entre mais duas tentativas, uma em Avignon e outra na própria embaixada francesa na Arábia Saudita -, matando três pessoas, entre as quais uma mulher degolada, é carregado de simbologia. E não é por, numa casa de um Deus, se matar em nome de outro. É pela própria notícia do acto terrorista praticado por um jovem tunisino de 21 anos. Nuns jornais, chegado a França no início do mês. Sem mais. Noutros, aportado em Lampedusa, em mais uma onda de refugiados, antes de entrar em França.
Não faz diferença nenhuma, mas é flagrantemente simbólico.
Os dois grandes acontecimentos que dominaram o final da semana passada voltaram a evidenciar os sinais preocupantes que marcam o jornalismo e a indústria da comunicação em geral.
As redes sociais minaram o jornalismo, e o jornalismo deixou-se minar por elas, mandando às malvas os valores, os critérios, e os princípios que constituíam a deontologia com que se faziam e davam notícias.
Quando a CMTV – o mais flagrante dos exemplos disso mesmo – transmitiu imagens vivas da agonia e da morte em Nice, não estava a noticiar coisa nenhuma. Quando um “jornalista” – que nunca pode ser digno dessa designação – da TF2, de microfone em riste e câmara apontada pergunta, a um homem junto ao cadáver da mulher, o que sente, não está a relatar um facto. E muito menos a fazer notícia.
Quando as televisões, na noite de sexta-feira, cobrindo as incidências do suposto golpe de estado na Turquia, noticiavam, tudo numa mesma e única hora, que Erdogan tinha pedido asilo político à Alemanha, que a Alemanha o recusara, e que estava a aterrar em Teerão, depois do Irão ter aceite conceder-lhe asilo político, não estavam nada preocupadas com factos. Nem com rigor. E nem sequer com o mínimo sentido crítico, ou com o mais elementar bom senso, que desde logo denunciava a impossibilidade factual do que estavam a noticiar.
A informação rigorosa e objectiva é tudo o que o mundo hoje mais precisa. Mas é precisamente quando é mais desprezada e negligenciada, para dar lugar ao voyeurismo e á exploração emocional dos sentimentos mais básicos das pessoas, impedindo-lhes ou limitando-lhes seriamente qualquer a capacidade da reflexão serena sobre os factos.
Isto mata a nossa civilização. Isto só ajuda os inimigos da nossa forma de vida. Isto ajuda terrorismo. E o terrorismo conta com esta ajuda. Porque isto orienta reacções xenófobas e de descriminação étnica, que acabam por entregar o poder a radicais racistas e nacionalistas. Que, depois, pressionam, perseguem e isolam minorias, quaisquer que sejam, atirando-as para para a marginalidade, para o pântano social, numa espiral de radicalização que alimentam, para dela se alimentarem...
Os dados já conhecidos não apontam assim tão claramente para um ataque terrorista formal - deixem passar a expressão - do género dos que têm vindo a suceder-se em França, na Bélgica ou na Turquia. Não tanto, mas também, por não ter sido ainda reinvindicado por nenhuma das organizações terroristas islâmicas. Nem, mas também, por divergir no modus operandi: para tudo há uma primeira vez, e o método nem foge muito do utilizado pela Al Qaeda, em particiular, em território árabe.
Sabe-se que o autor de tão ignóbil acto de morte e terror é cidadão francês, de origem tunisina, com cadastro criminal, de roubo e violência.
O terrorismo não se limita a recrutar, treinar e preparar operacionais para levar a cabo a sua estratégia de terror. Vai muito para além disso, fazendo de cada uma das suas acções bem sucedidas uma semente lançada no campo fértil da marginalidade e do crime. Milhares de jovens desestruturados, socialmente marginalizados e sem esperança nem futuro, depois de arrastados para o mundo do crime, facilmente se deixam seduzir pela violência terrorista. E rapidamente se transformam em terroristas por conta própria, que encontram no terror forma de vida. E de morte, que também é forma de dar a volta à vida!
Se já era difícil vencer o terrorismo, a partir de agora, rompida esta fronteira ténue com a marginalidade e o crime, a missão torna-se ainda mais difícil. Esta sim, é a fronteira que nunca deveria ter sido aberta.
A besta voltou a sair à rua, para espalhar o terror e a morte. De novo em França e desta vez em Nice. no coração do turismo francês, no seu dia nacional. Não foi num aeroporto, foi numa praça onde uma multidão assistia ao fogo de artifício, nas comemorações do 14 de Julho, da tomada da Bastilha. Não chegaram de taxi, com bombas à cintura e armas aos ombros. Vieram de camion, e lançaram-no sobre a multidão.
Apenas o resultado é o mesmo: dezenas de mortos - o número começa em 30, mas sabe-se como sobe à medida que as horas passam - e centenas de feridos.
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