Sócrates voltou ontem à televisão. Foi numa entrevista à CNN, ao que pude perceber por ter um novo advogado.
Se Sócrates é sempre notícia, um novo advogado de Sócrates ... é notícia. Que o novo advogado tenha pedido mais um adiamento, mais cinco meses e meio para estudar o processo, já não é sequer notícia. Tudo vale a Sócrates para chutar para o pinhal ... lá para o fundo da prescrição. Até mudar de advogado. Nem Sócrates quer que seja notícia...
A notícia corre por aí - nasceu em Espanha, em Maiorca, um bebé com duas mães. Olhamos para ela, para a notícia, e não ficamos surpreendidos. O que não deve faltar nos tempos que correm é crianças com duas mães. Ou dois pais.
Depois, olhamos melhor, e damos conta que refere tratar-se do primeiro caso na Europa. E aí ... alto lá. Deixa ver melhor.
Vamos ver melhor e, afinal, a notícia é que é o primeiro a ser concebido por duas mulheres. Isso mesmo: um óvulo fertilizado foi implantado no útero de uma mulher e, depois de desenvolvido o embrião, transferido para o útero de outra, que completou a gestação e e se fez parturiente.
O que à primeira vista parecia uma coisa é afinal outra, completamente diferente. E o que é mesmo notícia é que esta é uma técnica nova que permite substituir a fertilização in vitro. O que não é notícia é que novos problemas se levantam. E não devem ser poucos. Nem pequenos.
O pai também não é notícia. O bebé chama-se Derek. E também não é notícia que tantas notícias sejam mal lidas...
A detenção, em Lisboa, de dois iraquianos que viviam em Portugal como refugiados desde 2017, suspeitos de terrorismo, é a notícia do dia, não podendo ser mais (in)oportuna, quando na ordem do dia está o acolhimento a afegãos que procuram fugir do inferno que é hoje o Afeganistão. A primeira página do Correio da Manhã, bem na linha do que é a imagem de marca do tabloide, é disso elucidativa.
A possibilidade de serem recebidos terroristas islâmicos disfarçados de refugiados é, evidentemente, muito grande. Até porque infiltrar membros nas colunas de refugiados é uma solução Win-Win para o Daesh, ou ISIS, ou lá o que em cada momento se chame: ganham porque aproveitam uma espécie de boleia com escolta para os transportar; e ganham porque minar a disponibilidade dos países em receber aqueles que deles fogem funciona como factor de dissuasão dos que lá ficam.
Por isso, cabendo aos países do Ocidente assumir as suas responsabilidades - civilizacionais, mas também históricas - e, nesse sentido, tudo dever fazer para receber e integrar refugiados cabe-lhes, especialmente através da articulação do seus serviços de inteligência, criar os filtros que permitam identificar a maior parte das infiltrações. A nós, cidadãos desses países, cabe-nos compreender que, por mais apurados que sejam esses filtros, nunca todos lá ficarão retidos. Que haverá sempre, é inevitável, terroristas a passar por refugiados, e que esse é um preço que temos que aceitar pagar.
E cabe-nos denunciar títulos como o do Correio da Manhã. A notícia terá que ser que a polícia portuguesa identificou dois dos que passaram no filtro. Antes de por cá nos terem causado problemas, e de cá conseguirem sair para os causar a outros. E essa é uma boa notícia!
A França foi de novo vítima de mais um ataque do terrorismo islâmico, agora numa nova onda de ataques solitários a alvos indiscriminados, mas simbólicos.
Este de ontem, na Basílica de Notre-Dame, em Nice - e entre mais duas tentativas, uma em Avignon e outra na própria embaixada francesa na Arábia Saudita -, matando três pessoas, entre as quais uma mulher degolada, é carregado de simbologia. E não é por, numa casa de um Deus, se matar em nome de outro. É pela própria notícia do acto terrorista praticado por um jovem tunisino de 21 anos. Nuns jornais, chegado a França no início do mês. Sem mais. Noutros, aportado em Lampedusa, em mais uma onda de refugiados, antes de entrar em França.
Não faz diferença nenhuma, mas é flagrantemente simbólico.
A notícia da suspensão dos testes na vacina contra a covid-19, de que a Europa tinha já encomendado 400 milhões de unidades, ontem tornada pública pela farmacêutica AstraZeneca, que a desenvolve em parceria com a Universidade de Oxford, desencadeou duas reacções absolutamente opostas que nos devem merecer alguma reflexão.
Enquanto o primeiro-ministro, António Costa, a classificava de péssima notícia, os especialistas davam a suspensão como normal e até desejável. É um passo normal no processo científico, garantem!
Isto quer dizer que uma péssima notícia para a política é uma notícia desejável para a ciência, o que é preocupante. Que a política tem um tempo e a ciência outro. Por isso temos visto políticos a anunciar vacinas como banha da cobra, para já. Putin, já anunciou a sua. Trump quer anunciá-la em Outubro, antes das eleições, pois claro. E mesmo sem recorrer a estes dois exemplos extremos, vimos por todo o lado a política a garantir que a vacina estaria disponível já no final do ano, ou o mais tardar no primeiro semestre do próximo. No entanto, da ciência sempre ouvimos falar em dois a três anos como a melhor das hipóteses para o desenvolvimento da vacina.
Os cientistas não dizem que esta suspensão é uma boa notícia por atrasar a vacina. É uma boa notícia porque significa que o processo científico não se deixou contaminar pelo político. Aconteceu um problema, como tantos acontecem nestes processos, e a decisão científica não pode ser outra: pára tudo até que tudo se esclareça. Mau, era mesmo se a pressão política se sobrepusesse, e tudo seguisse em frente como se nada se tivesse passado.
Neste caso foi assim. Em Inglaterra, com a Universidade de Oxford, e com a AstraZeneca, o tempo da ciência prevalece sobre o da política. Nada nos garante, antes pelo contrário, tudo nos leva a desconfiar, que assim seja na Rússia de Putin. Ou na América de Trump. Ainda mais de Trump a precisar de tudo para ser reeleito.
Talvez a esta hora António Costa já tenha percebido que a notícia não era assim tão má...
Ora aqui está um dia cheio de notícias. São notícias do país a arder às mãos de criminosos incendiários. É a do início do julgamento de oito portugueses acusados de terrorismo ao serviço do Daesh - mesmo que apenas se saiba do paradeiro de dois, e que apenas um compareça em tribunal -, no primeiro caso de terrorismo islâmico julgado em Portugal. É a da retoma das chamadas "reuniões do Infarmed", para avaliação do estado da pandemia que não abranda, relegando expressões como primeira e segunda vaga para meras questões de semântica, agora que o regresso às aulas agita ainda mais as consciências de cientistas, políticos e autoridades sanitárias. É a notícia da confirmação da candidatura de Ana Gomes ás presidenciais de Janeiro...
Seria esta certamente a notícia do dia, não fosse a notícia de Marcelo Rebelo de Sousa não ser notícia. Pode ser sintomático, ou até premonitório (não sei de quê), que Marcelo, que está sempre à frente de microfones e de câmaras de filmar, não seja notícia no dia em que Ana Gomes diz que vai a jogo.
Marcelo, como se sabe, é o candidato que ainda não é candidato. E por isso não podia reagir. Já Ventura, o candidato que já é candidato, reagiu de imediato e bem à sua maneira: se tiver menos votos que a depravada Ana Gomes, o símbolo (do mal) das minorias, corta os... Nada, demite-se do partido. Outra vez.
A candidatura de Ana Gomes vai mexer com muita coisa, não fosse ela um elefante numa loja de cristais... Atravessa todo o cenário eleitoral das presidenciais. Atinge e divide universo eleitoral do PS, e com isso o de Marcelo. Mas também o de Marisa Matias, já confirmada, de novo como candidata do BE, e o do ainda desconhecido, mas garantido, candidato do PCP. E o do próprio Ventura, na medida em que também representa uma alternativa ao voto de protesto.
Não admira que tenha saltado logo. O que pode surpreender é que a fanfarronice com que antes falava em ser o próximo Presidente da República, se tenha transformado na modéstia de ganhar à Ana Gomes.
Na sequência deste meu texto recebi da British American Tabacco (BAT) uma nota informativa em que confirma que "no passado mês de abril ... anunciou que a sua filial de biotecnologia Kentucky BioProcessing (KBP) estava a desenvolver uma possível vacina para a COVID-19". Que "após a conclusão dos testes pré-clínicos, a potencial vacina demonstrou produzir uma resposta imunológica positiva". Que "já disponibilizou a documentação preliminar sobre o novo medicamento à Food and Drug Administration (FDA)", e que "está pronta para testes clínicos em humanos", já a partir de Junho, se para tal obtiver autorização das entidades supervisoras.
Informou ainda que está disponível "para investir em equipamentos adicionais para aumentar a capacidade de produção da vacina".
Há boas notícias. Más notícias. E notícias assim-assim…
E há notícias inacreditáveis, daquelas de primeiro de Abril, mesmo que dadas noutro dia qualquer. Hoje mesmo. Fresquinha, nada requentada.
Apenas requintada. Com muito requinte … nem que seja de malvadez…
Vamos a ela, à notícia inacreditável que diz que uma tabaqueira americana, proprietária de duas das principais marcas de cigarros do planeta, tem a cura que falta e que cientistas de todo o mundo procuram desenfreadamente noite e dia. Isso: tem nas mãos a vacina para a Covid 19.
E diz que está já na fase de "testes pré-clínicos", e que estará em condições de produzir até 3 milhões de vacinas por semana já no próximo mês de Junho, e que não tem quaisquer objectivos de lucro.
A notícia diz ainda que a tabaqueira usa as folhas de tabaco e a tecnologia utilizada para o seu crescimento rápido, e dá conta de uma série de vantagens associadas. À tecnologia e às plantas do tabaco. Muitas. Tantas que nem dá para enumerar…
Parecia uma notícia vinda directamente do twitter de Trump.
Fui investigar e lá encontrei o COMUNICADO da British American Tobacco, proprietária das marcas Camel e Lucky Strike, a confirmar tudo o que a notícia que corre em alguns meios de comunicação adiantava.
Pronto. Não vinha de facto do twitter de Trump. Se calhar porque ainda não teve tempo de chegar à Casa Branca. É tudo muito recente. Afinal o COMUNICADO, tem a data de 1 de Abril...
Se passam hoje 75 anos sobre a libertação de Auschwitz, a maior vergonha e o maior pesadelo da humanidade, de ontem saltaram duas notícias para o topo da actualidade: a trágica morte de Kobe Bryant e o congresso do CDS, com outra morte, mesmo que menos dramática - a do portismo.
A morte em todas elas, o que faz delas notícias de morte.
O maior campo de concentração e de extermínio do regime nazi de Hitler foi libertado há precisamente 75 anos, e a data é hoje assinalada com uma cerimónia no local a que, para além de chefes de Estado e embaixadores de todo o mundo, conta ainda com a presença de 200 sobreviventes daquele terrível espaço de morte.
Tivemos conhecimento da morte de Kobe Bryant ontem à noite, e surgiu-nos como aquelas notícias em que não queremos acreditar. É assim que sempre reagimos às notícias da morte de uma lenda, daqueles que temos por imortais, como era o caso desta estrela maior da NBA.
Do congresso do CDS saiu o anúncio do nascimento um novo partido por morte de outro, do velho CDS. Dizem que é um novo CDS a renascer das cinzas do velho CDS. Pode ser, mas a mim parece-me que o novo é mais velho que o velho!
Poderão ter morrido alguns "ismos", já a cair de maduros. Mas morreu também o CDS que desempenhou um papel histórico na democracia portuguesa enquanto tampão da extrema-direita anti-democrática. O que aí vem agora é um partido com ar de muito à frente virado muito para trás. Um partido com um presente acantonado no passado, articulando pensamento retrógrado com linguagem actual, e altamente centrado no culto ao líder.
No final do ano, no preciso espaço de uma semana, dois jovens, um cabo-verdeano e outro português, foram assassinados na rua.
O português, de 24 anos, a 28 de Dezembro, no Campo Grande, em Lisboa, por um grupo de três jovens guineenses, com idades entre os 16 e os 20 anos, apunhalado nas costas depois de ter reagido ao assalto que esteve na origem do crime. Perdeu a vida no local e foi logo notícia nos jornais e televisões.
O cabo-verdeano, de 21 anos, a 21 de Dezembro, em Bragança, brutalmente agredido na cabeça à saída de um local de diversão nocturna, numa rixa em que, com mais dois amigos e compatriotas, se viu envolvido com um grupo de portugueses. No alarme dado aos bombeiros o jovem caído inanimado no chão foi referenciado como profundamente embriagado. Estava sim às portas da morte, já tapadas para a saída. Morreu a 31 de Dezembro, e foi então notícia nos jornais e nas televisões.
As duas lamentáveis ocorrências, bem como os crimes praticados, não têm qualquer relação entre si. As circunstâncias em que ocorreram são tão distintas como a geografia em que aconteceram. Em Lisboa, aconteceu um assalto numa zona em que acontecem todas as noites. Ao que se sabe, o jovem assaltado era praticante de karaté, e isso não deve ter ajudado nada... Em Bragança, os contornos do crime não estão ainda bem definidos, mas o que se conhece aponta para a futilidade de um simples encosto numa rapariga provocado por uma escorregadela na fila para a caixa, com uma "espera" na saída.
O que não impediu que rapidamente os activistas do costume corressem a rotular o crime de Bragança de racismo, em mais um "tiro no pé", ajudado também pelas autoridades de Cabo Verde que, esquecendo-se que o crime de Bragança só se tornou crime, e depois notícia, com a morte do jovem, a 31 de Dezembro, vieram apresentar críticas ao tratamento mediático do tema, em evidente contraponto com a relevância informativa dada ao crime do Campo Grande.
A luta contra o racismo não é isto. Este tipo de reacções apenas contribuem para extremar posições, tornar mais difícil o combate ao preconceito, e engrossar as correntes xenófobas e racistas. Que - já se está a ver - ficam com mais uma "pérola" para usar: "há racismo quando brancos matam um preto, mas já não há quando são pretos a matar um branco".
Não havia necessidade...
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