O presidente ucraniano viajou para os EUA. Para - pensaria ele - estabelecer as garantias de segurança para o seu país nos acordos de paz que Trump garante prosseguir. Mas na verdade para - único pensamento de Trump - assinar um acordo sobre a exploração dos recursos minerais do seu país.
A conversa até parecia começar bem, mas rapidamente derivou para um cerco a Zelensky. De repente o presidente ucraniano viu-se cercado pelo presidente, pelo vice-presidente, pelo secretário de Estado, pelo secretário da Defesa, entre outros elementos da administração norte-americana, e pela plêiade de jornalistas e repórteres que Trump passou a escolher para o acompanhar.
Logo que realizaram que presidente ucraniano não estava ali simplesmente para assinar de cruz a entrega dos recursos naturais do seu país, Trump e Vance passaram ao achincalhamento e ao bullying. Como Zelensky não se conformou passou a ser considerado desrespeitoso, e acabou acusado de responsável pela terceira guerra mundial.
Quando já nada havia para salvar, um imbecil feito repórter na sala Oval, em tom jocoso, perguntou-lhe por que não usava fato. Ou se tinha sequer um fato.
No fim, não sobra qualquer surpresa. Trump e o seu gang já não surpreendem ninguém. Só quem andava mesmo muito distraído é que não percebeu que mundo mudou, e não é mais o mesmo. Tanto que é muito provável que Zelennsky tenha agora a cabeça a prémio...
As teorias conspirativas sobre a origem da pandemia que virou o mundo do avesso, insinuadas por Trump e logo agarradas pelos Camilos Lourenços desta vida, parecem-me uma patetice. Não tanto pela impossibilidade de demonstração, com a discussão sempre capturada pela especulação, isso seria o menos. Mas porque desvia o foco daquilo que importaria discutir.
Se a China criou ou não o vírus, em primeira análise, e se a sua disseminação foi acidental ou propositada, é um enredo que só interessa à China, e aos interesses chineses, que nunca são apenas chineses. Ao mundo democrático e civilizado basta a inegável ocultação, durante semanas, do que estava a acontecer em Whan. Basta considerá-la acto hostil e exigir da China a sua reparação, que é como quem diz o financiamento de um programa de recuperação das economias dos outros cantos do mundo afectadas pela pandemia. Não aceitar outra coisa que não exactamente isso, e recolher a mão que tem tido estendida para receber as migalhas da campanha que a diplomacia expansionista chinesa pôs em marcha.
Tão simples quanto isto.
Abrir-se-iam então duas vias: ou a China assumiria essa obrigação, e era definitivamente colocada perante as suas responsabilidades no mundo, acabando com as ambiguidades dos seus compromissos internacionais; ou, o que seria mais provável, rejeitaria essa responsabilidade, e o mundo votá-la-ia ao isolamento com que agora nos vimos confrontados, com um total embargo comercial e político.
Só que isso acabaria com os baixos custos de produção das grandes multinacionais lá instaladas, e com a maior fatia do mercado das suas marcas de luxo. E, claro, é de custos e vendas que se fazem os lucros.
É por isso muito mais interessante alimentar teorias da conspiração. Que não passem de chinesices para que tudo fique na mesma. Ou o mais próximo possível!
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