O Sporting foi prejudicado pela arbitragem do último jogo, em Setúbal. Mais, bem mais, que uma arbitragem a prejudicar o Sporting, foi uma arbitragem desastrada: basta que, dos quatro golos que o jogo teve, nem um esteve de acordo com as leis. E que tenha sido anulado o único que deveria ter valido.
O Sporting reagiu como costuma reagir, reclamando até o primeiro lugar do campeonato, que não fossem as arbitragens e seria seu. Mas reagiu também para, evidentemente, marcar posição para o jogo do próximo domingo, com o Porto, em que está em causa o segundo lugar, o tal que dá acesso directo à Champions.
E para colocar pressão no árbitro desse jogo que, soubemo-lo ontem, seria Olegário Benquerença. Que não está apenas na fase descendente da sua carreira. Está a terminá-la numa forma que só permite um desejo: que seja depressa, que acabe depressa com este penoso e triste fim de festa.
Por isso, mas também pelo seu histórico nos jogos com o Porto, ninguém entendeu esta decisão de Vítor Pereira. Uma nomeação absurda, destituída de senso, sem pés nem cabeça, que mais não era que mandar mais achas para a fogueira!
De repente, “por motivos de indisponibilidade física devidamente comprovada”, o Conselho de Arbitragem liderado por Vítor Pereira, trocou Olegário Benquerença por Pedro Proença. Sou dos que acham que nunca fica mal emendar a mão, mas... não havia necessidade...
O Benfica não ganhou este jogo que pôs ponto final na questão do título, e que permitiu a antecipação dos festejos que neste momento inundam a invicta, mui nobre e sempre leal cidade do Porto,também porque entrou mal e reentrou pior no jogo.
Sublinhei também porque, infelizmente, voltou a suceder o costume. Se foi assim até aqui, assim teria de ser até ao fim…
A nota curiosa deste jogo residiu no regresso de Olegário Benquerença à arbitragem dos jogos do Benfica, vinte meses, quase dois anos depois. Igual a ele próprio, como costuma dizer-se!
De mão leve, puxando de amarelos a torto e a direito, mas assinalando um penalti a favor do Benfica. Inédito, creio!
Mas, porque a tradição ainda é o que era, mais dois – claríssimos e cometidos mesmo à sua frente – deixaria por assinalar. A não ter sido assim o Porto festejaria o título que o Benfica lhe ofereceu no relvado do Dragão ou no da vizinha Vila do Conde, ainda antes de o festejar na Avenida dos Aliados.
Mas nem o facto de considerar que este Porto os não terá merecido, me impede de deixar de aqui os meus parabéns aos portistas. Em primeiro lugar, e em especial, aos meus colegas dragões do Dia de Clássico e ao meu amigo Nuno, o Portomaravilha. E ao Paulo, Mr Cosmos...
O futebolês é uma linguagem com virtudes inimagináveis. Entre elas uma capacidade extraordinária de adaptação aos mais rebuscados conceitos e uma enorme facilidade de transmitir as mais subliminares mensagens. O falso ponta de lança tem um pouco de tudo isso!
Há o ponta de lança – o matador–, que já por aqui passou, mas também o falso ponta de lança. Que, ao contrário do falso médico (ou de qualquer outro falsificador), não anda por aí a armar-se no que não é. O falso ponta de lança não é aquele tipo que chega ao aeroporto todos os Verões (e todos os Janeiros, também Verão lá na terra deles) a proclamar aos setes ventos que faz muitos golos, que remata bem com os dois pés e que é muito bom de cabeça mas que, depois … nada. Nem um só desses atributos! Esse, embora pudesse parecer, não é o falso ponta de lança. Esse é o barrete!
O falso ponta de lança não é um impostor. Fazem dele um impostor, não o é ele próprio. É o treinador que cria esse embuste!
Ou porque não tem mesmo um ponta de lança na equipa – às vezes só tem um ou outro desses barretes – e, já diz o povo, quem não tem cão caça com gato; ou porque, mesmo tendo-o, não o utiliza porque tem medinho do adversário. Não é capaz de o enfrentar cara a cara. De disputar o jogo pelo jogo, olhos nos olhos com o adversário. Arma a equipa em bases ultra defensivas e, não lhe sobrando ninguém para servir o ponta de lança – ou assistir, como vimos na assistência –, opta por destinar as tarefas atacantes a um só jogador, normalmente franzino e rápido e de boa relação com a bola.
Aí está o falso ponta de lança!
Que nem sequer é bem uma falsidade. Comparada com as falsidades que por aí andam…
São as falsas partidas do Benfica e da selecção, a colocarem em sérios riscos os respectivos objectivos logo de início. São as falsas soluções e até mesmo os verdadeiros problemas confundidos com falsas questões!
Na selecção, como de resto se esperaria, tudo se resolveu com o despedimento de Queiroz. É falso que Madaíl tivesse algo a ver com o problema, ou mesmo que não seja ele o próprio problema. Basta olhar para a desorientação e o desespero verdadeiramente humilhante da tão disparatada quanto ridícula ideia de ir suplicar a José Mourinho (e ao Real Madrid) que venha treinar a selecção nos dois próximos jogos. Nunca visto!
No Benfica as coisas estão a correr como a partir de certa altura (o tema tem aqui sido abordado desde a 36ª edição) era previsível que corressem.
É visível que não há só falsos pontas de lança. Também há falsos resultados, falseados por arbitragens que, muitas vezes, custam a perceber como meramente infelizes. Objectivamente o Benfica vem sendo duplamente prejudicado: penalizado por decisões erradas nos seus próprios jogos e por decisões erradas que têm beneficiado os seus adversários directos. E os órgãos sociais do Benfica reagiram. Com razão. Mas mal, a meu ver! Mal porque dispararam em todas as direcções, e muito mal quando apelam à desmobilização da sua massa associativa – a sua maior força. Uma força capaz de levar a equipa ao colo – joga praticamente em casa em 27 ou 28 dos 30 jogos do campeonato – como ainda há pouco se via. Apelar aos adeptos para não comparecerem nos campos dos adversários é deitar fora uma das principais vantagens comparativas. Mas é também um espinho na relação de boa vizinhança com a grande maioria dos concorrentes: os pequenos clubes que vêm na visita do Benfica o seu euromilhões!
Não é assim que se mobilizam as tropas!
Ah! E Olegário Benquerença?
Bom, não está em causa a sua seriedade, para mim absolutamente intocável. Mas começa a ser demasiado evidente que não é feliz nos jogos com o Benfica. E como faz infelizes todos os benfiquistas (menos um, que eu conheço e ele também)!
Tudo começou aqui há uns anos, na Luz, com aquele remate do Petit que o Vítor Baía defendeu para além de uma linha que, mais que uma linha de golo, é uma linha que separa benfiquistas e anti benfiquistas. A partir daí é uma história de jogos complicados que, à luz dos dois últimos – o do Dragão do final da época passada e agora este de Guimarães – o melhor mesmo é pôr-lhe ponto final. E que a recente homenagem da A. F. Porto (já quase ninguém se lembrava da sua histórica e tumultuosa relação com a arbitragem) em nada ajudou. É que não é a mesma coisa da homenagem da A.F. Leiria, em que com muito gosto (a convite do tal benfiquista único que acima referi) participei, na véspera da partida para a África do Sul!
E domingo há derbi. Que parece estar já a aquecer, depois de uma longa semana europeia em que apenas o Braga deu passo em falso!
Fechada a janela dos quartos de final é tempo das últimas despedidas antes do fim de festa. Estas são as despedias em lágrimas: iniciaram-se com o fim da fase de grupos, quando, surpreendentemente, se despediu gente grande como a Itália e a França, esta com uma despedida à francesa – envergonhada, não se sabe se por ter aparecido sem ter sido convidada (ou mal convidada), se pelas tristes figuras que fez; continuaram nos oitavos de final, primeira ronda eliminatória, quando se despediriam alguns convidados VIP, como a Inglaterra e Portugal (até aqui a velha aliança continua viva) e terminaram nos quartos (de final, bem entendido) com a despedida de dois convidados de honra – Brasil e Argentina.
Para o fim de festa ficaram Alemanha, Espanha, Holanda e Uruguai – esta sempre bem protegida pela sorte do sorteio e por outras sortes – que irão disputar os sete jogos correspondentes a todas as rondas da festa. E 10 árbitros!
É aqui que surge o último adeus português: Olegário Benquerença! Fez três jogos – um recorde nacional, nunca um árbitro português tinha arbitrado tantos jogos num campeonato do mundo – e aguentou-se por lá bem mais tempo que a selecção nacional. Chegara primeiro e já entrara em jogo também primeiro, como aqui dera nota. Mas não esteve lá apenas mais tempo: esteve mais tempo e bem melhor que os nossos rapazes, a ponto de não merecer ter regressado a casa antes do cair do pano.
Para esta despedida só há uma explicação, que encontro precisamente na história da histórica participação de Olegário Benquerença: é que acabaram-se os jogos com equipas africanas!
É isso! O nosso conterrâneo estava, no primeiro mundial africano, destinado a arbitrar apenas equipas africanas, de quem muito se esperava. Mas acabaram-se nos quartos de final, e pronto. Já lá não estava a fazer nada…
Num campeonato do mundo marcado por más prestações da arbitragem, com erros para todos os gostos, e alguns do mais grosseiro que se pode ver (e nem de todos a FIFA pediu desculpas!), ao ponto de, finalmente, os órgãos máximos do futebol passarem a considerar a hipótese de recurso à tecnologia, as três prestações de Olegário Benquerença foram merecedoras de nota bem alta. Nos dois primeiros jogos, Japão – Camarões (1-0) e Nigéria – Coreia do Sul (2-2), daqueles que se dizem fáceis de arbitrar, teve o imenso mérito de não complicar. O terceiro e último – o mais dramático dos jogos do campeonato – foi diferente, um jogo que teve de tudo: perto de 50 faltas, prolongamento, um penalti na última jogada, esgotado o 120º minuto, e desempate por penaltis. Um jogo de elevado grau de dificuldade, intenso e sem erros, com apenas duas circunstâncias de dúvida – uma em cada área. Ambas de difícil avaliação em que se decidiu (eventualmente) pelo mais fácil: nada assinalar!
Perante um desempenho destes não há dúvida que o Olegário apenas não ficou para arbitrar (pelo menos) um dos jogos das meias-finais porque não está lá nenhuma selecção africana. Mas podiam ter avisado que era isso que estava no chip!
Esperei pela primeira intervenção portuguesa no Mundial da África do Sul para trazer aqui ao Quinta Emenda uma primeira espreitadela sobre o acontecimento que está a dominar a atenção mundial e, se não a fazer esquecer a crise, a passá-la para segundo plano.
Ao contrário do que alguns possam estar a pensar Portugal estreou-se hoje. Quando amanhã a selecção nacional se estrear em Port Elizabeth – um porto inventado logo ao virar da esquina do Cabo das Tormentas, já da Boa Esperança, por Bartolomeu Dias, o Navegador, não um daqueles navegadores que amanhã carregarão com o peso de toda uma nação que continua, como sempre, à espera que sejam onze rapazes a correr atrás de uma bola a expiar-lhe os pecados e a alimentar-lhe a ilusão – já o fará depois de outra equipa portuguesa: a equipa de arbitragem de Olegário Benquerença.
A prova já vai no seu quarto dia, o que já dá para algumas notas.
A primeira para provar como o destino é muitas das vezes cruel. Um acidente roubaria a vida à bisneta de Nelson Mandela, roubando-lhe, assim e também, a oportunidade de, apesar do seu estado de saúde, presidir à inauguração oficial do Campeonato do Mundo de Futebol, a prova máxima do futebol mundial que ele, de forma decisiva, ajudara a trazer pela primeira vez para a sua África e para a sua África do Sul. E roubando ao futebol a oportunidade de ser abençoado por um dos maiores vultos da humanidade do século XX!
A segunda nota vai, como não podia deixar de ser, para as vuvuzelas. Essa praga que se assemelha a um enorme enxame em incansável, laboriosa e frenética actividade. Um ruído insuportável que a tudo se sobrepõe, alterando por completo o habitat dos estádios de futebol: não há mais cânticos, palmas ou bruás! Todos os dias se diz que a FIFA irá proibir a sua utilização mas a verdade é que, dia após dia, ali está aquele ruído monocórdico, entediante … e que faz sono!
Como os jogos, e entraria na terceira nota, não têm sido nada de por aí além, também eles suficientemente entediantes – o que leva a questionar a forma como se disputam as fases iniciais deste tipo de provas (a “poule” torna os jogos demasiado fechados, onde o medo de perder se sobrepõe à vontade de ganhar, dando em espectáculos de qualidade nada condizente com a grandeza da competição) – aquilo dá mesmo sono.
O que é mau porque, adormecendo-se, perdem-se o que têm sido as excelentes realizações televisivas – a quarta nota. As transmissões televisivas têm sido realmente de grande qualidade e, essas sim, de grande espectáculo, mesmo quando o espectáculo não ajuda…
A quinta e última nota vai para as selecções africanas. O factor continentalidade não tem funcionado e os seus resultados não têm sido famosos, quando apenas falta entrar uma em acção: precisamente a Costa do Marfim, que amanhã defronta Portugal. Esperemos que se confirme a tendência e que se mantenha solteira a vitória do Gana, a quem já ouvi chamar a Itália africana.
Mas voltemos à estreia portuguesa (e leiriense) para assinalar o excelente desempenho da equipa de Olegário Benquerença no Camarões 0 – Japão 1. O jogo, talvez o que melhor ilustre todas as anteriores notas – espectáculo fraco e sub rendimento da equipa africana, recheada de estrelas – não foi complicado e Olegário teve o enorme mérito de não o complicar ele próprio. Belo desempenho a abrir boas perspectivas para o resto da prova: mais duas ou três nomeações, de preferência para jogos de grande impacto…
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