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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Os dramas também acabam em comédia

Após chumbo do Orçamento, Marcelo saiu de Belém para ir... ao multibanco

Acontece muitas vezes que comédias acabem em drama. O contrário é menos comum, mas também sucede. É por isso mais notável e, mais ainda, quando sucede imediatamente ao ponto mais alto do drama. 

Aconteceu desta vez. Com o anunciado chumbo do Orçamento, ontem na Assembleia da República, o drama atingiu a sua expressão mais alta, para logo acabar numa comédia, em que o último a rir é ... quem ri melhor. E o país vai para eleições, como António Costa pretendia. E Marcelo, não queria!

Querem melhor comédia? É difícil!

Porque não queria eleições nesta altura, o Presidente ameaçou com elas, convencido que, com medo, a esquerda encontraria o consenso para aprovar este orçamento, e passar mais um ano. Precioso, para o tempo que a direita neste momento precisa. Porque queria eleições nesta altura - não teria outra melhor, como facilmente se compreenderá - António Costa fingia (e como ele sabe fingir!) que tudo fazia para que o Orçamento fosse aprovado para, ao mesmo tempo, fazer tudo para que o não fosse.

E no fim saiu a rir. Em campanha eleitoral e a anunciar uma nova geringonça, quando o corpo desta ainda estava quente. E percebe-se porquê. Já Marcelo saiu a correr para o Multibanco, e não se percebe porquê!

 

Ritual perigoso

Expresso | Estado de emergência: Marcelo preocupado com a “perceção” sobre  o congresso do PCP. Conheça as novas medidas em cima da mesa

Os orçamentos devem ser aprovados por si próprios. Pelo que valem, pelo que aportam ao país e aos portugueses. Não por medo de eleições. E se for por razões de estabilidade política, leia-se de manter o status quo, como pretende o Presidente Marcelo, então que apele ao centro do sistema político.

Marcelo, e o mainstream, entende que a estabilidade deve ser garantida à custa do medo de eleições. Ora, parece-me que isso é a negação do sistema democrático, e um apelo à máxima do faz de conta que há muitos anos impera na sociedade portuguesa, com os resultados que se conhecem.

Nesta narrativa os maus da fita são sempre os partidos mais à esquerda ou, na mesma narrativa, da extrema esquerda. Nunca o PS, nem António Costa. Que partiu para a geringonça por interesses próprios, a fazer de conta que abria um ciclo nunca experimentado de uma experiência governativa à esquerda.

Na primeira legislatura a experiência funcionou. Porque o país vinha de quatro anos de garrote, imposto pela troika e aplicado por um governo ideologicamente disposto a ir para além dela e, com a economia com condições para crescer, havia muito do perdido para repor. Era fácil encontrar consensos numa agenda com tanta coisa para recuperar.

Esgotada essa agenda, esgotada a legislatura e ganhas as novas eleições, António Costa e o PS decidiram não repetir a experiência. E recusaram qualquer esforço de entendimento à esquerda para assegurar a estabilidade governativa, ao mesmo tempo que descartavam qualquer hipótese à sua direita. Porque entenderam, não sem alguma arrogância, que lhes bastaria essa declaração e agitar o papão do regresso da direita ao poder.

E pensaram, PS e Costa, que bastaria proclamar que governavam à esquerda, e negociar à la carte a aprovação de cada orçamento. Se não fosse possível com uns e outros, ora com uns, ora com outros. E, assegurada a aprovação, ir mantendo numa gaveta bem fechada os compromissos antes assumidos. 

E foi assim que apenas num ano, e num único orçamento, chegamos aqui. Ao ponto em que hoje estamos.

E voltamos à narrativa do main stream: os partidos da esquerda são irresponsáveis, só querem despesa, estão-se nas tintas para o défice e para a dívida, e são os responsáveis pela crise política que aí vem. Como se ela aí não estivesse há muito!

Mas está. Está desde que António Costa aproveitou essa mesma esquerda para chegar ao poder, sem perceber que teria de encontrar consenços sérios, e para levar a sério, de governação. E não teria sido assim tão difícil, bastar-lhe-ia assumir os compromissos que queria e poderia cumprir. E depois cumpri-los!

Fez tudo ao contrário, e não poderia ter chegado a outro destino que não este. Em que as eleições, lá ao fundo da reta, são o precipício para que todos correm a louca velocidade. Nenhum lá quer precipitar-se mas, como nos filmes da especialidade, ninguém pode ser o primeiro a travar.

Nunca este ritual foi tão perigoso!

Bola para os vidros

Chumbo do Orçamento? ″O país não deve ter seis meses de paragem por causa  de eleições″

 

O ritual de dramatização está aí, como se esperava. Ou não fosse um ritual. 

Mais cedo, mais coreografado, e com uma nova (velha) personagem em palco - o Presidente Marcelo, evidentemente. E como ele gosta de palco, como gosta de grandes planos, como gosta de ser o primeiro ...

Podia ter esperado mais uns dias, ou umas semanas. A procissão ainda vai no adro e muitas são ainda as cenas por gravar. Tinha tempo para esperar calmamente pela sua vez, e se ela não chegasse não se perdia nada. Mas não, assim que a apanhou uma bola perdida, ali a saltar à frente, chutou-a com força.

Deslumbrado com a execução do pontapé, ali ficou em auto-contemplação, desligado de tudo. A bola, essa, seguia a toda a velocidade direitinha às janelas da vizinhança. Quando deu por si viu-se o ar de miúdo traquina a vibrar com os vidros a estilhaçados ali à volta...

 

Rituais

OE2022: segurança interna cresce 8% com orçamento de 2.311 milhões de euros  | TVI24

Ontem lá se cumpriu mais um ritual do Orçamento. A meia hora de acabar o último dia para a sua apresentação ao Parlamento, meia dúzia de carros sairam do Terreiro do Paço para S.Bento, para entregarem qualquer coisa ao Presidente da Assembleia da República, na presença de dezenas de jornalistas, fotógrafos e operadores de câmara. 

Captadas as imagens, sempre centradas naquela qualquer coisa, o ministro das finanças falou qualquer coisa, e respondeu qualquer coisa ao que os jornalistas lhe perguntaram. Para hoje de manhã ficava o resto.

Se se percebe por que a entrega do orçamento tenha sempre de ficar, não para a última da hora, mas para o último minuto - é essa a nossa maneira de funcionar, não há volta a dar-lhe - já não se percebe por que, podendo seguir por via electrónica, num simples e-mail, qualquer coisa tem de ser entregue em mão, à meia-noite, numa caravana de 5 ou 6 carros e numa festa com largas dezenas de pessoas. Até porque, certamente,  o orçamento seguiu por mesmo por e-mail, e que naquela festa está apenas aquela qualquer coisa em figura de envelope. 

É na realidade apenas mais um ritual num orçamento cheio de ritualidade. Começa com um autêntico ritual de acasalamento, com o macho a procurar seduzir fêmeas insinuantes a fazerem-se de difíceis, passa por este ritual de pompa e acaba num outro de suspense que se prolonga até ao Natal. Ou acabava, dantes. Porque agora só acaba no ano seguinte, no ritual da cativação introduzido por Mário Centeno, de que João Leão não abre mão, para enterrar juras, promessas e deslumbramentos da quente e excitante época de acasalamento. 

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