Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Como seria bom crer

Conceito de Crer, definição e o que é

É nestas alturas, quando ela nos cheira de perto, quando se nos morrem, que sentimos a necessidade de acreditar que a morte não é um fim. Nesta altura, como em nenhuma outra antes, sinto-me penalizado por não ser crente. Gostava de poder acreditar que nada acabou, apenas aconteceu uma mudança de estadio, um upgrade da vida para a eternidade.

Que a minha mãe lá estava, a recebê-lo num abraço de doze anos de saudade, e a enchê-lo de beijinhos. Os beijinhos que incessantemente pedia nos últimos dias, e que nós lhe não podíamos dar, estava agora a recebê-los de quem mais importava que lhos desse.

Como seria bom crer nisso. Como seria reconfortante...

Há doze anos, quando a minha mãe partiu, não senti isto. Tinham sido longos meses de sofrimento atroz. Para ela, mas também para nós, a seu lado. Na altura aquele fim era o fim definitivo daquele sofrimento, que ela tanto pedia.

"Que Deus me leve, filho, eu não suporto mais". Também o meu pai o pedia frequentemente nos últimos tempos. Que já tinha vivido o suficiente, e que queria partir. Mas eu sempre senti que esse não seria esse o seu sentimento, que era apenas o seu modo de ser. Poderia estar errado, mas sempre senti que, pelo contrário, ele queria viver e temia a morte em vez de a desejar. E brincava com ele com isso. Às vezes ria-se...

Tinha boas condições de saúde, apesar dos seus 90 anos. Apesar de agarrado a uma cadeira de rodas há já uns bons pares de anos, e das dores na coluna e na anca. As sucessivas vagas da pandemia iam-lhe passando ao lado. Até chegar a altura de ser vacinado.  Ia ser vacinado na semana em que acusou positivo!

Um reles burocrata que se diz médico

Ontem, ao fim da tarde, recebi uma chamada do médico de família do meu pai.

- Como está o Sr Albino? - perguntou.

- Não está bem, está infectado com Covid - respondi. 

- Pois eu sei. Por isso é que lhe estou a perguntar como está.

- Vi-o ontem pela janela da enfermaria, estava com oxigénio, mas pareceu-me estável e relativamente tranquilo. Falou comigo e com a minha irmã, nós falamos com ele, ouviu-nos perfeitamente e no fim despedimo-nos.

- Quando é que fez o teste?

- Fez ontem duas semanas!

- 15 dias, então - concluiu. Está curado, 90% das pessoas estão curadas depois desse tempo.

Achei isto estranho. Um indivíduo que não é tido por dever muito à simpatia, e que não é exactamente reconhecido por grande ligação aos doentes, estava a ligar-me para saber do estado de saúde do meu pai. Mas quis pensar que as pessoas nem sempre são o que delas se diz, e que o facto de sermos conhecidos poderia ter pesado na deferência. Que lhe agradeci, surpreendido, mas sem lhe dar grande crédito.

Esta manhã, pelas 9 horas, recebi uma chamada da Unidade de Saúde Pública do Oeste (não sei se a designação é mesmo esta, se não for é qualquer coisa do género):

- É familiar do Sr Albino Louro?

- Sim, sou filho!

- É para lhe dizer que o seu pai está curado!

Era a notícia que eu mais queria ouvir. Feliz, desliguei o telefone e liguei à minha irmã e às minhas filhas para lhes dar a boa nova, enquanto o meu pensamento voava para a chamada do final do dia de ontem. Afinal a opinião a que não tinha dado grande crédito estava certa, o tipo sabia o que estava a dizer.

Ao final da manhã recebi uma nova chamada, agora da Unidade de Saúde Pública de Alcobaça, a perguntarem pelo meu pai. Respondi: o meu pai está curado!

- Pois, é isso que temos aqui nos sistema, mas isso sobrepõe-se à informação que temos que está positivo - respondeu-me a senhora com a maior simpatia, e com evidente preocupação.

Trocamos mais algumas palavras, percebemos ambos que o registo "curado" não tinha qualquer sustentação. E a senhora enfermeira prometeu-me que iria investigar e que, tão rapidamente quanto lhe fosse possível, me daria conta do que teria passado. 

Entretanto vinham-me chegando notícias do meu pai. Que estava mal, muito mal. Que poderia ser uma questão de horas, dificilmente de dias. Ao fim da tarde a senhora enfermeira, como prometido, ligou-me: 

- O registo foi feito pelo médico de família do seu pai!

Disse-lhe que o meu pai estava a morrer. Deu-me os sentimentos, e pediu desculpa por tamanha monstruosidade. De que não tinha culpa nenhuma.

Desliguei o telefone, que voltou a tocar de imediato -  o meu pai tinha acabado de falecer!

À dor e à angústia de perder o meu pai, juntou-se uma revolta como nunca tinha sentido. Quando médicos sofrem e lutam até à exaustão, para salvar vidas ou simplesmente para ajudar na morte, há um deles, indigno de ser um deles, que veste uma bata branca e coloca um estetoscópio ao pescoço para se limitar a ser um burocrata que coloca carimbos num papel qualquer, ou faz registos numa qualquer plataforma.

Sem o mínimo de humanidade, sem ponta de pudor, sem sombra de respeito pelo outro, e com irresponsabilidade máxima. Afinal este energúmeno que se diz médico não teve comigo qualquer acto de deferência. Limitou-se a usar-me para facilmente encontrar uma pista para a informação que ele devia profissionalmente procurar para fazer um palpite e cumprir assim a sua tarefa de reles burocrata.

Há gente que não se sabe como foi aproveitada para gente. Já nem digo para médico. Isso é com a Ordem dos Médicos. Ou com todos nós...

Assim, esta dor dói ainda mais.

 

 

Acompanhe-nos

Pesquisar

 

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2026
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2025
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2024
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2023
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2022
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2021
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2020
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2019
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2018
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2017
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2016
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2015
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2014
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2013
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2012
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2011
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2010
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D

Mais sobre mim

foto do autor

Google Analytics