O mundo despediu-se hoje, em Roma, do Papa Francisco. E esteve lá em peso.
Até quem pouco lá teria que fazer, lá esteve ... a fazer alguma coisa. Trump a falar - ou a fazer que falava? - com Zelensky. E Milei a ridícula figura de corpo presente.
Logo às primeiras horas da notícia da morte do Papa Francisco, para o evocar, Carlos Moedas falou de si próprio e fez de si próprio o centro da conversa.
À noite, à entrada da Sé Catedral, para a missa celebrada pelo Cardeal Patriarca de Lisboa em memória do Papa, repleta de televisões, enquanto as altas individualidades que iam surgindo se desviavam das câmaras e dos microfones, porque o momento não era para palavreado, como por exemplo referiu o ministro Paulo Rangel, lá surgiu também Carlos Moedas.
Estendido o microfone lá disse que estava à espera do Senhor Presidente da República, para entrar com ele. Incapaz de lhe resistir, imediatamente soltou a picareta falante que lá tem dentro, e que não mais conseguiu calar. Falou de si, e de si, e de si ... Tanto que Marcelo chegou, atravessou o largo, subiu as escadas, passou-lhe mesmo ao lado e entrou. Quando acabou, quando já não tinha mais que dizer de si, lembrou-se que estava à espera do Senhor Presidente da República.
E lá ficou à espera ... a fazer a triste figura dos pequeninos a quererem ser grandes ...
Muito pequenino, mas gente extraordinária, este Carlos Moedas.
Morreu o Papa que foi mais que o chefe máximo da Igreja Católica Apostólica Romana. Fancisco extravasou as fronteiras do mundo católico para se tornar num líder mundial, numa referência de humanismo, e verdadeiramente na voz dos mais humildes e desprotegidos.
Os que por aqui me acompanham mais de perto conhecem a "série" "gostava de ter escrito isto". Nos últimos tempos não tem sido muito frequente, provavelmente porque infelizmente não tenho lido assim tanta coisa que "gostasse de ter escrito".
"Gostava de ter escrito isto", mas nunca o conseguiria escrever com a subtileza, o humor e o talento do Manuel Cardoso. Mas a verdade é que gostava também de escrever qualquer coisa sobre isto.
Sabemos todos que esta JMJ de Lisboa 2023 começou por dividir a sociedade portuguesa. É certo que uma certa divisão seria praticamente inevitável logo à partida. Pelo que a Igreja Católica divide, mas mais ainda pelo dividiu com os crimes dos abusos sexuais na ordem do dia. O envolvimento "político", os dinheiros públicos, o secretismo e a falta de transparência, o improviso, as obras de última hora fizeram o resto, polarizando a polémica que culminou na célebre questão do altar.
Tudo isto arrastou o poder político para um processo justificativo profano, sobrando-lhe em contradição o que lhe faltava em dignidade. Tudo justificavam com razões economicistas sustentadas em estudos e certezas que eram, esses sim, questões de fé. À revelia da fé!
Para Moedas era fazer de Lisboa o “centro do mundo”. Para António Costa era a “projecção internacional do país”, essa obsessão nacional. O retorno económico em turismo seria uma coisa nunca vista. Era um investimento de futuro. E a requalificação daquela zona de Lisboa teria um impacto só comparável com a Expo-98.
Não faziam a coisa por menos. E, se já havia motivos de divisão, somavam-lhe mais outro. Agora dividiam os portugueses entre os que lhes validavam as pantominices e os que sabiam que não passavam disso. E dividiam mesmo muitos que a JMJ não tinha antes dividido.
O que podemos dizer hoje, no fim de tudo e de uma semana memorável para o país, é que, como dizia o Diácono Remédios, não havia nexexidade!
A Jornada tinha méritos suficientes para convencer os portugueses. E como podem eles ter uma visão para a cidade, e para o país, se nem sequer tiveram visão para o perceber?
O país encheu-se de rapazes e raparigas. Alegres, educados, e felizes que deixaram um rasto de festa, alegria e simpatia por onde passaram. Ficaram, como se sabia, em escolas, em famílias de acolhimento, ou quartos baratos. Não em hotéis. Não encheram restaurantes, consumiram fast-food.
Então porquê, e para quê, vender pantominices quando era tão simples - e genuíno, verdadeiro e apropriado - vender o banho de festa e de alegria que eles traziam nas mochilas?
O país correu a receber um Papa que é um exemplo de humildade, simplicidade e saber. Um Papa mensageiro de inclusão, de justiça, de inconformismo e de amor à vida:
- "Não sejam administradores de medos, mas empreendedores de sonhos."
- “Sujem as mãos no combate à pobreza dos outros, da qual não devemos ter nojo”.
Um Papa que não é preciso ser-se católico, nem sequer crente, para admirar. Um Papa de todos, mas que, nas suas próprias palavras, é "pedra no sapato" de alguns.
Foi este Papa, estas largas centenas de milhares de jovens dos quatro cantos do mundo, e uma multidão enorme de pessoas de boa vontade - entre as quais a Albina, a mais entusiástica e entusiasmante das que conheci, a quem o destino, numa crueldade sem limites, se encarregou de lhe alterar a viagem de ontem, trocando-lhe o Parque Tejo pela sua última morada - que transformaram esta JMJ num acontecimento não absolutamente - nada nunca o é - mas largamente consensual.
Agora acabou. Quem cá veio desfrutou, viveu e vai embora. O país voltará a olhar-se a si próprio, a encontrar-se com os mesmos problemas, bem longe da propaganda de António Costa. A cidade acordará como antes, e não como a que Carlos Moedas quis vender. Até esta Igreja, que aqui se tentou mostrar pátria da fé católica, seguirá igual. Como se percebeu ainda na presença do próprio Papa.
À espera que o ar fresco que sopra do Papa Francisco, e o brilho que dele brilha, se vão com ele, quando ele se for... E a pedra lhes sair do sapato!
Com o Papa Francisco por cá, e com Jornada Mundial da Juventude "on fire", houve quem se lembrasse de mandar afixar cartazes a lembrar que “mais de 4800 crianças foram abusadas pela Igreja Católica em Portugal" em três outdoors localizados na Alameda, em Lisboa, em Loures e em Algés.
Não terá sido uma ideia absolutamente original, ou genial. Nem seria para avivar a memória do Papa. Toda a gente sabia que o Papa não estava esquecido disso. E ninguém de boa fé - qualificação que não precisa de fé, mas apenas de equilíbrio e bom senso - acreditará que o Papa se incomode mais com os cartazes do que com os actos e comportamentos que eles denunciam. Não foi pelos cartazes, que ainda não existiam, que o Papa trazia, como não poderia deixar de ser, o tema na sua agenda.
Já o tinha abordado sem rodeios, e "sem dó nem piedade". E o seu encontro pessoal com treze das vítimas desses abusos, ontem ao fim da tarde, há muito que estava agendado, mesmo que não constasse da agenda tornada pública.
Ainda assim a autarquia de Oeiras lembrou-se de censurar o que estava instalado no seu território (Algés), cobrindo-o de preto. Como se, quando o Papa é Francisco, fizesse sentido "ser mais papista que o Papa".
E como não faz, percebemos que os cartazes, afinal, não pretendiam avivar a memória do Papa, mas apenas a dos muitos "mais papistas que o Papa".
Não era propriamente novidade que o Papa Francisco não ignorava a homossexualidade, nem dela se escondia atrás de qualquer dogma. E era até conhecido que, enquanto servia como arcebispo de Buenos Aires, defendeu a união civil para casais homossexuais, mesmo que fugindo sempre a expressões como “casamento” e “família”.
No entanto, na qualidade de Papa, nunca se tinha manifestado tão assertivamente sobre o assunto como o fez agora, num documentário cinematográfico (Francesco) acabado de estrear no Festival de Cinema de Roma, chocando o mundo conservador, e em particular o conservadorismo da Igreja, ao defender uma lei civil que enquadre as uniões entre pessoas do mesmo sexo.
Não é o casamento como sacramento da Igreja, mas o casamento enquanto quadro legal de relacionamento familiar, e o casal de pessoas do mesmo sexo como embrião de uma família. Mesmo que que nunca pronuncie a palavra “casamento”, enfatiza o termo “família: "Os homossexuais têm direito a ter uma família, são filhos de Deus [...]. Ninguém pode ser expulso de uma família, e a vida dessas pessoas não pode se tornar impossível por esse motivo", diz.
É mais uma oportunidade para que a Igreja Católica, pela mão deste Papa, dê mais um passo de aproximação às pessoas e à sua realidade, e se afaste de um mundo de trevas, cada vez mais remetido às profundezas da ignorância e até da barbárie.
Oficialmente a Igreja Católica continua a advogar que a homossexualidade é uma “desordem intrínseca”, e os actos homossexuais pecaminosos. Mas, agora, já sem legitimidade.
O Papa Francisco voltou a revelar o seu humanismo. Confirmou que o Papa não é infalível, e que erra como qualquer um de nós. E que não tem paciência infinita. E reconheceu isto tudo...
Marcelo quebrou o tabu, e anunciou no Panamá a sua recandidatura, a mais de um ano de distância do que, pela sua própria boca, se esperava. A razão de o ter feito agora não se conhece, poderá até - sabe-se lá - ter a ver com os mecanismos da lógica ... da batata. Ficou a conhecer-se o mais importante - a razão da decisão. E essa não podia ser mais forte: quer receber o Papa Francisco em Lisboa, em 2022!
Todos temos a nossa estrela, cada um à sua dimensão. Todas empalidecem, mesmo as (dos) maiores, mais cedo ou mais tarde, mesmo que todos achem cedo de mais. Vão perdendo brilho, o brilho que nos emprestam, mas que julgamos nosso, e deixam-nos desamparados num caminho antes largo e aberto, despido de obstáculos, e agora turvo e de destino incerto.
Quanto mais alto se sobe, maior é o trambolhão. Quanto maior e mais brilhante for a estrela, quanto mais alto nos tiver levado, mais perdidos ficamos à sua partida.
Poderia estar a pensar em Mourinho. Mas estou mesmo a pensar no Papa Francisco.
A estrela de Jorge Bergoglio começou a empalidecer, porventura quando menos se esperaria, ao contrário da de Mourinho. Também ao contrário do que se poderia esperar, são a pedofilia e os escândalos sexuais na Igreja que lançam o primeiro e decisivo ataque à estrelinha papal.
Parecia um tema fácil de abordar. Pensar-se-ia até que seria matéria de reforço da sua imagem e das suas posições. Parece que não é, parece que se trata de terreno altamente escorregadio, onde Francisco revela dificuldade em manter o equilíbrio.
Em dois dias, tantos quanto durou a sua visita à Irlanda, no fim de semana, tudo isso veio ao de cima. Quando o Papa pediu perdão pelos inqualificáveis e vergonhosos abusos sexuais dos membros da sua Igreja neste país, levantou um pedregulho que escondia muito mais do que se esperava.
É que, ao contrário do que esperaria, e perante as monstruosidades conhecidas, ao Papa não basta pedir perdão. Isso não faz a diferença, nem faz diferença nenhuma. Fica curto, tão mais curto quanto, ao mesmo tempo, era acusado (pelo arcebispo Carlo Maria Viganò, antigo núncio apostólico nos Estados Unidos) por encobrir graves suspeitas que lhe teriam sido denunciadas e agora já confirmadas por conhecidas acusações públicas.
Já no avião de regresso, aquele conselho para que os pais levem os filhos ao psiquiatra logo que lhes percebam tendências homosexuais, apenas confirma a dificuldade de Francisco em manter o equilíbrio!
Enquanto por cá se fecham umas fronteiras, lá longe, no lado de lá da Europa, abrem-se outras... De música. Ou... ganha-se de Eurovisão o que se perde de Schengen. Querem ver que o Salvador ainda ganha ao Papa?
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