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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #55 RECEPÇÃO ORIENTADA

Por Eduardo Louro

 

Diz-se que a essência da técnica no futebol se encontra no passe e na recepção. Quer dizer, aquelas fintas mirabolantes e aqueles toques malabaristas, que tantas vezes tanto impressionam, são meros acessórios. Secundários, como tudo o que é acessório! O que verdadeiramente conta, o que faz realmente a diferença, é a precisão no passe. O passe para o sítio certo: nem mais, nem menos. Mas também o passe de rotura ou, como agora se gosta de dizer, fracturante: que rompa com a estrutura do adversário, que surpreenda e que desequilibre.

O passe longo, a romper e a desequilibrar, só rompe e só desequilibra se for bem feito. Se houver precisão! Porque, se não houver, é apenas uma maneira simples de perder a bola, pouco se distinguindo de um qualquer charuto. Que, em futebolês, nada tem a ver com o puro, o habano, que faz as minhas delícias, mas apenas com uma das maiores agressões de que a bola é vítima quando, em aflição, o jogador apenas a quer despachar, livrar-se dela sem qualquer sentido e para bem longe!

Depois do passe vem a recepção. Compreende-se bem: de nada vale um passe brilhante se, depois, quando a bola atinge o destinatário, este não lhe der a devida sequência. E a sequência imediata é, evidentemente, a recepção. É preciso saber receber bem a bola, e bem sabemos que receber bem é uma arte!

Mas para jogar futebol não basta a técnica. Não basta ser tecnicamente dotado para ser competente. É necessária, como em tudo, inteligência.

É verdade! Quem diria? O jogador de futebol tem que ser inteligente… Há inteligência de passe, evidentemente! Há inteligência na deslocação, no movimento para ir receber o passe. Na desmarcação, como se diz em futebolês! E há inteligência na recepção, que mais não é que definir a melhor sequência a dar à bola: um novo passe, um drible ou um remate.

É isto a recepção orientada: receber a bola sabendo já o que vai fazer com ela e, dessa forma, orientar todo o movimento para o passo seguinte.

É aqui que encontro um dos maiores encantos do jogo. Porque, sendo o futebol um jogo de dinâmica colectiva, saber antecipadamente o que fazer da bola implica saber o que vai fazer o colega que em cada momento a tem em seu poder. E o que vai fazer o outro, o próximo.

É pensamento estratégico no seu melhor. Que requer muita competência, a melhor combinação de trabalho e inteligência.

Perdoem-me a insistência, mas é isto que encontramos no actual Barcelona: não só a mais fantástica máquina de produzir um futebol fantástico, mas também uma das mais fabulosas marcas da actualidade, gerida com grande competência.

Estive lá no passado fim-de-semana, precisamente quando ficamos a saber que os exóticos organizadores do Mundial de 2022 irão pagar 170 milhões de euros para ocupar aquele espaço das camisolas que um dia, numa das mais inteligentes decisões estratégicas, foi entregue gratuitamente à Unicef. E assisti a um espectáculo bem diferente daqueles a que estou habituado a ver por cá. E não me refiro – claro – ao espectáculo de futebol propriamente dito: esse não é passível de qualquer tipo de comparação. Refiro-me a um estádio cheio que nem um ovo. Sem claques! Com muitas mulheres e crianças: um espelho de uma nova realidade de famílias mono parentais. Com muitas mães a vibrar com os seus filhos com os espectáculos de Camp Nou. Refiro-me a um ambiente único onde mais de cem mil se limitam a aplaudir os artistas: como na ópera. Ou no ténis! Não há gritos, nem berros, nem protestos. Apenas palmas que passam para o relvado a premiar cada lance, entrecortadas de quando em vez por um espaçado e uníssono Baaaaarça!   

E, no fim, aquela multidão feliz e deleitada inunda toda uma comunidade disposta a partir para uma nova semana de trabalho com a confiança e o optimismo de quem vive nos píncaros da auto-estima. Que chuta para bem longe a depressão colectiva que as nuvens carregadas da crise teimam em arrastar!

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