Há coisas do diabo. No dia em que Cotrim, acertando em cheio no pé, disse - para, antes de dizer dizer que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ter dito que não disse - que poderia votar Ventura na segunda volta, porque nos últimos dias teve a percepção que ele se tinha moderado, nesse mesmo dia, com poucas horas de diferença, Ventura trazia "Deus, pátria e família" de volta à campanha. Porque, esclarecia, "não pode existir medo das palavras".
Nesse mesmíssimo dia, Montenegro, que fez da percepção a bússola da sua governação (o aumento da insegurança e da criminalidade bem podia ser desmentido pela realidade e pelos dados das polícias, que o que contava era a percepção da opinião pública, lembram-se?), na inauguração da sede da Direcção Executiva do SNS, agarrou na realidade caótica das urgências (esperas de dezenas de horas, ambulâncias paradas porque as macas ficam retidas nos corredores das urgências em vez de lhe serem devolvidas para se voltarem a fazer à estrada, etc.) e transformou-a numa percepção. Uma "percepção de caos" que "não é a realidade".
Quando a percepção é enviesada para o lado que dá jeito, a realidade é só cruel. É o diabo!
No mundo de percepções em que decidiu fingir governar, Montenegro deixou ontem, na festa do Pontal, que toda a gente percebesse que ele não percebe que o país está perceber que ele não percebe nada do que está a acontecer.
Bem sei que estamos em plena silly season, aquele período do ano em que, mesmo que tudo aconteça, não acontece nada.
Acontecem incêndios por todo o interior do norte e centro do país. Acontece que o país arde como sempre, mas mais que quase sempre. Mais de 6 mil incêndios já destruíram mais de 63 mil hectares de floresta. Acontecem situações dramáticas, casas a arder, aldeias isoladas pelas chamas, pessoas evacuadas e pessoas fechadas em igrejas, à espera que o fogo passe. Acontece porque nas televisões não acontece mais nada; se não, não acontecia.
Como não acontece, para o governo. Nem uma palavra. Nem do secretário de Estado, nem da ministra, nem do primeiro-ministro. No final da semana passada ouviu-se a ministra, para declarar o estado de alerta. Ontem, quando o silêncio era ensurdecedor, de repente, o primeiro-ministro surge nos ecrãs das televisões.
- Finalmente o chefe do governo vai falar ao país - pensou-se.
Não, o descaramento não está apenas em não haver secretário de Estado, nem ministra, nem primeiro-ministro para falar dos incêndios que assolam o país; mas haver dois ministros e o primeiro-ministro para entregar 26 casas. Nem na "ajuda às famílias para desenvolverem sonhos". Está, com as autárquicas à porta, em apresentá-las como exemplo de que o Município de Faro, em vez de "virar as costas aos problemas, procura implementar soluções".
Na verdade as 26 casas fazem parte de um programa de 49, lançado há mais de dois anos pelo anterior governo, e financiado pelo PRR, para realojar famílias de pescadores que aceitem a demolição das suas habitações na Praia de Faro. Que, na verdade, até agora, apenas 26 dessas famílias aceitaram.
Mas governar por percepções também é isto. Não é apenas procurar soluções manhosas para problemas que não existem. E, pelo que se vai percebendo, resulta!
É um jornal - o DN, na foto - a dar a notícia que a criminalidade caiu 1,3% mas que os jornais a apresentaram como se tivesse aumentado 130%.
Refere-se a um Relatório do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, que revela que uma análise às primeiras páginas dos jornais Diário de Notícias, Correio da Manhã, Público, Expresso e Sol, ao longo de 25 anos, entre 2000 e 2024, mostra que a menção a crimes nas primeiras páginas aumentou 130% quando, nesse período de tempo, o número de crimes desceu 1,3%.
Refere ainda o Relatório que a permanência destas notícias nos jornais também aumentou significativamente - até mais de quatro dias. Curioso é que o coordenador do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES, general Vieira Borges, tenha relacionado esse dado com interferência dos partidos políticos, ao referir que “há partidos que usam os crimes como instrumento político”, o que força os jornais a “voltar a dar a notícia”.
É assim que são criadas as "percepções". Depois ... Bom, depois é o que se conhece!
Estão confirmados mais dois candidatos às presidenciais. Marques Mendes, há uma dúzia de anos a tratar do assunto na televisão que vende presidentes, e correspondendo ao apelo seu partido, anunciou-se ontem no sítio do costume. E Mariana Leitão, escolhida e anunciada na Convenção da IL, que decorreu no fim-de-semana sem surpresas, e a vitoriar Rui Rocha.
Confirmados - pelos próprios - são agora três. André Ventura já se tinha feito anunciar candidato pelo seu partido, pouco importando agora se o partido é alguma coisa mais que ele próprio.
O PS anda à nora. Tinha, e tem ainda, candidatos a mais. Chegaram a ser pelo menos quatro, e desses apenas Mário Centeno se retirou pelo próprio pé. Artur Santos Silva foi arrastado no afastamento do costismo, e resta-lhe ir fazendo umas provas de vida, à sua peculiar maneira. Restam os Antónios, Seguro e Vitorino. No próximo fim-de-semana o partido irá anunciar a sua escolha.
O Bloco de Esquerda também já anunciou que apresentará um candidato próprio. Tal como o PCP, como sempre tem feito.
A vocação dos partidos realiza-se na plenitude nas eleições legislativas. É aí que neles se esgotam as candidaturas. Têm também o papel muito relevante nas autárquicas, mas aí já não gozam da exclusividade. Há outras formas de candidatura.
Nas candidaturas presidenciais a Constituição - e o regime - não lhes reconhece qualquer tipo de intervenção. Resultam exclusivamente da expressa vontade do candidato. Os partidos simplesmente não são para aqui chamados.
Quando - todos os estudos de opinião o indicam - é notório que entraram em perda de influência social, de capacidade de mediação entre o eleitorado e as instituições, e de credibilidade, é estranho que os partidos políticos não percebam que, ao imporem as suas próprias candidaturas presidenciais, saem a perder na sua missão e prejudicam os candidatos. E é mesmo perturbador que este enviesamento seja transversal a todos os partidos. Todos, da direita à esquerda. Dos fundadores do regime aos que chegaram depois. Dos que se revêm no regime aos que o afrontam.
Dizem os analistas do regime que as sondagens que sucessivamente vêm dando a vitória ao candidato que ainda nem assumiu a candidatura não passam de um exercício, e que não é sério levá-las a sério.
Pelo contrário - não é sério é não as levar a sério. É grave, e politicamente irresponsável, não concluir que esses resultados deixam a percepção que o regime não tem um candidato para apresentar com estatuto e credibilidade capaz de fazer frente ao almirante Gouveia e Melo.
Vivemos no mundo das percepções. Depois de instalada a percepção, não há volta a dar-lhe. Bem podem arguir que o homem ainda não teve que dizer nada. Que não se lhe conhece uma ideia. Ou que será trucidado nos debates televisivos. Instalada a percepção, a Gouveia e Melo bastará estar calado e quieto para ganhar. E até à primeira volta!
"O Conselho de Estado é o órgão político de consulta do Presidente da República, por ele presidido", e por ele exclusivamente convocado, a que "compete pronunciar-se sobre um conjunto de actos da responsabilidade do Presidente da República. Deve também aconselhá-lo, no exercício das suas funções, sempre que ele assim o solicite" - assim, tal e qual, no site da Presidência da República.
Na sequência de uma rixa entre famílias de etnia cigana, em Viseu, que resultou numa morte, André Ventura entendeu solicitar ao Presidente da República que convocasse esse órgão político para nele lhe solicitar o seu aconselhamento sobre o "estado de insegurança brutal" no país.
Para dar sequência à solicitação o Presidente da República entendeu remetê-laaos restantes Conselheiros de Estado, para transmitirem o que tivessem por conveniente.
Marcelo é Presidente da República vai para 10 anos, entrou já no último ano de mandato. É professor catedrático de Direito. Encarna a mais experimentada e sagaz personagem política da República.
Há duas hipóteses:
- Uma é que Marcelo passe por um tal estado de desorientação que tenha perdido por completo o conhecimento, a lucidez e o discernimento;
- Outra é que não se importe nada de fazer esta figura para - também ele - não ficar de fora da agenda que André Ventura domina, nem passar ao lado das percepções por ela impostas.
"O Chega, pode-se dizê-lo, está no Governo. E tem um primeiro-ministro: chama-se Luís Montenegro. É a minha percepção, pelo menos. Também tenho direito, não?"
João Pedro Henriques, jornalista. Hoje, no Expresso curto, donde aproveito também a foto.
Assinalou-se ontem, dia 18, o dia internacional das migrações. Em Portugal, quando não se fala de outra coisa, não se deu por isso.
Diz-se que a execução do PRR não avança por falta de mão de obra. Que a construção do novo aeroporto ficará em causa. Auscultam-se as empresas e a maior dificuldade que revelam - não, não é o IRC - é a falta de mão de obra. O equilíbrio financeiro da Segurança Social é mantido precisamente pela contribuição dos imigrantes.
E no entanto o país debate os perigos da imigração. Na saúde, na educação, na segurança ...
O Barómetro da imigração realizado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, dado a conhecer há dois dias, dá conta que os portugueses acham que há imigrantes a mais. Têm até a percepção que são já 40% da população. Na verdade, a totalidade de estrangeiros com autorização de residência em Portugal é de 1.164.606 pessoas (dados de 31-10-2024), pelo que os verdadeiros imigrantes não serão muito mais de 10%.
Por muito que as estatísticas e relatórios de segurança o desmintam em absoluto, os portugueses - dois terços, conforme aquele barómetro - acreditam que os imigrantes contribuem para um aumento da criminalidade.
O país que precisa de centenas de milhares de imigrantes, é o mesmo que acha que eles já são de mais. O país que é tido por um dos mais seguros do mundo, é o mesmo que tem percepção de insegurança.
É o novo fenómeno da percepção, introduzido pela extrema direita através do extraordinário instrumento de manipulação de sensações que são as redes sociais. Introduzida em vastos segmentos da sociedade, a percepção passa a comandar largos sectores de eleitorado. A partir daí é a democracia a funcionar em regime de auto-destruição.
Primeiro são os próprios partidos da extrema direita a capitalizar a percepção. E a entrar nos diversos eleitorados. Depois, lideranças políticas frágeis, e a mera visão instrumental do voto, desencadeiam a reacção à perda de eleitorado, e transformam a percepção em realidade política.
É a isto que estamos a assistir em Portugal. Em grande parte do mundo também não é muito diferente.
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