Na lógica "produtiva" do senhor do Pingo Doce os pobres são a matéria-prima que o sistema transforma em classe média. Nada mais nobre: uma indústria social que pega em pobres e faz deles gente bem na vida.
Desconfio bem que o Sr Soares dos Santos vai ficar mais famoso pelo seu pensamento que pela sua fortuna...
O primeiro programa “Quadratura do Círculo” da SIC, de 2015, contou com a presença habitual de Jorge Coelho, Pacheco Pereira e do convidado Eugénio Fonseca, presidente Cáritas Portuguesa, que trouxe ao programa a experiência e a visão sobre a problemática do combate à pobreza, à exclusão social, a que, presentemente, se associa a doença silenciosa do “medo”.
Sobre os desequilíbrios sociais acentuados pela austeridade, Eugénio Fonseca deu o seu testemunho da adversidade dos nossos parceiros europeus representados na Tróica, particularmente do representante do BCE, quando este afirmou da inevitabilidade dos maiores sacrifícios recaírem sobre a instável classe média a desaparecer, porque, disse: “os ricos não querem dar e os pobres não têm para dar”.
No final do programa, Jorge Coelho terminava a sua intervenção de forma magistral: “…desafio a sociedade civil para criar condições para lutar para que em Portugal haja uma sociedade decente e uma vida com a dignidade que o ser humano merece ter”. Ou seja, conversa fiada!
Não resisti a vir aqui comentar porque não devemos silenciar. Este é o tipo de político que tem para as circunstâncias o discurso versátil, mas que não se envolve. Tem o treino do pântano de Guterres e a escola da promiscuidade entre Estado e negócios privados. Seria mais sério evocar a sua posição estratégica no PS - partido do arco da governabilidade - para se comprometer a diligenciar políticas de combate à exclusão e à pobreza, em vez de evocar essa entidade difusa e imaterial que é a sociedade civil, quando se sabe que a sociedade só tem intervenção real na governação através dos partidos.
A sociedade civil tem de facto de acordar e pressionar a regeneração dos partidos. Mas sempre que aparece qualquer movimento nesse sentido, os partidos existentes sentem-se ameaçados, porque sabem que as estruturas partidárias constituem-se como plataformas de assalto à mesa do orçamento e, nesta mesa, não há lugar para todos.
Para Jorge Coelho, entre o “Ser” e o “Não Ser” segue uma terceira via – a da “aparência” – estratégia tipo Lili Caneças. É melhor manter as aparências louvando o papel da Caritas Portuguesa e propondo um desafio patético de que nada serve. A existência de organizações humanitárias que se dedicam ao combate dos males da sociedade dá mesmo jeito a este tipo de políticos, que no fundo dos seus pensamentos e para os seus botões, dirão antes o poema fracturante de Golgona Anghel:
“É urgente matar toda a gente que tem fome”!
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