O governo de Netanyahu enviou forças militares para, num acto de pirataria naval, interceptar embarcações em águas internacionais e raptar as respectivas tripulações, que levou para Israel.
Depois de as manter detidas por dois, e até mais dias, deportou-as por via aérea para os países de origem. Aconteceu assim com cerca de 500 activistas de diversos países, entre os quais quatro portugueses.
Não é conhecido o tratamento que os governos dos diversos países deram aos respectivos cidadãos, deportados por via aérea de um sítio para onde foram raptados. Sabe-se que o governo português, o governo da Pátria dos quatro portugueses, entendeu que não havia quaisquer contas a pedir ao governo de Israel, mas apenas aos seus cidadãos. Que a conta do avião que os trouxe de um sítio para onde não quiseram ir, para onde não foram de livre vontade mas, antes, levados à força, com armas apontadas à cabeça, era sua. E entendeu informá-los disso através do jornais e das televisões.
Entende-se. Entende-se que, para o governo, não tem - obviamente - qualquer importância o custo de quatro viagens de avião de Israel para Portugal. Entende-se que, para o governo de Montenegro, Rangel e Nuno Melo, realmente importante é que os portugueses saibam que são aqueles portugueses que têm de pagar aquela viagem.
E entende-se - temos que entender - que somos nós os culpados de as coisas estarem a ser entendidas assim. De termos chegado aqui, ao reino absoluto do populismo!
Ursula von der Leyen assinou ontem, com Trump, o humilhante acordo comercial EUA-UE, em total cedência e submisão aos caprichos do extravagante inquilino da Casa Branca.
Trump impôs tarifas de 15% sobre as importações da Europa, e de 0% para as exportações americanas para a UE. Impôs a Ursula von der Leyen que garantisse a compra, em largas centenas de milhões de euros, de material militar, em linha com a imposição dos 5% do PIB para os orçamentos de defesa, a compra de produtos energéticos no valor de 750 mil milhões de dólares, e o aumento do investimento europeu nos Estados Unidos em 600 mil milhões de dólares.
No fim, a presidente da Comissão Europeia veio dizer que "foi difícil, mas, no final, fomos bem-sucedidos". António Costa, presidente do Conselho Europeu, que "é um acordo que prioriza a cooperação, protege os interesses fundamentais da União Europeia, e oferece às empresas a certeza de que precisam". Friedrich Merz, chanceler da Alemanha, que "é um acordo que permite evitar uma escalada desnecessária nas relações comerciais transatlânticas". E Victor Órban, simplesmente que "Donald Trump comeu Von der Leyen ao pequeno almoço".
É também isto que faz a diferença que engorda o populismo. Um "establishment" envolvido em tretas, a mandar areia para os olhos, serve-se de "pequeno almoço" ao populismo.
Há uma vasta série de teorias para explicar o fulgurante sucesso eleitoral do Chega - melhor, de André Ventura. Em 6 anos, afinal e apenas o tempo de uma legislatura e metade de outra, surgiu e passou de 1% de expressão eleitoral, e um deputado, para 23%, 60 deputados, e líder da oposição.
Não consta de qualquer teoria mas, isso - quatro actos eleitorais no espaço onde ainda se deveria estar apenas a meio da legislatura do segundo - também faz parte da explicação.
A mais clássica das teorias geralmente apresentadas reporta para os vencidos da globalização. É clássica, comum a várias geografias, e não apenas portuguesa. Os operários das regiões industriais - que acabaram com o desaparecimento das fábricas, deslocalizadas para regiões do globo de mão de obra mais barata -, que antes votavam comunista e socialista, migraram o seu voto para a extrema direita.
Com isso se explicaria a votação do Chega no distrito de Setúbal, e na cintura industrial de Lisboa. Mas só explica uma parte!
A transição do voto comunista no Alentejo para o Chega tem o mesmo sentido, mas já carece de outra teoria. E aí surge a imigração, também ela no centro da propaganda política da extrema-direita.
Os imigrantes são culpabilizados pela insegurança - mesmo que as polícias digam o contrário -, pelo aumento dos preços, são acusados de invadirem o SNS, e de encherem as escolas com os seus filhos, subvertendo o quadro de valores nacionais.
E isso explicaria o domínio eleitoral a sul do Tejo, no Alentejo e no Algarve.
Depois há ainda a teoria dos deserdados do regime, aqueles que os governos terão sucessivamente deixado ficar para trás, a empobrecer. Dados ainda ontem dados a conhecer indicam que três em cada cinco portugueses dizem que não ter dinheiro para as necessidades básicas, e que Portugal é o país europeu onde mais cidadãos dizem ter dificuldades financeiras. Toda esta gente pobre canalizaria o seu o voto para a extrema direita como forma de protesto.
Provavelmente a explicação não estará tanto nestas realidades sociais, para as quais, em boa verdade, a extrema-direita nunca apresenta soluções realistas, mas na exploração dessas realidades em ambiente de seita, num registo de desinformação, e de manipulação emocional, de potenciação de ódio. Até encontrar bodes expiatórios fácil e rapidamente assimilados através dos mecanismos das redes sociais, treinados e testados por todo o mundo. O resto é deixado para as televisões.
Na América, Trump teve para isso uma televisão - a Fox. Em Portugal, o mestre André, teve-as todas. Servilmente prontas para transmitir em directo todas as suas encenações messiânicas.
Depois de declarar guerra comercial, com o anúncio da imposição de pesadas taxas aduaneiras, ao Canadá, México e China, e de ameaças disso à União Europeia, Trump recuou.
As taxas sobre as importações do México e do Canadá, anunciadas no fim-de-semana para hoje entrarem em vigor, foram suspensas por 30 dias. As notícias dizem que a decisão de Trump resulta de ambos os países terem concordado em tomar medidas para reforçar a segurança das suas fronteiras e combater o tráfico de droga.
Sabemos que Trump funciona assim. Disruptivo. Que toma decisões impensadas. E insensatas. Que negoceia na base da ameaça. Que avança e recua, sem nunca poder deixar a ideia que recuou. Ou que perdeu. Ele nunca perde!
Por isso as notícias têm que ser assim: uma suspensão por 30 dias, contra o compromisso dos seus vizinhos em reforçar as fronteiras. Assim, Trump não perde. Assim, a decisão não foi impensada e absurda: foi apenas um passo para obter um ganho. Não lançou o caos económico, reforçou a segurança, o bem maior.
O trumpismo, como todos os populismos, de que é expoente máximo, engorda assim. Com um mundo de gente à volta a mascarar a realidade, deixando passar o que é preciso que passe. Sem que ninguém diga que a guerra comercial que Trump quis lançar é irresponsável, mas também contraproducente. E que um exército de gente com mais poder que ele o obrigou a recuar!
Poucas horas depois de aparecer aos portugueses numa lancha, que procurava resgatar ao Douro os corpos dos militares vitimados pela queda de um helicóptero, em operação de combate a um incêndio, Luís Montenegro falava de eleitoralismo, na chamada "Universidade de Verão", a segunda reentrée do partido, a seguir ao Pontal. Para dizer que "quem fala em eleitoralismo é quem está a pensar em eleições", quando é ele próprio que não pensa noutra coisa.
Bem pode esperar sentado quem espera por reformas. Ou simplesmente por uma governação séria. Montenegro está muito mais interessado em seguir a velha cartilha de Marcelo que nessas coisas triviais.
Que o Presidente Marcelo comenta tudo, sobre tudo e sobre nada, já não é novidade. Há muito que se sabe disso. Que nem sempre o faz cumprindo com os mínimos da sensatez e da elegância, também é sabido.
Que chegasse à deselegância de chamar gorda a uma mulher, ridicularizando em público a senhora a sentar-se numa cadeira, ("olhe que a cadeira pode não a aguentar") parecia o limite do intolerável que a Marcelo se tolera. Mas não, não era ali o limite. Ontem, na visita oficial ao Canadá, no meio de emigrantes que ali estavam, no país que os recebeu, os integrou e lhes deu a dignidade que nunca encontrariam no seu, em manifestação de apreço pelo presidente do país que tudo lhes negou, provavelmente à espera da selfie que é a imagem de marca do populismo que o alimenta, a fasquia subiu para níveis já intransponíveis.
De dedo em riste a apontar para o decote de uma jovem, advertindo-a que se poderia constipar, Marcelo não foi só infeliz. Nem ridículo. Foi deselegante, machista e bota de elástico salazarento. Tudo impróprio para um Presidente, mas de todo intolerável sabendo que, atrás do seu dedo estendido, seguiam as câmaras das televisões que iriam expor ao mundo não só o decote, mas a cara e o corpo de uma jovem que, provavelmente, apenas estaria ali porque a mãe, ou o pai, a teriam convencido a vir conhecer o mais alto responsável do país longínquo que, apesar de tudo lhes ter negado, continuam a amar.
PS: Claro que a fotografia que encabeça este texto nunca poderia ser a do decote da jovem.
Não há dúvida que, nos últimos quatro dias, o mundo mudou apagando 80 anos de História, como se de repetente tivesse ficado subterrada por uma avalanche de lama levantada por um tsunami que não veio do mar, mas do Kremlin.
A ameaça de Putin em recorrer a armas nucleares vai muito para além da dimensão retórica. Nunca o mundo esteve tão perto da ameaça nuclear!
A velha ideia - que foi fazendo caminho de décadas - que as armas nucleares não serviam para ser usadas, mas para evitar que fossem usadas, está a morrer. Era uma ideia sustentada no princípio do bom senso e do equilíbrio psíquico de quem tinha a capacidade de premir no botão.
Aconteça o que acontecer hoje, ao quinto dia, no encontro entre delegações russa e ucraniana na fronteira com a Bielorrússia, perto de Chernobyl, a velha ideia já foi devorada pela realidade - para que sejam usadas basta que existam. Porque Putin não se confirma apenas como um louco e imprevisível que tem o poder de premir o botão. Ele personifica um padrão de gente louca e imprevisível à procura de chegar ao poder nos mais diferentes pontos do globo.
Esta guerra teve já o condão de unir a Europa como nunca antes. Veremos se será também capaz de mostrar o perigo que é o populismo que esse padrão vem espalhando. Pelo mundo e pela Europa. E por Espanha. E por Portugal!
A demagogia e o populismo são os mais perigosos vírus para a democracia, sabemos disso e estamos hoje confrontados as evidências disso mesmo.
São vírus poderosos e sempre em mutação, adoptando novas variantes. Há estirpes que muitas vezes até se confundem com o antídoto. Não há vacina contra este vírus e, se houvesse, desconfio muito que a classe política se disponibilizasse para a inoculação.
As prioridades da vacinação contra a covid são um bom exemplo da forma como essas estirpes afectam os nossos decisores políticos. Numa democracia sã e madura, segura, não envergonhada e sem fantasmas, o Presidente da República seria naturalmente a primeira pessoa a ser vacinada, mesmo simbolicamente. E depois o primeiro-ministro, e depois os restantes ministros, estamos a falar de duas dezenas de pessoas, não muito mais.
Por cedência à demagogia e ao populismo os mais altos cargos dos órgãos de soberania em Portugal ficaram fora da lista inicial de prioridades da vacinação. Um mês depois, com o governo com quase tantos infectados como o Benfica, e com o Presidente da República a protagonizar uma história de falso positivo como no Sporting, o governo decide dar prioridade a todos os titulares de órgãos de soberania.
Ou todos, ou ninguém. Ou há moralidade, ou comem todos. Não há uns mais iguais que outros.
Isto não é evidentemente bom senso. É tão só uma nova cedência à demagogia e ao populismo que em si mesma é demagógica e populista, e que, evidentemente, vem aumentar em espiral novas estirpes do vírus cada vez mais difíceis de identificar.
É o que se passa com os deputados que se apressaram a recusar a vacina. Já não sabemos que estão simplesmente a usar o seu bom senso, e a evidenciar a insensatez da decisão, ou se estão a entrar com os dois pés na espiral de demagogia que têm à frente.
Numa altura em que o populismo impera na maior parte do mundo há pequenas notícias que muitas vezes dizem muito.
Sabe-se que o populismo cresce sempre a partir da deterioração da relação entre governados e governantes, muito por força do enfraquecimento da qualidade dos titulares de cargos públicos e da consequente degradação do exercício do poder.
A notícia que hoje aqui trago chegou-me num dia desta semana, que ficou justamente marcada pelo primeiro debate entre os candidatos às eleições presidenciais americanas, e que se tornou numa montra exuberante do que é, e de que é capaz, o populismo.
A notícia provinha da Associated Press, e dizia que, algures na improvável Roménia, a população de Deveselu, uma vila com cerca de três mil habitantes no sul da Roménia, reelegeu com 64% dos votos o seu presidente da câmara. Não seria notícia não se desse a circunstância de as eleições se terem realizado no domingo, 20 de Setembro, e o Sr Ion Aliman – assim se chamava presidente da câmara – ter falecido na quinta-feira anterior, vítima de covid.
Sem possibilidade material de alterar os boletins de voto, o seu nome lá permanecia no dia das eleições. Diz a notícia que a caminho da assembleia de voto, a população passou pelo cemitério a depositar uma flor na campa do autarca e, chegada à urna, depositou-lhe o voto. O voto que, segundo os relatos, sentiam dever-lhe pela forma como exerceu o poder, sempre ao lado deles, e nunca contra eles.
Não valeu de muito, até porque obriga a novas eleições, mas fica a lição. E que grande lição!
Hoje debate-se o estado da nação. No Parlamento, onde se vai passar a debater menos.
António Costa e Rui Rio acordaram (de acordo, mas também de acordar, com espreguiçadela e tudo) em acabar com os debates quinzenais, propostos pelos próprios social-democratas há treze anos, governava um tal de José Sócrates. Tanto quanto se conhece a proposta partiu mesmo de Rui Rio, com o argumento que o chefe do governo tem de trabalhar. Primeiro ministro é para trabalhar, não é para debater, entende o presidente do PSD. Não pode fazer duas coisas ao mesmo tempo!
A António Costa dá jeito. E dá especialmente jeito que tenha partido do seu principal adversário, transformado em aliado principal.
O parlamento é o centro do debate democrático. É assim em todas as democracias. Os cidadãos já têm a sensação que a democracia lhes é limitada ao exercício do direito de voto de quatro em quatro anos. E quantos sentirem isso, mais crescerá a abstenção. Desvalorizar o Parlamento é desvalorizar ainda mais a democracia, e é acelerar a dinâmica viciosa da abstenção.
O populismo gosta disto, evidentemente. Não é preciso chamar-se André Ventura para ser populista. E já tínhamos percebido no desprezo de Rui Rio por muitos dos rituais da democracia a sua própria maneira de ser populista. E se é inaceitável que tenha imposto a disciplina de voto aos deputados do seu partido numa matéria como esta, é simplesmente chocante que, no fim, tenha declarado que o Parlamento saiu dignificado.
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