Ao intervalo do jogo com o Braga tinham deixado um vídeo na cabine do árbitro, a passar as imagens de lances do primeiro tempo, repetidamente e sem poder ser desligado. Foi um mero lapso: as imagens dos lances polémicos se destinavam exclusivamente à análise interna dos seus técnicos; e a reprodução no balneário da equipa de arbitragem terá ocorrido por por engano.
Ontem decoraram as paredes do balneário do adversário com recortes do jornal oficioso, a exaltar as conquistas do clube, mas não foi canalhice: as imagens estavam lá para servir os visitantes. Não esses visitantes, que ocupam o balneário, mas os outros, os visitantes do estádio.
Ligaram o ar condicionado do balneário com a temperatura no máximo, e esconderam o comando, mas não foi grunhisse. Isso era no tempo da creolina. Aquela era apenas a temperatura recomendada para aquela zona.
Se calhar, depois de marcarem, esconderam as bolas, e os cones, à volta do campo para tornar a coisa mais divertida, como antes faziam com bolas de golfe. Se calhar não roubaram a toalha ao guarda-redes, levaram-na para a trocar por uma lavada. Se calhar colocaram cortinas, e colunas de som, em cima dos adeptos adversários, não para abafar os seus cânticos, mas para os proteger dos filhos da puta dos outros. Sorte a deles, que não foram obrigados a ficar a despirem-se a descalçarem-se à entrada, para entrar só na segunda parte. Se calhar foi por lapso, a pensar que era noite de S. João, que foram estoirar foguetes durante a madrugada para a frente do hotel.
É isto. Palermo continua Palermo, só mudou o padrinho. Só que havia quem não soubesse. Quem pensasse que a grunhisse e a canalhice era só para os outros. Bem-vindos a Palermo, amigos lagartos!
A maré negra continua, o Benfica está já também fora da Taça e, em Janeiro, já não há com que salvar a época.
O sorteio não quis nada com o Benfica nesta edição da Taça de Portugal, a segunda mais importante competição do calendário nacional. Foi obrigado a disputar todos os jogo fora de casa, e o dos quartos de final no Dragão.
Mas, com bolas quentes ou bolas frias, sorteio é sorteio e o Benfica, depois da primeira derrota interna, no inqualificável jogo das meias finais da Taça da Liga com o Braga (que logo a seguir perdeu a final para o Vitória de Guimarães, e hoje foi igualmente eliminado da Taça pelo Fafe, da Liga 3), surgiu no Dragão sem medos, nem complexos.
Deixou isso claro logo que o árbitro Fábio Veríssimo - mais uma provocação do Conselho de Arbitragem, e nem é pela sua história contra o Benfica, é por ser o árbitro que denunciou que as práticas do Porto continuam à maneira antiga, e de daí decorrerem processos ainda em curso - apitou para o início do jogo.
Pelos recentes impedimentos de Enzo e Otamendi, que se juntaram aos antigos, mas não só, o Benfica surgiu com alterações significativas no onze. António Silva recuperou para alinhar ao lado do Tomás Araújo no centro da defesa, Lopes Cabral estreou-se a titular, na ala esquerda, e Prestiani regressou ao onze inicial para a ala direita, daí saindo, respectivamente, Sudakov, para o banco, e Aursnes, para o meio, ao lado de Rios.
Justificadas estas alterações: Sudakov não tem intensidade para para, num jogo destes, jogar na ala, como - erradamente, a meu ver - tem vindo a acontecer. E o jogo com o Braga demonstrou que, depois da lesão de há um ano, Manu não está em condições de jogar no lugar do Enzo.
O Porto não surpreendeu, e foi igual ao que tem sido ao longo da época. Uma equipa intensa, com jogadores que correm sem parar, que disputam cada bola como se fosse a última, usando e abusando do confronto físico. Não sei se é este o futebol de Farioli, não tenho dúvidas é que é este o futebol que percebeu que assenta que nem uma luva no Porto. No tal ADN Porto!
E o Benfica não fugiu aos desafios que esse "futebol" lhe apresentava. Teve esse mérito. Não teve medo, e foi se superiorizando. Aos 10 minutos, logo depois da primeira interrupção da partida (choque de cabeças entre Martim Fernandes e Lopes Cabral) criava a primeira oportunidade clara para marcar, num lance antecedido por um penálti, num corte com a mão do Pablo Rosário dentro da área. Só que, como também faz parte da receita deste Porto, há sempre uma oferta qualquer para, à primeira, marcarem.
Assim foi, mais uma vez. Na primeira vez que chegaram perto da baliza de Trubin, o Tomás Araújo cortou o lance com aparente facilidade. Tinha toda a linha lateral à frente, mas a bola acabou a sair pela final. Canto. Até pareceu que, se fosse de alguma forma possível, a bola acabaria até para ir para a baliza, como já aconteceu. Do canto saiu uma bola rasteira que Rios, ao primeiro poste, à vontade, com tudo para a chutar para a frente, com uma rosca, conseguiu voltar a mandá-la para canto. O segundo consecutivo. Marcado desta vez ao segundo poste, onde Aursnes corta novamente para canto. O terceiro, para a marca de penálti, onde o Bednarek, marcado pelo Barreiro, nem teve que saltar para marcar o golo que tudo decidiu.
O Benfica sentiu o golo, e o Porto conseguiu até, logo a seguir, a sua segunda oportunidade de golo de todo o jogo. Valeu Trubin. Mas reagiu rapidamente, e voltou a assumir o domínio do jogo. Frisson, só na baliza de Diogo Costa que, na fase de maior assédio benfiquista, fora de pequena área, abalroou o António Silva.
Quando se esperava pela repetição, a realização da Sport TV preferiu voltar a mostrar o golo do Porto. É assim!
Entretanto o jogo começava a endurecer. Os jogadores do Porto puxavam pelo confronto físico e activavam o lado quezilento do jogo, onde se sentem como peixe na água. É neste quadro que surge a lesão de Rios, que saiu em maca, à beira do intervalo.
Entrou então Sudakov, para o seu verdadeiro lugar, donde saiu o Barreiro, para se juntar a Aursnes. O Benfica melhorou, ainda. E voltaria a estar perto do golo ainda antes do apito para o intervalo, naquele remate do Barreiro, que o Diogo Costa defendeu com o pé, aflitíssimo, para a frente. Em vez de recarregar para dentro da baliza, Dedic chutou para a bancada.
E assim regressou toda a gente aos balneários, onde Fábio Veríssimo teria certamente a passar em loop na televisão a mão do Pablo Rosário na bola, dentro da sua área, ou ataque do Diogo Costa ao António Silva.
A segunda parte não mudou nada ao jogo. Continuou a dar Benfica, que continuou a somar ataques e remates. Alguns, como os de Tomás Araújo, aos 10 e aos 20 minutos, poderiam ter acabado em golo. A maior, e a derradeira oportunidade que o Benfica teve para marcar, não chegou a ter remate. Corria o minuto 90, e Pavlidis falhou - o remate e o golo - a um metro da baliza.
O Benfica não merecia ter perdido este jogo. Merecia ter passado à meia final da Taça, e ter o privilégio de disputar um jogo em casa. Mas não há vitórias morais. E, se houvesse, nem essas já nos conseguiriam animar.
Foi "Dia de Clássico". De clássicos, porque o Sporting-Braga também é um clássico. E não correu mal: empataram, e bem. Mesmo que o Sporting continue com as bênçãos da vaca, como se fosse na Índia, e ... da arbitragem, como se voltou a ver.
O clássico do Dragão é sempre especial. Desta vez vinha em boa altura para o Porto, e má para o Benfica. O Porto só ganhava, só marcava, sem sofrer. Era um balão cheio, tudo lhe corria bem. O Benfica ... pelo contrário. Ao Benfica tudo acontece. Desta vez até uma virose, a afectar o plantel até à véspera do jogo, ao que se diz apanhada em Londres ...
O clássico teria que ter muito a ver com tudo isso. Era impossível que não fosse marcado por essa assimetria de desempenho das duas equipas. E por isso o Benfica surgiu no relvado do Dragão preparado para jogar um jogo de xadrez. E jogou-o bem.
Um jogo de xadrez é como o tango. Precisa de dois. Um precisa de dois para ser jogado, o outro para ser dançado. E o Porto, claro, também jogou xadrez. Mesmo que muitas vezes lhe acrescentasse outras nouances, mais de circo que de outra coisa. Muita fita, muita palhaçada, mas também muita traulitada.
O Benfica jogou melhor xadrez, Mourinho é especialista. Para o bem, e para o mal, o Benfica teve muito sangue frio, e pouco sangue quente. Mas lá está, o xadrez joga-se com sangue frio. Quem se permitir ferver acrescenta dificuldades.
Teve tanto de xadrez, e tão pouco de futebol, que o primeiro remate só apareceu já depois da meia-hora de jogo. E ainda assim num livre, por falta de Pêpê sobre Sudakov (que por ser claramente uma jogada promissora, ficando o 10 do Benfica em boas condições para atingir com êxito a baliza adversária, deveria ter sido punido com cartão amarelo, que teria consequências para o jogo, pouco tempo depois) cobrado pelo próprio. Isto já depois de Gabri Veiga ter agredido Rios, a meio da primeira parte, na altura em que finalmente os adeptos do Benfica começavam a conseguir entrar para as bancadas do Dragão.
O primeiro remate do Porto tardaria ainda mais 5 minutos. O primeiro canto - se o primeiro remate foi para o Benfica, o primeiro canto foi para o Porto - surgiu apenas em cima do intervalo. E foi o único da primeira parte. Não houve um fora de jogo, em toda a partida.
Para melhor se perceber o jogo de xadrez, como foi jogado pelas duas equipas, e até o sangue frio e quente que correu nos jogadores de cada uma, veja-se que o Benfica cometeu apenas 6 faltas, três em cada metade. Contra 16 do Porto (6 na primeira e 10 na segunda). E que, mesmo com a discrepância de critérios do árbitro Miguel Nogueira, o Porto foi admoestado com 6 amarelos, e o Benfica com dois. O primeiro, na primeira vez do árbitro, a Rios (por, quando já três ou quatro do Porto tinham feito tudo para o justificarem, ter chegado com o pé perto do ombro de um adversário, que se baixara em prática de jogo perigoso), e o segundo, na última vez de Miguel Nogueira, mesmo no fim do jogo, a Dedic. Um daqueles cartões salomónicos, dividido com o provocador, no caso Borja Sainz. Os restantes cinco - e mais quantas passaram em claro? - decorreram de entradas duras, a roçar a violência, de jogadores portistas.
Ou repare-se que, em termos de desempenho individual, provavelmente os três ou quatro melhores serão jogadores do Benfica: Dudic (o homem do jogo, para a insuspeita Sport TV), Sudakov, Rios e, Enzo. Ou que o melhor do Porto, o central Bednarek, não foi melhor que António Silva, hoje a alto nível.
Quando fugiu ao xadrez, quando arriscou um bocadinho, o Benfica esteve perto do golo. Foi à entrada do segundo quarto de hora da segunda parte, quando um corte de Kiwior levou a bola à barra da baliza de Diogo Costa. Para que tudo fosse igual, também, quando o Porto arriscou um bocadinho, já ao minuto 90, com a entrada do seu puto maravilha, na primeira vez que tocou na bola, o Rodrigo Mora rematou também à barra da baliza de Trubin.
Como desabafou Mourinho, o Benfica sobreviveu. E está aí, bem vivo. Esperemos que sim, até porque isso de já "não dependermos apenas de nós próprios", não é conversa para agora.
É - continuará a ser - provavelmente o maior símbolo do portismo. Foi, dentro do campo, figura incontornável do Porto (fora do campo a figura, e a estória, era outra) que mais ganhou. Foi sempre um adversário. Nunca um inimigo!
O Benfica já ganhou muitas vezes no Porto, quer nas Antas quer no Dragão. Nunca, no entanto, ganhou em cima de um banho de bola colossal, como este!
Hoje o Benfica simplesmente não deu qualquer hipótese. Nem ao Porto, nem ... ao João Pinheiro. Tentaram ambos fazer pela vida, mas não tiveram hipótese.
Mais cedo não podia João Pinheiro começar. Foi logo no início, a anular o golo de Pavlidis, por um fora de jogo que mais ninguém viu. Teve de "engolir o apito".
O Porto também não esperou para reagir, e atirou-se logo à bola, e às canelas dos adversários, como se não houvesse amanhã. A agressividade foi depressa engolida pelo souplesse, e pela arte da tropa.
O golo do Benfica no minuto inicial, no pontapé de saída, importou. Claro. Um golo a abrir o jogo é como o tamanho. Importa sempre!
A equipa deu a bola ao Porto, e depois esperou em família, com a tropa recuada. Evidentemente que esta estratégia não foi desenhada em cima do golo no primeiro minuto. Era a estratégia para o jogo, trabalhada a partir de quarta-feira, depois de despachado o assunto Farense: entregar a bola ao Porto, deixar que fizesse com ela o que bem entendesse, no seu meio campo, e em vez de correr atrás dela, e dos adversários, esperar que fossem eles a entregar-lha quando já não soubessem mais o que fazer com ela. A partir daí, com a bola nos pés, procurar a profundidade para chegar depressa, e bem, à baliza de Diogo Costa.
Foi assim, com esta ideia de jogo, que na primeira parte o Benfica cilindrou o Porto. Com menos de 40% de posse bola o Benfica marcou os dois golos soberbos Pavlidis, no início e quase no fim e, num total de 8 remates, rematou três vezes à baliza, e outras tantas ao poste. O Porto, com mais de 60% de posse de bola, efectuou cinco remates, e nenhum à baliza.
Foi assim, com a defesa unida em família, com Florentino sempre pronto para interceptar a bola, Kokçu mestre a distribuí-la, ora curtinho, ali ao lado, ora a romper vinte ou trinta metros para Akturkoglu, Pavlidis e Di Maria espalharem o pânico numa defesa portista que cada vez que era atacada tremia como varas verdes.
Para que o banho de bola fosse ainda mais empolgante, o Benfica mudou de reportório para a segunda parte. Fez praticamente o contrário, e decidiu que, já que o Porto tinha feito tão pouco com a bola, não merecia tê-la. O Benfica foi então dono da bola e dono do jogo, não permitindo que nada sobrasse para o Porto.
Criou claríssimas oportunidades de golo sucessivas, umas atrás das outras. Di Maria ainda deve estar a ver se percebe como, aos 52 minutos, num cruzamento de excelência de Carreras, o seu remate foi parar ao lado de fora das redes . Cinco ou seis minutos depois, foi o instinto de Diogo Costa a negar o golo a Akturkoglu, a passe de Di Maria. No minuto seguinte, mais uma defesa soberba do guarda-redes do Porto, a negar o golo a Otamendi. Ao minuto 69 era finalmente quebrado o enguiço, com Pavlidis a assinar o hat-trick, respondendo com um excelente desvio de cabeça a um extraordinário cruzamento de Di Maria. Dez minutos depois foi Schjelderup, que entretanto havia entrado, com Belotti, por troca com Di Maria e Pavlidis, a enviar a bola a rasar o poste da baliza de Diogo Costa, batido ... e desesperado.
Não marcou Schjelderup, na resposta marcou o Porto. Trubin defendeu o remate de Fábio Vieira, mas depois deixou fugir por entre as pernas a recarga de Samu.
O marcador, aberto no primeiro minuto, seria fechado por Otamendi, no último. Não é comum, mas quando o vendaval de futebol toma as proporções desta noite no Dragão, com tantas oportunidades de golo construídas, é normal que os golos surjam até nos momentos menos comuns.
Ficou ainda assim curto. Repetiu a goleada da primeira volta, na Luz. Mas foi mais curto. Se aos quatro golos somarmos as três bolas nos ferros, e as quatro oportunidades claríssimas atrás referidas, ficamos com a dimensão do escândalo que esteve à vista no placard do Dragão.
Na trilogia de Bruno Lage, a equipa está fortíssima. A família é feliz. E a tropa está na frente. Pode ser apenas por 24 horas. Mas, como há muito que isso não acontecia, é notícia.
Noite de festa, de verdadeira loucura na Luz, cheia - à beira dos 65 mil - para assistir ao mais desequilibrado dos clássicos dos últimos largos anos.
Foi festa porque o Benfica jogou à Benfica, como prometera Bruno Lage. Quando isso acontece há festa na Luz, mesmo que uns imbecis a queiram estragar.
O Benfica desta noite, na Luz, não foi apenas uma equipa a jogar bem, e a dominar claramente o Porto, que não é coisa a que estejamos muito habituados. Foi uma equipa inabalável, à prova de bala. E isso, depois do que aconteceu na passada quarta-feira, em Munique, é sensacional!
No fim, depois de um jogo em que o Benfica dispôs do Porto como bem entendeu, e goleou por 4-1, ninguém se lembra dos contratempos que atingiram a equipa. Não foram poucos, e a equipa passou por eles como se nada fosse.
O Benfica entrou bem no jogo, demonstrando que não estava ali com medo de nada, nem de ninguém. Só que logo os energúmenos das tochas fizeram parar o jogo, interrompendo aquela entrada.
Logo que a fumarada desanuviou, o jogo foi retomado, a equipa voltou a agarrar no jogo, e Di Maria poderia ter marcado. Pouco depois, pelos 18 minutos, o árbitro, João Pinheiro - pois, já não há Artur Soares Dias - resolveu apitar para assinalar uma falta sobre Aktürkoglu, já depois de ele se ter desembaraçado do adversário faltoso, se isolar na área portista e assistir Pavlidis para marcar. Um golo bonito, com o avançado grego a picar a bola sobre Diogo Costa. As leis do jogo mandam deixar seguir a jogada, até ao seu desfecho. Mas mandam também não beneficiar o infractor. João Pinheiro esteve-se nas tintas para isso tudo, e o golo não contou. Nem pôde sequer chegar ao VAR. No livre que João Pinheiro assinalou para evitar o primeiro golo do Benfica, foi Diogo Costa a evitá-lo, com uma grande defesa. Mas a equipa não descompensou, e continuou a jogar bem.
E lá chegou o golo, ainda antes da meia hora, por Carreras, que minutos antes parecia ter sido atirado para fora do jogo, com um pé em muito mau estado. E o Benfica continuou, cada vez mais a acentuar a sua superioridade no jogo. Mas o segundo golo não chegava. Aos 40 minutos o remate de Pavlidis levou a bola a bater no poste, e a sair para a frente, em vez de entrar.
Estávamos nisto quando os imbecis das tochas voltaram a aparecer, e a fazer voltar a parar o jogo. Ainda a fumarada estava no ar, e já em cima do intervalo, Otamendi cometeu uma hesitação de principiante, Trubin foi enganado - mas não o poderia ter sido - e ambos ofereceram o golo do empate ao Samu.
E o jogo, que poderia já estar resolvido no marcador, foi para intervalo empatado.
Poderia pensar-se que o Porto aproveitaria o empate que lhe caíra do céu para surgir na segunda parte a discutir o jogo, olhos nos olhos. Nada disso, o Benfica de hoje nunca se deixou abater, e arrancou ainda mais forte. E mais dominador.
O segundo golo não tardou muito. Nem 10 minutos. Grande passe de Aursenes, e desmarcação e finalização sublime de Di Maria. E o Benfica continuou a não deixar Diogo Costa em paz. Cinco minutos depois marcou o terceiro, em mais um lance de compêndio: Tomás Araújo, num grande passe em profundidade lançou Bah, que cruzou para Pavlidis surgir desmarcado na cara de Diogo Costa, a desviar para o funda da baliza. Há quem diga que foi Nehuén Pérez que introduziu a bola dentro da própria baliza, para tirar o golo ao avançado grego.
O quarto foi sendo adiado por mais vinte minutos. Surgiu aos 80 minutos quando, aflito, o Varela acertou com um pontapé no pescoço do Otamendi. Penálti - apenas o segundo do Benfica no campeonato - cobrado magistralmente por Di Maria. João Pinheiro esqueceu-se do segundo amarelo a Varela, que o punha na rua.
Não foram poucos os contratempos, como vimos. E o mais frequente nestes clássicos é vermos a equipa sossobrar-lhes. É por isso que esta vitória, com esta exibição, com esta demonstração de personalidade, e com esta goleada, vale mais que os três pontos de qualquer das outras.
O que não vale - não pode mesmo valer - é a impunidade dos imbecis das tochas. É da maior urgência resolver isso. E começa a não ser aceitável que não se resolva!
Claro que foi "cada tiro cada melro", neste clássico do Dragão. Claro que, nas circunstâncias do jogo, em cada uma delas, os astros estiveram sempre todos alinhados para o Porto. Mas nada disso relativiza aquilo que foi a absoluta nulidade da exibição do Benfica, e a estrondosa goleada (0-5) com que saiu esta noite do Dragão.
Não sei se foi o "adeus" definitivo ao campeonato. Mas sei que, a jogar assim - nunca caiu tão baixo como hoje, mas há muito que a equipa não dá garantias - o bi-campeonato nunca passará de sonho. E, francamente, cada vez mais me convenço que, se um treinador, com os melhores jogadores não for capaz de construir a melhor equipa, alguma coisa está errada.
É que a derrota dói. E a goleada dói ainda mais. Mas a recorrente incapcidade do Benfica em se superiorizar aos principais rivais em algum dia haveria de acabar desta forma. Que tudo isto aconteça em cima do 120º aniversário do Glorioso apenas dá mais cor à dor.
Luz cheia - mais de 62 mil - como é já habitual. A transbordar. De festa, fervor e paixão!
Sem medos, nem tremideiras. Roger Schemidt deu o mote, como que a anunciar que isso é passado. "Neres e Di Maria são compatíveis" - tinha anunciado. Se são compatíveis, é para já. Sem medo!
A Luz gostou. Gostou dos dois desequilibradores nas duas alas, e gostou da mensagem de coragem que se lia na constituição da equipa. Com Neres e Di Maria no onze, Schemidt dizia que não tinha medo. E a mensagem parecia passar para o relvado, transportada pelos jogadores.
Mas esgotou-se rapidamente. Em poucos minutos. Foi "sol de pouca dura". Nem cinco minutos durou. Devia ser muito pesada, os jogadores não a conseguiram carregar mais tempo. E o Porto começou a parecer que queria mandar naquilo tudo. E como quando uns mandam os outros baixam as orelhas, os jogadores do Benfica começaram a baixá-las. Não deu bem para perceber se chegaram a ficar assustados, mas lá que deu para perceber que "baixaram as orelhas", deu.
Aproximava-se a primeira parte do meio quando o Fábio Cardoso, aspirante a Pepe, mas ainda sem a sua impunidade, foi (bem, indiscutivelmente!) expulso por, sem pernas para Neres, a caminho da baliza do Diogo Costa, o mandar abaixo, sem dó nem piedade.
Só por isso, por passarem a jogar contra 10, se não chegou a perceber se os jogadores do Benfica estavam mesmo a ficar assustados. Mas percebeu-se que não estavam inspirados. A equipa poderia não ter medo, o problema é que não tinha mais nada. Não tinha velocidade. Não tinha intensidade. Não tinha coragem. E parecia até não ter lá grande vontade. A expulsão galvanizou mais (ainda mais!) as bancadas que os jogadores. A inspiração, essa, sobrou apenas para Trubin.
E que bem-vinda que é!
Não é que o guarda-redes do Benfica - a quem impuseram a necessidade de ter de provar tudo - estivesse a ser sujeito a muito trabalho. Mas fez - e bem - o que teve para fazer. Com duas intervenções - uma arrojada e corajosa saída aos pés do Taremi; e uma grande defesa a desviar o remate de Pepê, já perto do intervalo, quando o Porto já deveria estar reduzido a nove jogadores - impediu que corresse mal o que realmente poderia ter corrido mal.
Do lado do Benfica apenas uma oportunidade e meia de golo. A meia de Di Maria, quando o chapéu ao guarda-redes do Porto saiu ligeiramente por cima, logo no primeiro minuto, quando os jogadores ainda carregavam a coragem que Roger Shemidt lhe tinha posto às costas; e aquele lance pouco depois da meia hora, quando Neres fugiu pela esquerda, e o Diogo Costa defendeu o remate prensado, na mancha, para se levantar e afastar, com uma vistosa palmada, a bola que, no ressalto, ia a pingar para dentro da baliza. E, logo a seguir, uma escapada de Rafa pela direita, depois de ganhar em velocidade a David Carmo, acabando travado em falta quando se isolava. Num lance muito idêntico ao que acabara na expulsão do Fábio Cardoso. Tanto que o Soares Dias, desta vez no VAR, não teve dúvidas em dizê-lo ao árbitro João Pinheiro, que apenas sancionara com livre e amarelo. Que confirmaria, contrariando a opinião do insuspeito Soares Dias, depois de consultar as imagens.
O Porto poderia, e deveria - pareceu-me - ficar reduzido a nove jogadores a um pouco mais de 10 minutos do intervalo. Aí, ao intervalo, só havia uma certeza - não era esperança, era mesmo certeza: a segunda parte tinha de ser completamente diferente!
E foi. Roger Schemidt não mexeu no onze, mas foi outra equipa que regressou dos balneários. Foi o Benfica, a jogar à Benfica, sem permitir ao Porto disfarçar que estava a jogar com menos um. Foi para cima deles e não os largou. Empurrou o Porto lá para trás, e sufocou.
As oportunidades de golo iam-se sucedendo. Claras, umas atrás das outras. O Porto não conseguia sair daqueles 20 metros à frente da baliza do Diogo Costa, que ia adiando o golo. Só nos primeiros 12 minutos da segunda parte, Musa falhou um golo feito, Kokçu atirou ao poste, Diogo Costa "roubou" o golo a Neres, isolado depois de passar pelo João Mário (o defesa portista) e de deixar o Zé Pedro (o central que entrou com a expulsão, substituindo o Romário Baró (a surpresa do Sérgio Conceição) sentado na relva, e o remate de Otamendi à malha lateral.
Em pouco mais de 10 minutos, três grandes oportunidades de golo. O golo tardaria ainda mais 10 minutos. Obra de Neres e Di Maria, os dois. Juntos. E compatíveis. Já com Cabral em campo, acabadinho de entrar para substituir Musa.
A Luz explodiu em festa. E o Benfica não levantou o pé. Logo a seguir o (excelente) remate de Otamendi, com o guarda-redes batido, saiu a rasar o poste.
O Porto, que na segunda parte fez um único remate, fraco e ao lado, tentou sair do sufoco e o Sérgio Conceição decidiu apostar nos últimos 10 minutos, lançando Ivan Jaime, o filho, Francisco e o Gonçalo Borges. Mas a circulação de bola do Benfica não lhes permitiu outra coisa que não fosse aumentar-lhes a frustração.
E sabe-se como aquela gente lida mal com a frustração ...
É uma vitória importante. É sempre importante ganhar. Mais ainda ganhar ao Porto. Mas é uma vitória que sabe a pouco. Um só golo, em seis ou sete oportunidades, é pouco!
O jogo chegava aos 90 minutos, e o Porto estava a perder com o Arouca, no Dragão. Como em dois dos três jogos anteriores para este campeonato "do vale tudo". À quarta, quinta ou sexta, já nem sei quantas foram as vezes que Taremi se mandou para o chão dentro da área, o árbitro assinalou finalmente o penálti procurado de todas as formas ao longo de todo o jogo. Viu-se logo que não passava de mais uma trapacice, que o VAR não poderia deixar passar.
Vimos todos. Viram todos. Os dois bancos portistas - um junto ao relvado e junto à tribuna do Dragão - mais pareciam a sala do VAR na Cidade do Futebol, com dezenas de olhos permanentemente postos nos ecrãs. Tantos ou mais que na sala mais famosa disto a que se chama futebol em Portugal. Toda aquela gente lá em cima viu. Como viram todos os que lá estavam em baixo. No banco que legítimo, ali ao lado do equipamento a que o árbitro teria de se dirigir.
O resto é conhecido. Quando o árbitro lá chegou o equipamento não funcionava e, conforme estabelecido nos regulamentos, a comunicação teve de se fazer por via telefónica. Soube-se, já hoje pelo comunicado do Conselho de Arbitragem, que o equipamento deixou de funcionar por ter deixado de funcionar a tomada eléctrica que o alimentava.
Não se sabe porquê. Mas nem é preciso ser adivinho para saber que foi propositadamente desligada para que as imagens que todos viram não fossem vistas pelo árbitro.
Sabe-se, e não se sabia, pelo mesmo comunicado, que o "plano B" do sistema foi accionado em poucos minutos, e que a comunicação com a Cidade do Futebol foi restabelecida em poucos minutos. E estranha-se, por isso, que novo penálti, mais uma vez criado na batota de Taremi, não tenha voltado a ser objecto de intervenção do VAR. Nem isso nem o golo do empate, aos 22 minutos da compensação que era de 17, com fortes suspeitas de fora de jogo de Evanilson, o marcador.
Tal como no inventado penálti redentor do jogo anterior, em Vila do Conde, sem qualquer imagem que o legitimasse, também aqui não houve imagens. Nem linhas.
Em quatro jogos o Porto já jogou cinco. Nesse quinto jogo adicional somou 7 dos 10 pontos que tem na classificação. Mas não se fala nada disso. Fala-se que o Porto quer a anulação do jogo. Já não lhes basta que os jogos apenas acabem quando o resultado lhes interessar. Agora querem mesmo repetir os jogos que nem assim consigam ganhar. Querem jogar 6 jogos em quatro jornadas. Ou os que forem necessários para ganhar.
Fala-se, e arregimenta-se o exército ao serviço para falar da reversão de um penálti inexistente por telemóvel. Mas não se fala de batota. Da batota instalada há mais de 40 anos no futebol em Portugal, e cada vez mais despudorada. Que, mesmo que cada vez também mais amadora, continua impune!
É por isso, e para isso, que o topo da pirâmide desta coisa é o que é.
Acompanhe-nos
Pesquisar
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.