Há coisas do diabo. No dia em que Cotrim, acertando em cheio no pé, disse - para, antes de dizer dizer que não sabe o que lhe passou pela cabeça, ter dito que não disse - que poderia votar Ventura na segunda volta, porque nos últimos dias teve a percepção que ele se tinha moderado, nesse mesmo dia, com poucas horas de diferença, Ventura trazia "Deus, pátria e família" de volta à campanha. Porque, esclarecia, "não pode existir medo das palavras".
Nesse mesmíssimo dia, Montenegro, que fez da percepção a bússola da sua governação (o aumento da insegurança e da criminalidade bem podia ser desmentido pela realidade e pelos dados das polícias, que o que contava era a percepção da opinião pública, lembram-se?), na inauguração da sede da Direcção Executiva do SNS, agarrou na realidade caótica das urgências (esperas de dezenas de horas, ambulâncias paradas porque as macas ficam retidas nos corredores das urgências em vez de lhe serem devolvidas para se voltarem a fazer à estrada, etc.) e transformou-a numa percepção. Uma "percepção de caos" que "não é a realidade".
Quando a percepção é enviesada para o lado que dá jeito, a realidade é só cruel. É o diabo!
A campanha para as presidenciais de daqui a uma semana está no auge, como seria de prever para estes dias, nas vésperas da reunião do Conselho de Estado. As sondagens têm andado às voltas e, como numa nora, quem umas vezes está por baixo, noutras está por cima.
António José Seguro, que há não muitos dias nem no top 4 entrava, já aparece na frente. Se tudo isto das sondagens faz algum sentido, e eu sou dos que entendem que faz - as sondagens, na sua maioria, estão certas, o que não quer dizer que acertem sempre nos resultados no dia da eleição; isso, é outra coisa -, ou Seguro já deu a volta ao voto útil, ou já não precisa dele, e muita gente poderá já dormir descansada na noite do próximo dia 18. A guerra do voto útil está agora marcada para outros terrenos.
Ventura não tem o eleitorado tão fixado quanto seria de prever. Não lhe está fácil repetir o resultado de Maio passado, nas legislativas; e isso poderá, surpreendentemente, afastá-lo da segunda volta, até há pouco tida por assegurada.
Gouveia e Melo é quem apresenta resultados mais voláteis - tanto parece fora da corrida como, logo a seguir, surge bem dentro dela.
Cotrim e Marques Mendes discutem, é de todo evidente, cada vez mais o mesmo eleitorado. E é aqui, nesta altura do campeonato, o verdadeiro campo de batalha do voto útil. Há aqui um resultado de soma zero: o que Cotrim tem ganhado, tem Marques Mendes perdido!
Marques Mendes que, curiosamente, tinha partido reclamando independência face ao governo, acaba agora a reivindicar - é mesmo o verbo mais apropriado - o papel de maior aliado. O que por este dias se vai vendo é Marques Mendes desesperadamente à procura do colo do governo. Não será exactamente o que mais agradará a Montenegro, que preferiria um candidato presidencial que lhe alargasse a base de apoio, e não um que lha comesse.
Valha-lhe, a ele, Montenegro, que Cotrim lhe faz o resto, e de forma mais asséptica. Sem as pedras do percurso que Marques Mendes arrasta, para que Gouveia e Melo não deixará de continuar a apontar.
Um debate de mais duas horas - nem sei quanto mais, eu só aguentei uma -, com onze candidatos não é apenas uma "seca". É um intolerável absurdo. Se calhar é por isso que sobrou para a RTP.
Não sei quem é que ganha com isto. Nem o Manuel João Vieira consegue fazer nada daquilo.
A candidatura, ouviu-se já hoje mesmo sem ser para levar a sério, vai mesmo confirmar-se. As assinaturas já lá estão todas, disse-se. As promessas lá estiveram, na entrevista. Bem defendida, a do vinho canalizado em todas as casas. Do bom, não daquele das velhas tabernas, garantiu-nos.
Já na outra, num Ferrari para cada português, logo aquela em que me agarrava o voto, não foi convincente. Pelo menos a mim não me convenceu. Andou ali à volta, gaguejou, até acabar a dizer que resolvia tudo com uns telefonemas. Não Manel, com essa não me enganas!
O humor "non-sense" e provocatório do Manuel João Vieira é já presença obrigatória nas eleições presidenciais. Não podia faltar a estas, naturalmente.
Há sempre quem use e abuse do puritanismo e que, sem qualquer poder de encaixe e de gosto duvidoso, se choque com as "intervenções presidenciais" do velho rosto dos Ena pá 2000. Há sempre quem leve certas coisas demasiado a sério, e quem as inverta, fazendo brincadeira de coisas sérias, e coisas sérias de brincadeiras.
O Manuel João Vieira só faz brincadeira. De coisas sérias, que podem ser levadas a brincar; e de coisas que só podem ser brincadeira. Em qualquer dos casos brincadeiras que são para levar a sério.
Ontem, no entanto, se brincou - e ou ele, ou alguém por ele, brincou - é para deixar de ser levado a sério. A CNN passou a noite toda a anunciar uma entrevista com o inevitável candidato presidencial Manuel João Vieira. Até, já noite dentro, informar que o candidato, afinal, não aparecera.
Por mim, não gostei. Por mim, deixo de o levar a sério!
A tendência, em eleições disputadas a duas voltas, é que, na primeira, os eleitores votem afirmativamente, em conformidade com o seu posicionamento político. Com as suas convicções, com os seus sentimentos. Depois, na segunda volta, votam pela negativa. Votam contra o que o seu posicionamento político rejeita. Para impedir a vitória de quem mais se opõe às suas convicções.
O voto útil é coisa de eleições a uma só volta. Substitui-se o "voto de coração" pelo voto na opção mais bem colocada nas sondagens - ou noutras percepções - para derrotar a que mais se opõe às suas convicções.
Em eleições a duas voltas não há voto útil. Na segunda volta ninguém está a substituir o voto, está a votar no que há disponível.
Não há qualquer dúvida que, com mais de meia dúzia de candidatos, as presidenciais de 18 de Janeiro vão ter uma segunda volta. Mas também não há dúvida nenhuma que a questão do voto útil se coloca, já na primeira volta, a grandes fatias do eleitorado. À direita, mas ainda com mais premência à esquerda.
Por várias razões, mas esta é decisiva: a taxa de rejeição de André Ventura.
As sondagens, todas as conhecidas até ao momento, dão André Ventura por garantido na segunda volta. A maioria dá-lhe até a vitória na primeira volta. Ao mesmo tempo, as mesmas todas, mostram que Ventura esgota aí o seu potencial eleitoral, que não acrescenta um voto na segunda volta. E que, na segunda volta, perde contra quem quer que seja o adversário.
Ou seja, quem passar à segunda volta com Ventura será virtualmente o Presidente da República. Por isso esta é uma primeira volta atípica. E, ao contrário do que seria normal, vai ser marcada pelo fenómeno do voto útil como nenhuma outra eleição em Portugal.
Grande parte destas candidaturas todas já percebeu isto. Não dizem - nem fazem - nada, mas já perceberam!
As presidenciais do próximo ano parecem ter mel. Em breve teremos mais candidatos à Presidência da República que à do Benfica (pronto, também é mais importante!).
Aos estabelecidos Gouveia e Melo, Luís Marques Mendes, António José Seguro e António Filipe - por ordem de chegada, que no caso é de partida - fala-se ainda de Sampaio da Nóvoa, Cotrim de Figueiredo e Paulo Portas. De fora já ficaram Augusto Santos Silva e, presume-se, André Ventura. E a correr por fora estão o inevitável Tino de Rãs, e a nova inevitável Joana Amaral Dias.
Há muito quem se interrogue sobre o que, de repente, talhou Rui Moreira para o cargo. A resposta só pode ser uma - a televisão: o espaço de comentário na televisão.
Depois de Marcelo ter mostrado como se faz, fez escola que o comentário na televisão é o tirocínio de eleição para os candidatos a presidente. Para formar presidentes, pelo que tem percebido pelo exemplo à vista, não é propriamente uma escola recomendável. Mas, na foma(ta)ção de candidatos, dá cartas. O Rui Moreira acredita tanto que nisso que lhe bastaram dois meses de estúdio e câmaras para ficar talhado!
PS: o texto foi editado para corrigir Artur Santos Silva para Augusto Santos Silva
Parece que, por cá, não se passa nada. Estamos umas semanas fora e quando regressamos encontramos tudo na mesma, mesmo que nos queiram fazer crer que não.
Por exemplo, chegamos e vemos que o PS tem um novo líder. Vamos ver e ficamos a saber que José Luís Carneiro foi eleito com o coreano resultado - norte-coreano, mais precisamente - de mais de 95% dos votos. Partido unido, o PS está a reerguer-se, e vai voltar a ser pujante - apressamos-nos a pensar. Pois ... mas olhamos com um pouco mais de atenção e ficamos a saber que o resultado de 95,4% resulta de um universo de 17.125 votantes. E que os 16.342 votos em Carneiro são praticamente os mesmos de há ano e meio, quando perdeu para Pedro Nuno Santos. A concorrer sozinho, José Luís Carneiro somou 1.649 votos aos 14.693 de Dezembro de 2023. É muito "poucochinho"!
Sentado nos seus 95%, do alto dos seus 16.342 votos, Carneiro assiste aos últimos estrondos do desabamento.
Chegamos e vemos que há mais um candidato presidencial. É o do PCP, e ... está tudo na mesma. Mas logo percebemos que não. Olhamos e vemos muita gente a enaltecer a escolha de António Filipe, um parlamentar de eleição, e um exemplo de cordialidade e bom trato. Viu-se até gente na dita imprensa de referência a classificar a escolha de golpe de génio. A dizer que, com esta candidatura, o PCP dera cheque-mate a toda a esquerda. Que, com um candidato como António Filipe, mais não tinha que ficar obrigada a juntar-se-lhe. Que António Filipe seja a personificação do PCP, o rosto e a voz do anacronismo comunista, e em particular na questão ucraniana, não interessa para nada. É um gajo porreiro ... e pronto!
Ah ... e o director de informação da RTP, o António José Teixeira, foi demitido, e substituído pelo Vítor Gonçalves. Mais fofinho, ou mais laranjinha, ou lá o que é ...
Lendo - e bem mal, por acaso - o teleponto, num ambiente encenado até ao mais ínfimo pormenor pelo Luís, o Bernardo, de Sócrates, Gouveia e Melo apresentou a sua candidatura, em modo "Miss Universo". Com aplausos, muitos, da plateia bem ensaiada, a cada frase lida.
No fim, não ficamos a saber muito mais do almirante. Que não tinha substância, já desconfiávamos. Quer unir, como todos sempre dizem querer. Quer o que é bom, e não quer o que é mau. Como todos, e a Miss Universo também.
Já sabíamos - já o tinha dito - que se situa politicamente ao centro, entre a social democracia e o socialismo, mas na sala só vimos gente de direita. Lá vimos Carlos Carreiras, Fernando Negrão, Isaltino Morais, Ângelo Correia, Ribeiro e Castro, Chicão ...
Poderiam ter apenas perguntado ao André como é que consegue combater a corrupção recebendo dinheiro da corrupção. Mas não. Não andam atrás dele para lhe fazer perguntas incómodas. Andam atrás dele, por todo o lado, apenas para lhe apontarem as câmaras e os microfones, para que ele mostre e diga o que quer.
Isto vai bonito, vai...
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