Sociólogos, politólogos e, mais ainda, tudólogos, dizem-nos que o eleitorado português mudou completamente nos últimos anos. Mas será que mudou assim tanto? Não terão sido outras coisas que mudaram?
O manifesto ódio ao imigrante que cresceu na sociedade portuguesa, e que por estes dias, na sequência da fiscalização da Lei dos Estrangeiros por parte do Tribunal Constitucional, e do desembarque dos migrantes marroquinos - daquele barco de madeira, de 5 metros, que aportou à praia da Boca do Rio, em Vila do Bispo -, se tornou avassalador, atingiria esta dimensão se não tivesse sido cirurgicamente cultivado através de partilhas das coisas mais absurdas nas redes sociais, onde se "informa" uma vasta legião de incultos, mas também muito ditos letrados?
Por que é que este país "informado" nas redes sociais, se revela altamente chocado com a pressão dos imigrantes sobre a habitação, o custo de vida e os serviços públicos; mas já não fica incomodado com os nómadas digitais (com regimes fiscais em que pagam metade dos impostos da classe média portuguesa), com os titulares de vistos gold das mais diversas proveniências, quando - esses sim - tomam conta da oferta de habitação, desencadeiam a hiper-inflação nos preços dos restaurantes, e disputam serviços públicos?
Por que é que este país "informado" nas redes sociais se revolta contra a concessão da nacionalidade a quem cá vem fazer o que os portugueses já não fazem, para si nem para os outros, mas nada se incomoda com a nacionalidade atribuída - vendida por um punhado de euros, dólares, reais ou rublos - a quem nada contribui para o futuro do país e, tendo dinheiro, não tem, e dificilmente poderá vir a ter, alguma ligação emocional a Portugal?
Estas últimas questões são meramente retóricas, para ajudar a responder à primeira. Sem as redes sociais e as suas dinâmicas a projecção do(s) sectarismo(s) não seria a mesma. Projectados e instalados no eleitorado passam rapidamente a produto com mercado!
O eleitorado não mudou. O que mudou foi o que foi posto à disposição do eleitorado!
Há uns anos nem o eleitorado tinha à disposição um espaço político de direita, extrema e radical; nem a extrema direita tinha espaço para ocupar. As redes sociais quebraram esta espécie de círculo vicioso.
A partir daí tudo mudou. Mercado gera mercado. E concorrência, que alarga mercado.
André Ventura foi um caso de sucesso, vindo do PSD, como do PSD vieram quase todos os que o acompanham, quase todos por "desemprego". Vindo de um longo jejum de poder, e ele acedendo com frágeis minorias, enquanto ao lado o Chega engordava, o PSD no governo passou a apostar naquele mercado.
Por razões de sobrevivência, mas também porque as bases do partido - é mais o que une as bases do PSD e do Chega, do que aquilo que as separa - contaminaram a cúpula.
As bases do PSD nunca foram muito diferentes do que são hoje. Com ou sem Chega. As elites é que mudaram muito. E não foi apenas no PSD. Foi em todo o lado.
PSD, CDS e Chega impediram hoje, na Assembleia da República, que o Estado Português reconhecesse o Estado Palestiniano. Portugal continua, assim, alinhado com as potências ocidentais, sem validar o velho princípio da ONU, e do direito internacional, dos dois Estados naquele território.
O que mais impressiona nem sequer é esta votação, de hoje, do Parlamento. Com esta composição, e com o PSD no estado a que chegou, não é surpresa nenhuma. O que mais impressiona é que décadas de outras configurações parlamentares não tenham sido suficientes para esse reconhecimento. E aí entra, evidentemente, também o PS. E o estado a que também chegou!
Há um ano, Passos entrou para, sob a bandeira da AD, fazer a campanha do Chega. Desta vez parece que já não é preciso.
Cavaco, das acções do BPN, da casa da Coelha, do aumento de capital do BES, não precisa de muito para sair do formol. Aprecia - e precisa - cada vez mais a bajulação e, ser declarado mentor e mestre de Montenegro é, por esta altura, o máximo a que pode aspirar. Por isso ainda ontem escrevia no "Observador" que não encontrou ninguém com qualquer "superioridade em relação ao actual Primeiro-Ministro na dimensão ética e moral na vida política".
Nem será tanto esta bênção a dizer muito da ética e dos princípios de Montenegro. Diz bem mais que estes dois, nas mesmas circunstâncias, nem sequer se tenham querido aproximar de outros. Como, por exemplo, de Rui Rio.
Há apoios de peso. Mas há também o peso dos apoios!
Não havia necessidade, como dizia o outro. Até porque as oposições foram todas oposição à moção de censura. E bem mais assertivas, eficazes e ... decentes.
Mesmo que ainda há poucos anos fosse de todo improvável, foi sem surpresa que este governo da Região Autónoma da Madeira, de Miguel Albuquerque, caiu. Já nem deveria ter tomado posse, se bem nos lembrarmos ... Mas Miguel Albuquerque e o PSD entenderam por bem passar por isto, e sujeitarem-se a cair por censura, sem honra nem glória. Por uma moção de censura aprovada por toda a oposição.
Nada disto foi nesta altura surpreendente. Há muito que a moção de censura tinha sido apresentada, e há muito que que toda a oposição anunciara que a aprovaria. Apenas foi empurrada por Miguel Albuquerque o mais possível para a frente.
E também não foi surpreendente que, com um microfone à mão, Alberto João Jardim tenha logo culpado a República disto tudo. Que só quer acabar com a autonomia... Vá lá que se esqueceu dos cubanos. Lembrou-se apenas que só depois de ter saído - "quando quis e não quando de Lisboa o empurraram" - é que o caldo se entornou. Que Miguel Albuquerque nunca conseguiu ter o partido na mão.
Enquanto, depois de bombardear Beirute, Netanyahu manda invadir o Líbano, e chama o Irão para a guerra; e Putin reforça o orçamento e o recrutamento para a guerra para fazer capitular a Ucrânica, por cá brinca-se ao braço de ferro num jogo de palavras à volta do orçamento.
Evidentemente que o Orçamento reflecte opções políticas, e que essas variam em função de muita coisa. Às vezes - e nem tem sido raro - até só de estar no governo ou na oposição. E que serve para muita coisa, até para forçar eleições.
Foi assim há três anos, em Outubro de 2021, quando António Costa forçou o chumbo do Orçamento para 2022, para ir procurar a maioria absoluta - que lhe fugira em dois anos antes - que lhe permitisse descartar-se da antes utilitária geringonça. E volta a ser assim agora, para o dois em um de Montenegro.
De uma só assentada Montenegro - em campanha eleitoral desde que empossado primeiro-ministro - empurra o PS para mais longe e o Chega mais para baixo. Os dois movimentos bem podem até abrir espaço para a maioria absoluta. Se não der, mas ficar lá perto é, ainda assim, muito melhor do que o que há.
Tal como há três anos ninguém se importou muito com a falácia justificativa de Costa para rejeitar qualquer negociação, também desta vez ninguém se importará nada com a de Montenegro. Que também não é melhor engendrada: as virtudes da "sua" redução de IRC ainda estão por provar; e "o IRS Jovem" tem tudo para ser inconstitucional e, portanto, impossível de levar à prática.
Fica-se a saber que Montenegro vai forçar o chumbo do Orçamento por duas medidas inócuas: uma que ainda em lado nenhum provou funcionar; e outra que nunca poderá entrar em funcionamento. Mas isso pouco conta. O que vai contar é que Montenegro virá dizer que quem lhe chumbou o orçamento é que atirou o país outra vez para eleições. E o eleitorado, tal como em Janeiro de 2022, nem vai pestanejar para punir os "culpados".
Maria Luís Albuquerque - que conhecemos há dez anos, e de quem não nos esquecemos - foi a escolha de Luís Montenegro para a sempre apetecível vaga na Comissão Europeia reservada ao nosso país. Foi o rebuçado de Montenegro ao "passismo" - é a isto que se chama "o cimento" do poder.
O poder não serve só de afrodisíaco, serve acima de tudo para reforçar quem o tem!
No dia em que Kamala Harris - no encerramento da convenção democrata, em Chicago - fez um discurso de aceitação verdadeiramente histórico, ficamos a saber que o Secretário-Geral do do PSD, líder da bancada parlamentar, e braço direito de Luís Montenegro, tem muitas dúvidas em escolher entre Donald Trump e Kamala Harris.
O PSD ainda não percebeu que o André Ventura tem a boca aberta para o engolir.
Por isso continua, cantando e rindo, sem causas próprias, nem nada para propor ao país, afastado de toda a gente de valor que ainda tinha - a oportunidade desperdiçada de aproveitar a qualidade e o valor de Jorge Moreira da Silva é verdadeiramente chocante -, e a ressuscitar "velhas glórias" do passado, que são só velhas e passado, agarrado à bóia que viu na velha "AD ", hoje uma marca sem "produto".
Sem olhar para a "boca aberta" de Ventura, e sem nada perceber do discurso de Pedro Nuno Santos, o PSD vai alegremente cavando a sua própria sepultura!
Passos recomenda uma aliança dom o Chega, Montenegro finge que não ouve e põe-se a recriar uma história de 40 anos, sobre a qual não diz nada. Põe os outros a falar.
A recriação da AD é tudo pelo que o CDS suspirava. E "chega" a Montenegro, que anda à procura do PPM como de gambozinos, e de independentes como de tesouro escondido. Mas nem tudo é em vão, o CDS não tem votos, mas tem quadros. Que não dão votos, mas podem servir de independentes. E há o método que o Sr Victor Joseph Auguste D’Hondt criou há mais de século e meio...
O IL põe-se de fora, mas lá dentro anda tudo à bofetada. Uns porque não querem ficar de fora. Outros porque só querem estar dentro das listas. Mas lá em cima.
Os jornais exultam, e dão sondagens que mais não são que lenha para a fogueira que arde no IL.
Faltava o PCP juntar-se à festa. Como não sabe onde ir buscar votos diz-se que "pisca o olho" ao eleitorado do Chega. Boa parte dele de lá saído, como se tem visto por aquele Alentejo fora.
Isto anda bonito, anda. E a procissão ainda só vai no adro ...
Acompanhe-nos
Pesquisar
Subscrever por e-mail
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.