O país tinha sérios problemas de qualificação. Era o que há muito se dizia!
Agora parece que tem mas é problemas de sobre-qualificação. E não é pelo simples facto – de que aqui já se falou – de andar por aí muita gente a omitir qualificações superiores para encontrar um emprego. Muito menos pelas Novas Oportunidades. E nem voltar a pensar em Miguel Relvas…
Não. O país dá-se mesmo mal com a preparação das pessoas. A geração mais bem preparada de sempre tem que emigrar, aceitar empregos precários pagos pelo salário mínimo ou esperar por uma inscrição no desemprego. A delegação portuguesa aos Jogos Olímpicos, como se sabe desfalcada dos atletas ainda em competição que conheceram o sucesso olímpico – Nelson Évora, Naíde Gomes, Obikwelu... -, foi apresentada pelo Presidente do Comité Olímpico Português (COP), o eterno Vicente Moura – 18 anos no cargo, os últimos quinze consecutivos -, como a mais bem preparada de sempre. E os resultados estão à vista!
Quando as delegações eram menos qualificadas acabava sempre por surgir uma ou outra medalha. Aqui ou ali uma de ouro, a que se juntava sempre mais uma ou duas, de prata ou de bronze. Especialmente no atletismo, mas também na vela, no judo, no tiro…
Mesmo fora das medalhas obtinham-se bons resultados, e normalmente muitos recordes nacionais. Ora, com a delegação mais bem preparada de sempre, nada disso. Vem toda a gente para casa à primeira, e com resultados muitas vezes bem abaixo das respectivas marcas de referência. Acesso às finais só nas provas cuja entrada é directa, sem qualquer disputa de apuramento!
Ainda se esperou pelo Atletismo. Bastou o primeiro dia para ver que também daí não viria nada de novo. Uma presença na final dos 10 mil metros femininos, porque é prova de entrada directa na final: Jessica Augusto, que se ficou-se pelo décimo quarto lugar!
Não sobram dúvidas, o país tem que rever o tema da qualificação. E o presidente do COP, que se demitira em Pequim para logo voltar atrás, devia ir agora descansar, e aproveitar o tempo para rever também a matéria.
A formação e a qualificação profissional mantêm-se na primeira linha dos desafios que se colocam à economia portuguesa e à nossa sociedade em geral. A par do investimento em I&D, o investimento na qualificação profissional dos portugueses continua a justificar prioridade máxima no quadro da economia nacional.
Não é novidade que os nossos deficits de produtividade e de competitividade resultam, para além de alguns factores de rigidez que se chocam com os novos conceitos de mobilidade e flexibilidade, da insuficiente qualificação dos nossos recursos humanos. Consequência, em primeira análise, do sistema de educação mas também de hesitações e equívocos no paradigma da formação profissional.
A Educação tem sido e continua a ser o grande problema do país. Falamos de analfabetismo, do abandono escolar precoce e do insucesso académico onde, com políticas vocacionadas exclusivamente para maquilhar esses índices, ainda apresentamos taxas que nos envergonham. Mas falamos, também, das muitas licenciaturas, mestrados e doutoramentos substancialmente desfasados das necessidades requeridas para a sustentação da modernização e da competitividade do país.
A formação profissional tem, em Portugal, uma história muito paralela à do processo de integração europeia. Com uma umbilical ligação a fundos comunitários.
Por razões conhecidas (a revolução industrial que não passou por aqui, o condicionamento industrial do Estado Novo, etc.) a economia portuguesa, fiel a um modelo de mão-de-obra barata e, qual ciclo vicioso, de baixa qualificação, tem-se mantido afastada das economias desenvolvidas. Por esta e outras razões (igualmente históricas, políticas, culturais e sociais) o capital humano – conceito praticamente desconhecido até há bem pouco tempo – não figurava no topo das preocupações de empresários e gestores.
Sem tradições de preocupação com a valorização dos seus recursos humanos não admira que equívocos, hesitações e mesmo negligência tenham ensombrado a história da formação profissional em Portugal.
Algo mudou entretanto. É hoje notório que, apesar de todas as dificuldades, se começa a olhar para o factor humano como o mais importante dos recursos. E a apostar na sua valorização como factor de sucesso do negócio, da empresa e do país.
A valorização dos seus recursos humanos, como factor crítico de sucesso, mas também de dignificação do trabalho e de coesão e desenvolvimento social, constitui-se, cada vez mais, como uma variável fundamental da estratégia de desenvolvimento do país. Deve constituir uma missão que a todos envolva. Empresários, porque reforçam os seus activos. E trabalhadores, porque valorizam o seu único activo.
Com iniciativa própria, numa cultura de exigência, rigor e qualidade. Sob pena de continuarmos a desperdiçar recursos, focados em rácios de fachada em vez de resultados.
*Publicado no Região de Leiria em Março de 2008
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