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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #51 QUEIMAR

Por Eduardo Louro

 

          

O verbo queimar é seguramente um dos mais ricos do futebolês. No futebolês, como numa incineradora, tudo se queima!

Não muito longe do que também acontece no futebol: muito se queima e muita coisa arde. Incendeia-se! Por tudo e por nada, ou mesmo por dá cá aquela palha, coisa altamente inflamável, como se sabe!

Incendiários são coisa que não falta no futebol. Sempre prontos a incendiar os ânimos, em quaisquer circunstâncias. São os meninos das claques, que vivem obcecados por chamas e que queimam que se fartam: já não são só as verdadeiras queimadas que fazem nas bancadas, chegam até a queimar autocarros. São os dirigentes, sempre prontos a atear fogo com declarações incendiárias. E são os jornalistas (?), que na maioria das vezes são autênticos pirómanos. Não têm apenas intervenções provocatórias. São verdadeiramente incendiárias. Cirurgicamente!

Então os das televisões constituem autênticos case studies. Se um jogo até nem correu mal de todo – foram lançados para o campo um ou dois telemóveis, duzentas ou trezentas bolas de golfe e o árbitro expulsou dois ou três jogadores, assinalou ou deixou de assinalar, mal, três ou quatro foras de jogo e dois ou três penaltis – está tudo bem. Quer dizer, está tudo devidamente incendiado, e eles limitam-se a manter a chama acesa, não vá o diabo tecê-las e aquilo entrar rapidamente em fase de rescaldo. Mas se o jogo correu mesmo mal – os adeptos portaram-se todos bem e da arbitragem não há nada dizer –, o que é raro mas às vezes acontece, então é vê-los desenfreadamente à procura de um problema, um pequenino problema, o suficiente para libertar uma pequena labareda que seja. 

Para garantir a arte de bem foguear convidam ainda uns comentadores, os chamados paineleiros – atenção que escrevi paineleiro –, membros de um painel, constituído por representantes dos chamados três grandes, dispostos a mandar as suas achas para a fogueira. Não estão lá para outra coisa, apesar de uns mais passarinhos e outros mais passarões!

Não admira pois que, no jogo a sério, no jogo jogado, hajam jogadores a queimar tempo: apanham-se com o resultado que lhes dá jeito e pronto. Tudo serve para fazer com que o relógio ande e o jogo pare: rebolam-se no chão por tudo e por nada, o guarda-redes nunca mais repõe a bola, fogem com a bola para a sombra da bandeirola de canto … Enfim, mais umas coisas capazes de incendiar … as bancadas!

Enquanto isto, do outro lado, queimam-se os últimos cartuchos. Lança-se mão, com inevitável dramatismo, de todos os meios que permitam, à última da hora ou já mesmo fora-de-horas, inverter o tal resultado que, ao contrário, não lhes dá jeito nenhum. Nesta fase tudo é altamente inflamável.

Ao mínimo rastilho tudo se incendeia!

Se a bola queima a linha está lançada a confusão – saiu ou não saiu? Entrou ou não entrou? Se é uma falta a queimar a linha da grande área, a fogueira ateia-se mesmo: foi dentro, para uns. Fora, para outros. Queimar a linha é coisa de incendiário, está visto!

E quando o fumo, de tanto incêndio, deixa tudo negro, no campo a bola passa a queimar. A bola queima, os jogadores não a querem nos pés, querem ver-se livre dela como quem se quer livrar da batata quente. Era o que se via na selecção nacional ainda há bem pouco tempo. A mesma selecção, que não a mesma equipa, que tão mal estivera na África do Sul, que empatava com a selecção do Chipre e perdia com a Noruega, com a bola a queimar tudo e todos, dá um banho de bola e goleia a selecção espanhola, campeã da Europa e do Mundo.

Só porque se mudou o treinador. Um treinador que queima jogadores (queimou os que levou para o Mundial mas também os que por cá deixou) torna-se rapidamente num treinador queimado pelos jogadores! Claro que um treinador pode queimar um jogador. Para queimar um treinador não basta um só um jogador. Mas uma equipa tem muitos!

Claro que há outras formas de queimar treinadores, os dirigentes também sabem da coisa. Há mesmo cemitérios de treinadores, com crematórios e tudo!

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