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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

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Futebolês #105 QUEIMAR TEMPO

Por Eduardo Louro

 

Isto começa a cheirar a esturro: incendiar, queimar… É demasiada combustão!

Desta vez não se incendeiam ânimos nem se queimam bancadas. Trata-se hoje de queimar tempo!

Que é coisa que por cá fazemos muito bem. Se há tarefa que desempenhamos bem é essa de queimar tempo. Somos especialistas em perder tempo. Gostamos fazer passar o tempo e até de ajudas para isso. Daí o sucesso dos passatempos!

O tempo queima-se. O tempo arde e desaparece. É, como o amor para o poeta, e ao contrário das cadeiras nos estádios, fogo que arde sem se ver!

Em futebolês, queimar tempo não é muito diferente. Num jogo de futebol queima-se tempo, mas também se joga com o tempo. Joga-se com a bola e com o tempo! E joga-se também contra o tempo! O tempo é umas vezes aliado e outras adversário. E aqui surge um dos muitos paradoxos em que o futebolês é fértil: é quem tem o tempo como aliado que o queima!

Normal seria que queimasse tempo quem o tem como adversário. Mas não! É ao contrário, quem tem o tempo como adversário não quer que lhe falte nada, trata-o com o maior carinho e respeito. Quem o tem do seu lado queima-o!

Correu por aí esta semana um vídeo do último Benfica – Sporting – ainda e sempre no topo da actualidade, mesmo quando a actualidade já lá vai – onde se via, já mesmo na parte final do jogo, uma louca correria de Jorge Jesus ao longo da linha lateral. Não queimava tempo e corria contra o tempo, ele que tinha precisamente o tempo a seu favor. Gesticulava freneticamente, o que nele não é propriamente uma novidade, sem que se percebesse o que estava a acontecer. Percebemos quando o guarda redes Artur, meio a contragosto e muito surpreendido, lá teve que se deitar no chão: pretendia que se queimasse algum tempo! Que se aproveitassem alguns segundos daqueles últimos minutos que, se para o Benfica avançavam a passo de caracol, para o Sporting corriam mais rápido que uma lebre em campo aberto.

É natural, faz parte do próprio jogo, e não tem nada a ver com fair play – para Jesus uma treta, como há muito se sabe – como muita gente quis fazer crer. O que não é normal é o espectáculo dado pelo treinador do Benfica, mas sabemos que a descrição não é o seu forte. Nem o aproveitamento que muita gente quis fazer, esquecendo-se dos seus telhados de vidro. Num desses telhados de vidro vê-se um jogador estendido numa maca, de polegar estendido e piscadela de olho marota, minutos depois de se rebolar na relva, contorcido com dores.

Onde não se queimou tempo foi no jogo de Zagreb na passada quarta-feira, onde a equipa francesa do Lyon marcou seis golos em 28 minutos. Tantos quanto precisava de marcar para se apurar para os oitavos de final da Champions, à custa do Ajax, que o nosso conceituadíssimo Jorge Sousa ajudava a empurrar, anulando-lhe dois golos limpíssimos no jogo de Amsterdão com o Real Madrid. Lembrou-me aquele Argentina - Peru do Mundial de 78, quando a Argentina dos generais - a quem Avelange entregara a organização daquele campeonato do mundo - precisava de seis golos para, em vez do Brasil, seguir até à final que tinha de ganhar, como ganhou.

Não se queimou tempo mas queimaram-se coisas bem mais importantes, como a credibilidade da UEFA e do Sr Platini! Quem não se queimou – raramente se queima – foi a máfia das apostas…

Queimar tempo não é afinal grave. Graves são as outras coisas!

 

 

 

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