A PARÁBOLA DO ESCORPIÃO
Por Eduardo Louro
A troika é, como se sabe, uma emanação do FMI. A Comissão Europeia e o BCE não estão lá a fazer outra coisa que compor o ramalhete: não têm experiência nestas coisas, acabam agora de entrar nestas andanças!
Das ondas levantadas pela conferência de imprensa de anteontem – que Ulrich pretende agora proibir – e da entrevista do representante do FMI, o dinamarquês Paul Thomsen, à RTP, os media escolheram surfar a da redução de salários no sector privado. Viram ali a onda gigante da Nazaré, da semana passada!
O assunto não constava no texto oficial da troika, mas não foi poupado em tudo o que foi intervenção pública. Na conferência da CIP de ontem – onde tanta coisa importante foi dita, como, por exemplo, Belmiro de Azevedo a dizer que já não acredita neste governo nem neste presidente, ou Fernando Ulrich a dizer o que disse mas, mais importante, a dizer (o que não disse) que a economia não vai poder contar com crédito no próximo ano – aquela confederação patronal não se mostrou nada entusiasmada com o assunto. Importante, na sua perspectiva, é a flexibilidade de gestão do banco de horas resultante da meia hora diária de trabalho adicional. O primeiro-ministro, em Angola, chutou para canto. Oficialmente o assunto não existe! Os opinion maker oficiais do regime vêm a correr desvalorizar o assunto. Com duas correntes: uma que argumenta que isso já foi feito no sector privado e outra que garante não se justificar fazer o que os outros dizem que já foi feito, porque é o prémio de risco do sector. Quer dizer, os trabalhadores do sector privado pagam tudo com língua de palmo através do risco de desemprego. Os do sector público, imunes ao desemprego, é que têm de se contentar com a baixa de salários! Que, ainda por cima, é corte de despesa!
Não é, evidentemente, porque toda a gente esteja contra esta ideia de baixar salários no sector privado que a medida não tem pernas para andar. Ou que a troika não a inclua nos relatórios oficiais. É apenas porque, provocando quebras de receita (IRS e Segurança Social) cavaria mais fundo o buraco orçamental.
O FMI assenta a sua receita na desvalorização cambial. Sempre assim foi, e nunca, até agora, encontrara situações como esta. Não tem plano B! Por isso procura a competitividade nunca através da valorização do que quer que seja mas da desvalorização de tudo o que tenha à mão. E, à falta de moeda, lá vêm os salários em primeiro lugar!
Perguntar-se-á: então mas se, mesmo que funcionários de sétima linha - como o presidente do BPI lhes chama - estes técnicos da troika sabem que aumenta o défice, por que carga de água não resistem a insistir na redução dos salários do sector privado?
É que, como na parábola do escorpião, está-lhe na massa do sangue. A resposta é exactamente a mesma do escorpião para o sapo: porque sou um escorpião e essa é a minha natureza!