Os bancos e as grandes empresas sedeadas na Catalunha estão a anunciar (ameaçar?) deslocar as suas sedes para outras regiões de Espanha. O pontapé de saída foi dados pelos bancos, com o Sabadel na frente, logo seguido do CaixaBank, o dono do BPI e, com o Santander e o BBVA, um dos maiores bancos espanhóis. Seguem-se-lhes muitas multinacionais: a primeira foi a farmacêutica Oryzon Genomics, mas também a Nestlé, a Airbnb e a Volkswagen - com três fábricas na Catalunha - já anunciaram as suas intenções. E até algumas das maiores empresas nacionais, como a Gas Natural SDG.
A surpresa é inversamente proporcional à competência de Rajoy. Se não se pode dizer que estas notícias sejam uma grande surpresa, terá de dizer-se que são um enorme atestado da incompetência de Mariano Rajoy. Mais um, se preciso fosse!
O próprio FC Barcelona, o maior símbolo da identidade catalã, e que já se ofereceu para mediar um diálogo que reclama, não poderá deixar de passar por um dramático processo de "deslocalização".
Com estes trunfos, com a provável quebra de 25 a 30% no PIB da Catalunha e a estimada duplicação da taxa de desemprego, de resto até já anunciadas pelo próprio ministro da economia, se outras razões não houvesse - e até havia, e bem fortes, como a corrupção na generalitat que se esconde por trás do referendo - numa campanha normal, democrática e sem incidentes, o triunfo do independentismo seria muito pouco provável.
Ao não perceber isto, e partir para um confronto onde só tinha a perder, Rajoy confirmou-se um político incompente, radical e politicamente cego. Também sem surpresa!
O radicalismo e a cegueira política de Rajoy não se limitou a espalhar pelo mundo imagens que envergonham a Espanha. Fez mais, muito mais, ao dar ao independentismo catalão a absurda expressão de 90%.
Rajoy não se quis limitar a inverter a relação de forças, quis dar ao separatismo uma expressão avassaladora. A partir de agora, com ou sem validade, legítima ou ilegitimamente, só há um dado objectivo, e esse tem as impressões digitais de Mariano Rajoy: 90% dos catalães desejam a independência!
Como tudo indicava, a Espanha de Rajoy está irremediavelmente a precipitar-se para o caos e para a desagregação. Pretender transformar um problema político numa questão jurídica foi o erro de que Rajoy não se livrará mais.
A Constituição espanhola não é diferente da Constituição de qualquer outro país do mundo. É, primeiro e antes de tudo, um manual político. No século XXI, na Europa, não é possível resolver problemas políticos com repressão, rusgas e prisões. Só Rajoy, e uns tantos que por aí andam com a mesma cegueira política, não percebe isso!
Muita gente na Europa pôde hoje acordar descansada. Na Grã-Bretanha, ém Espanha, mas também em França, na Bélgica e na Itália. E até em Portugal, onde gente que gosta de apimentar tudo o que lhe põem à frente se lembrou que até a Madeira tem velhas pretensões independentistas...
O Não ganhou na Escócia, o único sítio onde, por tudo e apesar de tudo, poderia ganhar. Por tudo o que de substancialmente diferente tem aquela autonomia, por tudo o que ainda mais lhe prometeram, e por tudo o que um pouco por todo o mundo foi feito por esse resultado. E apesar do seu nacionalismo vincado, da sua cultura, e acima de tudo da sua História...