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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Uma raiva a crescer*

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Mais uma fotografia a abalar consciências e a levantar o eterno dilema da sua divulgação, sempre na fronteira - e é de fronteiras que trata - entre a informação e o voyeurismo.

Falo da fotografia que por estes dias vai chocando o mundo, dos corpos inertes de um pai e da sua filha, ligados por uma T shirt que dos dois fazia um só, nas margens do Rio Grande, na fronteira do México com os Estados Unidos. O rio dos Westerns americanos, o rio do Rio Bravo de John Wayne, Dean Martin e Rick Nelson. Meia dúzia de latas vazias de cerveja americana e uma garrafa de plástico, igualmente vazia, de um refrigerante igualmente americano acentuam a cor americana do cenário que envolve o corpo da menina abraçada ao pai.

A mesma cor do sonho que levou uma jovem família salvadorenha que vivia com dez dólares por mês a chegar ao México para, como tantos milhares de outras, entre muros e rios intransponíveis, a escolher rotas cada vez mais perigosas para enfrentar a fronteira da morte, outrora do sonho.

O jovem casal fez-se ao rio, com a filha, Valéria, de dois anos, amarrada por uma Tshirt ao corpo do pai, Oscar, de 28, decididos a atravessá-lo para o lado de lá. Mesmo sabendo que naquela terra os sonhos já foram trocados por pesadelos, nada pode ser pior que o inferno de miséria e violência que querem deixar para trás. Quando a corrente do rio resolveu colocar-se às ordens de Trump e engrossar-lhes a adversidade, a mãe nadou de volta para o México. O pai prosseguiu com a filha bem colada ao corpo… até que a corrente e a morte os devolvessem à margem a que não queriam regressar.

Acontece todos os dias. Acontece com milhares de homens, mulheres e crianças que por aquelas paragens fogem diariamente da violência e da pobreza das Honduras, da Guatemala ou de El Salvador… Desta, como de outras vezes, a diferença é uma fotografia. Que pode até não fazer grande diferença. O mais provável é que dentro de dias, talvez semanas, volte como tantas outras ao esquecimento.

Que ao menos nos faça crescer a raiva!

 

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

Tema(s) da semana*

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(Imagem daqui)

Não fosse o desenlace da telenovela João Félix, com essa transferência de 120 milhões de euros do Benfica para o Atlético de Madrid, e o nome da semana teria sido o de Miguel Duarte, outro jovem português, ligeiramente menos jovem mas nem por isso menos digno de admiração - antes pelo contrário – cuja história saltou para o topo da actualidade no início da semana, com a notícia de que corria - e corre – o risco de ir parar à prisão, acusado pelo governo italiano de auxílio à imigração ilegal

Em 2016 Miguel Duarte decidiu não ficar de braços cruzados a assistir ao trágico destino de milhares de pessoas e integrar-se numa “organização não-governamental” (ONG) alemã que presta apoio humanitário aos desgraçados que fogem da perseguição, da miséria e do terror para se entregarem, primeiro, nas mãos de outros seres humanos sem escrúpulos para, logo a seguir, ficarem entregues a um destino com destino certo no naufrágio dos botes em que são despejados nas águas do Mediterrâneo.

Ajudou a salvar da morte milhares de pessoas - 14 mil - que teriam engrossado os números incalculáveis da maior tragédia do século, que deveria envergonhar o mundo mas que, pelo se vai vendo, não incomoda sequer muita gente. Deixou a sua casa, a sua família e a sua vida para organizar para partir em ajuda de quem nada tem, e a quem tiraram tudo do pouco que alguma vez teve, num exemplo da mais nobre solidariedade que enaltece a condição humana. E agora é acusado de um crime, e em vias de uma condenação a 20 anos de prisão – note-se: 20 anos! -, por um governo italiano para quem os valores da dignidade humana não constituem apenas princípios descartáveis. Não contam, simplesmente…

Foi tardia, e nem sempre convincente, a reacção das entidades portuguesas, que mais pareceu  vir a reboque da onda que foi crescendo na opinião pública, o único verdadeiro consolo que Miguel Duarte encontrou nestes dias, materializado em diversas iniciativas da cidadania, e particularmente na resposta pronta a uma operação de “crowdfunding” lançada para financiar a sua defesa.

Fraco consolo para quem deu tanto. Miguel Duarte merecia melhor. Porventura João Félix também - não mereceria certamente que a sua história se cruzasse com esta!

PS: Fantástica, esta ilustração de Vasco Gargalo.

 

* Da minha crónica de hoje na Cister FM

"Salvar vidas não é um crime"

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Um jovem português - Miguel Duarte - que integra uma ONG alemã (Jugend Rettet) e que há dois ou três anos se dedica a tentar salvar vidas no Mediterrâneo, foi acusado pelo governo italiano de Matteo Salvini (mesmo que o primeiro-ministro seja  Giuseppe Conte) de auxílo à imigração ilegal, o que lhe poderá valer 20 anos de prisão.

Choca que haja gente como Matteo Salvini, que entenda que salvar da água pessoas que estão a morrer afogadas possa ser um crime. E logo tão condenável e tão grave que valha 20 anos de prisão. Mas na verdade já sabemos o que esperar dos Salvinis desta vida. Choca que não tenhamos ouvido ainda uma palavra do nosso primeiro-ministro, nem digo de apoio e garantias de defesa para este cidadão português - para que de resto já pediu ajuda, que está a correr por conta das habituais correntes de solidariedade - mas de um esboço de protesto que seja junto do governo italiano. E choca que o Presidente da República, que tem sempre palavras para tudo e sobre tudo, não tenha encontrado uma para este nosso jovem compatriota. 

 

 

A dimensão do problema, ou um problema de dimensão...

 

O acordo de Merkel com o seu ministro do interior e parceiro de coligação, Horst Seehofer, para já, salvou o governo alemão. Mas não salvou mais nada. Pelo contrário.

O acordo, anunciado com satisfação pelo Sr Seehofer perante o sorriso amarelo da Srª Merkel, converge na construção de "centros de trânsito" na fronteira com a Áustria e na expulsão, mandando-os de volta aos seus países, dos migrantes em "situação ilegal". Todos, evidentemente!

 Angela Merkel, tornada no rosto da tolerância e da democracia europeia, capitulou. E a capitulação é sempre o fim à vista: Merkel tem a partir de agora os dias contados. 

Nada de grave, que por cá mereça grande atenção. Temos coisas mais importantes com que nos preocupar como, por exemplo, estacionamento dos carros da Madona. Esse sim, o grande problema nacional do momento!

 

Coisas dramáticas

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Há muito que tenho para mim que a Europa, depois de salva por duas vezes em pouco anos pelos Estado Unidos, começando por se acomodar à condição de protegida, acabou dependente absoluta dessa protecção, renunciando a qualquer juízo crítico, ignorando liminarmente qualquer conflito de interesses, e assumindo o trágico dogma que, se é bom para a América, é bom para a Europa. 

Este é um tema com pano para mangas, que talvez venha a abordar num destes dias. 

O problema dos fluxos migratórios, hoje central no futuro da Europa, não se pode dissociar dos interesses americanos que a Europa tomou de dores sem perceber que conflituavam com os seus mais básicos interesses geoestratégicos. E é extraordinário que, à beira da implosão, a Europa não perceba isto. Não deixa de ser dramático que Trump invoque o exemplo alemão para justificar os crimes que está a praticar na fronteira mexicana. E que Trump seja exemplo para aprofundar a crise na Alemanha, para a espalhar por toda a Europa e para acabar com o que resta da ideia europeia.

 

 

 

De novo, no Mediterrâneo…*

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A Europa voltou a olhar-se no espelho de água do Mediterrâneo, no drama de 629 refugiados africanos - homens, mulheres, algumas delas grávidas, adolescentes e crianças, resgatados ao mar na madrugada de sábado e manhã de domingo.

E não pôde se não envergonhar-se do que viu nas primeiras vítimas da xenofobia do novo governo italiano, que não serão seguramente as últimas das contradições e dos bloqueamentos de uma Europa amarrada, incapaz de responder à dimensão dos desafios que tem pela frente, entre os quais a resposta a estas vagas migratórias.

Valeu a arrojada e corajosa decisão solidária do novo primeiro-ministro espanhol, que se apressou a chegar-se à frente para evitar uma enorme e injustificável catástrofe humanitária de que a Europa nunca se redimiria. Desta vez…

Porque nada mudou, mesmo que evitar uma catástrofe nunca seja pouco. Ninguém acredita que esta atitude de Pedro Sanchez cure a cegueira da União Europeia, ou que a liberte dos seus fantasmas. A pressão migratória vai aumentar. De imediato, porque vem aí o Verão. A prazo, porque o ritmo de crescimento da população no continente africano é maior que em qualquer das outras partes do mundo. E porque as máfias que a alimentam, para dela se alimentarem, fazem o resto.

Não deixa de ser notável que, num mundo em que tudo circula livremente, em que em especial o capital não encontra barreiras, só a livre circulação de pessoas seja impedida. Que se levantem muros para barrar a passagem das pessoas quando se abrem auto-estradas para que o dinheiro circule mais depressa, e se possível sem deixar rasto.

 

* A minha crónica de hoje na Cister FM

Tantas semelhanças...

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Não sei bem por quê, mas sei que cada vez vejo mais semelhanças entre as mortes de dezenas de emigrantes portugueses nas estradas de França e Espanha e as de centenas de migrantes no Mediterrâneo. Tudo parece tão igual... Estradas tão iguais a mar, carrinhas superlotadas tão iguais a barcos de borracha superlotados... E, por trás, máfias se calhar tão pouco diferentes... E a miséria de que se alimentam. Miséria humana. Miséria que arrasta mais miséria...

Pelo que se vê por esta tragédia que ensombrou a Páscoa de dezenas de famílias portuguesas, por cá acha-se que o mal está nas estradas. As televisões não pouparam em enviados especiais e não nos poupam a reportagens no local. Mas nada vêm para além da estrada. E chamam-lhe da morte. Invariavelmente! 

 

Refugiados: a palavra do ano ... passado.

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De novo, só o ano... Tudo o resto é velho. Quando nada muda se não o tempo, os problemas não ficam apenas mais velhos. Ficam ainda mais dramáticos!

Mais corpos de refugiados que já só são encontrados na praia, sem vida. E até já a Dinamarca e a Suécia fecham fronteiras... Havia certamente forma menos violenta de, neste início de ano, ilustrar a palavra do ano passado!

Marine Le Pen, sem surpresa...

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Marine Le Pen - diria que sem surpresa - ganhou a primeira volta das regionais francesas. Para agora evitar a tomada do poder pela extrema direita francesa é necessário repetir o que aconteceu há anos, quando o pai ganhou também a primeira volta das presidenciais, obrigando à união da esquerda e da direita na segunda volta.

Dessa vez ganhou Nicolas Sarkozy. Desta vez ... também, ao que parece.

A Frente Nacional da extrema direita xenófoba ganhou agora com 30% dos votos, que na região norte, de Calais, passou dos 40%. Resta saber se por ser a região de origem dos Le Pen, se por ser onde estão instalados os desumanos campos de refugiados...

 

PS: Depois da chamada de atenção num comentário abaixo venho corrigir e apresentar as minhas desculpas: Sarkozy ganhou em 2007, à socialista Ségolène Royal. O episódio referido ocorreu nas eleições anteriores, em 2002 com Chirac. 

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