Continuamos, e iremos continuar, sem saber o que, no apagão de ontem, se passou em França e Espanha. Ao contrário, do que se passou em Portugal, sabemos tudo.
Sabemos que estavam desligadas centrais de produção porque é mais lucrativo importar de Espanha. Porque, e isso não sabíamos - valha-nos o Mira Amaral, que sabe da coisa, e não ganha nada do Estado Chinês -, a energia lá comprada custa menos que os custos variáveis da sua produção, cá.
E sabemos, se bem que já soubéssemos de outros carnavais, que somos uns imbecis que, à mínima oportunidade, corremos para os supermercados a limpar as prateleiras, a esgotar a água, as conservas e, claro - não podia faltar - o papel higiénico. Fazemos filas de quilómetros para os postos de abastecimento, para esgotar de pronto toda a gasolina e o gasóleo que por lá haja. Sempre a tentar passar a perna uns aos outros, até desatarmos todos à lambada.
Uma coisa tenho por certa: é muito mais preocupante o que já sabemos do que aquilo que não sabemos. E dentro do que sabemos, é ainda mais preocupante o que já sabemos de nós, do nosso miserável comportamento, do que o ficamos a saber da electricidade que faz o nosso modo de vida.
É mais preocupante a selva em que transformamos Portugal, que a dependência a que as nossas elites condenaram o país.
Não me recordo de um "apagão" destes. Pode até ter havido, mesmo que não me lembre, um ou outro com duração idêntica - no meu caso, ou melhor, na minha casa, foram 9 horas, contadas a partir das 11:33, início do apagão - mas nenhum com esta dimensão. Internacional, e de crise, com o caos a tomar conta das principais cidades do país.
Nem nenhum com as dúvidas e incertezas deste. Sem se saber como, nem porquê.
Pode ser que venhamos a saber o que aconteceu. Para já apenas sabemos que se especulou muito e mentiu ainda mais. Já sabíamos que a distribuição de energia é uma questão de soberania. De que o país abdicou quando a entregou ao Estado Chinês. Agora ficamos a saber - com alguma surpresa - que os sistemas de distribuição de electricidade funcionam em dominó. E que, tal e qual como a de entregar toda a infra-estrutura a terceiros, essa é capaz de também não ser uma grande ideia!
O direito à propriedade é provavelmente o mais apregoado dos direitos, liberdades e garantias. E é, indiscutivelmente, o que mais alvoroço provoca no quadrante ideológico dominante na sociedade portuguesa.
Rasgam-se vestes a propósito de tudo e de nada que coloque em causa sacrossanto direito à propriedade privada. Mas só quando dá jeito. Só para certos proprietários. Há outros, muitos, para quem o direito de propriedade não é direito nenhum. É meramente acessório face aos interesses de outros.
Sabemos bem quem são uns e outros.
Vimos esta semana nos jornais e nas televisões que o governo autorizou a Savannah a ocupar terrenos privados para exploração de lítio em Boticas. Os interesses da empresa a quem o governo entregou a exploração do lítio atiram para a valeta o direito de propriedade da pobre gente de Boticas. Não vem nos jornais, nem aparece nas televisões, o que a REN - propriedade do Estado chinês - faz do direito de propriedade de centenas, ou milhares, de portugueses que têm o azar de ser proprietários de terrenos florestais atravessados pelas suas linhas de transporte de electricidade.
Simplesmente ignora o direito de propriedade e abate indiscriminadamente, a seu bel-prazer, e sem aviso prévio, tudo o que seja árvore nesses terrenos, reduzindo num momento a nada o investimento de anos e anos dos outros.
Se o inalienável e sagrado direito de propriedade não é uma treta, é areia para nos ser atirada aos olhos. Com força suficiente para nos deixar cegos.
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