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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Final infeliz de uma boa história

Casa Aleixo, Campanhã, Porto

 

Não sei se a Casa Aleixo é apenas mais uma vítima da pandemia, mas é certamente mais uma vítima da pandemia. Quero dizer que poderá haver outras razões para o desaparecimento deste ícone da restauração da cidade do Porto. Que poderá haver razões para que não tenha conseguido resistir às provações que o vírus nos trouxe a todos, e em particular ao sector da restauração.

Diz-se que a Casa Aleixo era o restaurante do Porto preferido dos lisboetas, mas isso parece-me redutor. A excelência daqueles filetes não dá para isso. Nunca permitem que se resuma o Aleixo a uma questão de moda ou de clube.

Na primeira vez que lá entrei, há 30 anos, tive relutância em experimentar os filetes. Ia com um amigo (de Lisboa) que fora colega de armas do Ramiro, na Guiné, e que não o via desde esses tempos, pelo que se pode imaginar a festa. Sendo um apreciador de peixe, não tinha boas experiências com filetes. Era daquelas coisas que decidimos que não gostamos e pronto...

Então o Ramiro disse-me que, ali, ou comia filetes... ou comia filetes. Comi - de pescada e de polvo - e nunca tinha comido nada assim... Voltei lá dezenas de vezes. Talvez mais de uma centena, desde então. Cada vez que ia ao Porto, sozinho, com a família, ou com amigos, por mais voltas que desse, a hora de almoço encaminhava-me para Campanhã. E invariavelmente lá encontrava outros amigos. De Lisboa, é certo.

Desconfio que me vai voltar a acontecer. Que lá voltarei a bater com o nariz na porta, como tantas vezes me aconteceu nos encerramentos para férias... Só que já sem poder contar voltar para a próxima.

Um mito em fim de linha

Por Eduardo Louro

 

 

Criamos e desenvolvemos determinados cultos ao longo da vida. Uns ficam para toda a vida, outros vão ficando pelo caminho. Quase sempre com dor, com algum sentimento de perda...

Fui, durante muitos anos, frequentador habitual da Trindade – da Cervejaria Trindade, há dois séculos instalada no convento da Trindade, ali a meio caminho entre o Chiado e o Bairro Alto. Tudo começou na minha juventude e, como muitos outros portugueses – lisboetas ou não – rapidamente transformei aquele belo espaço num local de culto e de tertúlia. E, naturalmente, o bife e a cerveja, únicos e irrepetíveis no meio daquela fantástica azulejaria, no motivo de culto.

Mais longe ou mais perto, nunca ao longo de 40 anos estive muito mais de um mês sem por lá aparecer. Se, como aconteceu durante alguns anos, trabalhava por ali por perto, não havia semana que lá não pusesse os pés…

Nos últimos três ou quatro anos, à medida que as minhas visitas iam ficando cada vez mais espaçadas, com o aumento do fluxo turístico à capital, a Trindade entrou nos roteiros e foi acentuando a sua internacionalização. E, ao contrário do que deveria ser, mas que infelizmente em Portugal nunca é, a qualidade do seu serviço e dos seus produtos começou a degradar-se e os preços a subir!

Durante algum tempo resisti à realidade. As memórias de uma vida e a profundeza de um culto insistiam em sobrepor-se-lhe, e lá voltava eu, sempre acompanhado de discípulos ou de gente pronta a deixar-se evangelizar. Tinha lá estado pela última vez no final do ano passado, num jantar junto ao Natal com mais sete ou oito. Duns e doutros!

Voltei no passado sábado, ao almoço. Com mais doze, duns e doutros…

Não sou capaz de dizer que foi pela última vez. É sempre difícil encarar a última vez, mais ainda perante um monumento da nossa memória.

Pela primeira vez mandei o bife para trás, sem livro de reclamações e sem resinguices. Discretamente, para que nem na mesa todos se apercebessem. Porque um local de culto merece respeito, mesmo que já não respeite os seus fiéis

O bife da vazia já mais não é mais que a imagem de uma sola de um sapato velho e roto. Seco, e fino, só para que se possa mastigar, na vã esperança que, por 25 euros, o molho e a cerveja lhe emprestem uma vaga lembrança do sabor de outros tempos…

Saí sem vontade de lá voltar, triste e calado e com pena daqueles que ficaram a pensar que o bife do meu culto era aquilo … E já cheio de saudades dos tempos da minha velha Trindade, de mais um mito em fim de linha!

 

1º DEZEMBRO

 

 Por Eduardo Louro 

 

Logo ao início do dia, aqui em baixo, convidava ao aproveitamento deste feriado. Porque iria acabar! Quando vemos as coisas a acabar é que lhe damos valor, é que entendemos que as devemos aproveitar…

Entretanto, ao longo do dia, multiplicaram-se os protestos pelo desaparecimento deste dia do calendário de feriados nacionais. Protestos atribuídos a nacionalistas, adjectivo há muito desvirtuado!

No entanto, muitos dos nacionalistas de outros dias e de outras circunstâncias, permitindo que a sua nobre motivação de seguir e defender tudo o que seja medida do actual governo suplante as suas mais profundas convicções nacionalistas, dizem que não há qualquer problema em acabar com este feriado. Tive oportunidade de ver justificações fantásticas. Dois exemplos: comemora-se o dia do pai e, no entanto, não é preciso que seja feriado; ou outro é o dia dos namorados!

Comemora-se hoje, pela última vez em feriado, o dia da restauração da independência. Depois de mais de quatro séculos de independência, uma independência reconfirmada mas não perdida entre 1383 e 1385, perdera-se na sequência de Alcácer Quibir e da crise dinástica, mas também da divisão e do desnorte das elites nacionais e da bancarrota (mais uma) que se lhe seguiram. Foram sessenta anos de domínio filipino e de opressão castelhana a que, graças à coragem e patriotismo dos conjurados, mas também à atenção que os castelhanos estavam obrigados a dedicar à Catalunha, o povo português pôs termo a 1 de Dezembro de 1640.

Na opinião daqueles nacionalistas agora mais dados ao seguidismo governamental, a data pode muito bem continuar a ser assinalada mesmo sem feriado. Sabemos que não é assim. Se, mesmo sendo feriado, uma grande maioria da juventude actual não faz a mínima ideia do que se comemora, daqui a poucos anos não restará memória desta data fundamental da História de Portugal. Claro que a culpa não será apenas deste governo que mata o feriado. Será de todos nós que permitimos que se apaguem todas as memórias…

Não permitimos apenas que se perdessem as memórias. Permitimos que se perdesse a própria independência nacional. Portugal, que deixamos enxamear de Miguéis Vasconcelos, está hoje muito longe de ser um país independente, como bem sabemos.

Daí que me permita a dar uma ajuda aos que procuram argumentos para justificar o desaparecimento deste feriado. É bem simples: não se comemora o que não existe! Se o objecto da comemoração desapareceu, desaparecem, naturalmente, os motivos para comemorar. Ninguém festeja o aniversário depois de morrer!

E assim vai morrendo o país. E assim vamos todos morrendo!

 

 

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