RAZÃO ATENDÍVEL
Por Eduardo Louro
Nunca me parece bem que, quando alguém toma a iniciativa de apresentar uma proposta, seja qual for o enquadramento, venha outro alguém dizer que não é o timing certo. Normalmente quando não há capacidade crítica para contrapor vaie-se por aí: que não é oportuno! Sugere-se que a coisa até nem está mal pensada mas não é para agora! Está fora de tempo e estar fora de tempo é estar mal sem que se diga que está mal. É estar errado!
A verdade é que é mesmo o que me parece acontecer com a proposta de revisão constitucional que o PSD lançou no país.
E aqui abriria um parêntese para referir que também tenho alguma dificuldade em aceitá-la como proposta do PSD. Na verdade tenho alguma dificuldade em percepcioná-la assim no meio da enorme confusão que foi a sua divulgação. À revelia da direcção do partido, que mais não tem feito que correr atrás do prejuízo, também ela meio surpreendida com a proposta e com o seu timing e a ter que explicar, muitas vezes, uma coisa e o seu contrário. E com claras e sucessivas manifestações de divisão partidária vindas de todos os lados, incluído a sagrada Madeira. Portanto: proposta do PSD mas com as devidas reservas!
Mesmo não gostando de invocar essa razão, como atrás manifestei, tenho imensa dificuldade em encontrar uma razão atendível – para utilizar aquela que, seguramente, será a mais discutível expressão utilizada na proposta – para, quando o país vive o drama da ingovernabilidade e da incompetência governativa, transformar a revisão constitucional na grande questão nacional do momento.
Não faz qualquer sentido e parece-me mesmo que foi a maior maldade que alguém do PSD poderia fazer ao seu presidente. Não é apenas por o ter obrigado a canalizar todas as energias para uma questão que, na actual conjuntura, é absolutamente extemporânea para a generalidade dos portugueses. É que foi uma boa tábua lançada ao governo – e é ver como saltou todo o governo, à excepção do ministro das Obras Públicas, que anda mesmo desaparecido – que pôde dedicar-se em exclusivo à defesa do Estado Social e apresentar-se como o único arauto da defesa dos direitos dos trabalhadores, do Serviço Nacional de Saúde e do Ensino Público como grande promotor da igualdade de oportunidades.
Quando a notícia absolutamente incontornável é a do agravamento do défice na execução orçamental do primeiro semestre. Quando esse agravamento persiste apesar da receita fiscal ter superado a orçamentada. Quando esse agravamento mostra que o monstro continua a crescer desmedidamente, apesar de sabermos que continuam os processos de desorçamentação. Quando aos portugueses todos os sacrifícios são impostos e o Estado continua alegremente a esbanjar, como o episódio dos carros que aqui referi há uns dias ilustra, não se encontra uma razão atendível para transformar a revisão da constituição na grande questão nacional deste tempo!
