Foi no desempate por pontapés de penálti que, em Munique, a selecção ganhou à Espanha e conquistou a segunda Liga das Nações.
Apesar de ... não vale a pena enumerar... Foi apesar de ... tudo, que a selecção ganhou.
E isso deve ter bastado para segurar o emprego - dos mais bem pagos do mundo - a Roberto Martinez. E para lhe continuar a permitir fazer coisas como colocar o João Neves a jogar a lateral direito. Ou manter Cristiano Ronaldo na equipa até lá chegar o Cristianinho.
Mas pronto. E Portugal é o primeiro a bisar na conquista desta espécie de Taça da Liga para as selecções. E, para já, detém metade destes troféus: dois (depois de conquistar a primeira edição, em 2019), em quatro!
O sucesso eleitoral de André Ventura, e do Chega - uma e a mesma coisa -, deveu-se a ter trazido para o debate político o tema da corrupção, para depois o cavalgar nas asas do mais primário discurso populista.
O tema, e a forma como era proposto, rapidamente seduziu o eleitorado, e resultou em mais de um milhão de votos nas legislativas de há um ano, entre desiludidos dos partidos do sistema e abstencionistas afastados do ritual do voto.
Ontem, na Madeira, em eleições antecipadas por, há três meses, o parlamento regional ter feito cair o Governo por fortes suspeitas de corrupção, os eleitores - mais eleitores, com a queda da abstenção (de 46,6% para 44,02%) - deram quase mais 30% de votos ao arguido por corrupção Miguel Albuquerque, e à lista do PSD com quatro arguidos no mesmo processo.
Ontem os eleitores madeirenses deram a maioria absoluta (o deputado que lhe falta para a maioria absoluta está eleito pelo CDS) a um arguido por corrupção e castigaram severamente (perdeu 5 mil eleitores e um deputado - só a tareia do PS foi maior, mas essas são contas de outro rosário) o partido da dita bandeira contra a corrupção.
No país, com Montenegro enfiado até ao pescoço nas suas muitas e variadas trapalhadas, com autarcas arguidos em processos de corrupção, e com tudo o que se conhece da operação Tutti Frutti, o PSD (em rigor a AD não passa do PSD) apresta-se para ganhar as eleições de 18 de Maio.
Poderia dizer-se que as pessoas se fartaram depressa de ouvir falar em corrupção, e que já não querem saber disso para nada. Mas acho que não: acho que isto são os valores do povo português, os tais que Roberto Martinez diz que a selecção mostra.
Um erro de António Silva - é assim que ficará para a História, se bem que o de Danilo tenha sido bem mais evidente - acabava o ponteiro dos segundos de dar a sua primeira volta, e o talento de Kvaratskhelia, a estrela da Geórgia que brilha no Nápoles, deixaram os georgianos na frente do marcador e confortáveis na sua estratégia, praticamente decalcada da da Chéquia, no primeiro jogo da selecção portuguesa. Como Roberto Martinez também decalcou as asneiras desse jogo, sem a sorte de então, a exibição e o resultado não poderiam ser diferentes do que foram esta noite em Gelsenkirschen.
Relativamente ao último jogo, com a Turquia, o seleccionador manteve apenas três jogadores: o guarda-redes, Diogo Costa, o trinco, Palhinha e o ponta de lança, Ronaldo. Este tem de jogar sempre. Mudou oito jogadores e mudou tudo, regressando aos três centrais, às invenções, com os laterais a jogar por dentro - desta vez foi com Dallot -, e aos jogadores fora das suas posições naturais, da falhada experiência com a Chéquia.
Mas conseguiu ainda fazer pior: juntar Palhinha aos três centrais.
Não. Não começou tudo no erro de António Silva. Começou antes. E não se esgotaram os erros nos de António Silva. Que cometeu outro, no início da segunda parte, que deu num penálti, e no segundo golo da Geórgia. Que, na estreia num Europeu, conseguiu o apuramento para os oitavos de final, pondo de fora a Hungria (com que já contávamos para os oitavos de final) e deixando-nos a Eslovénia pela frente.
Começou na mediocridade de Martinez. Que não é de agora, e que só por milagre melhorará.
A partir do segundo golo - no penálti convertido por Mikautadze, que é por esta altura, com três golos, o melhor marcador da competição -, ainda nos primeiros 10 minutos da segunda parte, esteve sempre mais iminente o terceiro da Geórgia que o ponto de honra da selecção portuguesa.
É verdade que a arbitragem - talvez a pior de toda esta fase de grupos - não ajudou nada. Nem, ao contrário daquilo a que nos estávamos a habituar, a sorte. Mas não é menos verdade que a selecção portuguesa não mereceu melhor que o enxovalho de uma derrota clara perante um adversário que ocupa a 74ª posição do ranking mundial.
Seguem-se os oitavos de final. Onde há gente que não merecia lá estar. Por exemplo a Inglaterra, a maior decepção no que à qualidade de jogo diz respeito, e a Itália. Mas onde estão a Suíça, a Áustria, a Eslovénia e a Dinamarca, as equipas mais bem trabalhadas. A Espanha é de outro campeonato.
Voltou, doze anos depois, a ser a selecção mais completa da Europa. Agora num registo completamente novo, sem o velho - e às vezes entediante - tiki-taka.
Ao quinto dia do Campeonato da Europa chegou a vez do Grupo F, o de Portugal. Abriu com o Turquia - Geórgia, que os turcos, com muita sorte, ganharam por 3-1.
Depois veio a estreia da selecção nacional, com a Chéquia. E foi uma desilusão!
À selecção faltou tudo. E faltou aquilo que - dizem - tem para dar e vender: talento. Contra a mais fraca equipa do grupo - e, pelo que se pôde ver até agora, a mais fraca da competição depois da Escócia - a selecção nacional só não perdeu porque os jogadores checos (ou será chéquios?) fizeram-nos o que os nossos nunca conseguiram: o golo do empate, e a assistência para o da vitória, de Francisco Conceição (entrado ao minuto 90, com Pedro Neto, que fez a "pré-assistência"), já na "compensação".
À excepção esses dois decisivos momentos de ajuda checa a selecção foi os equívocos de Roberto Martinez, e foi Vitinha. Apenas Vitinha se salvou da confusão que o seleccionador lançou na equipa, incapaz de jogar outro futebol que não aquele de duas velocidades (parado e devagar), de passe para o lado, e para trás.
Frente a uma equipa que só defendeu, a selecção passou o tempo a andar por ali com a bola, incapaz de um passe de ruptura, de um lance bola parada minimamente preparado, de um cruzamento com nexo. Na primeira vez que os checos chegaram à área portuguesa, e remataram à baliza, marcaram. Para trás tinha tinha ficado mais de uma hora de jogo naquilo. Para a frente restou meia hora do mesmo, dividida em duas partes: uma primeira, de 7 minutos, até que o amigo Hranac metesse a bola na sua baliza, e uma segunda de 23 minutos, como se o golo do empate não tivesse existido.
Se é isto que, com estes jogadores, Roberto Martinez tem para mostrar, ninguém consegue perceber donde é que vem essa ideia de Portugal ser candidato a ganhar este Europeu.
Roberto Martínez anunciou ao início da tarde os 26 convocados da selecção portuguesa para o Campeonato da Europa, a realizar-se na Alemanha entre os dias 14 de Junho e 14 de Julho. São eles:
Guarda-redes:Diogo Costa (FCP), Rui Patrício (Roma), José Sá (Wolverhampton)
Defesas:Pepe (FCP), Gonçalo Inácio (Sporting), Rúben Dias (Manchester City), António Silva (Benfica), Danilo (PSG), Diogo Dalot (Manchester United), João Cancelo (Barcelona), Nélson Semedo (Wolverhampton), e Nuno Mendes (PSG)
Médios:Rúben Neves (Al-Hilal), João Palhinha (Fulham), Vitinha (PSG), Bruno Fernandes Dalot (Manchester United), Bernardo Silva (Manchester City), João Neves (Benfica) e Otávio (Al-Nassr)
Avançados:Cristiano Ronaldo (Al-Nassr), Gonçalo Ramos (PSG), Rafael Leão (Milan), Diogo Jota (Liverpool), João Félix (Barcelona), Pedro Neto ( Wolverhampton) e Francisco Conceição (FCP)
Dir-se-á que sem surpresas, mesmo com mais três em relação ao anterior limite de 23. Poderão perguntar por Pote e Nuno Santos, do Sporting e habituais ausentes, Jota, do Vitória Sport Club, ou Ricardo Horta e Bruma, do Sporting de Braga, todos anteriormente convocados. A resposta sairia em pergunta: e quem tirariam?
A parte fácil da resposta seria Pepe e Cristiano Ronaldo. Mas essa é a parte impossível. Têm lugar cativo! Mesmo que o mais provável seja que o defesa luso-brasileiro nem esteja sequer em condições de jogar cinco minutos. E que "o melhor do mundo" jogue cada um dos minutos de cada jogo que a selecção dispute.
Há 10 anos foi divulgada a convocatória para o (frustrante) Mundial do Brasil. Desses 23 de então permanecem três: os dois atrás referidos e Rui Patrício. E em actividade William Carvalho e Rafa - que renunciou à selecção -, já que Neto colocou ponto final na carreira há dois dias.
A selecção nacional de futebol concluiu ontem a fase de apuramento para o Euro 2024 culminando, com a vitória (2-0, com golos de Bruno Fernandes e Ricardo Horta) em Alvalade sobre a Islândia, num inédito apuramento plenamente vitorioso. Dez jogos, dez vitórias. E com o maior número de golos marcados (37), e o menor de sofridos (2), de sempre!
E, se não sempre, na imensa maioria dos dez jogos, com exibições de alto nível. Poderá dizer-se que o grupo era acessível. Que não encontrou adversários de grande porte, mas também isso depende do patamar que a selecção portuguesa atingiu no panorama do futebol mundial. Durante décadas o apuramento para uma fase final de uma grande competição de futebol era inacessível. Depois passou a esporádico - 1966, 1984 (curiosamente com participações entusiasmantes), 1986 (desastrada) e 1996.
A partir daí só falhou o Mundial de 1998, em França. E, com maior ou menor dificuldade no apuramento, e maior (Euro 2000, 2004 e 2012 - 2016 foi o do inédito título, mas não foi especialmente brilhante - e Mundial de 2006), ou menor brilho (Mundial de 2002 e de 2014) nas fases finais, esteve sempre presente nos maiores palcos do futebol mundial.
Este período que lançou a selecção portuguesa para o grupo das selecções obrigatórias nas fases finais iniciou-se com Humberto Coelho, e a magnífica equipa de 2000. Por razões nunca esclarecidas, mas que se lêem bem nas entrelinhas daquilo que é o futebol em Portugal, foi substituído por António Oliveira, no fiasco de 2002. A partir daí sucederam-se reinados mais ou menos longos. Primeiro o longo reinado de Scolari, depois os mais curtos de Carlos Queiroz e Paulo Bento, até ao longo de Fernando Santos.
As gerações de grandes jogadores portugueses iam-se sucedendo, à volta de Cristiano Ronaldo - que tem hoje colegas na equipa que ainda não eram nascidos quando ele começou -, à medida, cada vez mais evidente, que se falhavam grandes selecções, daquelas que são sempre favoritas a ganhar o que disputem, e que deixam o perfume do bom futebol espalhado por onde quer que passem. Com Fernando Santos vieram os títulos - o Europeu de 2016, e a primeira das edições da Taça das Nações - mas nunca a afirmação de uma selecção ao nível da qualidade dos jogadores portugueses, sobejamente exibida nas equipas que integravam, nos maiores clubes do mundo.
Fernando Santos aprisionava o (crescente) talento dos jogadores e era ele próprio refém. Refém da forma como ganhou o Campeonato da Europa, em França. E ... de Cristiano Ronaldo. Incapaz de se libertar de um sem se libertar do outro.
Quando o tentou, quando forçou, acabou.
Chegou Roberto Martinez e logo se percebeu por que lado tinha partido a corda que, em desespero, Fernando Santos puxara. Deslocou-se de imediato a Riad e essa mensagem de vassalagem não augurava qualquer mudança.
A vantagem do treinador espanhol, para além da de rapidamente "se fazer português", foi não estar refém de França. Com isso conseguiu libertar os jogadores, formar um grupo, e fazer desta selecção uma equipa capaz de soltar o talento imenso dos jogadores que a compõem. E de, mesmo a jogar muitas vezes com dez, surgir na Alemanha, no início do próximo Verão, com a condição de candidata a campeã europeia.
Há poucos meses em Portugal, o homem expressa-se em português e canta o hino. Mas não é só isso - há poucos meses em Portugal, o homem está um autêntico dinossauro do futebol português.
Roberto Martinez não aprendeu depressa. Já trazia a lição bem estudada.
Por isso nada mudou, nada muda e nada mudará. Era esse o objectivo - mudar para que tudo ficasse na mesma.
Mudança, mesmo, apenas nos três centrais. Uma mudança por nada, e para mais nada que continuar a desperdiçar o talento destes jogadores. Nem "o pé quente" mudou. Sem jogar nada, a selecção continua a ganhar.
Quatro jogos, quatro vitórias. O melhor de sempre em fases de qualificação, dizem. Sim, quatro vitórias ... com o Liechtenstein e o Luxemburgo, em Março, e com a Bósnia, no sábado passado, e a Islândia, hoje. Se, no sábado, Bruno Fernandes, Bernardo Silva e o exagero do resultado (3-0) ainda conseguiram disfarçar alguma coisa hoje, nada, nem o resultado (1-0, à última da hora, caído do céu) nem ninguém, conseguiu esconder que "o rei vai nu". Que a equipa é uma confusão, que as substituições são só absurdas, servem apenas para emendar a mão, e minorar os erros das disparatadas opções iniciais, e que a opção dos três centrais é uma aberração à luz do naipe de jogadores de que dispõe.
Bem pode Roberto Martinez falar português, e cantar o hino. Aquela sua primeira viagem mostrou ao que vinha. A disparidade de tratamento que deu a uns assobios e a outros confirmou que não é por bem.
Era suposto ter-se aberto um novo ciclo na selecção nacional de futebol. Encerrado o ciclo do mundial, de má prestação, a "novela" Cristiano Ronaldo, e a rescisão do contrato com Fernando Santos, com a contratação um novo seleccionador, teria de abrir um novo ciclo.
Parece que não. A primeira acção do novo seleccionador, a viagem à Arábia Saudita, de vassalagem a Cristiano Ronaldo, começou logo a dizer que não. A primeira convocação de Roberto Martinez, confirma-o.
"É preciso que alguma coisa mude para que tudo fique na mesma", como Fernando Gomes gosta. Mudou o seleccionador para que tudo ficasse na mesma, e Roberto Martinez foi o agente da mudança para nada mudar.
Cristiano Ronaldo "tem compromisso" - garantiu o novo seleccionador. Que não olha para o bilhete de identidade. Por isso não vê os 40 anos de Pepe, e o largo futuro que tem num novo ciclo. Não admira, porque também não vê que ele nem está a jogar. Também não admira, porque também não vê que Matheus Nunes também não. E que assim vai continuar, porque até mesmo sem jogar é expulso. Rúben Neves lá vai estando em campo. Jogar é que ... está difícil.
Florentino e Pedro Gonçalves é que não. São bons, diz Roberto Martinez, mas por agora ainda não tão bons como Rúben Neves e Matheus Nunes. E não cabem todos. São só 26!
Está apresentado o novo seleccionador nacional - Roberto Martinez, o espanhol que abandonou a selecção belga depois do mundial. É o terceiro estrangeiro no cargo, depois de Otto Glória - que no épico mundial de 1966 era treinador, que não seleccionador, esse era Manuel da Luz Afonso - e de Scolari, e será porventura uma das melhores opções para, nesta altura e nestas circunstâncias, substituir Fernando Santos.
Gorada a aventureira, e irracional, hipótese Mourinho, actualmente apenas um "Fernando Santos" mais caro, e sem alternativas credíveis disponíveis no mercado nacional, um treinador estrangeiro experimentado e testado em contexto de selecção - ainda mais numa de topo, a que mais duradouramente liderou o ranking FIFA nos últimos anos - seria sempre uma das melhores escolhas.
Poderá criticar-se a duração do contrato, por entrar já no mandato da próxima direcção. Mas também não seria fácil contratar um treinador de primeira linha sem uma perspectiva de ciclo. E este é já o do mundial de 2026!
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