O preço do petróleo continua em baixa e Angola vai passar por dificuldades. As empresas portuguesas vão ter que se preparar para alguns atrasos nos pagamentos, avisou Rui Machete. Que, como se sabe, com um microfone á frente e a cabeça um bocado oca, depois de tomar balanço ninguém mais pára... Daí que, logo de enfiada e sem tomar fôlego, tenha tratado de sossegar toda a gente. Em especial os angolanos, com a imediata iniciativa de ajuda. Não temais, Portugal vai ajudar. Desde logo com a receita mágica: austeridade.
Não há volta a dar, angolanos. Agora terão de ser pelo menos dois anos de austeridade. E nisso, já sabem: podem contar com Portugal, de austeridade sabemos nós. Nisso, Portugal tem uma larga experiência e inestimável Know How. Os amigos são para as ocasiões, e Angola tem a sorte de ter em Portugal um amigo dos velhos, e que sabe de austeridade como ninguém...
E a gente a pensar que Angola teria de deixar de ser simplesmente uma petro-economia, que teria de acelerar estratégias de diversificação da sua economia, e de acrescentar valor à imensidão dos seus recursos naturais...
Que imbecis que somos. Então não se está mesmo a ver que austeridade é que é a solução?
Não fora esta mente brilhante, este verdadeiro pateta visionário a quem Passos Coelho, em boa hora, entregou a condução da política externa portuguesa, e ninguém teria visto aquilo que está mesmo à frente dos olhos.
Rui Machete andava desolado com tanto esquecimento, tão afastado que andava das primeiras páginas dos jornais, e não disfarçava mesmo uma pontinha de inveja dos seus colegas da Educação e da Justiça.
Entendeu que chegara a altura de dizer basta, e se bem o pensou melhor o fez: sem mais nem menos, sem que se saiba porquê nem para quê, desata a efabular sobre umas raparigas portuguesas que pretenderiam abandonar os terroristas do Estado Islâmico. E os seus noivos e maridos...
Estranhamente – ou talvez não – não tem sido dado grande relevo à unanimidade com que os ministros dos Negócios Estrangeiros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP), na cimeira extraordinária realizada na passada quinta-feira, em Maputo, recomendaram a adesão da Guiné Equatorial.
A entrada deste país de língua espanhola, uma das mais antigas e repressivas ditaduras africanas – Obiang, o oitavo mais rico governante do mundo, num dos mais pobres países do planeta, tomou o poder há 35 anos através de um sangrento golpe militar – que viola os estatutos da organização, acontecerá já este mês, na cimeira de chefes de estado em Dili.
Para além de envergonhar Portugal e os portugueses – coisa a que Rui Machete já nos habituou – esta decisão confirma que, como também já há muito desconfiávamos (o Acordo Ortográfico é apenas um detalhe), o país não tem já qualquer peso na organização. Que também não é já uma comunidade de países que tem a língua portuguesa como eixo central, mas apenas um organização comercial ao serviço de intresses de estratégias de potência. Uns com vista para um estatuto de potência regional, e outros com horizontes mais ambiciosos, virados para o estatuto de potência global emergente. Uma organização que, por acaso agora com a Guiné Equatorial, passa a ter uma capacidade de produção de petróleo idêntica à do Médio Oriente!
Rui Machete, na sua linguagem muito própria, garantiu que "Portugal se sente à vontade com esta decisão". Não admira, também já sabemos como esta não é gente de grande exigência. Contentam-se com migalhas, como se tem visto nas privatizações. Bastou-lhes os milhões que o ditador mandou directamente para o Banif e para o BCP para que “se sintam à vontade”!
Temos o muito nosso hábito de transformar os mortos em pessoas perfeitas. Um tipo pode não ter sido lá grande coisa em vida, mas logo que morre passa a ser o melhor do mundo… É normalmente assim em Portugal, e a isso chama-se hipocrisia. Em que também não somos nada maus…
A morte de Mandela mostrou-nos que essa hipocrisia não é um exclusivo nacional, mas mostrou-nos também que nem no caso deste Homem ímpar deixamos os nossos créditos por mãos alheias. A unanimidade à volta de Mandela não é assim tão desprovida dessa hipocrisia. Por exemplo, foi bonito de ver o discurso de Obama, elevando Mandela à categoria de seu mentor, de exemplo no passado e de luz para o futuro. Mas Mandela manteve-se proscrito nos Estados Unidos até 2008, foi mesmo até então considerado terrorista…
Também o Presidente Cavaco - que ultrapassa o ridículo - e o primeiro-ministro Passos, não pouparam nos encómios, deixando a ideia que também em Portugal se não fugia à unanimidade em volta desta que é uma das maiores figuras da História Contemporânea. Tem sido no entanto recordada uma das últimas iniciativas em sede de plenário da ONU contra o regime do apartheid, em 1987, numa votação em que se pedia a libertação de Nelson Mandela, onde o governo presidido por Cavaco levou Portugal a votar contra, ao lado dos Estados Unidos, de Regan, e do Reino Unido, de Tatcher.
Ouvido sobre assunto, o actual ministro dos negócios estrangeiros engasgou-se - mas isso já é costume em Rui Machete – acabando por se limitar a invocar a sinceridade dos sentimentos manifestados agora pelo governo português. Mais refinadas foram as declarações de João de Deus Pinheiro, ministro dos negócios estrangeiros (MNE) daquele governo de Cavaco, para quem a decisão teria sido de um qualquer director geral. Dele – MNE – não tinha sido e que Cavaco não tinha tido nada a ver com aquilo. Que o que importava relevar era o papel do agora Presidente da República no fim do apartheid na África do Sul, vejam só.
Já assegurada está a incrição no famoso livro como o ministro que mais disparates diz, graças ao joker que a qualidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros lhe garante...
No discurso sobre o estado da Nação, hoje, na Assembleia Nacional de Angola, José Eduardo dos Santos declarou o fim da parceria estratégica com Portugal - seja lá isso o que for - cuja consequência imediata e óbvia é o cancelamento da cimeira agendada para o próximo mês de Fevereiro, em Luanda.
Não há qualquer surpresa nesta posição. Quem viesse acompanhando nos últimos dias a escalada de violência editorial do Jornal de Angola, depois de conhecidas as absurdas, insensatas e estúpidas declarações do ministro Rui Machete à Rádio Nacional de Angola, percebia que isto estava prestes a suceder.
Isto, seja lá o que for, é para levar a crédito deste incrível ministro dos negócios estrangeiros. Que, pelo que afirmou, Passos Coelho mantinha no governo para não prejudicar as relações com Angola. Pois!
O Ministro dos Negócios Estrangeiros (MNE) pediu desculpa – desculpa diplomática – às entidades angolanas pelas investigações da Justiça portuguesa a altas figuras do regime. E disse-lhes que estivessem tranquilos, que soube pela Procuradora Geral da República (PGR) que nenhuma situação é grave.
Joana Marques Vidal, a PGR, desmente e lembra que Portugal é um Estado de Direito, onde há separação de poderes.
O Primeiro-Ministro é interpelado sobre o caso no Parlamento mas ignora-o, acha que não tem nada que responder.
Na SIC Notícias, há momentos, a deputada e vice-presidente do PSD, Teresa Leal Coelho, que já vimos que é mulher para tudo o que seja disparate, e que não sabe o que é vergonha, nega a evidência e tem lata para, perante o registo das declarações, dizer que o ministro não está a dizer aquilo que está a dizer. Perplexo, o Mário Crespo - até o Mário Crespo, vejam bem - volta a passar as declarações, para que ela se não enterre mais. Imperturbável, a senhora deputada volta a repetir que o ministro não está a dizer aquilo que continuamos a ouvi-lo dizer.
Rui Machete soma e segue e continua MNE... Porque isto é Portugal, hoje e agora!
Um barão é isto. O barão nasceu e cresceu no regaço do cavaquismo e reproduziu-se no aconchego do bloco central dos interesses, no centrão, no núcleo do regime.
O barão tem um percurso natural: do governo para a vida. Parte do governo – onde a prepara - para chegar à vida, ao conforto de uma vida institucional e empresarial cheia e preenchida. É um percurso de um só sentido, sem retorno: uma vez lá chegados, não mais regressam…
A escolha de Rui Machete para o governo foi um dos grandes absurdos de Passos Coelho. Por todas as razões, mas também por esta - pelo regresso contra-natura, fora de rota!