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Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Quinta Emenda

Tenho o direito de ficar calado. Mas não fico!

Isso era há muito tempo, dr Portas...

Por Eduardo Louro

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Um fim de semana em cheio. Depois de fugir e de se esconder, em Braga, Portas descobriu a mulher, em Vagos.

Calma, não se apressem. Portas não descobriu uma mulher, não encontrou a cara metade para lhe "organizar a casa, pagar as contas a dias certos, pensar nos mais velhos e cuidar dos mais novos". Portas não descobriu mulher nenhuma, aproveitou apenas terreno fértil para recriar a mulher do doutor Salazar, como ele gosta de respeitosamente pronunciar!

Olhe, doutor Portas, caso não tenha reparado, isso já não se usa. Quero dizer-lhe, agora eu muito respeitosamente, que o doutor Salazar pensava assim, mas já foi há muito tempo...

"Obviamente demito-o"

Por Eduardo Louro

 

Há precisamente cinquenta anos, comemoram-se hoje, a mando de Salazar a PIDE assassinava cobardemente um dos últimos heróis nacionais, perto de Badajaz, para onde arrastara o General Humberto Delgado através de ardilosa cilada. 

O General Sem Medo, como ficou para a História pela maneira como enfrentou o regime criminoso de Salazar, com o qual há muito que rompera, ousara sete anos antes candidatar-se à Presidência da República. Fez de 1958 o ano de maior agitação política e de maior mobilização popular dos quase cinquenta da ditadura. E fez, como nunca antes, tremer o regime com a mais célebre a expressão da História Contemporânea de Portugal, quando então se referiu a Salazar com o "obviamente demito-o". 

A maior de todas as fraudes eleltorais de Salazar impediiria então Humberto Delgado de mudar o rumo da História. E Salazar não hesitou em recorrer ao provavelmente mais hediondo de todos os seus crimes para o eliminar!

Virtudes, atitudes, acção política …

Convidado: Luís Fialho de Almeida

 

Transcrevo com as devidas reservas:

“… Devo à Providência a graça de ser pobre: sem bens que valham, por muito pouco estou preso á roda fortuna, nem falta me fizeram nunca lugares rendosos, riquezas, ostentações. E para ganhar, na modéstia a que me habituei e em que posso viver, o pão de cada dia não tenho que enredar-me no trama dos negócios ou em comprometedoras solidariedades. Sou um homem independente.

“Nunca tive os olhos postos em clientelas políticas nem procurei formar partido que me apoiasse mas em paga do seu apoio me definisse a orientação e os limites da acção governativa. Nunca lisonjeei os homens ou as massas, diante de quem tantos se curvam no Mundo de hoje, em subserviências que são uma hipocrisia ou uma abjecção.

“Se lhes defendo tenazmente os interesses, se me ocupo das reivindicações dos humildes, é pelo mérito próprio e imposição da minha consciência de governante, não por ligações partidárias ou compromissos eleitorais que me estorvem. Sou, tanto quanto se pode ser, um homem livre …”

António de Oliveira Salazar, 7 de Janeiro 1949

Salazar, o mais votado no programa televisivo ”Os Grandes Portugueses” que decorreu na RTP1, entre 2006 e 2007, anda muito presente no pensamento de muitos, e inúmeras biografias têm sido publicadas. Sinais de 40 anos de uma democracia progressivamente debilitada pela incapacidade dos sucessivos governos e forte expressão de elites cujas virtudes, atitudes e acção politica não dignificam os princípios democráticos da “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”.

As ditaduras que prevaleciam no sec. XX, nomeadamente na Europa, com Stalin, Hitler, Mussolini, Franco e Salazar, justificavam o centralismo do poder em princípios orientadores que dessem o sentido às respectivas sociedades. Por cá a pedagogia centrava-se em “Deus, Pátria e Família”, valores administrados de forma distorcida e exacerbada na orientação dos governados, para esconder as políticas protecionistas de outros interesses, corrupções e outras vergonhas.

Ler Salazar de 1949, faz-me lembrar, em tempos bem mais próximos, entrevistas de Armando Vara, Dias Loureiro ou Duarte Lima - não citando outros por prudência -quando estavam no exercício de cargos da governação politica, cheios de virtudes, aparentemente formatadas por excelso bom senso e esmerada educação.

Com o processo democrático, à trilogia “Deus, Pátria e Família”, sobrepôs-se a “Liberdade”, mas esta foi servida de forma desregrada, sem manual de instruções, e o próprio conceito iluminista do sec. XVIII, de liberdade como ”a obediência às leis que cada um estabeleceu para si próprio” tem servido para todos os atropelos. Quanto à “Igualdade”, estamos longe de cumprir com os seus princípios subjacentes: “de igualdade perante a lei (isonomia)”, “de igualdade no acesso ao poder (isocracia)” e “igualdade no acesso à palavra ou liberdade de expressão (isegoria)”. E quanto à “Fraternidade”, tal como a “Moral”, fundadas no respeito pela dignidade e igualdade de direitos, nunca passaram de conceitos bafientos de sacristia, quando na prática as elites no poder e lobbies económicos tudo fazem para, em benefício de poucos, tirarem os recursos a muitos.

Salazar deixou o país com 866 toneladas de ouro, mas o povo era pobre, emigrado e triste. Não culpemos o actual regime democrático, mas sim a irresponsabilidade dos que não zelaram pela aplicação dos seus “princípios”, que deixa o país com reduzidos recursos, apenas 382 toneladas de ouro e uma dívida insustentável. Mas o país está melhor – diz Passos Coelho – só que o povo volta a ser pobre, emigrado, e agora também deprimido e envelhecido. E depois admiram-se que Salazar seja lembrado, ou que votem nele, como aconteceu no concurso televisivo de 2006 a 2007.

Na democracia temos direitos, mas também o dever de participar no sistema político para que este proteja os nossos direitos e liberdades. Em época de Natal faço aqui o meu exercício de “liberdade”. Questiono o meu posicionamento perante “Deus”, procurando um sentido, um caminho. Foge-me a “Pátria”, tão endividada e perdida nos trilhos da Europa e do mundo global. Dou enfase à “Família”, bastião de proximidade e segurança.

Há um ano denunciei aqui a intenção do “Espirito de Natal” de emigrar. Sinto-o distante, talvez mais desiludido, mais pragmático e mercantil. Valha-nos o Papa Francisco com o seu vigor ecuménico e a coragem de questionar e romper alguns dogmas do catolicismo, além do empenho em restaurar as virtudes necessárias à humanização das políticas e das sociedades. Refere no seu programa pastoral “a política tão denegrida, é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum”.

Feliz Natal!

 

PORQUE ISTO, AFINAL, ANDA TUDO LIGADO

Por Eduardo Louro

 

Porque isto anda tudo ligado, quando os pobres e a miséria não páram de aumentar e a caridadezinha volta a ser moda, não resisti a trazer aqui este texto do Luís Manuel Cunha publicado no Jornal de Barcelos e no Aventar:

 

"Em Santa Comba Dão pretendia-se lançar uma marca de vinhos chamada Memórias de Salazar. O nome não foi autorizado sem que se perceba muito bem porquê. O facto é que, a marca do tintol nunca veio tão a propósito, arrastando consigo uma infinidade de recordações e de reminiscências de tempos que se julgavam para sempre desaparecidos.
Lembro-me ainda muito bem. No mundo da minha infância e por esta altura em que “a estrela de Belém corre pelos céus à procura da manjedoura e das palhinhas”, “não havia conto de Natal, não havia lenda infantil, não havia fábula natalícia que não trouxesse consigo, sempre disponíveis, os pobrezinhos”. A tradução narrativa de um mundo a preto e branco mas bem real, um mundo frio e famélico, tristemente alumiado pela luz da candeia que, no meio do casebre, projectava uma palidez esfomeada de um tempo disperso, “algures entre o apito da fábrica e o chiar da charrua”. Era a “casa portuguesa” salazarenta, documentada nos livros da escola primária e plasmada na imagem de capa do lavrador caseiro desgraçadamente feliz, de sachola ao ombro, regressando a casa, escancarada pela mulher desgrenhadamente feia, rodeada de filhos ranhosos e sujos pendurados nas saias. Depois, a broaembrulhada num caldo de couves e o terço murmurado maquinalmente sob o olhar protector de uma imagem da virgem de Fátima, como agradecimento ao Senhor por tamanha dádiva. Ao Senhor e a Salazar. Era o tempo do “pão e vinho sobre a mesa” e da disponibilidade de abrir a porta a quem a ela batesse, para se “sentar à mesa com a gente”. Só que, à porta dos pobrezinhos, ninguém batia.
Era um mundo de diminutivos e de diminuídos” do catecismo do Estado Novo e da Igreja Católica que, na ficção piedosa da padralhada debochada e rubicunda, entendia que o sofrimento e a miséria eram condições sine qua non se lhes abriria, aos pobres, o reino dos céus. Por esta altura, a beatada em peso, o professor e o padre derretiam-se em homilias da necessidade de ajuda ao pobrezinho. Que vivia “tristemente sentado nos degraus da igreja” ou “pacatamente esfomeado às portas das casas”. Era uma obra de caridade ajudar os pobrezinhos, dizia-se. “Minha senhora, está ali um pobrezinho a pedir esmola”. “Maria, dá qualquer coisa ao pobrezinho”. E a Maria dava. E o pobrezinho lá ia, reverente e agradecido. “Que Deus Nosso Senhor o ajude. Seja pelas alminhas de quem lá tem”. Havia um ou outro pobrezinho com mais sorte, abrindo-se-lhe as portas onanistas dos seminários, por influência de alguma tia velha junto do senhor prior, que era o representante de Deus na terra. Outros acabavam a criados de servir, agradecendo reverentemente os restos que sobravam das mesas dos seus senhores e que, não raramente, repartiam com os cães. Muitos deles, analfabetos e embrutecidos pelo álcool, viviam no terror de incomodar a autoridade ou a caridade que lhes matava a fome. Era o esplendor do salazarismo, antes que a emigração da década de 60 espalhasse o analfabetismo escravo dos portugueses pelos bidonvilles da periferia das principais cidades francesas.
Alguns dos meus leitores mais jovens espantar-se-ão com este retrato de um país que lhes parecerá surrealista. Infelizmente, é bem real. E trazê-lo hoje aqui é recordar que a história, dizem, se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. E o que o Gaspar e o Passos nos dão hojenão passa de uma farsa. Uma farsa salazarista com a conivência de um presidente da República absolutamente inócuo e senil. Quando hoje se lê que mais de doze mil crianças vão para a escola com fome, não é mais que o retrato actual da miséria salazarista. Quando se sabe que há pessoas que vasculham caixotes de lixo à procura de restos de comida com que possam matar a fome, não é outra coisa senão o regresso dos pobrezinhos da minha infância. Que agora, envergonhados, interiorizam essa miséria e alimentam-se dela.

Escrevia Clara Ferreira Alves que “numa sociedade com graves desigualdades e herdeira de uma sociedade salazarista e colonial, de senhores e servos, de relações de potestade assentes sobre a escravidão e a ignorância, a subserviência interiorizou-se e ficou um traço de carácter”.
Pois é… Esta sociedade de eunucos tem feito da subserviência um traço do seu carácter. E, como cantava Zeca Afonso, os eunucos “não matam os tiranos, pedem mais”. Até um dia…"

COISAS INTRAGÁVEIS VIII

Por Eduardo Louro

 

Para o que lhes havia de dar! Uma marca Salazar… 

Não sei se isto é mau gosto, se é saloiice ou parvoíce. Não sei se isto é ignorância ou chico-espertismo.

Sei que deixou este país muito marcado, não precisa de deixar mais marcas.

Mas, se insistirem, aqui fica uma sugestão para o rótulo...

Não é lá muito sugestivo? Pois... a ideia também não!


 

50 ANOS

Por Eduardo Louro

 

Assinalar os 50 anos do que quer que seja – de idade ou de uma qualquer ocorrência marcante da nossa vida individual ou colectiva – é sempre motivo de envolvência emocional e de comprometimento. Com as pessoas, com os factos ou pura e simplesmente com a História…

Neste ano comemoramos 50 anos de muitos acontecimentos da nossa História contemporânea: 2011 é um ano de efemérides ao ritmo do redondo 50 ou não tivesse o destino querido fazer de 1961 um dos anos mais marcantes da ditadura de Salazar. Foi o verdadeiro annus horribilis do regime, o princípio do fim…

Acaba de se comemorar os 50 anos da Operação Dulcineia – o assalto ao Santa Maria, de Henrique Galvão, a mais romântica e espectacular acção de ataque ao regime (recomendo o filme de Francisco Manso, estreado em Setembro último e creio que ainda em exibição) – e já estamos hoje, 4 de Fevereiro, a assinalar os 50 anos do início da guerra colonial – provavelmente o mais marcante e decisivo acontecimento da nossa História a seguir aos descobrimentos.

Os movimentos anti-coloniais tinham germinado a partir da Conferencia de Bandung, em 1955 na Indonésia, de onde nasceria o movimento dos não alinhados, mas foi em Luanda, a 4 de Fevereiro de 1961, com o ataque de forças nacionalistas a prisões onde se encontravam detidos muitos dos seus militantes que, de facto, a guerra colonial começou. E, com ela, o irremediável aprofundamento do isolamento, interno e externo, da ditadura em Portugal.

Se a comemoração destes dois acontecimentos se encosta ao início do ano, as outras, deste excitante ano de 61, são empurradas lá para o fim: a 10 de Novembro, o mesmo Henrique Galvão desencadearia a operação Vagô – desvio (o segundo na história da aviação portuguesa) de um Super Constellation da TAP, que fazia o voo de Casablanca para Lisboa, obrigando-o a sobrevoar a capital, o Barreiro, Beja e Faro lançando milhares de panfletos -, a 4 de Dezembro dava-se uma espectacular fuga da prisão de Caxias, utilizando o carro blindado de Salazar, a 18 a invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana e, mesmo na passagem de ano, a tentativa de ataque ao quartel de Beja.

O 25 de Abril, esse, ainda teria que esperar mais 13 anos!

 

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